Acordes Perdidos
14 Estante dos livros abandonados
Notas iniciais
Começa com uma grande explosão, acompanhada de uma invejável sequência de perseguição que injeta muitos mistérios na trama posteriormente apresentada, levando o leitor ao delírio. Os personagens são apresentados a conflitos os quais uma saída parece completamente fora da esfera de poder de todos ao redor. Existe um traidor entre eles. Ocorre um laço romântico entre alguns, mas logo vem a guerra, as máquinas, as espadas, cimitarras. No papel, será a história mais fascinante, pioneira em sua proposta, inovadora em sua estrutura, apaixonante por seu carisma indissociável a cada palavra. Mas nem isso.
Que reis eu poria em batalha, que fadas eu evocaria, com que azares amaldiçoaria minhas proles apenas porque as criei para subverterem a pior das minhas maquinações. Lhes conferi em sua concepção o melhor de mim. Mas o melhor deles é algo que busquei toda a vida. Nesse rodeio de livros incontáveis, mais antigos que o tempo, mais extenso que a vida das pessoas, mais contos do que pessoas que já viveram. Me precinto antes de tudo como um temor de que ninguém me lê. E portanto, como haverei de existir. Seria um livro órfão, adotado pelas estantes, desejado pelas traças.
Onde arranjo família, ouvidos que sejam lar para as histórias de sabedoria e de mistério, de virtude e de erro. Quem sequer saberá apontar os ligeiros erros de continuidade ou os muitos de construção argumentativa. Nem o incenso do ambiente me abre. Estou velado, condenado a recontar a mesma narração mil vezes para ninguém. Continuo vivo na esperança de quem sabe os vermes que descolem minha pele com sua saliva se interessarem pela fantasia que inventei. Sendo assim, até um livro deixado para lá eu poderia ser, enquanto hoje não fui sequer publicado.
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