Kali foi embora pouco depois das onze, num carro que eu mesma chamei, com o queixo erguido e o sorriso de quem acabara de passar numa prova que jurava ser incapaz de fazer.

Eva beijou meu rosto e sussurrou que eu devia ir embora antes que alguém cometesse a indiscrição de reparar em como eu olhava para o meu "acordo de negócios".

Saímos da propriedade dos Cavendish à meia-noite.

Harry dirigia. Assim que o SUV pegou a estrada escura, Lucian apertou um botão no console e o vidro da divisória subiu sem fazer barulho.

— Privacidade — ele comentou, sem olhar para mim. — Para o caso de Pond ter alguém seguindo.

— O Raul está seguindo o Pond.

— Então para o caso de Harry ter ouvidos.

Soltei uma risada que não convenceu nem a mim. Meu coração batia como se eu tivesse subido todas as escadas da mansão correndo.

Passaram-se dez minutos em silêncio. Vinte. Os postes da estrada riscavam o interior do carro em listras de luz e sombra, e a cada listra eu via um pedaço dele: o maxilar, a gravata borboleta já desfeita, a mão grande apoiada sobre o joelho, a poucos centímetros da minha perna.

Eu ainda sentia aquela mão nas minhas costas, girando comigo no meio do salão. Ainda ouvia a pergunta.

Você quer que eu tente?

— Você me fez uma pergunta — eu disse.

Ele virou o rosto devagar.

— Fiz várias.

— Na pista de dança. Se eu queria que você tentasse.

Os olhos verdes desceram para a minha boca e subiram de volta. A respiração dele mudou. Foi só isso. Um centímetro a menos de ar no peito.

— E você não respondeu.

— Quero.

Não houve mais nada a dizer.

Lucian me puxou pelo queixo com uma mão e pela nuca com a outra, e a boca dele encontrou a minha com uma fome que não tinha nada a ver com estratégia.

Não foi como na primeira noite, lento, dominador, calculado.

Foi um beijo de quem tinha esperado demais. A língua dele entrou na minha boca, quente, com gosto de uísque e de dias inteiros de provocação, e eu gemi contra ele sem nenhum pudor.

Agarrei a lapela do terno, depois os ombros, depois o cabelo curto na nuca dele. Mordi o lábio inferior dele, com força suficiente para arrancar um som rouco do fundo do peito.

— Alexandra...

— Cala a boca.

Mordi de novo. Ele riu contra a minha boca, um riso baixo e perigoso, e em um movimento só me puxou para o seu colo.

O vestido de cetim subiu até as minhas coxas. Montei nele com os joelhos afundando no couro do banco, e o tecido azul se espalhou ao nosso redor como água. As mãos dele envolveram minha cintura, depois desceram até o quadril e me puxaram para baixo, firme, exato.

Eu senti.

Duro. Quente. Pressionando contra mim através de duas camadas de tecido, sem nenhuma possibilidade de eu fingir que não tinha percebido. Meu corpo inteiro reagiu.

Um calor líquido desceu pela minha barriga e eu me movi, uma vez, devagar, esfregando meu corpo no dele.

Lucian jogou a cabeça para trás no encosto e fechou os olhos.

— Porra.

— Dá para sentir sua ereção — murmurei, sem fôlego, minha boca na dele. — Desde a pista de dança, não é?

— Desde que você desceu as escadas do seu prédio. — Ele abriu os olhos, escuros, quase negros. — Meu pau está duro desde que vi você nesse vestido, Alexandra. Achei que ia ficar assim a noite inteira diante do seu irmão.

Sorri e voltei a beijá-lo, desta vez devagar, mordiscando o canto da boca, o queixo, a linha do cavanhaque. Rebolei de novo. A mão dele afundou na minha coxa por baixo do cetim e subiu, lenta, até a borda da renda, onde os dedos pararam. Ficaram ali, sobre o tecido, quentes, pesando como uma pergunta.

Os dedos deslizaram. Pressionaram por cima da renda, bem onde eu mais queria, e eu me agarrei aos ombros dele com um som que não reconheci como meu.

— Você está encharcada — ele murmurou contra a minha boca, a voz mais rouca do que eu já tinha ouvido. — Há quanto tempo, Alexandra?

— Desde a primeira noite — confessei, e odiei e amei a verdade na mesma respiração.

Ele afastou a renda para o lado. O primeiro toque direto da pele dele na minha me arrancou um gemido tão alto que enterrei a boca no ombro dele para abafar. Dois dedos deslizaram por mim, devagar, espalhando toda aquela umidade, e o polegar encontrou meu clitóris e começou a desenhar círculos lentos, precisos, de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

— Olha para mim.

Abri os olhos. Os dele estavam fixos nos meus, escuros, vorazes, sem pressa nenhuma.

— Quero ver exatamente o que eu faço com você.

Rebolei contra a mão dele sem vergonha alguma, o cetim amontoado entre nós, o couro do banco rangendo sob meus joelhos. Ele curvou os dedos dentro de mim e eu perdi o ar. Beijou meu pescoço, a gargantilha de safiras, o osso da clavícula. Mordeu. Chupou a pele com força suficiente para deixar marca, e a dor misturada ao prazer me fez arquear as costas e cravar as unhas no tecido do terno.

— Lucian... — meu quadril se movia sozinho, atrás de mais. — Não para. Por favor, não para.

— Não vou parar. — A boca dele roçou minha orelha. — Goza para mim, Alexandra. Aqui. Agora. No meu colo, com o seu vestido caro e o meu motorista a dois metros.

Aquela frase me desfez. Ele acelerou o polegar, no ritmo exato, na pressão exata, e o prazer subiu como uma maré, apertado, quente, até quebrar. Gozei com o rosto escondido no pescoço dele, um gemido longo e abafado contra a pele, o corpo inteiro tremendo, os dedos enrolados no cabelo curto da nuca dele enquanto ele me segurava e continuava, devagar, prolongando cada onda, até eu ficar mole e arfante sobre o seu peito.

Ele não tirou a mão de imediato. Ficou ali, quente, quase carinhoso, enquanto minha respiração demorava a voltar.

Mas eu não tinha terminado. Gozar só tinha aberto uma fome maior. Desci a mão trêmula pelo peito dele, pela barriga, até a fivela do cinto. Sob o tecido, o pau dele estava duro como pedra.

— Agora você.

Ele tirou a mão de dentro do meu vestido e fechou os dedos úmidos sobre os meus, sobre a fivela, me impedindo.

— Não.

— Lucian...

— Hoje é você — a voz dele estava quase quebrada, a mandíbula travada como a de quem segura um peso grande demais.

A outra mão dele subiu pelas minhas costas, encontrou o zíper do vestido e parou ali.

Parou.

— Lucian.

— Eu sei.

— Não pare.

Ele encostou a testa no meu ombro, respirando como quem tinha corrido uma maratona. Eu sentia o coração dele batendo contra o meu peito. Sentia o pau dele pulsando debaixo de mim. Sentia, contra qualquer lógica, que ele não ia continuar.

O carro desacelerou. A luz da rua do meu prédio entrou pelos vidros fumê.

Harry baixou o vidro da divisória uns três dedos e disse, com a neutralidade de um homem que passou a vida não vendo nada:

— Chegamos, senhor.

Fiquei alguns segundos onde estava, no colo dele, com a boca inchada, o batom borrado e o vestido amassado em volta da cintura. Depois desci para o banco, devagar, e arrumei o cetim como pude. Minhas mãos tremiam.

Lucian passou o polegar pelo lábio inferior, onde eu o tinha mordido. Ainda respirava fundo.

— Sobe comigo — eu disse.

Ele fechou os olhos.

— Não posso.

As palavras caíram no carro como um balde de água gelada.

— Como assim, não pode?

— Alexandra...

— Você estava com a mão... — Parei. Respirei. — Você estava aqui, agora, há dois minutos. Você disse que está duro desde que me viu. Eu senti. E agora você não pode?

— Se eu subir, não vou querer descer.

— Esse é exatamente o ponto.

— Não é. — Ele abriu os olhos e me encarou, e havia uma coisa difícil de ler neles, pior que desejo. — Eu preciso resolver algumas coisas antes. Você merece alguém inteiro quando isso acontecer, não alguém no meio de uma bagunça. E hoje eu não estou inteiro.

Uma bagunça. Eu conhecia a palavra. Passei o dedo pelo canto da boca para limpar o batom e meu rosto ficou quente de um jeito que não tinha nada a ver com desejo.

— Entendi.

— Alexandra, não é...

— Entendi, Lucian. Boa noite.

Abri a porta antes que Harry pudesse descer. O ar frio bateu no meu rosto como um tapa. Atravessei a calçada com as pernas ainda frouxas e o queixo erguido, porque era a única coisa que eu sabia fazer, e subi as escadas de mármore sem olhar para trás.

Só quando as portas de vidro se fecharam eu ouvi o motor arrancar.

Tomei banho por quarenta minutos.

A água quente levou o perfume dele, o gosto dele, a maquiagem, mas não levou o resto. Parada diante do espelho do banheiro, enrolada numa toalha, olhei para a mulher no reflexo: lábios inchados, cabelo úmido, o início de uma marca vermelha na base do pescoço, logo abaixo de onde a gargantilha tinha ficado.

Ele tinha me marcado. E depois me deixado na calçada.

Primeiro veio a raiva, quente e afiada. Como ele ousava, como se atrevia a me beijar daquele jeito, a me tocar, a me fazer sentir aquilo, para depois recuar com uma frase digna de reunião de diretoria? Eu preciso resolver algumas coisas antes.

Depois veio a humilhação, mais lenta.

E por último, quando a raiva já tinha esfriado, veio a coisa que eu estava evitando desde que o carro parou. A coisa que tinha nome, sobrenome e um vestido verde-esmeralda.

Kali.

Sentei na beira da cama com a toalha ainda no corpo e o nome ecoando na cabeça. Kali, que tinha atravessado o salão dos Cavendish de queixo erguido por causa de uma frase minha. Kali, que me chamava de "Lady Alexandra" com ironia afetuosa. Kali, que tinha me olhado sobre a mesa e dito, rindo, nada de me abandonar para ficar de namorico com ele.

Kali, de quem eu era amiga. Ou estava aprendendo a ser.

Lucian nunca disse com todas as letras que o coração dele era dela. Mas falava de Kali com um cuidado que não usava com mais ninguém. Tinha pedido ajuda por ela. Tinha entrado num salão cheio de gente que o desprezava por ela. E eu tinha passado a noite no colo dele, no banco traseiro de um carro, a dois metros do motorista, desejando que ele ficasse comigo.

A vergonha subiu pela garganta.

Eu não era esse tipo de mulher. Nunca tinha sido a outra, nem a distração, nem o desvio de rota. Fui criada para saber exatamente quais linhas não se cruzam, e naquela noite tinha cruzado uma delas com o vestido enrolado na cintura.

O pior não era a culpa. O pior era que, debaixo da vergonha, debaixo da raiva, ainda havia o calor da boca dele na minha, o peso da mão dele na minha coxa, o som rouco que ele fez quando mordi seu lábio. E eu não conseguia me arrepender.

O celular vibrou sobre o criado-mudo.

Lucian: Chegou bem?

Fiquei olhando para a tela por tempo demais. Digitei Sim. e apaguei. Digitei Você é um covarde. e apaguei. Digitei Desculpa e apaguei tão rápido que meu polegar doeu.

Alexandra: Cheguei.

Os três pontinhos apareceram, sumiram, voltaram.

Lucian: Boa noite.

Larguei o celular virado para baixo, apaguei a luz e deitei olhando para o teto, com a marca no pescoço latejando como um segredo que eu não tinha escolhido guardar.

Há três semanas, eu tinha apenas um problema.

Agora tinha dois. E o segundo era muito, muito mais perigoso que o primeiro.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.