Acasos
6 Capítulo 6
Apoiei as duas mãos no peito dele, o empurrei com tudo e dei um passo pra trás. Imediatamente senti meu corpo ir mais para trás do que deveria ir. Puta que pariu! Pisei em falso! Achei que ainda tinha calçada atrás de mim, só que não tinha. Meu pé já estava em cima do meio-fio, não tinha mais calçada atrás de mim... Tentei me manter de pé, mas quando meu pé bateu no asfalto meu tornozelo torceu. Repentinamente senti uma porrada na lateral do meu braço e depois tudo girou e meu corpo bateu com tudo no chão. Cai com o rosto para baixo quase beijando o asfalto. Minha cabeça não parava de rodar, fechei meus olhos com força tentando fazer a sensação passar. Sem conseguir ver nada eu só sentia o chão frio do asfalto na minha pele e gemia de dor. Tentei levantar e senti minha cabeça rodar mais ainda. Então só joguei o corpo pro lado de maneira que meu rosto ficasse virado para cima. Mantive os olhos fechados e fiquei parada por alguns segundos esperando a sensação de que tudo estava rodando passar, respirei lentamente. Conseguia ouvir as pessoas a minha volta e ouvia um gemido que não era meu. Virei o rosto paro lado, no sentido do gemido, abri os olhos e tinha uma garota caída ao meu lado com o longboard tombado bem perto do seu corpo. Ela começou a se levantar e a se limpar no mesmo momento que a mãos de alguns desconhecidos me ajudaram a sair do chão.
— Você ta bem? – perguntou outra garota com um long pequeno embaixo do braço que ela colocou no chão – Você apareceu do nada na nossa frente. – Ela tinha o cabelo ondulado e cheio.
Tentei esclarecer os pensamentos. E cheguei a conclusão que a porrada que eu senti foi porque eu fui atropelada pela outra garota de longboard, a que também estava caída. Percebi que eu estava tremendo de nervoso.
— Não foi minha culpa... Eu, eu... Eu... – Olhei em volta meio atordoada e só vi a cara do babaca, apontei para o idiota que tentou me beijar a força. – Eu tava fugindo desse idiota que... Que... – Comecei a gaguejar e minha respiração estava acelerada e a fala acelerada e alta. – Esse idiota! Que tentou me beijar a força, eu só tava fugindo desse idiota. E... E... Ai eu pisei em falso, torci meu pé. – Eu olhava fixamente pra garota do cabelo enrolado, a minha falava atropelava meus pensamentos. – E... Então...
— Calma! Calma, não estamos te culp... – Atropelei a fala da garota do cabelo ondulado com minha gagueira nervosa.
Procurei pela garota que me atropelou e quando bati o olho nela continuei a falar de maneira nervosa.
— E então veio essa garota bonita pra caralho! E pá! Me atropelou... Eu nem vi nada! Só senti! – Parei de apontar pra garota e levantei as mãos para o alto. – Eu não fiz nada!
A garota do cabelo ondulado e suas pontas californianas olhou para a outra que estava com um gorro, elas começaram a rir uma pra outra. A do gorro pareceu envergonhada e não disse nada.
— Calma. – Ela falou entre risos. – Senta aqui no meio fio pra gente ver se você ta bem.
O que eu acabei de dizer?! Como eu sou retardada! Foi automático. Quando eu vi já tinha saído.
— Não! Não precisa! To bem! Tenho que achar o idiota do meu amigo.
O ambiente estava barulhento. Muita gente falando e gritando ao mesmo tempo. E ainda tinha os carros que passavam buzinando pra ajudar no caos. Isso me deixou mais perdida do que eu já estava. Parei de falar com a garota do cabelo ondulado e me virei para onde o idiota que tentou me beijar a força estava, meu copo de bebida caído no chão bem próximo. Eu queria ir atrás do Gabriel pra ir embora. Primeiro Gabriel foi atropelado, agora eu. Isso deve ser um sinal! De repente me dei conta do que estava acontecendo onde o babaca estava. Era uma briga Gabriel x Babaca. O Gabriel segurou o babaca em uma gravata por trás e estava enforcando o cara. Um cara que estava ao lado da do cabelo ondulado correu pra tentar apaziguar a briga. E eu tentei fazer o mesmo, mas foi só dar um passo e eu cai ajoelhada no chão. Com o tornozelo direito doendo bastante.
— Vem aqui. – A garota do gorro passou o braço por trás da minhas costas e me ajudou a levantar. – Você ta bem?
— Não! Eu tenho que ajudar meu amigo. – Meus olhos encheram de lagrimas.
— Calma. Mulher não tem que se meter em briga de homem, eles tão bêbados e com adrenalina no corpo, eles saem batendo sem ver no que tão batendo. Você pode acabar se machucando mais ainda.
Ela me levou pra um banco de pedra que tinha na calçada um pouco afastado da briga. Mesmo assim eu conseguia ver a briga e as pessoas em volta olhando assustadas e alguns caras estavam tentando parar a briga só que os dois pareciam dois bichos.
— Como essa briga começou? Não era pra ele ta brigando... Ele foi atropelado por um carro hoje.
— Ele foi atropelado por um carro hoje? É alguma brincadeira de amigos? Isso de ser atropelados e tal.
Parei de olhar pra briga e olhei pra ela.
— Não! Claro que não! Foi um acidente, me desculpa.
— Não precisa se desculpar por ter sido atropelada. Na verdade se alguém aqui tem que pedir desculpas sou eu por te atropelar.
— Não... Eu que tenho que te pedir desculpas! Pelo que eu disse e pela minha reação é que... To assustada!
— É sério, se acalma. Não precisa se desculpar... Eu não me incomodei, não é todo dia que sou elogiada por uma vítima de atropelamento meu, normalmente eu sou xingada.
— Não foi sua culpa, não tem porque eu te xingar. Foi um acidente, causado por um babaca! Aff! Que babaca! O que esse tipo de pessoa que beija os outros a força tem na cabeça? – Bufei de raiva.
— Você é engraçada.
— Não sou, só to bêbada, eu sou bem chata. – Olhei novamente pra briga e eles estavam sendo segurados por dois caras, o Gabriel gritava e xingava o cara. – Caralho, como essa porra de briga começou? Desculpa! To xingando muito.
— Essa porra de briga começou quando te levantaram e você começou a falar muito... Muito rápido e apontar dedos para as pessoas assim. – Ela me imitou falando super rápido e apontando. – Esse idiota! – Ela fez um imitação bem mal feita da minha voz.
— É que eu tava nervosa! – Escondi o rosto com as mãos.
Ela começou a rir estridentemente.
— Então quando você apontou pro cara, o cara já começou a falar “ela me deu moral” esse cabeludo seu amigo tava bem atrás dele, você não viu?
— Não vi... E nem ouvi o babaca falando isso... Onde que eu dei moral pra ele? Ele é maluco, eu só ri e sai andando... – Será que ele achou que a risada era eu dando moral? Não nasci com sorte nenhuma. – Ele deve ter achado que eu rindo era porque eu dei moral, mas é eu ri porque to bêbada e eu fico rindo atoa e aquilo foi ridículo eu achei que era uma piada... Nem de homem eu gosto, como eu vou dar moral pra ele?
— É que homens tem esse pensamento idiota que mulher “se faz de difícil”.
Parei por alguns momentos pra reparar nela embaixo do gorro tinha um cabelo longo castanho e meio bagunçadinho. A calça dela estava rasgada, será que foi pelo tombo? Seu rosto tinha traços bem femininos apesar do estilo meio despojado e nada feminino, estilo de quem anda de skate, long... Ela tem uma boca linda, os olhos são castanhos e ela ta sorrindo.
— Que foi?
— Que foi o que? – Perguntei confusa.
— Você ta me encarando a um tempinho.
— Perdão... – Fitei o chão sem jeito.
— Você nem me falou seu nome.
— Alana.
— Meu nome é Mayra, mas pode me chamar de May todos me chamam assim.
Não tirei os olhos da boca dela enquanto ela falava, ela passou a língua na boca de um jeito antes de começar a falar que foi bem sensual, não vou mentir.
— E você vem sempre aqui, May?
— Isso é uma cantada?
— Talvez.
— Meus olhos estão aqui em cima. – Ela disse e a boca dela se abriu em um sorriso.
Ela se levantou e eu a olhei se afastando.
— Vem, levanta. Você ta claramente bêbada.
— Desculpa, mas eu não estou tão bêbada assim, ok? Me ajuda a levantar. – Estiquei as duas mão para ela me puxar.
Quando ela me puxou eu fiz questão de deixar meu corpo cair em cima do dela e o nosso rosto ficou um bem próximo do outro. Eu a olhava nos olhos. Esperando um sinal. Qualquer coisa que significasse que ela não era hétero e que ela queria me beijar tanto quanto eu queria beijá-la. Ela continuo no mesmo lugar, não se afastou e eu considerei isso como um sinal verde. Em um segundo meus lábios já estavam no dela e nossos corpos já estavam colados. Eu podia sentir o volume do peito dela. Ela tinha um beijo calmo e eu só mergulhava nos lábios dela enquanto um braço dela me abraçava e me dava estabilidade. Passei a mão pela bunda dela e ela meio que deu um pulo de surpresa e eu cai no riso.
— Você é bem safada, Alana.
— Você pra uma atropeladora é bem linda e beija muito bem... – Não lembro o nome dela.
— May!
— May! Você vai continuar aqui? Bebendo aqui no carro?
— Eu não estou bebendo no carro, a gente tava indo pra praça que tem no final da rua ficar por lá um pouco antes de ir embora.
— Onde estão seus amigos? – Ela olhou por cima do meu ombro.
— Neste exato momento eles estão falando com a policia que ta colocando seu amigo e o outro cara no carro.
— Hã?
— É... Olha lá.
Quando ela falou isso eu já tinha virado de costas e ido pulando feito um saci para onde o Gabriel tava sendo colocado dentro do carro da policia.
— Espera ai! – Ela me alcançou e me deu um apoio.
— Seu guarda! – Eu gritei. – Por favor! Não prende meu amigo não. Ele... Ele... Precisa me levar no hospital eu quebrei o pé. – Me joguei em cima do guarda e segurei a farda dele.
— É melhor a senhora se afastar se não eu vou levar você pra delegacia também.
— Por favor, não prende ele não. – Comecei a chorar. – Ele só brigou pra me defender o outro cara tentou me agarrar a força, policial.
— Eles não vão ser presos, nós tivemos que usar arma de choque neles para acalmar a briga, eles vão pra delegacia prestar esclarecimento por causa da briga, depois vão ser encaminhados cada um para suas casas. Não precisa se preocupar e não adianta a senhora agarrar meu uniforme que isso não vai ajudar em nada, posso até levar a senhora presa. Não precisamos fazer isso, precisamos?
— Não, perdão. – Soltei ele e voltei a me apoiar na May.
— Caso a senhora queira a gente pode ligar pra ambulância por causa do seu pé que quebrou e eles chegaram aqui em poucos minutos.
— Não precisa, ela exagerou... Sabe como é o álcool, o pé não ta quebrado foi só uma torcida de leve, mas ela vai sobreviver.
— Então bom dia para as senhoras.
O policial entrou na viatura com os dois algemados no banco de trás, só vi o olhar do Gabriel um pouco antes do carro sair andando. Ele estava com uma cara de acabado. Me sentei no meio fio e passei a mão na cabeça. E agora o que eu faço?
— Moça... me da alguma coisa pra beber ai, pode ser forte. – Me virei para a moça do carro de bebidas.
— Que isso? Você não acha que bebeu o suficiente? Vamos, eu vou te colocar em um táxi. – Ela virou para os amigos dela. – Igor, vai na frente com a Helen, eu encontro com vocês lá na praça, só vou por ela em um táxi.
Eles nem falaram nada já foram andando na frente. Ignorei o que ela falou sobre eu “ter bebido o suficiente” as pessoas não bebem pra esquecer os problemas? É isso que eu vou fazer. Peguei um copinho com uma bebida dourada e virei. Tentei ignorar como desceu ardendo e como minhas papilas gustativas gritaram por socorro.
— Mais uma, por favor.
A moça encheu e eu virei. Argh! Que forte. Paguei a moça e segui mancando em frente.
— Onde você ta indo? – May se apressou e ficou bem do meu lado. – Você ta louca?
— Não, eu não to louca, nem um pouco. Só quero ir me divertir, caralho! O idiota do Gabriel me trouxe aqui, sendo que eu só queria ficar em casa. Ele disse que ia ser divertido que eu precisava sair e curtir e nada de bom aconteceu. – Desembestei a falar. – A não ser você é claro, mas fora isso... Nada. Tudo isso começou quando ele foi lá dar em cima das meninas, maldita hora que ele viu essas meninas e a gente saiu daquele boteco horrível! O boteco era muito horrível, aquilo era um pé sujo! E... Onde eu tava?
— Dar em cima das meninas.
— Aé... Isso mesmo! Aquele idiota foi dar em cima das meninas e a gente veio parar aqui, se as meninas não tivessem passado lá, a gente... Eu! Eu! Não estaria nesse estado, olha meu pé! – Apoiei no ombro dela e comecei a chorar.
— Pensa pelo lado positivo, se não fosse as garotas, você não teria sido atropelada por uma garota tão bem apresentável como eu.
Ela levantou meu rosto, secou minhas lagrimas e ficou me olhando.
— Eu queria te beijar, mas você ta bêbada em um grau eu não me parece correto, acho que você nem vai lembrar.
Coloquei a mão na nuca dela e a beijei. Joguei-me naquele beijo, naquela boca. No momento. Meu corpo estava ficando quente.
— Quer ir pro meu apartamento comigo?
— Você ta bêbada, se você ta achando que vai rolar alguma coisa assim você ta bem errada.
— Não quero que role nada... Só uns beijos, um pouco de carinho e alguém pra me dar banho e cuidar do meu pé.
— Você ta me convidando pra ser sua babá?
— É... Vou te pagar com beijos.
— Você tem costume de levar pessoas totalmente desconhecidas que te atropelam na rua e você não lembra nem o nome para sua casa?
— Só as que são reeealmeeente bonitas, como você é.
— Não sou só um rostinho bonito.
— Por isso mesmo que estou te chamando, porque eu sinto que você não é só um rostinho bonito... Eu sou uma pessoa bem sensitiva. Eu sinto as coisas. Mas falando sérião pra você, eu não tenho costume de chamar pessoas pra minha casa, na verdade você é a primeira boca que eu beijo em meses. Meu deus não sei nem porque eu to dizendo isso.
— É... Você ta falando demais, vamos resolver isso.
Ela me beijou por um bom tempo, que lábios macios! Meu Deus se isso for um sonho de bêbada, não me acorda! Deixa eu aqui no mundo dos sonhos. Me deixa sonhar de boa no meu canto. Não faz eu acordar mais uma vez de um momento magico. Eu acho que já sofri bastante decepção me apaixonando por mulheres e elas serem fruto da minha imaginação, serem “mulheres dos sonhos” literalmente.
— Promete que você não é fruto da minha imaginação?
— Como assim?
— Que você não é parte de um sonho.
— Você quer que eu te belisque ou algo assim? – Parei pra pensar por um segundo.
— Não, melhor não. Vai que eu acordo né? Melhor não arriscar, se você for mulher de sonho quero sonhar com você mais umas horas.
— “Mulher de sonho” você é uma comédia. – Permaneci olhando nos olhos dela. – Vou chamar um táxi.
Fale com o autor