— Hey, você ta aí?

Um agonizante silêncio penetra na minha alma, nem um vestígio de vida. Insisto.

— Apareça meu amigo, pode vir!

Nada. Algo está errado, ele andava agitado, sorridente, intenso, mas não estou sentindo sua presença, apenas essa escuridão infinita e um vazio que aperta fortemente o peito.

Ando pela penumbra procurando-o, na verdade isso também está estranho. Era tudo tão colorido aqui.

— CHEGA DE BRINCADEIRA, APAREÇA! — grito.

Nenhuma resposta novamente. Acelero o passo quando de repente tropeço e caio. Viro a cabeça e procuro o que me derrubou. Um corpo caído no chão. Aproximo-me e vejo a cena mais forte e perturbadora de toda minha vida.

O corpo estava com marcas de concussão espalhadas ao longo do mesmo. A forma quase não era humana pois todos ossos estavam quebrados. Cotovelos e joelhos pareciam que tinham sido retirados e colocados de volta na posição oposta. Pelas manchas no chão, notava-se que o sangue já tinha secado a muito tempo. Furos na região do coração com larvas ainda vivas alimentando-se. A pele rasgada em vários locais, e o cheiro de podre contaminando aquele enorme nada.

— Droga cara, acorda!

Na emoção do momento ainda falei isso. Era óbvio que ele já estava morto. Ah, esqueci de avisar. Ele sou eu. Sim, este é minha outra versão, a minha essência não modificada.

Passei horas, dias, semanas, sei la quanto tempo foi, tentando levantar o que restou de mim e era em vão. Não havia mais nada o que fazer.

Até que tive uma ideia. Levei o corpo pra casa, e decidi ressuscita-lo. Não iria aceitar que minha essência tivesse morrido.

Retiro as larvas, enfio meu próprio coração nele, costuro os buracos e rasgos, abro o crânio e ponho meu cérebro nele, faço transfusão de sangue e dou um forte soco no seu peito e grito:

— ACORDA, DESGRAÇA! REAGE!

E aqueles olhos brilhantes se abrem. Sua boca começa a abrir e logo se torna um sorriso. O corpo voltou a funcionar com um coração novo e uma nova mentalidade.

Logo o ambiente cinzento e escuro começa a chover gotas coloridas, que enfeitam e dão vida a tudo ao redor. Agora sim está bonito. Junto-me a ele e sigo a vida, com cores, sabores, flores e amores.

Não abandone sua essência, não deixe seu EU morrer. Caso isso já tenha acontecido, feche e cicatrize as feridas, renove o coração, ponha sangue pra preencher as veias e adicione as experiências e aprendizados na sua essência. Não viva outra vida diferente da sua, você não está errado em ser você mesmo. Aceite-se.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!