Adão e Eva, na guerra dos iguanas. Parte II
3 Capítulo III. Alertse
Notas iniciais
Enquanto Benjamim e suas empresas agitavam os mercados financeiros, dentro de um hotel que ficava a 200 metros do Alertse, Ênio e Madalena espionavam militares com um binóculo que atravessava paredes. Conseguiam visualizar reuniões, e escutá-los falar com telepatia.
O Alertse era na verdade, o recinto onde se reuniam a cúpula que comandava os exércitos nesse canto do mundo. Controlavam as empresas armamentistas, colhendo os frutos dessas atividades de guerra. A venda de armas tinha preços altíssimos, pois se havia algo que necessitava de metais, era a confecção dessa engenharia da morte. Com passar do tempo o Alertse tornou-se tão poderoso, que poder-se-ia dizer que governava o mundo, por cima de todos os governantes desse planeta.
E para delinear uma sabotagem ao Alertse, Fernando enviara Ênio e Madalena a espioná-los. Mas a paciência de Ênio era curta. Um dia elevou as ondas telepáticas para Fernando e pediu autorização para se vestir de general e entrar nessas reuniões como espião.
Fernando passou a mensagem para Olaf, o qual imediatamente estudou a lista de todos os iguanas importantes ligados ao Alertse. Encontrou um general doente, acamado num hospital. Era alto, forte como Ênio, e enviou sua mulher a fazer o trabalho para a confecção do disfarce.
China entrou no hospital vestindo um traje alinhado.
Pediu autorização para ver Juvenal, o general acamado, e foi acompanhada até o complexo de luxo por uma samaritana. Na entrada, dois soldados iguanas a examinaram, olharam na bolsa, revistaram seu corpo, passando-lhe as mãos, e deixaram-na ingressar ao apartamento. Afinal, Juvenal possuía 5 amantes nessa cidade. Uma a mais não fazia diferença.
Dentro desse dormitório, China hipnotizou a enfermeira, o doente, e puxou do sutiã uma pasta mole para molde. Colocou no rosto do militar. Um minuto para secar. Puxou o látex com cuidado, guardou no mesmo lugar, e os tirou da hipnose.
Quem fez a pele falsa foi uma equipe de engenheiros das naves de Fernando, com Ênio deitado numa cama, todo lambuzado, num disfarce especial. Devia ser transformado inteiramente. Colocaram recheios, implantaram lhe cabelos na genitália, embaixo dos sovacos, e o cobriram com pele falsa na totalidade. Ficou verde da cabeça aos pés. Terminaram fazendo o corte de cabelo ao estilo militar.
Na noite seguinte, Ênio entrou nessa cama. Fernando Júnior levitou-o através da janela do dormitório. Deitou, e dormiu. Acordou com os passos da enfermeira, cuja mulher levou um susto de sua repentina volta à vida. A seguir, Ênio esperou que os médicos o examinassem e dessem alta. Viu chegar nesse hospital uma esposa, quatro filhos, sua suposta mãe, todos surpresos com a melhoria inesperada.
E sorrindo, Ênio se deixou amar. Para não perceberem sua altura verdadeira, Ênio tinha que hipnotizar gente num raio de 50m, a cada passo. Em lugar de ver um iguana de 2,10m eles viam um homem de 1,75m.
Já em sua mansão maravilhosa, própria de gente milionária, seus filhos lhe contaram tudo que se passara desde o dia que fora internado, enquanto sua esposa lhe preparava caldinho de feijão, gafanhotos ao molho de mostarda com saladas com folhas e pétalas de flores, milho verde com ovos de codornas, e um bolo de fubá com goiabada. E para dar realidade a seu personagem, Ênio abriu a boca, e engoliu os insetos. Em seco. Riu com ele mesmo. Teria que encarar. Beijou sua esposa e lhe disse que era a coisa mais deliciosa que ele tinha comido. Devorou as pétalas de flores, tomou o caldinho que estava gostoso, comeu um pedaço de bolo, que estava realmente delicioso, e esperou o dia passar. Olhou televisão com os filhos, conheceu outros parentes, e teve alguns amigos que vieram perguntar se estava pronto para o batente.
Já na suíte, ao anoitecer, hipnotizou sua esposa, para ela sonhar com ele fazendo amor. Ele teve que dormir sonhando com Madalena. Droga! Teriam que ser amantes. Elevou as ondas telepáticas, e chamou-a para entrar no Alertse a pedir trabalho.
O general Juvenal, o iguana verdadeiro, foi sugado por uma luz direto para o espaço. Foi levado para cirurgia, onde lhe devolveram sua vida que estava por um fio. Quando ele acordou, levou um susto. Homens de pele branca, preta, cobre, cabelos vermelhos, pretos, amarelos, vestidos com uniforme prateado, e dois gigantes com uniforme branco da cabeça aos pés, o rodeavam fazia tempo. Atônito, lhes perguntou:
— De que mundo vocês vieram?
— Mundo de “L de ALPHA”. Somos seus inimigos e você é nosso prisioneiro. Vai ser transferido para um planeta aliado nosso, em cujo lugar encontrará a todos nossos prisioneiros de guerra.
— Com certeza vão me matar...
— E para quê? Se nosso costume fosse tirar a vida, para que ressuscitaríamos você? Um dia poderá voltar a sua vida de sempre. Vamos devolvê-lo à sua civilização, mas não agora.
Em seguida, ele dormiu profundamente. Quando acordou, Juvenal se encontrava numa ilha minúscula, casa de madeira de um quarto apenas, e por cima de um colchão gostoso, amarrado com pernas e braços. Havia com ele uma mulher maravilhosa, pele manchada como as cobras, que na verdade era um robô feminino. Ela beijou-o, acariciou com suavidade, e fez amor com ele durante muitas horas, sem dar trégua ao namoro.
Muito longe de Juvenal, Ênio entrou no Alertse, queixo levemente levantado, sem cumprimentar a ninguém, e deu um pontapé na porta de seu gabinete para entrar. Sentou na escrivaninha e chamou Madalena, sua nova secretária, para que lesse sua agenda. Ela disse-lhe: — reuniões, almoço, reuniões, e jantar com o presidente. Meia hora depois, Ênio entrava numa sala, onde se discutia o que fazer com um país miserável, que se negava a pagar a dívida de 500 mísseis, 5 aviões, alegando falta de grana. O governante desse país renunciara ao cargo, e um homem desconhecido assumira o comando prometendo mudanças. A primeira delas era reflorestar e vender madeira para 5 empresas estrangeiras, fabricantes da metalponita. Um Banco particular lhes enviara pagamento adiantado, mudas, biólogos, veterinários, médicos, para apoiar os trabalhadores. As minas de diamantes estavam sendo fechadas e as minas de sílex também, por falta de operários, pois a remuneração nas plantações era três vezes maior. Todo o povo estava se deslocando para capinar na roça.
Um general falou que possuíam dez agentes de espionagem nesse país, prontos para matar. Também se podiam enviar verbas para suborno. Portanto não haveria resistência, pois, esse novo governo cairia em menos de 50 dias.
Ênio perguntou:
— Para que vamos perder tempo num país miserável? A nova fatia do mercado é a metalponita. A riqueza do futuro. Não seria mais sábio comprar a fórmula do produto? Podia-se fazer um fuzil na metade do preço.
Todos o olharam com desconfiança.
Madalena usou a telepatia e soprou que havia ido longe demais, e que culpara os médicos. Imediatamente, ele fez drama:
— Desculpem... Depois dessa cirurgia, estou com as ideias travadas... Desculpem... Vou esquecer minha proposta... O que vocês vão sugerir como solução?
— Guerra, general! Luta armada! Uma guerrilha contra esse novo governo vai dar lucro com a venda das armas... Os donos das minas vão pagar o que nós quisermos, para acabar com esse novo governo. Além disso, temos que queimar as plantações. Está de acordo?
— Claro, mas que bobagens... E quem vai ser nosso exército de ataque?
— Crianças! Esqueceu-se de tudo? Temos 80.000 meninos soldados que matam até suas mães, se nós mandarmos...
Ênio caiu duro no chão, de um enfarto de verdade. Madalena deu um berro telepático com a palavra: – Socorro! e Jesus com enfermeiros apareceram correndo, numa ambulância da empresa, para levá-lo longe dali. No fim do dia, ele estava em casa, aos cuidados de sua nova família.
Fernando, imediatamente, chamou Adão e com telepatia falou para ele:
— Soubemos de algo terrível! Meninos soldados! E está cedo para dar a cara. Está tarde para salvar esses garotos. Tens uma ideia?
Adão respondeu-lhe:
— Sabotagem imediata aos depósitos de armas. Poso enviar Amon-rá a cuidar disso. Onde?
— Pergunta para Ênio...
Adão teve que ir ao hotel onde Madalena chorava, pois deixara as lágrimas para depois. Madalena mostrou no mapa para Adão o país que seria atacado. A seguir, deu o endereço das empresas de Alubiavam que venderiam as armas, para os dois lados. Para os rebeldes, e para o novo governo.
Amon-rá entrou durante a noite nos depósitos das fábricas armamentistas vestido de preto, como um espião. Paulo, Peter e Jesus o seguiram como três fantasmas. Jesus só ia junto para dar pancada se fosse necessário. Riam entre eles, para matar o susto. O complexo era enorme, e estava cheio de gente. Uma vez dentro, Paulo examinou uma metralhadora moderna por dentro e por fora. Uma alavanca acendia uma chispa, e as balas saíam como chuva depois da miniexplosão. Bastava esse gatilho ficar bamba. Fácil. Em seguida, Paulo desmontou um míssil para examinar tudo que havia no seu interior. Era um avião em miniatura, com motor, combustível, sistema de voo, e uma ogiva minúscula com explosivos suficientes para exterminar 300 pessoas. Desintegrando a ogiva, ele não teria nenhuma serventia. Mostrou para Peter, e ele concentrou a mente, desintegrando a matéria interna. Tudo ficou inútil, convertido em lataria oca por dentro. Como as ogivas possuíam externamente uma camada grossa de argila, para driblar radares, essa sabotagem nunca seria descoberta E finalmente saíram como gatos caminhando sobre telhados, escorregando, sem parar de rir, pois parecia brincadeira de criança.
No dia seguinte, Amon-rá viajou para o outro lado do mundo com seus três filhos, Jorge, Dennis e Rubinho, para lutar nessa guerra, pois entrariam a engrossar as filas do exército invasor.
E esse foi o primeiro enfrentamento cara a cara contra o inimigo. Cinco mil cobras, e oito mil guerreiros, acompanharam Amon-rá para se misturar entre o povo dessa cidade de misérias.
Amon-rá e seus três filhos, vestidos de soldados iguanas, se misturaram ao exército de meninos armados. Levaram uma surpresa. As criancinhas eram assassinos terríveis, pois eram totalmente carentes de sentimentos humanos. Todos eles já matavam pessoas com requintes de crueldades. E lhes estava sendo instruído para cercar as plantações, queimar tudo, e matar os caipiras da roça, incluindo bebês de berços. E essa milícia miúda ia matar com facões, e os fuzis. Os lança-chamas estavam em mãos dos soldados adultos. Dos instrutores. Amon-rá recebeu sua arma, seus filhos também, e ao anoitecer, desfilaram atrás de caminhões, até chegar às fazendas de plantio e aos casebres com mais de dez mil caipiras. Todos correram em círculo, se colocaram em seus lugares, prontos para invadir.
E a primeira luta começou.
Assim que os incêndios começaram, os guerreiros escondidos entre o mato os apagaram desintegrando o fogo. Quando as crianças-soldados dispararam seus fuzis, não saíram balas nenhumas. Os gatilhos dessas armas não funcionavam. Assim que os rapazes empunharam os facões, eles desapareceram das mãos. Também sumiram como mágica suas roupas, enquanto os caminhões para fuga pifaram inúteis. Os soldados adultos ficaram indignados, gritando para um grupo de guris nus, que começou a se desmandar pelo mato aos berros.
Como sobraram apenas os invasores adultos, com armas inúteis, eles levantaram as mãos se rendendo. Mas naquele fim de mundo, não existia a palavra perdão. Eles receberam as patadas, dos próprios boias-frias, indignados, enquanto os guerreiros alienígenas assistiam dos esconderijos, aos massacres. As pás, as enxadas, eram agora armas mortais contra cabeças de soldados paralisados de medo.
Amon-rá e seus filhos sentiram helicópteros no ar e se prepararam para desintegrar as armas, pois eram soldados do governo chegando tarde. Assim que começaram a fazer prisioneiros, as armas desapareceram, os helicópteros com mísseis também, e Amon-rá só poupou os helicópteros de 40 repórteres que chegaram de súbito. Havia câmeras de televisão, mulheres lindas falando ao vivo, e facho de luzes em toda parte.
Os soldados do governo tiveram que recuar, e os caipiras ficaram famosos, e aplaudidos no mundo todo como heróis. A mídia enaltecia esses homens que defenderam seu emprego, e um cultivo de milhares de hectares. Afinal, defesa pessoal com morte não era crime nesse planeta.
No outro lado do mundo, dentro de Alertse, essa desforra explodiu como uma bomba.
Como Ênio estava de repouso, Madalena entrou na sala de reuniões do Alertse sozinha, distribuindo as pautas de discussão desse dia. A seguir, se retirou, foi à sua mesa a trabalhar no computador, e escutou tudo telepaticamente e às vezes ao vivo, pois os generais estavam berrando indignados. Era um caos. A imprensa só falava desse incidente. E todos queriam descobrir aos culpados pela invasão.
O mundo exigia uma explicação.
Um general do Alertse falou que ele ia vazar. Possuía uma conta bancária numa ilha paradisíaca, e voaria nesse mesmo dia. O resto se aprontou para improvisar coisa similar. Desaparecer era a coisa mais inteligente a se fazer.
Nos dias seguintes uma nova safra de generais entrou no do Alertse e desta vez com Ênio de regresso no seu cargo. Foi abraçado, parabenizado pela rápida recuperação e desta vez a conversa entre os generais era sobre o desaparecimento de cinco naves espaciais com 3.000 robôs a bordo, e uma tripulação de 30 pilotos. Os radares os haviam visto desaparecer na escuridão batendo contra uma luz. Parecia que um cometa se abatera contra eles.
E todos esses acontecimentos custaram riquezas astronômicas do Alertse Fortunas haviam-se esfumaçado no espaço. A pobreza estava chegando. Encontrar um novo jazigo que os enriquecesse era agora imprescindível, pois o Congresso Estadual ia lhes cobrar o pagamento das dívidas. Estavam quebrados, mas o mundo não podia saber disso.
Os generais do Alertse se perguntavam entre si: — como manter a farsa? Como se manter no poder? Revistaram mapas, e descobriram um lugar miserável, com um manto petrolífero intacto. Nunca explorado. Podiam enviar uma frota de 40 aviões bombardeiros, botarem a culpa do atentado em outro, e depois entrar nesse país como um aliado a defender essas vítimas e a fazer alianças econômicas. Uma vez no poder, perfuravam, vendiam o petróleo, e se recuperariam dos débitos, pois as contas no banco triplicariam. O preço do barril na atualidade estava mais caro do que nunca. Havia que se arriscar. Só faltava a assinatura do Presidente para colocar tudo em prática. E na atual conjuntura, ele assinaria qualquer coisa.
Ênio perguntou quem é que ia pilotar os aviões invasores.
Todos riram em coro, pois o general depois dessas idas ao hospital estava sempre fora de órbita. E escutou como num sonho absurdo. Surreal.
— Homens bombas, generais! Não deixam rastos! Queimam, e ninguém sabe de onde vieram...
Ênio desta vez não desmaiou, só ficou mudo de espanto. Jesus havia realizado um bom trabalho. Envolvera seu coração com energia fluídica, para nunca mais acelerar as batidas, nem quando descobrissem sua identidade e o condenassem à morte. Algo que podia suceder a qualquer momento.
Fernando e Fernando Júnior, junto às sábias cobras, olhavam-se entre si, pois esses relatos de Ênio e Madalena eram coisas além da imaginação. A seguir, espionaram os mapas para bisbilhotar onde estavam os redutos dos homens-bombas desse planeta insano. Eram países com pessoas tão pobres, que os voluntários se imolavam a troco de uma pequena fortuna, que deixavam de herança para a família. Dinheiro suficiente para garantir saúde de filhos, esposas, pais velhos, pois a maioria era homens casados que viviam em casebres imundos, no desespero de fome e da pobreza.
Mas o que é que Fernando e os guerreiros podiam fazer desta vez?
As cobras falavam que sabotar avião ia ser como dar o rosto. Os iguanas teriam certeza de que havia invasores infiltrados. Hipnotizar os homens-bombas para lhes evitar a morte dava no mesmo. Iriam para a cadeia, onde os matariam da mesma maneira, ou eles mesmos se suicidariam. Enviar um dossiê para a imprensa ia desmascarar Madalena e Ênio. Só havia uma coisa a se fazer: — proteger as vítimas. Desviar os alvos para evitar a morte do povo. Bastavam distribuir, no país todo, uns 800 Destruidores de asteroides para colocar essa gente a salvo.
Foi à vez de Adão e Peter viajar pelo mundo com as esposas.
Sentaram num avião na sala VIP, onde lhes foram oferecidos caracóis, champanhe, petiscos, comidas delicadas para um paladar fino. Assistiram a filmes, dormiram deitados em camas, E, finalmente, desceram numa cidade desértica, em meio do nada. Aliás, o avião só desceu por causa deles. Ele continuou sua viagem, para outros países, deixando-os num lugar que só tinha gente feia, pobre, sobrevivendo da esmola internacional. Pegaram um táxi, que os levou até um povoado que receberia os ataques principais.
À medida que serpenteavam morros inóspitos, caminhos de pó, com buracos de guerras passadas, onde as areias não tinham fim, Eva se lembrou dos desertos da Terra.
Quando viram camelos passeando elegantemente, pararam o carro, desceram, e Eva correu com Adão, seguidos de Peter e Miriam, para subir neles e corrrer pelas areias, que nem moleques. Era como voltar ao passado. Os camelos os carregaram para o vilarejo, enquanto Eva e Miriam riam como crianças em dia de passeios.
Pouco a pouco, as pessoas os rodearam. Afinal, os quatro estavam vestidos de forma elegante, Eva com um colar de diamantes no pescoço e Miriam cheia de esmeraldas. Alguns esticavam os braços, balbuciando palavras sem sentido. Imediatamente, Adão deu um berro telepático a Fernando para deixar cair comida. Banquetes. Frutas, verduras e remédios.
Quando o povo viu as caixas caindo do céu, se dispersou alucinado. Pouco a pouco, abriam vidros com alguma coisa parecida com gelatina. Outras tinham frutas em conservas. Depois abriram caixas com tortas cortadas sobre bandejas, prontas para comer. Também havia garrafas de sucos de frutas deliciosos, e outras misturas desconhecidas, além de latas e mais latas de pudim. Essa comida em nada se parecia às sacolas mandadas pelo “Senado internacional”, um organismo que ajudava os mais pobres, e que lhes enviavam feijão, mandiocas, açúcar, trigo, batatas e sal.
Enquanto a gente se alimentava, os quatro começaram a caminhar em redor do arraial. Descobriram um rio fininho, pois o rio verdadeiro era trancado pelo país vizinho, para suas plantações, através de diques gigantes.
Enquanto Peter e Miriam saíam numa longa viagem em camelos, para espionar como roubar água dos países vizinhos, Eva socavou uma caverna na montanha, para as pessoas se esconderem dentro dela. Subiu para os morros secos, concentrou o olhar, e foi abrindo as entranhas da terra. Finalmente, desintegrou camadas, para formar uma escada encravada na rocha. Ao pôr do Sol, Adão hipnotizou todo mundo para se esconder nas montanhas e levar seus pertences, esquálidas roupas, panelas, esteiras, pois a maioria dormia no chão. Depois, levitou os cabritos, as galinhas, e os fez dormir como anjos nas fendas montanhosas. Nas cidades vizinhas, outros desintegradores fizeram coisas similares.
E os ataques aconteceram! E a mídia divulgou tudo, sem poupar detalhes macabros.
Repórteres de guerra era uma profissão lucrativa no mundo dos iguanas. Uma foto de uma tragédia era vendida muito bem. Enquanto mais fúnebre e aterrorizante, melhor. O mundo gostava de ver o sofrimento alheio, e a mídia se alimentava disso. Lucrava com isso.
As manchetes diziam que fanáticos religiosos deixaram cair bombas por cima da população indefesa, destruindo cidades, deixando um rastro de escombros e desolação, num pequeno país do deserto. A população sobrevivera, pois havia se refugiado em cavernas. Mas essas pessoas haviam perdido suas casas, e só tinham as grutas para continuar a viver. A mídia afirmava que um país inteiro estava condenado a vida pré-histórica. Mas a mídia também falava que, milagrosamente, as bombas haviam destruído diques de reservas de água doce, além de poços enormes, de donde estava brotando água, e inundando os povoados atormentados pela seca.
E os militares do Alertse desta vez tiveram sucesso. O governo desse país fez um trato com eles. Podiam explorar o petróleo, em troca de um contingente militar que os protegeria dos fanáticos religiosos.
Deu início a chegada de robôs perfuradores, que adentraram no deserto em busca do líquido negro. Também o Alertse construiu bairros com casas para engenheiros petroleiros, gerentes, e pessoas de confiança para supervisionar tudo.
Fale com o autor