Ace of Hearts
1 A grama do vizinho é sempre mais.. curta?
Notas iniciais
Uma morena se destacava em meio àquele mar de estudantes que chegava e ia aos poucos se acomodando naquele lugar. O pátio era espaçoso e aberto mas, por algum motivo, parecia não ser grande o suficiente para comportar aquela quantidade de estudantes. Ansiosa a garota logo arranjou as madeixas de seu cabelo volumoso em um coque improvisado com um lápis de escrever. Suor deslizava por seu pescoço, lógico que o calor do meio dia havia influenciado naquilo mas, o principal motivo de seu suor frio era a preocupação com o puxão de orelha que levaria se não encontrasse o estudante transferido.
O sinal havia tocado há pouco mais de 30 segundos, que a garota estava ali muito antes dos portões abrirem era um fato, logo não seria possível tê-lo perdido de vista, certo? Ela se perguntava prensando levemente uma prancheta entre os dedos. Carregava um tipo de ficha de registro, no centro havia a foto de um rapaz, foto que a garota encarava com desgosto, achava ser a causa de todos seus problemas.
Logo os adolescentes, que antes estavam em êxtase pois haviam passado um bom tempo sem se verem, se reuniram com seus respectivos grupos de amigos, facilitando o campo de visão da garota. Agora podia visualizar amplamente o ambiente em que se encontrava, era um pátio composto por uma passarela que se estendia desde o portão principal até o prédio principal, enquanto aos arredores havia muita área verde, uma grama baixa, árvores medianas, com bancos espalhados à margem do asfalto que formava a passarel. Sua atenção grudou em um daqueles bancos, o rapaz que tanto buscava estava naquele momento sentado há poucos metros da garota.
— Ah? E não é que esse cara é tão bonito quanto na foto — Murmurou ao relembrar a conversa que havia tido com sua amiga algumas horas atrás, logo a voz da mesma rindo em sua cabeça começou a ecoar. Seus pés automaticamente puseram-se a caminhar em direção ao seu alvo, evitando transparecer a raiva que sentia, afinal ele não tinha culpa de nada.
O rapaz parecia alto, na ficha técnica haviam seus dados básicos mas é claro que ela sequer leu. Sua figura era esbelta, postura? A garota sentia inveja, embora jamais fosse admitir abertamente, o tom esverdeado de seu cabelo era belo. O rapaz passava um ar delicado enquanto fitava um livro aberto em seu colo, apoiado em sua coxa direita levemente inclinada por estar cruzada com sua outra perna.
— Que cheiroso. — Elogia.
Silêncio.
— Eu não.. Eu não quis dizer isso! — Exasperada a garota adiantou, antes mesmo de receber uma resposta do rapaz, este por sua vez nem sequer desviou a atenção do livro. A garota inspirou profundamente, numa tentativa de acalmar seu coração que estava a ponto de explodir de vergonha alheia, não era sua intenção falar aquilo, no entanto o cheiro da colônia que o rapaz usava era irresistível. Ao perceber que o garoto não havia reagido ao que disse, notou os plugs em suas orelhas, assumiu que eram fones e entendeu que ele não havia a ouço, vendo novamente a luz brilhar em sua vida. Aqueceu a voz e tentou, dessa vez tocando o ombro do rapaz, apresentar-se. — Olá, eu sou a May Maple vic-
O garoto levanta-se abruptamente, desvencilhando-se de seu toque gentil, e naquele momento May pôde jurar ter sentido um certo nível de hostilidade vindo do rapaz.
— Pervertida. — Murmurou de forma hostil alto o suficiente para que a morena, agora introduzida como May, ouvisse enquanto ele passava ao seu lado.
Estática, observou o rapaz a deixar para trás e se dirigir até o prédio principal. Segundos depois sentiu seu sangue ferver, raiva? Vergonha? A garota não sabia definir o que estava sentindo naquele momento, haviam se passado poucos minutos do meio dia, o sol parecia querer fritá-la viva, estava fazendo uma boa ação, embora forçada, e fora tratada daquela forma? Havia apenas uma certeza, May não passaria por aquilo calada. Seguindo seus instintos correu em passos pesados até o garoto, gesto que não passou despercebido por alguns alunos que estavam próximos. Ao alcançá-lo o agarrou pelo colarinho, forçando que interrompesse o que estava fazendo [...] Mas antes de continuar com o que está acontecendo no momento, vamos retroceder um pouco no tempo; quem é essa garota e por que ela está tão preocupada com a chegada de alguém que nem conhece?
Há 7 Horas atrás
— Dá pra se apressar, May? — Uma voz estridente cortou o silêncio que reinava por todo o quarto, fazendo com que a garota, que antes vagava fitando o teto do cômodo, pulasse em surpresa, afinal a voz estava se dirigindo à ela. Embora já estivesse acordada, os gritos de sua amiga conseguiram deixá-la atordoada por alguns segundos, e hesitante, May fez como foi pedido, ou mais especificamente ordenado, apressando seus passos.
A morena já havia, na noite anterior, se deitado com o uniforme, sabia que seu corpo jamais colaboraria pela manhã, restava apenas calçar meias e sapatos, além da higiene matinal básica. Sentando-se na borda da cama, May abre uma das gavetas da cabeceira à sua direita e agarra a primeira meia 3/8 que encontra, as cores combinavam com as de seu uniforme, branco com listras azuis. Subiu as meias de forma desengonçada, em seguida calçou os sapatos que tinha um modelo parecido com os de boneca, sapatos de aparência duvidosa mas com conforto garantido.
Após terminar de se vestir, apressou-se para agarrar sua mochila jogada no canto do quarto, nesse momento o movimento brusco fez a visão da morena escurecer, fazendo com que se apoiasse na parede mais próxima para evitar a queda, pressão baixa, May! São 5 da manhã! Reclamou mentalmente, pisando fundo no chão, sabia que descontar no pobre piso não compensaria sua burrice, mas mesmo assim o fez.
1, 2, 3.. Caminhava pausadamente, não gostaria de levar uma queda, seus olhos voltaram-se para o espelho em sua penteadeira no canto inferior esquerdo de seu quarto, seus cabelos estavam uma zona, após um longo suspiro tomou coragem de sentar-se para o pentear e prender com alguns grampos como de costume, deixando apenas sua franja solta.
— May, a gente vai se atrasar! — Novamente a voz anterior se fez presente no cômodo.
E mais uma vez não houve resposta. May sai do banheiro, ajeitando as meias que haviam deslizado até seus calcanhares e certificando-se de que dessa vez não cairia mais. Deu uma geral com o olhar pelo quarto e, ao confirmar que não se esqueceu de nada, abriu e fechou a porta atrás de si dando de cara com um rapaz de cabelos escuros, um tom que puxava levemente pro esverdeado, no corredor. Era seu irmão, Max.
— Tem como desligar a sua amiga? — O rapaz a questiona de forma retórica, a voz rouca e as mãos coçando os olhos o denunciavam, havia acabado de acordar e, aparentemente, não tinha sido por vontade própria.
— Se tivesse, já teria desligado. — Respondeu, afagando o cabelo emaranhado de "cama" do rapaz.
— Acho que se você respondesse ela já faria diferença. — Resmungou, desvencilhando do carinho da irmã, queria manter a postura, embora o pijama com estampa de um ursinho esverdeado não fizesse jus às suas atitudes másculas.
— Se eu fizesse isso não conseguiria me arrumar. — Retrucou rindo, o rapaz, que agora caminhava junto à irmã, riu junto. May definitivamente não é uma pessoa da manhã, muito menos tarde e noite, mas isso não vem ao caso. O que queria dizer era que não conseguiria prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo.
— Oh! Queridos, já estão acordados! — Exclamou sorridente uma moça de meia idade por volta de seus 35-40 anos, ela os fitava no final da longa escadaria que estavam prestes a descer. Agarrando pelos ombros uma ruiva que estava escondida num cômodo próximo de onde estava, ela continua — Olhem, encontrei a Misty no portão.
— E você deixa entrar todo desconhecido que encontra na porta de casa? — Questionou, Max. Seu tom caçoava da atitude de sua mãe, mas conhecia aquela ruiva tão bem quanto qualquer familiar naquela casa e por esse mesmo motivo, se escondeu atrás da irmã mais velha após terminar sua frase.
— Max! — Advertiu, May. Intercalando nervosamente o olhar entre o irmão e a ruiva, agora estressada.
— May? Custa responder às minhas mensagens ou, sei lá, colocar a — Ponderou a ruiva por um segundo, a mãe dos irmãos ainda estava ao seu lado, tinha que controlar o vocabulário. — cabeça na janela e avisar que já estava acordada?
— Foi mal, foi mal. — Desculpou-se, chacoalhando as mãos despreocupadamente enquanto descia as escadas com o irmão ao seu lado, não estava com vontade de discutir com a ruiva na frente de sua mãe.
— E pensar que já se passou um mês, o tempo voa, não é? — Assim que a mais velha se vira e passa para um outro cômodo, a ruiva estapeia a cabeça de Max.
— Ai!
— Verdade, dona Caroline! Ontem mesmo fiquei surpresa com a quantidade de mensagens para ler que tinha no meu email.. — Desconversou, Misty. A ruiva e os irmãos acompanharam a mais velha até a cozinha.
— Que menina responsável, ser do conselho deve ser cansativo. — Contestou a mais velha enquanto servia a mesa para os jovens que já se encontravam sentados.
— Deve ser mesmo, a May só vive dormindo.. — Intrometeu-se, Max. Este estava apoiando a cabeça em uma das mãos com o braço de apoio na mesa, o tapa que viria a receber posteriormente o faria cair de queixo na mesa.
— Eu estava de férias, Max. — Retrucou, May.
— Eu também. — Replicou, Misty.
— Mãe! — Choramingou o rapaz colocando as mãos sobre o local atingido pela mão da irmã, sempre reclamou da força anormal da morena e da frequência que ela usava essa força contra ele.
— Ora ora. Acalmem-se, crianças. — Riu a mais velha, servindo o café da manhã para todos presentes, era tapioca. — Já volto.
— Hm. — Os jovens responderam em uníssono enquanto comiam silenciosamente.
— Por que aquela gritaria toda se até teve tempo de tomar café da manhã aqui? — Questionou Max enquanto mordiscava mais um pedaço de sua tapioca, era uma dúvida genuína, ainda estava indignado de ter sido acordado antes das 6 sem motivo algum aparente.
— Você tá achando ruim- Meu Deus são 5h45! May vamos! — Misty estava pronta pra reclamar da ousadia do mais novo, mas o celular com a tela acesa marcando o horário chamou mais atenção que seu ego ferido. Logo a ruiva agarrou o pulso da morena que ainda estava sentada, se servindo de sua terceira tapioca.
— Temos até às 7h30! — Com dificuldade a frase foi compreendida por todos presentes, May havia colocado metade de sua tapioca dentro da boca enquanto era forçada a caminhar até a porta. Max não pareceu ligar muito e voltou pro andar de cima, pronto pra cochilar por mais 1h até dar o horário que costuma ir pra escola.
— May! — Caroline chamou, fazendo as duas pararem e olharem pra mais velha. Esta carregava um cardigã vermelho de tricô, gesticulando com as mãos, chamou a filha mais velha, a vestindo e ajeitando sua gravata. — Esqueceu disso.
— Obrigada. — Sorriu, agradecida e, em seguida, selando seus lábios na testa da mãe. — Até mais tarde!
— Até mais, dona Caroline!
— Tchau, meninas! Boa aula. — Acenou de volta enquanto as duas saiam de casa.
Era uma manhã fria, por ser muito cedo o céu ainda não havia clareado completamente e a neblina tomava conta do bairro, ao menos era um indício de que faria calor durante a tarde, May gostava do calor.
O chão estava levemente molhado por conta da garoa da madrugada e o clima era gélido. May agradeceu sua mãe mentalmente, a atenção e zelo que ela tinha aos detalhes era incomparável e a morena admirava isso.
— Você sabe quanto tempo fiquei te esperando? — A ruiva quebra o silêncio com uma pergunta retórica. Seus braços cruzando automaticamente assim que as duas pisaram fora da casa da morena, estava nitidamente estressada.
— Não faço ideia. — Admitiu, virando o rosto na direção oposta do de Misty, podia jurar que tinha visto uma veia saltar na cabeça da amiga. Infelizmente, Misty não possuía a chamada paciência.
— Hoje é o primeiro dia de aula após recesso, era mesmo necessário eu te avisar que você tinha que acordar cedo?
— Eu acordei cedo. — Pontuou, May. Embora não tenha respondido as mensagens da amiga, fez como foi pedido e não aceitaria ser criticada por algo que não teve culpa. — Só não entendi essa sua urgência de chegar na escola antes do próprio diretor.
Quando May recebeu diversas mensagens da ruiva durante a madrugada entendeu que deveria colocar um despertador, mas seu cérebro não foi capaz de interpretar a mensagem que o texto trazia, tinha acabado de acordar, exigir interpretação de texto de alguém que acabou de acordar é desumano.
Durante as manhãs sua indisposição atingia seu ápice e, dificilmente, a garota tinha alguma estamina de sobra para ser queimada. Por este motivo, quando foi acordada naquela madrugada pela amiga, pedindo desesperadamente para que fossem para escola, acabou concordando no calor do momento, sem ter ideia alguma de que ela estava falando sério sobre passar em sua casa às 5h.
— Bom dia! — Misty saudou animadamente, trazendo a outra de volta à realidade. May, que estava alheia vagando em pensamentos, não havia notado que já estavam de frente aos seguranças que guardavam a entrada do colégio. Por morarem perto, poucos minutos separavam a casa das garotas do lugar.
— Bom dia. — Complementou a saudação da amiga em seguida, forçando um sorriso curto e discreto no rosto ainda inchado devido ao sono. Talvez o frio daquela manhã a estivesse afetando mais que o esperado.
— Bom dia! — Ambos os seguranças responderam com um sorriso simpático. Após as garotas apresentarem suas carteirinhas de identidade, eles abriram o portão automático que dava acesso ao colégio. May sempre se perguntou como algumas pessoas eram capazes de expressar em suas faces rostos tão receptivos e gentis pela manhã, pra ela algo assim era um sonho distante, e o mesmo valia para sua amiga que, há poucos minutos atrás, estava com um semblante muito diferente daquele sorriso meigo que esboçou aos trabalhadores.
— Então, o que viemos fazer aqui mesmo? — Perguntou, caminhando poucos passos atrás da amiga. Recolhendo, em seguida, as mãos para dentro das mangas de seu agasalho, podia jurar ter sentido uma brisa fria ao redor e estava tentando ao máximo fingir que não era pura energia negativa emanando da ruiva à sua frente.
— Se tivesse lido minhas mensagens saberia. — Reclamou, franzindo a testa irritada mas, após um longo suspiro, continuou — A direção me pediu uma pauta do que será discursado no primeiro e segundo período de aulas hoje.
— Discursado? — Indagou, May. Seu olhar confuso foi recebido por um aceno negativo da amiga. — Mas que discurso é esse?
— De introdução aos novos alunos, parece que teremos muitos transferidos neste segundo semestre — Respondeu desanimada. Ambas sabiam que a introdução, do ponto de vista da diretoria, desta escola era a história dela desde que a escritura do prédio foi emitida, ou seja, não é possível redigir uma pauta de um discurso que nem chegou a ser pensado.
— Esse velho surtou! — Exclamou, talvez alto o suficiente pra alguém que estivesse a poucos km a ouvisse. Estava incrédula, o descaso da direção sempre foi algo bastante discutido entre o pessoal do conselho, eram indiferentes quanto a todos os problemas pois os jogavam sempre para o conselho estudantil. — A biblioteca está aberta?
— Não precisamos ir até lá. — Aliviou a ruiva, tirando do bolso de sua saia um molho de chaves, segurando uma dentre elas e chacoalhando em frente à morena. — Até temos, mas no email dizia que teríamos acesso à todas as informações necessárias em alguns arquivos deixados na sala do conselho estudantil.
— Se eles já separaram, menos mal. — Respondeu aliviada, embora ainda estivesse indignada e com o semblante pouco agradável.
— De qualquer forma, temos que nos apressar. — Misty desconversou, voltando a caminhar sendo seguida pela outra que ainda bufava em negação.
Mesmo frustrada com a decisão da amiga, May a seguiu sem mais questionamentos. Embora a ideia de que com toda certeza não escaparia sem levar um bom sermão se fosse ela a pessoa a meter um b.o desses na mão da amiga a incomodasse, ao mesmo tempo sabia que Misty Waterflower é a pessoa mais responsável que conheceu em todos os seus 16 anos de vida, sendo assim ela jamais deixaria de aceitar um pedido de seus superiores, não recusaria nem se não fosse a presidente do conselho estudantil, mesmo que muito peso recaia sobre seus ombros.
— Fico com as gavetas, você olha as estantes. — Comanda a ruiva logo após destrancar a sala do conselho e dar espaço para que May passe entre ela e a porta. Agora já dentro, observa, cautelosamente, a sala do conselho estudantil. Após vagar com o olhar por alguns segundos, a morena confirmou que aparentemente estava da mesma maneira que haviam deixado antes do recesso, não que May fosse a melhor pessoa para afirmar qualquer coisa, eram raras as vezes que entrava naquela sala.
Misty caminha pela sala, passando ao lado de May, que ainda estava estagnada próximo à entrada, e se direcionando à imensa mesa de reuniões que ocupava boa parte do centro da sala, no entanto essa ocupação não parecia interferir ou reduzir o tamanho da sala ao todo, esta possuía uma planta privilegiada com uma área, de certa forma, pouco mais avantajada que a dos demais.
— Pensei que eles já tivessem separado a papelada. — Indagou a morena, caminhando até as estantes no canto interior direito do lugar, haviam diversos documentos e livros naquela parte, era como uma biblioteca particular do conselho, uma biblioteca monótona repleta de livros de referência, artigos de pesquisa e, claro, documentos essenciais do corpo estudantil. Sua testa enrugou em desgosto só de imaginar que teria que ler aquilo tudo.
— Eu disse que eles disseram que tudo que precisaríamos estaria aqui, não que mastigaram e cuspiram tudo bonitinho aqui pra gente. — Misty respondeu, seu tom não era ríspido, muito menos arrogante, era apenas um diálogo comum entre as amigas, por mais que May não pudesse evitar de revirar os olhos toda vez. — Procure por discursos antigos do diretor, escrituras e jornais de, no mínimo, 10 anos atrás.
Os olhos da morena passavam por diversas pastas na estante nomeada de igual nome, dedilhava pastas etiquetadas como; “Relatório mensal cantina” à pastas etiquetadas com “Relatos Monitor Disciplinar”, esta última capturou o interesse da garota.
“Dia 23 de Abril de 2018
Aluno: Paul Shinji.
Advertência: Porte de bebida alcoólica.
Aluno encontrado cabulando aula atrás da escola, próximo à quadra de futebol americano. Embora tenha sido advertido por um de nossos monitores, Kenny Kengo, ele não deu ouvidos e permaneceu no local. Essa já é a terceira advertência do rapaz. ”
May não pôde evitar de sorrir antes de devolver o arquivo com os relatórios de volta para a pasta. Paul Shinji faz parte do grupo de amigos de Ma e a mesma não estranhou quando leu o nome do mesmo em, não somente um, mas sim diversos relatos daquela pasta, alguns ocorreram até mesmo no mesmo dia, duas ou três vezes seguidas. Após vasculhar mais um pouco os tais documentos e não encontrar rastro algum do que sua amiga pediu, voltou, frustrada, sua atenção para a ruiva que permanecia na mesa de reunião, no entanto agora havia se formado uma imensa pilha de papéis na mesa.
— Misty, encontrou algo? — A morena questiona, mas a ruiva a ignora, focando nos papéis que tinha à sua frente. — Misty?
Num suspiro longo, a morena volta a vasculhar as estantes, agarrando alguns jornais que aparentavam ser velhos, embora conservados, o tempo havia feito seu trabalho envelhecendo o papel. Após dedilhar algumas folhas, e quase morrer intoxicada com poeira no processo, confirmou que havia dados essenciais naquela papelada.
— Misty, acho que isso aqui é útil. — Tenta novamente se comunicar com a amiga, sem sucesso.
— Se você lesse teria certeza do que é ou não é útil. — Responde, sem deixar de fazer o que estava fazendo, sequer havia levantado o olhar até a morena que ainda se encontrava erguendo o jornal, aberto na página que Misty tanto precisava.
— Se queria um integrante mais eficiente ou ágil, poderia ter chamado o Kenny ou a Zoey. – A morena resmungou, alto o suficiente para que a amiga a ouvisse e a encarasse feio. Não estava fazendo de má vontade, sequer pensaria em reclamar se Misty pelo menos a tivesse olhado, mas a única coisa que recebeu desde o momento que se encontrou com a amiga naquela manhã foi ingratidão, óbvio que estava frustrada.
30 minutos depois..
— Terminei! – Misty exclamou alongando os braços, os esticando para cima e ignorando, novamente, o que a amiga havia dito. May joga os jornais na frente da ruiva, fazendo com que ela enfim notasse o que tentava dizer há alguns bons minutos. Os olhos de Misty revezaram entre olhar os jornais e fitar o rosto emburrado da morena, por poucos segundos uma expressão culpada se fez presente em seu rosto, mas fez questão de apagá-la e substituir pela de esforço enquanto tentava se manter em pé carregando uma pilha de arquivos que chegava a ultrapassar o seu tamanho.
— Deixa que eu carrego.
— Não precisa, eu consigo. — Contra-argumentou, mas May não pareceu dar muita atenção ao que ela dizia, agarrando pouco mais da metade da papelada das mãos da ruiva. Misty pôde sentir o peso em seus braços diminuir, tinha que admitir que estava aliviada. — Desculpa.. e obrigada.
— Você não vai usar isso tudo no discurso, vai? — Questiona May, enquanto aguardava a ruiva abrir a porta da sala.
— Todos eles têm informações valiosas. — Respondeu, sem tirar a atenção da fechadura, se tivesse encarado May teria visto a expressão horrorizada que havia se formado em seu rosto. — Se tiver oportunidade, usarei.
— Eu vim aqui só para servir de apoio ou eu tenho alguma outra finalidade? — A morena questionou, curiosamente. Estava se segurando para perguntar aquilo desde que colocou os pés dentro daquela sala, Misty era uma pessoa extremamente proativa e eficiente, não precisaria de May para reunir papéis. Por mais que tivesse perguntado, não se surpreenderia se a resposta para aquela pergunta fosse realmente a sugestão que havia acabado de dar, Misty conseguiria ser o demônio se assim quisesse.
— Uma ótima pergunta, senhorita vice-presidente do conselho estudantil! — Um sorriso esboçou na boca da Waterflower e com ele um arrepio subiu a espinha da Maple, May pôde jurar que era mau presságio e, ainda que temerosa, soltou um longo suspiro e deu sinal para que a amiga continuasse. – Pode ficar tranquila, a papelada toda vai ficar comigo.
— Certo, mas? — Questiona, sem esperanças. Claro que detestava lidar com a papelada, no entanto mantinha-se cautelosa quanto ao que viria a seguir, afinal os calafrios não haviam sumido, muito pelo contrário só aumentavam.
— Tem um novato nesse início de semestre — Hesitou, ao parar de caminhar e começar a coçar nervosamente uma das bochechas com seu indicador, Misty podia ser o mais bruta possível na escolha de palavras, mas quando se tratava de pedir coisas que sabia que seria desgradável aos amigos sempre se sentia encurralada. Logo, May arqueia uma das sobrancelhas, desconfiada. — Filho do diretor, preciso que você seja a mentora dele para tudo que ele precisar nesse início de semestre.
May Maple tem fobia de conhecer gente nova e Misty sabia muito bem disso ao sugerir tal tarefa, não que a morena fosse antissocial ou que não conseguisse socializar com as pessoas, muito pelo contrário as pessoas sempre simpatizavam muito facilmente com ela, sendo esse um dos principais motivos pelo qual se tornou vice-presidente do conselho estudantil. May nunca soube o que é puxar o assunto com alguém e, na realidade, nunca procurou saber por não ter interesse algum em conhecer pessoas, apenas era algo que acontecia naturalmente, as pessoas que a conhecem ficam e é assim que seu círculo de amizade vinha se formando durante todos esses anos.
— Francamente.. — A morena resmunga, cruzando os braços abaixo de seu peito e fechando os olhos por alguns segundos, finalmente os abrindo juntamente de um meio sorriso compreensivo. — Mas você tem que me garantir que não vou olhar para nenhum papel do conselho estudantil por um bom tempo.
— Sobre isso. — A outra riu, agarrando algo no topo da pilha de papéis. — Essa é a ficha dele.
— Eu tenho que ler? — Brincou preguiçosamente, o olhar pedindo a Misty por piedade. Os olhos contradiziam a ação da morena que agarrou a prancheta com os dados do aluno.
— Se quiser identificar ele, sim. — Respondeu, indiferente. Riu ao ver o olhar de desgosto da amiga, estava pedindo um favor, Misty! Não seja tão careta. — Ele é bonitinho, May. Você vai gostar!
— E desde quando eu me importo com isso? – Questionou, deixando ainda mais aparente sua careta, parando em frente à porta da sala de aula das duas, aguardando novamente que Misty fizesse seu trabalho de destrancar a porta. — Quando ele chega?
— Hoje. — Respondeu, girando a maçaneta e deixando a amiga travada do lado de fora, sem muito se importar dirigiu-se até sua mesa no fundo da sala.
— Você não está brincando, né? — Pergunta, embora fosse em um tom cômico ainda existia esperança naquela pergunta, a última esperança de May residia, oculta, naquela pergunta. Seus passos robóticos levaram-na até a mesa da amiga, um surto interno havia se instalado na cabeça da morena assim que soltou os documentos em cima da mesa de Misty.
— De maneira alguma. — Retrucou, sorrindo
— Eu te odeio do fundo do meu coração. — Declarou, sentando-se na mesa em frente à de Misty. Era óbvio que ele chegaria hoje, mas a confirmação só fez com que ela afirmasse que não teria tempo suficiente para criar um diálogo e treinar tal qual num seminário onde executaria perfeitamente todas as etapas, garantindo uma boa apresentação.
— Não pense demais, idiota. — A Waterflower da um pequeno cascudo na testa da amiga, como um charme de boa sorte.
Atualmente
— Você é maluca?! — O esverdeado gritou, agarrando a dobra do colarinho numa tentativa de anular a força que a garota estava usando para enforcá-lo.
Alguns jovens ao redor começaram um burburinho ao verem a cena, comentários divertidos e zombeteiros sobre como aquele rapaz estava "ferrado" por arranjar problema com a vice do conselho, ou de calouros que espiavam curiosamente a beleza dos alunos que discutiam em frente ao prédio principal de seu novo colégio eram os tópicos principais.
Era inegável a beleza e a harmonia que aquele casal proporciona ao olhar, sequer sobrava holofote para a hostilidade que emanava entre eles, embora fosse a única coisa que sentiam um pelo outro naquele momento.
— Andrew Hayden! É você, não é? — Reafirmou, largando o colarinho do garoto e estendendo a prancheta em frente ao rosto do mesmo. Este a encarou confuso, ainda que o olhar furioso estivesse mais presente do que nunca naquele rosto ambíguo. Demorou pouco para que voltasse a sua postura padrão, havia se curvado, forçadamente, para casar sua altura com a de May quando o havia agarrado.
— Stalker? — Andrew cogitou, mantendo uma de suas sobrancelhas arqueada enquanto a olhava com um ar de superioridade.
— Você só pode estar de brincadeira. — May murmura, quase de forma inaudível, usando daquilo um freio pra todos os xingamentos que se passava em sua cabeça. Jamais imaginaria que a arrogância e ego existissem perfeitamente personificados em uma só pessoa e que, em algum momento, o destino colocaria essa pessoa em sua frente, tal qual um teste de racionalidade. Novamente, reuniu toda sua paciência e decência para formular uma nova frase. — Vou supor que é você, não existem muitas pessoas com cabelos verdes por aqui. Eu sou May Maple, vice-presidente do conselho estudantil e pessoa responsável por você durante suas primeiras semanas por aqui.
— Meu pai me deixou uma babá? — Indagou, apático.
— Não acho que seja uma criança precisando de cuidados. — May hesitou em respondê-lo, descrente de que o rapaz realmente cogitou a possibilidade de que ela aceitaria tamanha humilhação. — Somente o auxiliarei no que for essencial.
— Nesse caso, dispenso. — O esverdeado revirou seus olhos cor de jade, rindo com o canto dos lábios.
Novamente May Maple sentiu suas bochechas ferverem, estava furiosa. Não o conhecia, nem sentia vontade de conhecer, mas a sua maior certeza naquele momento era a de que com certeza se voluntariaria para esfregar a cabeça do garoto no asfalto. Mas, claro, May é uma pessoa calma e racional e tal situação só ocorreria em sua cabeça.
— Se você não quiser ter esse cabelo raspado da mesma forma que capinam a grama dessa escola, eu sugiro que você repense essa sua recusa. — Disse, impaciente. Agarrando, dessa vez, a gravata do rapaz e forçando a aproximação dos rostos dos dois, seu olhar hostil brigava com o do rapaz que por sua vez, estava amedrontado.
Fale com o autor