Acostumada

1 Acostumada


Ele se foi de novo.Ao longe eu só consigo ver as vestes vermelhas se afastando mais, indo atrás dela. Quando ele sumiu no horizonte, me abaixei no chão, apertando meus joelhos contra meu corpo.Me apertei mais, na tentativa de me manter inteira, na tentativa de impedir meu peito de explodir em pedaços.


Silencio. Ninguém esta falando comigo. Sango, Miroku, Shippou ou até a Kirara, estão apenas parados, olhando a estrada vazia a nossa frente.


Calor. Alguém acendeu a fogueira. Não sei bem quem foi, mas foi bom, o calor foi reconfortante, como se me lembrasse que alguém ainda se importava comigo.


Passos. Falas em um tom mais alto. Os passos pararam depois de alguns minutos, mas meus olhos presos na estrada me impediam de prestar atenção. Seja quem for, as pessoas elas podem se virar sozinhas por hoje, eu não tenho forças para ajudá-las.


Molhado. Passei a mão em meu rosto, ele estava molhado. Eu estava chorando? Não... Meus olhos não haviam vacilado, arrastei minha mão ate a minha testa.Ela também estava molhada, assim como o meu cabelo. Estava chovendo.


Vozes. Três vozes conhecidas me chamavam de modo frenético. Demorei um tempo para identificar os donos. Sango, Miroku e Shippou. Mas eu não decifrei o que eles gritavam. Eu me concentrei, tentando entender, mas meus olhos não me obedeciam, eles prendiam minha atenção na estrada, esperando que as vestes vermelhas voltassem. Me apertei mais, e sem querer consegui decifrar as vozes: “Kagome! Saia da chuva!” Esta era a Sango. “Acho melhor deixá-la lá... Ela precisa pensar...” Miroku... “o Inuyasha não tem jeito...” Shippou... O nome conduziu uma corrente elétrica ao meu corpo.


Salgado. Algo salgado tocou meus lábios, sim... Agora eu estava chorando, as lagrimas se misturavam as gotas da chuva.


Abandonada. Ele foi atrás dela e me deixou aqui novamente... E eu... Idiota como sempre, fico assim, esse zumbi sem vida.


Acostumada. Não importa... eu já acostumei... e eu prefiro vê-lo indo embora do que não vê-lo... essa dor que sinto agora, essa dor que esta me corroendo lentamente por dentro é o preço a pagar por ficar perto dele... Se esse é o preço eu posso aguentar...


Reconfortada. O sol nasceu, eu não consegui tirar os olhos do caminho vazio, a noite foi escura por causa do tempo de chuva, minhas roupas ainda molhadas, coladas desconfortavelmente ao corpo. Meus olhos não vacilaram mais, meu rosto estava sem emoções. Uma manchinha vermelha apareceu no horizonte, andando calmamente. Me incomodou, ele ia correndo para vê-la e voltava andando para mim. O silencio era novamente vencedor. Ele se sentou ao meu lado e passou os braços em meus ombros. Me acomodei à ele. A voz aveludada estremeceu meu corpo... “Desculpa...”... Me apertei mais a ele... É... Eu já estava acostumada...

Notas finais
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