Lá estava ela, entre os senadores e convidados patrícios de seu pai, num frenesi de conversações e passeios entre o majestoso salão de mármore e os vastos jardins do palácio imperial, a comida era farta e serventes percorriam todo o local certificando-se de que todas as vontades fossem atendidas.

Jovens com idade próxima a ela conversavam a sua volta, tentando de todas as formas chamar sua atenção, enquanto Reyna retribuía sorrisos e elogios vagos, sem realmente prestar atenção nos assuntos supérfluos que se desenrolavam à sua frente.

Anos antes, a convivência com sua mãe a tinha feito interessar-se por medicina, caridade, arquitetura e estratégia, e, mesmo agora, quando ela não estava mais entre os vivos, Reyna manteve suas paixões e as expandiu, de modo que tinha usado seu tempo para aprofundar-se nas mais diversas áreas do conhecimento. Por um momento, ela permitiu-se afundar no vazio em seu peito, que ficaria para sempre vago sem a presença da mãe, e a familiar culpa que a preenchia cegou-a mais uma vez, o que a levou a um piscar forte de olhos, tentando rapidamente mudar o curso de seus pensamentos. Não se permitiria novamente atormentar-se, não aquela noite. Tornou a refletir sobre seus conhecimentos adquiridos, e, apesar disso, do modo como estava presa a jantares formais cujos membros não faziam mais do que discutir sobre o tempo e flertar.

Discretamente, conseguiu dar uma desculpa a dois jovens filhos de senadores que a bajulavam e caminhar em direção ao jardim, localizando seu banco favorito, que a permitia visualizar toda a Roma e os vales que a envolviam de cima do cume onde estava o palácio.

A visão era linda, de tirar o fôlego, e Reyna deve ter permanecido bons minutos imóvel, apenas perdida em pensamentos e admirando a paisagem antes de sentir uma aproximação discreta às suas costas.

Virou-se imediatamente, num sobressalto, e viu uma garota, que não deveria ser muito mais nova do que ela própria, com pele morena e olhos multicoloridos, vestia uma toga rosa claro e exalava uma confiança hipnotizante ao redor de si. Numa inspeção rápida, não localizou quaisquer brasão na fivela que enfeitava a vestimenta de ombro único, nem nos anéis que usava. Embora claramente nobre, não trazia quaisquer sinais de importância de sua família e linhagem. Pensando nisso, e ainda levemente surpresa, levou a mão ao próprio brasão imperial gravado em ouro e preso à alça de sua roupa, repousando com um toque gelado no lado esquerdo do peito.

“Perdoe-me se a assustei, Alteza. Não tive a intenção.”

A menina de cabelos chocolate seguiu seu toque no brasão, causando reconhecimento imediato, e levando-a a fazer uma reverência desajeitada e levemente constrangida.

Reyna levantou uma de suas mãos, agora virando de frente para a outra e dispensando rapidamente a cordialidade que lhe foi oferecida.

“Não há necessidade disso, tenho certeza. Por favor, fique a vontade.”

Um silêncio permaneceu incólume por algum tempo, a menina de rosa aproximou-se, com os olhos caleidoscópicos que pareciam mudar conforme a forte luz da lua cheia os atingia, e parou por um momento, pedindo silenciosa permissão para se sentar que foi concedida com um leve e gracioso aceno de cabeça.

“Piper, McLean, a propósito.” Outra reverência feita, apenas com a cabeça dessa vez.

“Reyna Arellano.” Retribuiu sua cortesia, num aceno comedido.

“Sim, eu sei. Desculpe a impertinência, Vossa Alteza, mas acho que não há qualquer pessoa aqui que não saiba quem você é, ou que pelo menos não saiba identificar o brasão imperial.” Disse baixinho, apontando discretamente para o símbolo em seu peito.

A frase repetiu-se por algum tempo na mente de Reyna, por um momento diminuindo a esperança que ela vinha contemplando desde aquela tarde. Será que ela realmente era tão facilmente reconhecida? E, será que continuaria reconhecível, mesmo depois que seu plano fosse colocado em prática?

Reyna assentiu mais uma vez, após digerir seus próprios pensamentos, tentando contê-los, e, em seguida, concordou suavemente, dispensando as desculpas e fazendo um comentário sonhador sobre a vista a que ambas tinham acesso naquele momento, o que levou-as a uma conversa amena e surpreendentemente não excruciante como todas as outras haviam sido aquela noite.

A floresta estendia-se, majestosa e imponente, logo depois das casas da cidade, separando as vielas retorcidas e o acampamento dos soldados do exército, vagamente distinguido por um leve tremular e poucas tendas acesas àquela hora.

“É lindo. Sempre passo algum tempo imaginando o que os soldados estão fazendo, e aqui…” o que foi dito atraiu ainda mais a atenção de Reyna, fazendo-a encarar com intensidade a outra, olhos de obsidiana lutando com diversas cores. Piper prosseguiu: “Nossa, eu sinto que estou muito mais próxima de meu namorado do que realmente estou. Graças aos deuses não tenho essa vista, ou não seria capaz de fazer outra coisa.”

O contato foi quebrado. Claro, não poderia ser o que ela estava pensando. A conversa tomou outro rumo depois disso.

Após um discreto e irônico comentário sobre um dos senadores feito por Reyna, Piper não conseguiu evitar uma gargalhada.

“Eu preciso confessar à Vossa Alteza, que não esperava um humor ácido vindo de você.”

“Oh, por favor, sem ‘Vossa Alteza’, estamos agora mesmo criticando a postura desajeitada de Caius, não precisamos de tais formalidades.” A morena respondeu, ainda entre risos contidos.

“Como quiser.” Piper abriu um sorriso sincero para ela.

Um silêncio confortável as abraçou por algum tempo. A frase dita por Piper reverberando na mente de Reyna.

“Sabe, acho que ninguém espera muitas coisas de mim, talvez isso me dê a vantagem de um dia surpreendê-los.” soltou a princesa, ainda pensativa.

E, algum tempo depois, a noite havia acabado.

O homem que deveria ser o pai de Piper, elegante e certamente muito atraente, aproximou-se para chamá-la, fazendo uma reverência cortês assim que reconheceu Reyna.

“Eu espero vê-la novamente, Piper McLean.”

A outra abriu pela última vez naquela noite um sorriso, curvando-se respeitosamente.

“Assim como eu faço, Reyna Arellano.”

O pai dela inclinou-se mais uma vez.

“Vossa Alteza.” e ambos se retiraram, deixando-a novamente sozinha, presa em seus próprios pensamentos e planos para o futuro.

Leo já teria começado seu pedido?

Notas finais
Espero que estejam gostando! O que vocês acham que ela está planejando? Qualquer erro ou dúvidas que tiverem, me avisem, por favor!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.