Aconteceu Você...
3 Olhares, sorrisos e Cebola... assaaaando!!!
Notas iniciais
O primeiro dia de aula passou rápido, no intervalo sentamos todos juntos e todos encheram o DC de perguntas. Ele contou o que havia acontecido nesse período em que passara na Itália, disse que sentiu falta de todos nós e que os europeus não o agradaram muito, “muito frios e materialistas” segundo a definição dele. Os meninos o perguntaram sobre a moto, que ele disse ser de Nimbus, pois este já havia completado 19 anos e trabalhou duro na empresa da avó, que lhe deu esse presente no aniversário. As meninas da escola pareciam que iam agarrá-lo a qualquer momento, não tiravam os olhos dele; da mesma forma que ele não tirava os olhos de mim. Ele estava na mesma sala que eu, e nem os professores o reconheceram. Em resumo, não houve outro assunto na escola além dessa chegada inesperada do Do Contra e do quanto ele estava mudado, só na aparência, porque ele continuava a ser ele mesmo, gentil como sempre, inteligente e engraçado.
Quando o intervalo acabou e nós começamos a nos movimentar para ir à sala de aula ele estendeu a mão para me ajudar a levantar, sorri timidamente e agradeci. Mas ele não a soltou, permaneceu segurando a minha mão enquanto caminhávamos em direção à sala. Enquanto os outros entravam nas suas respectivas salas, o corredor foi ficando vazio, e logo só restavam eu, ele, a Magali, o Cascão e o Cebola, mas eles estavam andando um pouco à frente conversando animadamente sobre uma festa que ia rolar na casa da Carmem no mês seguinte. Nós não conversávamos, mas o silêncio não era incômodo, ele apenas segurava a minha mão e me olhava várias vezes enquanto caminhávamos. Resolvi puxar conversa.
_ Agora é aula de biologia, mas o professor não é o mesmo que ensinava aqui antes de você se mudar. Ele é bem legal, a Magá tem até uma queda, aliás, tem um abismo por ele. _ Ri e ele me acompanhou, depois parou e perguntou:
_ O professor Licurgo saiu também?
_ Não, ele continua o mesmo louco de sempre, mas agora arranjou uma namorada e tá todo feliz. Acho que estão planejando até casar.
_É... Enquanto há vida há esperança... _Suspirou e alisou minha mão_ Será que algum dia eu terei essa sorte?
_ Claro DC, aposto que você deixou muitas italianas apaixonadas por lá... Que coisa mais feia, partir os corações frios e materialistas das europeias... tsc tsc. _ Fiz uma cara de reprovação, mas não aguentei e dei risada.
_Você nem faz ideia! _ Disse com um sorriso convencido, mas logo ficou sério e me olhou nos olhos _ Eu nunca quis conquistar as europeias, o único coração que eu já quis conquistar continuou no Brasil quando eu fui embora, e consequentemente o meu também ficou.
Engoli seco, não consegui responde-lo. Parecia que tínhamos passado uma eternidade nos encarando, mas logo percebi que estávamos parados na porta da sala e a turma inteira nos olhava, enquanto o professor falava:
_Mônica, posso começar a aula ou estamos atrapalhando a conversa de vocês?
_ H-hãn, de-desculpa professor! Eu me distraí. _ Falei, sem jeito, não conseguindo desviar os meus olhos do DC.
_ Tá desculpada, querida! Não precisa ficar nervosa! _O professor Rubens falou rindo, enquanto eu tentava achar as minhas pernas. _ E você, garoto? Aluno novo? Apresente-se!
_ Na verdade eu sou aluno antigo, professor. Mas passei um ano fora e estou retornando agora, meu nome é Maurício, mas prefiro que me chamem de DC. _ Do Contra falou, dando um passo à frente, sem soltar a minha mão.
_ Então, bem vindo novamente, DC! Eu sou o professor Rubens e ensino biologia, agora vão se sentar porque o tempo está correndo e eu só tenho um horário nessa turma hoje.
Obedecemos, e fomos em direção aos nossos lugares. Magali me olhava com um sorriso sugestivo; e o Cebola olhava para o meu rosto e para a mão do DC, que ainda estava segura à minha com desconfiança e evidente irritação. Quando sentamos, Denise jogou um papelzinho em mim, olhei pra trás irritada pensando que era alguma brincadeirinha do Cebola, mas ela fez sinal, me mandando abrir e ler. No papel estava escrito:
“Arrasou Moniquete!
Mas deixa um pedacinho do bofe pras amigas, viu?
XOXO
P.S: Fecha a boca pra não babar! ;D”
Nem me dei ao trabalho de olhar pra ela, passei o papelzinho pra Magá, que quase teve um ataque de risos e escreveu embaixo:
“Essa troca de olhares agora a pouco, hein?
Acho que estou sentindo cheiro de love no ar! Kkkkkkk
E aí, amiga, ele pediu pra ficar com você? *-*”
Peguei o papel e respondi que não, passei pra elas e quando o papel voltou, nem li. Amassei e joguei no lixo. Escrevi bem grande na última página do caderno e virei pra elas: “ACABOU O MSN DE PAPEL! VÃO PRESTAR ATENÇÃO NA AULA, SUAS DESOCUPADAS! KKKKK”.
O resto da aula correu relativamente normal, tirando as várias olhadas que o DC dava pra mim; as risadinhas das meninas quando percebiam isso; o meu rosto que nunca esteve tão vermelho; e a cara de mau humor do Cebola toda vez que o DC me perguntava alguma coisa, ou na vez que ele levantou pra ir beber água e me deu um beijinho na mão antes de sair. No mais, tudo bem. Logo o horário do professor acabou e começou a aula de literatura, e a sequencia dos acontecimentos foi a mesma: Olhares do DC, meninas rindo, eu com vergonha e Cê com cara feia.
Quando a aula acabou, todos começaram a sair da sala, mas eu ainda estava guardando meu material. O DC levantou e ficou esperando eu terminar de guardar as coisas enquanto conversava com Magali e a Carmem o convidava para a festa. Cebola resmungou qualquer coisa, mas ninguém deu importância. Quando levantei pra ir embora, ele perguntou:
_Posso ir com você?
_Claro, DC! Mas eu pensei que o Nimbus vinha te buscar.
_ Não, ele disse que me traria hoje pra eu não chorar na porta da escola e me agarrar nas pernas da mamãe, mas que não era pra eu me acostumar. _ Nós gargalhamos. _ Você vai sozinha pra casa todos os dias?
_Não, a Magá e a Marina também vão. Às vezes o Cê e o Cas acompanham a gente, mas Cascão leva a Maria em casa agora, e o Cê não tá andando muito comigo esses tempos.
_ Ótimo então, vou acompanhar as belas damas até as suas respectivas casas e depois sigo meu caminho. Na verdade, eu mudei daquela casa em que morava e tô morando na rua da Má, sabe uma casa amarela que estava em reforma?
_ Ah, sei... É pertinho da minha casa também!
_ Isso é o que mais me agrada. _Falou, dando uma piscadinha.
_Vamos Mô? Eu tô morrendo de fome!
_ Vamos, o DC vai com a gente.
No mesmo instante segurei a mão dele, e só percebi o que tinha feito quando a Magá olhou e levantou a sobrancelha, dando um sorrisinho discreto. Fiquei hiper vermelha e até pensei em soltar a mão dele, mas quando estávamos saindo da sala encontrei o Cebola agarrando a Irene pela cintura enquanto ela tentava se soltar. Aí eu resolvi continuar de mãos dadas com o Do Contra e passei por eles sem nem olhar pra nenhum dos dois. Isso fez com que o Cebola a soltasse e ficasse me olhando com uma expressão de surpresa. Certamente ele esperava que eu saísse correndo e chorando, ou então armasse um barraco por causa dele; mas por incrível que pareça eu gostei daquela sensação de deixa-lo sem ação e passar como se nada tivesse acontecido. Pois é, “Cebolinha”... Eu cresci. Dei um sorriso de satisfação e comecei a conversar com as meninas e com aquele gato que estava de mãos dadas comigo.
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