Acasos
18 Capítulo 18
Fiquei maravilhada olhando ela dançar.
— Deveria ser um crime! – Eu digo perto do ouvido da May.
— Eu sei, foda ver ela magoada, mas eu acho que ele fez um favor a ela, tudo era mais legal quando ela estava solteira e eram só eu, Igor e Helen. Então não chega a ser um crime.
— Não estou falando disso, estou falando de você dançando. – Ela ri.
— Se fosse crime eu não iria poder dançar pra você.
— É que algumas pessoas estão te olhando isso me deixa com um pouco incomodada.
— Ciúmes? – Nós estávamos bem próximas uma da outra, tipo intimamente próximas.
— Não, só fico pensando, se eles estão imaginando as mesmas coisas que eu estou, então eu não gosto deles.
— O que você tá imaginando? – Ela maliciou o que eu disse. – Alana, você tem essa cara de boa moça, de quietinha, mas é só conviver contigo, te dar umas bebidas e o seu verdadeiro eu aparece.
— Qual o meu verdadeiro eu?
— Essa pessoa, que imagina coisas sujas.
— Só te imaginei nua, não chega a ser sujo.
— É sujo! — Ela ri.
— Eu vejo como arte, você dançando é perfeição, você nua é beleza, isso pra mim sou eu admirando você. Agora, se os outros te veem da mesma forma que eu te vejo, isso me incomoda. – Ela me abraçou e me deu um beijo demorado.
— Ninguém me vê assim, te garanto, você tem essa alma romântica, aposto que eles me olham e veem algo bonito, um corpo bonito, um rosto bonito, algo pra se usar, só mais uma, sabe. E eu meio que ainda sou essa pessoa, de certa forma, você me vê além do que eu realmente sou.
— Ou você não vê além do que os outros dizem que você é. Você não é só isso.
— Queria acreditar nisso. Você não precisa se incomodar, só você me vê assim, nem minha mãe tem essa visão fantasiosa de mim.
Do nada eu olho para o lado e vejo o Igor e a Helen se beijando, o que está acontecendo aqui? Pensei que eles tinham uma amizade como a minha e a do Gabriel. Foi como ver nós dois se beijando. Igor olhou para mim depois do beijo e deu uma risada estridente.
— Não precisa fazer essa cara, isso é comum entre nós, sempre foi.
— Por essa eu não esperava, achei que vocês tinham uma amizade tipo irmãos.
— Não! Só se formos Lannisters, não sei se você conhece Game of Thrones, mas estamos mais pra Dorneses, ou seja temos toda uma liberdade sexual, Helen que aderiu ao caretismo enquanto namorou o André.
— Liberdade sexual? Como assim?
— É! Do tipo transar com quem estiver afim, com quantos estiver assim, sem restrições.
— Então você é Bi, Igor?
— Não sou porque nunca senti atração sexual por nenhum cara, mas se um dia vier a acontecer, eu não vejo problemas, não me restrinjo a isso.
Igor começou a conversar comigo, enquanto Helen e May fizeram o mesmo entre si.
— Nunca tive toda essa liberdade sexual, pelo contrário, eu fui criada de forma bem tradicional, então eu tive poucas parceiras sexuais na vida.
— Sério? Tipo quantas?
— Contando com a May, umas 6 garotas. – Ele riu e percebeu que eu estava falando sério, ai tomou um tom sério também.
— Bom, não quer dizer que isso é algo ruim, eu diria que isso é algo comum, muitas pessoas são assim. Nós que não somos muito.
— É, May já me falou um pouco sobre ela ter transado com muita gente.
— Deve ter rolado dela ter feito com 6 pessoas, só que no mesmo dia, enquanto você foi na vida toda, isso é bem contrastante.
— 6 pessoas na mesmo dia?
— Eu realmente não deveria falar sobre a vida sexual dela pra você, ela deveria fazer isso, acho que ela tem medo de te espantar. – Eu fiquei em silêncio e deixe ele falar. – Pelo pouco que eu te conheço, você é toda recatada.
— Isso é positivo ou negativo?
— Se opostos se atraem mesmo, é positivo, se não, nem tanto.
— Acho que isso só funciona em física mesmo, porque André e Helen eram opostos não eram? E olha no que deu. – Eu provavelmente estava com minha feição de pensativa ou preocupada.
— De certa forma você tá certa, mas pessoas são diferentes, não tem tanto a ver com ser igual, mas se vocês duas estão em momentos parecidos e acho que a May está em um momento de quietude e você tem muito disso.
— Espero que você esteja certo, né Igor.
— Vamos parar de pensar nisso e deixa eu fazer minha bitch dance pra você.
— Bitch dance?
— É, quando eu danço feito uma stripper. – Provavelmente ele percebeu na minha cara que eu não estava entendendo nada. – Deixa eu te mostrar.
Ele começou a dançar provocativamente pra mim, como uma garota dançaria, de forma bem feminina, tipo rebolando e se esfregando em mim. E eu não pude evitar de rir, parecia um lap dance super feminino só que feito por um homem e o Igor não era feminino, então era super engraçado e eu estava caindo na risada, mais do que sendo seduzida, provavelmente esse é o objetivo dele, pelo menos espero, seria triste se na vida dele ele tentasse realmente seduzir alguém assim. May e Helen pararam o papo delas para observar a cena e elas também estavam achando engraçado, as pessoas ao redor estavam meio intrigadas.
— Você está tentando roubar a Alana de mim, Igor?
— Tentando? Eu acho que já consegui.
Ele chegou perto de mim como se fosse me beijar, segurou meu corpo e me jogou levemente de lado como se tivesse me beijando, parecido com aquela foto famosa na Times Square, do beijo no Dia da Vitoria Norte-América sobre o Japão.
— Está gostando do beijo, Alana? – May perguntou enquanto o beijo supostamente ainda estaria ocorrendo.
— Está ótimo, dá até pra falar durante ele, melhor que o nosso que é difícil de falar.
— Realmente, um milagre isso. – May se aproximou e afastou ele de mim, empurrou ele para a Helen. – Me devolve ela, vai dançar sexy para a Helen e beijar ela você!
— Eu já fiz isso, agora é sua vez – ele se afastou rindo.
— Concordo! É sua vez de dançar sexy pra mim. – Acho que o álcool começou a falar por mim.
Ela encosta a bunda na região da minha virilha, se curva e começa rebolar a bunda bem ali, bem lentamente, ela não se vestia de forma tão feminina, se analisar ela e Igor se vestem de formas bem parecidas, mas ela fazendo aquilo e o Igor fazendo aquilo era um oceano de diferença. Parecia até dois universos diferentes. Em um piscar de olhos ela estava atrás de mim, com o corpo colado e botando a mão por dentro da minha camiseta, suas mãos foram subindo e pararam embaixo do meu sutiã, eu tomei um susto, no meio da pista com todo mundo olhando?
— Opa! Espera ai um minuto, isso não é muito apropriado. – Eu desci a mão dela.
— Ninguém tá vendo. – Ela subiu a mão novamente.
— Estamos em uma pista, cheia de gente, todo mundo está vendo, Mayra.
— Olha em volta. – Meus olhos percorreram a pista e não vi nada.
— Não to vendo nada.
— Olha com atenção.
Parei um segundo e fiquei procurando pelo que ela queria que eu visse e por toda a extensão da pista havia gente se pegando mais pesado do que o de costume para um local cheio de pessoas e ninguém se importava, havia até alguns movimentos sexuais demais, como se as pessoas estivessem masturbando a outra na pista, só que por baixo da roupa.
— Pesado!
— Você viu? E você estava observando eles antes de parar para prestar atenção?
— Não.
— Porque ninguém liga, isso meio que faz parte da paisagem.
— Eu não estou muito acostumada com isso.
— Nunca é tarde para começar.
Ela continuou fazendo e eu meio que me acostumando com a ideia fui deixando. Ela virou e começou a me beijar calorosamente, passando a mão pelo meu corpo e foi lentamente me deixando com tesão, eu tinha que me policiar para não ficar pensando no que os outros estariam achando, nos outros olhando. Ela estava mordendo meu lábio inferior, até o Igor de repente me puxar pela mão. Eu fiquei com uma cara de “ué” e ela fez a aquela expressão corporal do tipo “não tenho a menor ideia do que está acontecendo”
— Vamos no banheiro. – Ele foi me puxando.
— Você não podia ir no banheiro sozinho? Eu nem quero vir no banheiro.
— Que egoísta, eu bebi muita cerveja e Helen estava alugando meu ouvido.
— O que ela tanto fala? Ainda tem o que falar?
— Ah… nem te conto, esquece isso.
Chegamos no famigerado banheiro e fomos ao banheiro, bem rápido, porque banheiro de balada não é limpo e a fila estava pequena, tinha bastante cabine.
— Vamos.
— Marca um 10 aí.
— Pra que?
— Vou ficar com alguém e você vai me ajudar.
— Como se você precisasse de ajuda pra isso. Eu não estou bêbada o suficiente pra chegar em ninguém, nem chegar pra você em alguém.
— É serio, pelo menos escolhe alguém. – Olhei em volta por 1 minuto.
— Aquila ali, tá olhando pra gente, deve te querer.
— Vem comigo.
Novamente ele puxou meu braço e fomos até a garota. Ele começou a interagir com ela, falar no ouvido dela, ela parecia estar gostando dele ali dando em cima dela, não estava se evadindo ou se esquivando. E eu ali plantada olhando ao redor.
— Só se sua amiga for participar do beijo também. – Meus ouvidos pescaram essa frase.
— Oi? – eu disse no automático.
— Ela falou que me beija se você participar do beijo também.
— Nem rola, não to afim.
— Ah, vamos, Alana.
— Como assim? Eu to ficando com a sua amiga, doido!
— Idaí?
A garota percebeu que por mim não iria rolar nada e acabou beijando só ele. Como eu não pretendia ficar segurando vela por sei lá quanto tempo iria durar aquele beijo, resolvi voltar para onde estávamos. Fui abrindo caminho entre as pessoas que na ida eu não precisei abrir, por estar andando atrás do Igor, lentamente fui chegando mais próximo da parte da pista onde nós estávamos, parei bruscamente a alguma distância e não consegui acreditar no que meus olhos estavam vendo. No mesmo local onde a alguns momentos atrás May e eu estávamos nos beijando, estava Helen e ela se beijando. Eu congelei por alguns segundos e não sabia o que fazer, eu senti um frio na barriga, mas não daqueles bons, daqueles ruins, de pura decepção, daqueles de tristeza. Eu não iria andar até elas como se nada estivesse acontecendo, mesmo que eu quisesse fazendo isso – e eu não quero – eu não conseguiria. Me virei e segui o caminho em direção da porta, eu vou embora daqui o mais rápido que eu puder. Avistei o Igor, ele sabe o que eu vi e ele está com uma cara de “que merda que eu fiz” como se a culpa fosse dele, desconfio que todo esse plano de “ir ao banheiro” foi tudo planejado por ele e pela Helen, como sempre eu sendo otária novamente. É mega estranho ele me chamar pra ir no banheiro, sendo que nem usamos o mesmo banheiro, acho que ele pensou que eu fosse ficar esperando ele terminar o beijo. Nunca andei tão rápido na minha vida, eu estava praticamente atropelando as pessoas.
— Alana!
A voz da Mayra bem atrás de mim, eu andei mais rápido, literalmente empurrei algumas pessoas entre pedidos de desculpas e mesmo assim ela me alcançou e segurou meu braço.
— Me deixa ir, eu não quero conversar, não tem o que conversar. – Eu nem me virei pra ela só soltei meu braço e continuei andando e ela foi andando ao meu lado.
— Não é minha culpa, ela estava falando como queria me beijar desde quando eu e ela começamos a conversar, ai o Igor te levou pra longe e ela veio falar como estava triste e acabou me beijando.
Eu fiquei em silêncio e continuei andando, eu queria muito falar o quanto ela não parou o beijo e a imagem dela bem envolvida no beijo, com a língua na boca da Helen passando na minha mente.
— Não precisa ser tão chata, foi só um beijo, não precisa ficar assim.
“Só um beijo” quer dizer que ela acha normal, uma noite que era pra ser só minha e dela, ela incluir os amigos dela e para melhorar tudo, beijar a amiga, comigo estando presente no local, só que escondido de mim, como se eu fosse uma idiota, se eu não tivesse visto, eu duvido muito que ela teria me contado. Continuei andando.
— Não é como se namorássemos ou algo assim, não é traição.
Meu deus, como eu vi algo de tão maravilhoso numa pessoa dessas. Esperei chegar a porta ao lado de fora da balada, respirei fundo e usei toda a frieza que eu aprendi a ter quando tinha que ouvir discursos homofóbicos na Igreja e os maiores absurdos e fingir concordar, ouvir aqueles absurdos, toda estupidez e conseguir aparentar normalidade.
— Eu não acho que aqui é local apropriado para falar disso, mas já que você quer tanto conversar, May, vamos lá. Não, nós não namoramos, você está certa! Não foi traição, mas foi deslealdade, falta de consideração, foi como tomar uma facada nas costas. Eu vim com você pra essa festa, nós estamos a algum tempo ficando juntas, ficar com alguém pelas minhas costas, já seria desprezível se fosse uma pessoa qualquer, sendo sua amiga, é pior ainda. Se você realmente acha que não fez nada de errado, não sei porque veio atrás de mim e jogou a culpa nela. Na verdade, se você achou mesmo que não estava fazendo nada demais, porque não fez na minha frente?
Ela meio que gaguejou na resposta.
— Eu te via como algo tão elevado, uma pessoa tão surpreendente, te coloquei em um pedestal, talvez esse tenha sido meu erro, você é só mais uma. Só me deixa em paz, não quero mais te ver.
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