Ela estava demorando muito para responder, já tinham se passado umas duas horas desde a mensagem que mandei. Será que ela me ignorou? Não posso mandar outra mensagem, ficaria ridículo pra minha cara. Tenho que ter um pouco de dignidade. Já perdi toda ela ontem bêbada, não faço ideia de como irei recuperá-la. Talvez eu deva mandar uma mensagem só me identificando depois do “olá”, falando algo do tipo “sou Alana, aquela que você atropelou, lembra de mim?”. Comecei a roer a unha de ansiedade e decidi deixar tudo do jeito que estava. Reparei que tinha deixado passar o documentário que eu estava assistindo no netflix, passou uns 10 minutos e eu nem percebi.

— Droga! — expressei minha frustração ao vento.

Tive que voltar boa parte do filme por pura desatenção. To me sentindo uma adolescente por estar ansiosa por uma resposta. Melhor eu ir terminar de pintar o que deixei inacabado. Meti o celular no bolso e fui andando para um pequeno quartinho do apartamento, supostamente era pra ser um quarto de hospedes, mas eu uso para pintar e guardar tranqueiras. Me sentei no banquinho em frente ao cavalete com um quadro meu inacabado de uma moça nua de costas, só aparecia metade do rosto dela como se ela estivesse sendo chamada por alguém e estivesse olhando para esse alguém. Peguei a palheta e no automático decidi pintar o cabelo da moça de um negro bem escuro. A cor do cabelo era algo que me deixava sempre em duvida, eu ficava tentando escolher, mas nada me parecia ser bom o bastante, até agora... Foi um instinto, só misturei as tintas até conseguir a tonalidade de preto que pretendia e fui pintando e aplicando com delicadeza o tom no cabelo dela e aos poucos ela foi ganhando uma identidade. O cabelo, os olhos, o formato da boca, todas essas sutilidades do rosto são o que compõe a identidade de uma pessoa, mesmo que essa pessoa seja apenas de uma pintura. Meu bolso tremeu do nada e eu tomei um sustinho, mas logo o susto se transformou em um sorriso.

— Oi! Como você tá? Melhor da bebedeira? – Limpei minha mão em uma flanela pra poder digitar uma resposta.

— Sim bem melhor, mas acordei morta e confusa, muito confusa mesmo.

— Confusa com o que?

— Em como eu fui parar na cama.

— Você não lembra? – ela mandou um emoji rindo – Imaginei que você não fosse lembrar.

— Lembrar o que?

— Você acabou dormindo deitada no meu colo e eu te deixei ficar lá por um tempo, depois eu te acordei gentilmente e você meio sonambula foi andando pra cama, falando coisas sem sentido.

— Eu acordei sem entender nada, pensei que ia acordar e te ver.

— Não posso dormir fora assim sem avisar, eu moro com minha mãe ela me mataria se eu dormisse sem permissão.

— Mas e a porta? Como você fechou a porta se a chave estava dentro de casa?

— Te botei na cama, coloquei a chave que você deixou cair no banco do taxi e coloquei na mesinha do lado da porta, achei que era a coisa mais logica a se fazer – ela começou a digitar outra mensagem – quando cheguei lá embaixo pedi pro porteiro fechar sua porta pra você não dormir com ela aberta.

— Eu acordei e não te achei, depois tentei abrir a porta e estava trancada, cheguei a pensar que você tinha me trancado pra dentro, mas eu vi a chave na mesinha.

— E não entendeu o que eu fiz? Ou só perguntou pra confirmar?

— Eu não entendi! Pensei que você realmente fosse sonho, achei que eu estava ficando louca.

Mais vários emojis de risada.

— Não sou de sonho e posso provar, quer sair comigo amanhã? Pra tomar um café?

— Amanhã ainda é quarta e eu to atolada de serviço pra amanhã devido a ressaca de hoje, mas podemos marcar pra sexta.

— Eu conheço uns restaurantes e cafés ótimos, você não tem noção do tanto de cozinheiro que anda por grafitando muro nas horas vagas e surfando no asfalto.

— Não tenho noção mesmo, não faço a menor ideia.

— E não vá pensando que estou te convidando apenas para tomar um café, você tem uma divida comigo e precisa pagar.

Nossa, o pagamento em beijos, já tinha até me esquecido disso. Onde eu tava com a cabeça ontem? Apesar de eu querer muito beijar ela o máximo que eu pudesse eu nunca teria dito esse tipo de coisa em uma situação normal. O ponto positivo é que não sendo do meu jeito recatado finalmente eu consegui conhecer uma pessoa legal. Coisa que usando meses de aplicativo eu não consegui.

— A gente acerta essa divida direitinho na sexta, depois que eu tiver trabalhado e possuir condições de te pagar.

— Você não precisa trabalhar pra me pagar essa divida e não vai esquecendo que eu sei onde você mora, qualquer coisa bato ai na sua porta pra cobrar a divida.

— Linda do jeito que você é podia ser até testemunha de jeová que eu abriria a porta.

Mais emojis rindo.

— Bom, eu vou pra rua andar de long já que eu sou vagabunda e não trabalho, um beijo a gente se fala amanhã e se vê sexta.

— Boa noite, vê se não atropela ninguém.

— Já atropelei a pessoa perfeita.

Eu fiquei sem o que responder, não queria debater com May o quão perfeita eu não era. Sorte minha que logo em seguida o “online” desapareceu e eu fui terminar de ver o documentário sobre segunda guerra mundial. Historia sempre me encantou e só de imaginar que meu avô que ainda está vivo e com seus 80 e poucos anos, fez parte dessa historia, esteve em campo, viu pessoas sangrarem, pessoas morrerem e tirou a vida de algumas delas, só de imaginar isso me faz criar admiração pelo que meu avô se dispôs a fazer para acabar com as atrocidades nazistas. Cresci ouvindo muitas historias da guerra, claro que quando eu era pequena eram historias mais lúdicas, como se a guerra fosse algo honroso e bonito. Quanto mais eu fui amadurecendo mais ele foi expondo a face negra da guerra e ele costumava dizer algo como “nenhum ser humano deveria lutar em uma guerra, quando você está na guerra e mata alguém, aquele pode ser o filho de alguém, marido de alguém, pode ser alguém que ia contribuir para humanidade de maneira positiva, mas a historia dele acabou ali, acaba quando um pedaço de metal perfura o corpo dele, com a justificativa de um patriotismo, e que todos da outra nação são nossas inimigas, pela ação cruel de seu líder que é um ditador, apenas porque ele nasceu em um país e eu em outro e esses países decidiram entrar em guerra nós vamos entrar em batalha e tentar matar um ao outro, em outra situação, em um ambiente mais agradável, se nós estivéssemos na frança a passeio, poderíamos nos tornar amigos, mas como as pessoas nos jogam em um campo e dizem que nós devemos nos matar, pelo nosso país e contra o nosso grande inimigo a gente simplesmente mata, na guerra nenhum cérebro pensa, só executamos ordens”. Acho que ele pensa muito nisso porque perdeu os três irmãos na guerra e foi o único que voltou vivo. Foi a guerra que tirou os irmãos dele. Apesar disso tudo, da dor de perder três irmãos, ele continuou no exercito e tentou almejar cada vez postos mais altos porque ele tinha mais de uma família pra cuidar quando seus irmão se foram. Apesar de não ter mais contato com minha família, eu sei o lado bom de cada um deles. Nenhum deles é um vilão, eles só estão presos na convicção que sempre foram ensinador de que ser gay não é correto. Pelo menos meus avós que são mais velhos acreditam nisso. Meu pai e minha mãe não, eles cresceram em um ambiente moderno, cresceram com mentes pensantes, não consideram gay algo errado, mas também sabem qual é a opinião da maioria da igreja e não querem perder o status. Eles esqueceram o caráter e a ética no meio do monte de dinheiro que eles fazem anualmente na igreja. Eles não vão abrir mão da mordomia para me aceitar. Na verdade eu me afasto porque não duvido que, no momento que for conveniente me denegrir para pregar a palavra eles vão me usar como um mal exemplo. Eu nem ao menos lavo a tinta do meu corpo, só deito o corpo na cama, fecho meus olhos e durmo.

Notas finais
Minhas aulas na faculdade começaram e agora eu to com tempo apertado para escrever. Mesmo assim vou tentar postar um capítulo por semana. Espero que vocês entendam que qualquer atraso não é por má vontade. Vontade eu tenho, o que não tenho é tempo pra conciliar tudo. Comentem que isso sempre me da um gás a mais para escrever.