Acordes Perdidos
24 Scarless
Notas iniciais
Foi num dia de outono, à noite. Não tenho detalhes sobre onde começa o sonho e para qual direção termina, pois sou desprovida da capacidade de separar enfaticamente o que é verdade do que não é. Ser irredutível perante a fantasia é o maior dos desafios. Se seguir em linha reta é ter uma conduta inabalável, eu tropeço em ziguezagues. Meu erro? Culpo uma natureza anterior às minhas escolhas. Mas não seja por isso que eu considere minha vida um erro. Naquela pequena casa rosa e, no dia, festiva, eu adentrei.
Cheiro de cevada, flores, tinta. Estava tudo alegórico e colorido. E o jovem de cabelos e pele mal tratados com um sugestivo propósito estava ali com um relógio novo. Engraçado, ele sempre andava com o relógio. Para saber as horas e ter uma maneira de se perder? Não, isso combina mais comigo. Projeto demais minha alucinação nas pessoas, e desejo que sejam tão ensandecidas quanto eu as suponho.
A forma como aquele menino era silencioso e ao mesmo tempo extrovertido me deixava faminta e ansiosa. Até o tique-taque mecânico de seu relógio não era como qualquer um. Ele me chamou e ficamos ali sentados, conversando sobre inutilidades encostadas em seus respectivos degraus, envolvidos pelos copos descartáveis deixados por aí. O relógio estava machucando seu pulso e então ele tirou por um instante, me dando brecha para invadir uma nova parte de seu corpo.
Em seu pulso, na forma de incuráveis cortes esbranquiçados marcados em sua pele, estava escrito: “Scarless”. “Sem cicatriz”, escrito a base de cicatrizes. A ironia é uma brincadeira? Ou uma pista? Não estou em busca de respostas, mas uma simples pegunta sem interrogação me cutucou naquela hora.
Tenho pensado diariamente sobre a dor que repudiamos. Devíamos repudiá-la? A dor que nos faz amadurecer, devemos esquecê-la? Aceitar a dor. Quem sabe morta eu aceite de bom grado o pesar que todos me infligiram. Espasmos de cólica e desamor. Queria poder abraçar essa ferida como abraço as pessoas. Não as dessa festa, as quais encosto de maneira cerimoniosa. Como abraço uma pedra, talvez, sem medo de receber um não. É egoísmo querer proteger a todos ferindo somente à si. Ao nos machucarmos, machucamos outrem. É nesse sofrimento, que compartilhamos eu e você, mesmo que não ao mesmo tempo, que nos celebra enquanto seres nada mais nada menos que vivos.
Qual seria a solução para esse impasse então? Sobrevivência? Não, nunca tomei isso como opção. A não ser que o vento dissesse que sim. O vento que gira o tempo. O vento que não cura ferida alguma enquanto sopramos. E não deve curar. As cicatrizes que não saram não contam mentiras.
Nada de pontos ou costuras. Nada é mais feio do que querer esconder um rasgo em sua alma com uma linha curva traçando outro sorriso burlesco. A verdade deve ficar sobreposta, só um pouco tímida. Mais ironias que indicam o que eu devo fazer: Me guiar por essa ferida branca no tecido seco e frágil, cujas veias estão mais sobressaltadas, aonde há uma sútil abertura que permite sentir o cheiro do sangue. Nunca achei um cheiro que fosse tão igual a vida quanto a morte.
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