Notas iniciais
Obrigada por vir ler.

Sempre gostei da minha vida, não preciso me preocupar com dinheiro, não pelos próximos cem anos,moro em uma casa, que morariam pelo menos umas quatro famílias, tranquilamente. Não dirijo porque não quero, assim como a minha irmã trabalha porque quer. Apesar de todo o dinheiro que carrego, sempre me senti vazia,rejeitada ... Não lembro do meu pai, eu acho que sofri aquele tipo de doença, que depois de um trauma, ou vários, a gente condiciona o cérebro a esquecer.

Nos primeiros anos da minha vida, passei em um colégio interno na Suíça. Lembro vagamente que via meus pais em duas datas no ano, no natal, e no meu aniversário. E então quando completei nove anos, voltei para casa dos meus pais, e tudo era uma bagunça,não tínhamos horário para comer, dormir, e nem mesmo hábitos que normalmente uma família tem, então me adaptei a vida cheia de festas, gente estranha o tempo todo em casa, dormir tarde, acordar cedo, ou visse versa, comer o que quiser, a hora que quiser, e chorar durante a noite e não acordar ninguém.

Então aos onze anos, meus pais se separaram por um motivo que até hoje não sei, e tenho medo de tentar lembrar. Foram longos meses de idas e vindas de tribunais, choro, grito, acusações e decepção. Quando aquilo tudo terminou, fui separada da Mel, fiquei em Nova Orleans com meu pai, e a Mel foi para Berlim com a mamãe. Em Nova Orleans, eu fui para uma escola normal, tinha amigas normais, hábitos normais, a vida era fácil de levar, e então começou essa sensação de vazio novamente, eu precisava de uma mãe, da Mel,precisava de amor na minha vida.

E em uma tarde de Domingo,lá por três horas da tarde, ouvi um barulho muito forte vindo da sala, meu pai havia desmaiado,e ao redor dele,muita neve e cartões de crédito jogados. Eu tentei o acordar, chamar, bater,mas ele não reagia,e então liguei para o único número que eu conhecia,minha mãe. Por meses ela conseguiu me manter sã, dizendo que o meu pai morreu de frio, por tanta neve que limpou, mesmo que fosse verão, e ele não trabalhasse com isso. Mas no mesmo ano descobri que ele morreu por overdose de cocaína. E então fui para Berlim, com a minha mãe e Mel.

Minha mãe, além de muito resistente era muito inteligente,conseguiu herdar tudo que meu pai tinha, que por sua vez herdou do meu avô paterno,e assim por diante.Ela ficou a frente da enorme empresa que eles tinham,era mãe, empresária e isso foi lhe sobrecarregando, de modo que nos afastamos tanto que parecíamos duas velhas amigas de infância,se encontrando após vinte anos de separação. A situação ficou tão desgastada para nós três que concordamos em nos separar por um tempo.

Mel inicialmente relutou,queria tentar costurar os laços que tínhamos puído com o tempo,mas nem ela, e nem seu imenso esforço foram o suficiente. E por isso ela estuda e trabalha, assim ela não tem tempo para rever as cenas que ainda temos infelizmente na cabeça. Eu as revejo, de um modo mais escuro, mas Mel, assiste tudo dentro da sua cabeça de modo diferente. Ela pensa que o motivo de tudo, foi ela, a morte do pai, a separação, o afastamento, tudo foi culpa dela, e da falta de competência. Eu me vejo rejeitada pelo meu pai, e futuramente pela minha mãe e então jogada aqui.

Eu sei que estou aos poucos reconstruindo seus passos, vivendo de festa em festa semanalmente,apagando tudo com bebedeiras, risadas altas e muitos tropeços, mas, foi assim que aprendi a viver,como poderia fazer diferente? Então aceitei a todos os convites que Ezequiel me fez, todos os dias tínhamos festas para ir, tínhamos tequila para beber e risadas altas e tropeços para presenciar.

Afinal,se não assim, como deve-se viver ?