Aconteceu Você...
13 O pedido.
Notas iniciais
Boa leitura.
O dia custou a amanhecer e eu não consegui pregar os olhos nem por um minuto durante a noite; na hora de ir pra escola peguei a primeira roupa que achei no guarda roupa e fui. Meu estômago estava travado e eu não conseguia nem pensar em tomar café da manhã, meu humor estava dos piores e eu tremia só em pensar no que os pais do DC podem ter decidido. Cheguei à escola mais cedo que o normal e fiquei sentada num canto isolado do pátio, aos poucos as pessoas foram chegando mas perceberam logo que eu não estava pra conversa. Magali estranhou meu comportamento e perguntou o que tinha acontecido, acabei desabafando com ela e contei tudo o que havia acontecido. Ela me abraçou e ficou calada, não sabia o que me dizer. Fomos pra aula, mas o DC não apareceu novamente. Meu coração ficou apertado e batia descompassado. Passei a aula inteira calada, com um nó na garganta e lágrimas que ameaçavam escapar a cada vez que eu pensava no que poderia acontecer. Quando fomos liberados, eu saí da sala cabisbaixa e a Magá me abraçou num gesto de apoio, caminhando ao meu lado. Chegando à frente da escola meu coração deu um pulo, o DC estava sentado na calçada do outro lado da rua, de cabeça baixa e com uma rosa na mão. A Magá sorriu pra mim e assentiu com a cabeça, me incentivando a ir falar com ele. Nesse instante ele levantou a cabeça e olhou pra mim, esboçou um sorriso e me chamou com a mão. Atravessei a rua com o coração disparado. Ele estava muito bonito com uma camisa xadrez azul de manga curta aberta na frente, uma camisa gola V por baixo num tom mais claro de azul, bermuda jeans e o inseparável all star; quando parei na sua frente, ele se levantou, entregando-me a rosa e dando um beijo na minha testa.
_ Oi, linda... Desculpe por não ter te dado nenhum retorno ontem, a conversa acabou tarde e eu não quis te acordar. _ Fez carinho na minha bochecha com a ponta dos dedos e eu fechei os olhos.
_ Você fala como se eu tivesse conseguido dormir..._ Suspirei e abri os olhos._ Achei que você ia vir pra aula hoje.
_ Eu fiquei com muita dor de cabeça e um pouco de febre, mas já estou me sentindo um pouco melhor. _ Beijou minha mão._ Bom, precisamos conversar, mas não aqui. Podemos ir a algum lugar mais tranquilo?
Assenti com a cabeça e saímos andando de mãos dadas, ele pegou meu caderno e deu um beijo no topo da minha cabeça. Eu não tive coragem de entrar no assunto, estava em pânico. Ele nos conduziu até o campinho onde brincamos tantas vezes quando crianças, sentamos embaixo de uma árvore e ele me abraçou, puxando-me para ele de forma que eu ficasse com a cabeça encostada no seu peito e os braços envolvendo a sua cintura. Ele respirou fundo e começou:
_ Ontem foi um dos dias mais difíceis da minha vida... _ Olhei pra ele, mas ele estava olhando para o outro lado. _ Sabe o que é estar entre a cruz e a espada? Ter que escolher entre as duas coisas mais importantes da sua vida? _ A voz dele estava embargada, meus olhos se encheram de lágrimas e eu o abracei com mais força._ Eu me senti tão perdido... _ Sua voz falhou. Ele olhou pro céu, tentando segurar as lágrimas, meu coração parecia que ia rasgar ao meio. _ Eles aceitaram.
Afastei-me dele num pulo.
_ O quê?_ Olhei pra ele, assustada. O coração disparado.
_ Eu vou ficar no Brasil, meu amor. _ Ele sorriu com os olhos cheios de lágrimas._ Eles aceitaram a proposta do Nimbus.
_ Sério, DC? _ Eu não conseguia conter a alegria que estava sentindo, parecia que meu peito ia explodir. Abracei-o, mas quando me afastei percebi que seus olhos estavam tristes, apesar do sorriso que ele esboçava no rosto. _ O que houve gatinho? Você não está feliz?
_ Eu estou feliz por poder ficar aqui com você, mas é tão difícil saber que meus pais estarão tão longe de mim... Eles ficaram muito tristes, Mô. Eu nunca pensei que teria que fazer uma coisa dessas. _ Ele fungou e sorriu. _ Mas nem pense que eles aceitaram assim de boa sem impor condições. _ Riu limpando as lágrimas que escorriam pelo rosto com as mãos_ A gente vai ter que dar conta da casa sozinhos, sem empregada, e passar as férias lá. Mamãe quer falar conosco todos os dias via Skype e quer o meu boletim no e-mail dela bem bonitinho assim que sair.
_ Imagino a bagunça que vai ficar aquela casa quando vocês dois estiverem morando sozinhos _ Falei pra descontrair. Ele riu.
_ Eu sou organizado, Nimbus é que é chegado a uma bagunça, mas ele resume isso só ao quarto dele. A gente tá programando tipo um cronograma, de quem vai fazer o quê pra facilitar as coisas. Meus pais já viajam na semana que vem. Só tem uma coisa que eu preciso falar com você...
_ O que?
_ Como você já deve imaginar os meus pais exigiram que eu dissesse o motivo que estava me fazendo querer ficar no Brasil, aí eu tive que falar e agora eles querem que eu oficialize isso. Aí eu preciso saber o que você pensa, o que você está disposta a fazer... sobre nós. _ Ele me olhou sério.
_ Como assim? Não entendi._ Ele respirou fundo.
_ Bem, é claro que eu não estou fazendo isso do jeito certo. _ Ele sorriu e levantou, me puxando pela mão, fazendo com que eu levantasse também e ficando de frente pra mim, segurando as minhas duas mãos e entrelaçando os nossos dedos_ Mônica Fernandes de Sousa... Você aceita namorar comigo?_ Seus olhos brilhavam.
Meu coração perdeu a batida e eu senti um frio na barriga, me atirei em cima dele fazendo-o desequilibrar e cair de costas no chão, cobri o seu rosto de beijos e sussurrei em seu ouvido:
_ É claro, meu amor! _ Lhe dei um selinho._ Se você demorasse mais uns cinco minutos quem ia te pedir em namoro era eu. _ Pisquei e ele gargalhou.
_ Por um milésimo de segundo eu achei que você ia dizer que não.
_ Por quê?
_ Na hora que eu perguntei você ficou pálida e com a boca aberta, parecendo que eu tinha confessado um crime ou te contado que eu era gay! _ Nós rimos.
_ Emoção do momento._ Beijei-o novamente._ Mas, eu ainda corro esse risco? Não vai sair do armário não, né?
_ Ai bee, você descobriu o meu segredo, sua danadinha!_ Ele falou com uma voz bem gay e colocando as mãos na cintura._ Sabe de uma coisa, diva-mor? Só me aproximei de você por causa do Cebola! Será que eu tenho alguma chance com aquele bofe escândalo? _ Falou piscando os olhos repetidas vezes. Gargalhamos.
_ Para com isso, amorzinho! Tá quase me convencendo!_ Fiz cara de assustada.
_ Você ainda tem dúvidas sobre a minha masculinidade, minha gata? _ Ele falou com uma voz absurdamente sexy e deu uma mordidinha no lóbulo da minha orelha. _ Se quiser posso te mostrar... Aliás, eu adoraria te dar uma prova da minha masculinidade._ Apertou minha cintura e beijou o meu pescoço, me fazendo ofegar.
_ Tá bem, me convenceu. É melhor você parar por aí antes que eu te ataque e você fuja denovo!_ Ri e ele fez biquinho.
_ Uma hora eu vou te pegar de jeito, Moniquinha! E aí eu quero ver você fazer piadinha do seu namorado novamente! _ Ele levantou a sobrancelha.
_ Ai, que medo! Meu namorado... _Eu gargalhei e ele me olhou curioso._ É estranho falar isso, te chamar de namorado. _ Ri novamente e saí de cima dele._ Meu namorado lindo e gostoso vai me pegar de jeito..._ Mordi os lábios. Ele deu um sorrisinho como se fosse aprontar alguma coisa e me olhou por alguns segundos.
_ Vou fazer você se arrepender de ter dito isso. _ Piscou e levantou, com um sorriso perverso nos lábios._ Se eu fosse você eu corria.
E foi o que eu fiz. Ele veio correndo atrás de mim e ficamos naquela brincadeirinha de pega-pega; fiquei feliz por ver que ele já estava com um humor melhor. Ficamos ofegantes e suados com essa corridinha, ele tirou a camisa de cima, ficando apenas com a camisa de gola V e quando ele finalmente conseguiu me alcançar nós voltamos ao local onde estávamos sentados pra pegar as minhas coisas e irmos almoçar. No caminho, qual não foi a minha surpresa ao ver a Maria Cebolinha no maior romance com o Dudu? Ele deu uma florzinha a ela e ela retribuiu com um beijinho bem inocente. Ele corou e ela abaixou a cabeça, envergonhada. Fiquei pasma com a cena, olhei pro DC que também parecia espantado, nos encaramos por alguns segundos e explodimos em gargalhadas. Imaginei a cara do Cebola ao descobrir isso, que hilário! Fomos almoçar na minha casa, depois eu o obriguei a copiar os assuntos que ele perdeu nesses dois dias em que faltou aula e fizemos as atividades de português, química e matemática. Bom, confesso que eu me aproveitei, já que ele é fera em química e eu sou uma negação. Passamos a tarde trocando beijos, carinhos e palavras fofinhas, no melhor estilo “casal apaixonado bobo e clichê”, até que ele me olhou sério e falou:
_ Mô, a gente esqueceu um detalhezinho nessa história toda...
_ Qual? _ Olhei pra ele preocupada. “Lá vem mais problema!”
_ Seus pais.
_ O que tem meus pais?
_ Precisamos falar com eles, dãh!_ Ele me olhou como se eu não tivesse percebido algo muito importante.
_ Falar o que?_ Ele revirou os olhos.
_ Eu preciso pedir a sua mão, esqueceu?
_ Mas eu já te dei a mão e o corpo todo, meu bem. Uma hora eles vão ficar sabendo!
_ Ah, Mônica! Deixa eu fazer isso do jeito certo, gatinha! Acho importante que a gente converse com seus pais antes mesmo de ir falar com os meus, não quero que eles fiquem sabendo por outras pessoas e isso vire um problema pra nós!
_ Ok. Você está certo, pra variar. Às vezes eu acho que você tem 35 anos._ Sorri._ Não tá com medo de falar com eles?
_ Claro que sim, seus pais são da máfia, esqueceu?_ Gargalhamos._ Falando sério, estou nervoso sim. Nunca fiz isso, mas é algo que eu tenho que fazer. Quero começar nosso namoro com o pé direito e se Deus quiser, a aprovação dos seus pais._ Me deu um beijinho rápido._ E você? Se achar que não está preparada, a gente deixa pra outro dia. Mas tem que ser antes dos meus pais viajarem.
_ Por mim tudo bem, rola um frio na barriga, mas tenho certeza que eles vão aprovar. Afinal eles te conhecem desde pequeno e sempre gostaram muito de você. Desconfio até que eles já perceberam, meu pai tem feito umas piadinhas ultimamente.
_ Então, que dia eu posso vir aqui falar com eles?
_ Pode ser hoje se você quiser, eles vão vir direto pra casa.
_ Tudo bem então, eu vou pra casa tomar banho e pegar uma coisa. Umas 20:00 eu volto e a gente conversa com eles.
_ Vou esconder a espingarda do papai. _ Gargalhei e ele arregalou os olhos. _ Brincadeirinha!
_ É bom que seja mesmo._ Ele riu._ Vou ter que ir logo, amor. Nimbus pediu pra eu chegar antes das 18:00 porque ele tá lá em casa com um amigo e eles querem que eu ajude com uns detalhes da loja deles. Já tinha até esquecido disso.
_ Tá bom, trate de ajudar bastante o meu cunhado preferido, viu? Ele merece! Não sei o que seria de nós agora se não fosse ele._ Ele riu .
_ Lembre que não foi só por nós, as brasileirinhas também estão envolvidas._ Piscou e eu gargalhei.
_ Tudo bem, vamos agradecer às brasileirinhas também. Aliás não, não quero meu namorado agradecendo a brasileirinha nenhuma.
_ Ih, ciumenta! Fique sabendo que eu nem sou chegado a essas coisas!_ Fez cara de inocente e eu levantei a sobrancelha, encarando-o. Ele desistiu._ Tá bom, tá bom! Digamos que eu... _ Ele segurou o riso._ Ah, deixa pra lá! Esquece isso.
_ Huummm... Segredos do senhor Maurício Takeda Belinazzo... O safadinho da net._ Ele corou e eu ri.
_ Ei, você sabe o meu sobrenome!
_ Claro que sei! Eu leio a lista de chamada, meu bem._ Pisquei._ Além do mais você também sabe o meu.
_ Aposto que tem gente que nem sabe que meu nome é Maurício. Só me chamam assim em casa e em outros lugares. Por aqui é Do Contra desde sempre, agora DC.
_ Magali, por exemplo, não sabia._ Gargalhei._ Quando eu contei ela ficou de boca aberta, depois falou: “Ainda bem que não é um nome feio, hein Mô? Já pensou se fosse Godofredo? Ponciano? Zé? Do Contra Urussanga da Silva?”._ Nós gargalhamos, o DC chegou a chorar de rir.
_ “Urussanga da Silva”? De onde ela tirou isso?
_ É o sobrenome do Mingau. _ Gargalhamos muiiitoooo, artes da Magá._ Uma vez ela inventou isso, a gente tinha uns seis anos e a partir daí ficou assim o nome dele. Pobre coitado.
_ É cada uma, hein? A Magá é uma onda...
_ É muito louquinha, mas é a minha melhor amiga... Quase uma irmã.
_ Mas acho que ela sempre torceu pra você ficar com o Cebolinha, né amor?
_ Engano seu, quando ela viu que ele tava me enrolando foi a primeira pessoa a me mandar partir pra outra. Aí quando a Marina disse que você tinha voltado ela ficou me falando pra te dar uma chance, que você sempre gostou de mim, essas coisas...
_ Hum, lembre-me de agradecer a ela por isso. _ Piscou._ Bom, agora tenho que ir. O Nimbus deve estar me xingando de tudo quanto é nome.
_ Ih, é mesmo. Tchau, meu gatão! Vou morrer de saudades até a hora que você voltar._ O abracei e dei um beijo demorado.
_ Você pode até sentir saudades, mas não mais do que eu. Tchau, amore mio._ Piscou.
_ Huummm... Esse sotaque italiano te deixa muito sexy._ Dei uma mordidinha no pescoço dele e fomos até o portão_ Vou querer que você fale italiano todos os dias agora.
_ Eu sei que sou irresistível. _ Fez uma cara de convencido e me beijou novamente, dando uma mordida um tanto forte no meu lábio inferior.
_ Assim você me mata, gatinho!_ Fechei os olhos e me encostei no muro, ele riu, me beijou mais uma vez e abriu o portão, resmungando em seguida.
_ Ninguém merece!_ Seu tom de voz estava alterado, com uma rispidez acentuada._ Esse cara não tem o que fazer, não?
_ Quem, amorzinho?
_ O idiota do Cebola! Quem mais? Tava olhando pra cá, quando eu abri o portão ele virou o rosto e saiu andando na maior raiva, tomara que torça o pé.
_ Esquece ele, DC! Uma hora ele desiste dessa palhaçada._ Ele respirou fundo, ainda com uma expressão irritada e eu dei um beijo no rosto dele. _ Relaxa gatinho!
_ Ok. Mas se esse cara vier procurar problema comigo já sabe...
_ Tá certo, meu valentão. _ Dei um selinho nele. _ Essa sua carinha de mau tá uma coisa..._ Mordi os lábios e sorri.
_ Juro que o Nimbus vai me bater quando eu chegar em casa, mas tá tão difícil ir...
_ Ele te bate? _ Perguntei assustada.
_ Com frequência. Você me protege?_ Fez carinha de criança carente e piscou._ Me deixa dormir aqui com você?
_ Que menino mau. Vou lá brigar com ele, só quem pode te bater sou eu!
_ Ai, bate que eu me apaixono._ Me deu um selinho e saiu, parando na frente da minha casa. _ Vou correr antes que aquele louco venha me buscar aqui. Tchau princesa, até daqui a pouco.
_ Tchau meu príncipe! Não demora!
Ele beijou a minha mão e foi embora. Entrei em casa feliz e aliviada, mas logo bateu o nervoso por causa da conversa com meus pais à noite, então coloquei uma música bem alta e aproveitei pra cantar e dançar como há muito tempo não fazia, sem me importar se estava cantando certo ou não. Eu estava tão feliz que poderia cantar em frente a uma multidão e nada me abalaria, poderia dançar ballet num show de rock e forró num concerto de música erudita; e assim comecei a me preparar, inclusive psicologicamente, para o que esta noite me reservava.
Notas finais
Vem aí... o pedido oficial!
Beijos!
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