Acordes Perdidos
12 Bruxas de Salém, olhos de âmbar
Notas iniciais
Seus olhos são esmeralda. Esmeralda como a joia que eu cobiço para prender em meu dedo, e de lá nunca mais retirar. Desejava, tanto quanto esse brilho verde hipnotizante, o seu coração para prender no meu e de lá nunca mais retirar. Sua ausência me cobriu como um manto de seda lilás que fechou meu corpo para os ventos do leste. O que sobrara para minha pele tatear fora apenas o fogo ascendido na fogueira. Fogo que anseia me devorar, devorar meus pecados, devorar meu manto que me protege e me maltrata.
As labaredas vão respingando, incapazes de esperar enquanto subo os degraus do altar para dormir sobre seu leito flamejante eternamente, na esperança de já me capturarem. Afinal, quando foi que cheguei aqui? Acho que seus olhos me roubaram a noção do tempo. Já não foi pagamento o bastante ter lhe dado meus lábios, meu corpo, minha dita “bruxaria”, tinha que tirar de mim, de meus olhos ingênuos de âmbar, o discernimento para calcular os segundos que me restam? As pessoas urram, cobertas de roupas lúgubres, com as mãos secas e lanhadas do trabalho diário, desejosas em ver minha cor se perder nas fagulhas.
“Bruxa, Bruxa!”, eles berram. Não sou uma feiticeira. Minha mais inconcebível magia é a vida, é a desordem parcimoniosa do indivíduo livre. Não sou bruxa. E mesmo que fosse, qual o pecado que cometi em usar meus braços descascados de esforços para voejar pelo barro? Qual o crime se eu fosse? Qual o erro… Ah, sim. Meu erro… As labaredas o sussurraram para mim, baixinho, de forma que os cidadãos não escutassem. Para que você, com a tocha sob o altar, encarando a minha morte, como uma pária, não percebesse que compreendi tudo.
Descobri meu erro. Foi ter cobiçado um amor de esmerado com o néctar da existência das árvores. Quisera eu poder ter sido de fato uma bruxa para voar sobre a noite que revoga toda lei, onde o brilho da permissão é muito mais atraente que o vosso, mais atraente que tudo.
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