Acasos
16 Capítulo 16
Depois desse dia na casa da May nós praticamente nos falávamos diariamente, na maioria das vezes por chamada de áudio ou de vídeo, as conversas eram sobre assuntos variados, dia a dia, algum filme que vimos, gostos e coisas do tipo, também saíamos com certa frequência juntas, normalmente junto com os amigos dela e mesmo nós não estando a sós era ótimo. Fora isso os dias foram percorrendo pacatamente, parecia que a personalidade livre dela foi tornando meus dias cada vez mais despretensiosos, não de uma maneira ruim, eles ficaram mais leves digamos. Era bom ter ela ali por mim, uma sensação reconfortante essa de estar conhecendo alguém tão incrível. Só de pensar como fui a conhecer do nada, chega ser engraçado.
Um dos nossos encontros foi umas semana e alguns dias depois do dia na casa dela, foi para ver o resultado do grafite na parede terminada. Era como uma confraternização, tivemos que nos arrumar bem para entrar no ambiente e comemorar com outros artistas, com os donos do restaurante e outras pessoas que também foram convidadas. Na arte da parede havia vários rappers homenageados, que eu não conhecia e o Drake, que nós fizemos, dividindo uma das paredes. Deu orgulho ver algo tão grande no meio da rua, para qualquer um que passar ver, bem diferente do que costuma acontecer com as artes que eu faço, que é algo, em sua maioria, tão privado e pessoal que poucas pessoas veem, algumas tão escondidas, outras bem visíveis e ambas tão pessoais. Aquele grafite era como um quadro exposto na rua, coisa que eu jamais teria coragem de fazer com os singelos quadros que eu pinto no meu quartinho, eu sei que as pessoas que eu tatuo andam por ai carregando um trabalho meu, só que é diferente… eu acho que a tatuagem pertence mais à pessoa que a porta do que a mim que a fiz. O grafite na parede exposto é algo nosso, feito por todos nós, com uma pequena assinatura de vários os artistas, incluindo a nossa, que assinamos como “monumento” já que não éramos só um, também porque alguém comentou “que monumento” e foi a única coisa que lembramos na hora que os donos pediram pra cada artista ou grupo de artistas assinarem. Sempre que eu passasse por ali lembraria daquele dia.
Dentro do local era uma mistura de bar, restaurante e casa de show, haviam muitas e muitas mesas, também existia um bar e um palco não muito grande. Nós jantamos todos juntos em uma mesa só nossa por volta de uma 22h, bebemos, comemos e nos divertimos. Olhando em volta dava para perceber a diferença destoante, se via um monte de gente bem mais velho que nós, e quem estava no nosso grupo e entendia de grafite, chegou a comentar que tinha gente famosa no que faz, que é conhecido no meio que trabalha. Nossa mesa estava bem recheada, tinha até pessoas, que até então, eu não tinha conhecido, incluso nessas pessoas estava o namorado da Helen, André. Foi engraçado alguma situações, porque Helen e André eram claramente um casal, eu e May nos comportávamos como um casal, sobraram Igor e Gabriel, o qual eu convidei para vir comigo e surpreendentemente aceitou, sozinhos tinham acabado de se conhecer e inevitavelmente se aproximaram por estarem segurando vela juntos, e todos presumiam, por algum motivo, que eles também eram um casal. Foi meu entretenimento da noite toda, quando conversávamos com algum desconhecido no ambiente, eles perguntavam algo do tipo “quanto tempo vocês estão juntos?” para nós todos e eles tinham que explicar que tinham acabado de se conhecer e as pessoas ficavam “ahh… só ficando” e até eles explicarem que não tinham nada, a confusão e a graça já estavam presentes e operantes.
No fim daquela noite havia um carro para seis pessoas, André, foi o motorista, Helen, a carona, os quatro restantes apertados no fundo. Eu e May sentadas bem próximas jogando conversa fora, trocando carinhos, olhares (não dá pra evitar, ela é bonita pra caralho) e beijos mesmo no meio daquele aperto, enquanto Gabriel e Igor ficavam apertados, reclamando e metendo a mão no meio do nosso beijo para que nós duas parássemos. Gabriel, foi o primeiro a ser deixado em casa, seguido por May e a próxima seria eu. Tudo normal, se o Igor não descesse junto comigo, falando que precisava falar comigo e mandando o André “partir” que ele ia ficar ali mesmo, coisa que todos estranharam, menos o André que estava exausto, não queria saber de nada e simplesmente acelerou e foi embora, mesmo com Helen ficando tipo “Pra que? Por quê?”
Igor se virou bêbado para mim também bêbada, mandou eu fazer a mão em forma de concha enquanto ele tirava a carteira do bolso e largava na minha mão uma quantia em dinheiro. Segundo ele, aquele dinheiro era pra pagar o prejuízo do dia da tatuagem, que ele lamentava que tinha se passado tantos dias, que ele queria ter podido pagar antes, mas não tinha um emprego e que assim que conseguiu o primeiro salário dele foi para isso. Eu insisti para ele que não precisava, ele insistiu que precisava, então eu aceitei aceitar apenas o valor da tatuagem dele, nada a mais e ele insistiu que eu aceitasse o valor da tatuagem de todos, ao ver que eu não iria aceitar de jeito algum ele falou “não veja então como o pagamento de uma dívida, veja como um amigo, eu, Igor, apagando uma mancha em um dia maravilhoso, onde pessoas maravilhosas, fizeram um monumento à tinta igualmente maravilhoso, dia que merece ser lembrado com maravilhamento que eu estou trazendo a tona com esses pedaços de papel que eu gastaria com idiotices” e eu só pude falar “você é um bêbado poeta” e aceitar o “apagamento de mancha”.
Algumas boas semanas depois, nós começamos a marcar de nos encontrarmos sozinhas com mais frequência, normalmente para jantar, ir a livraria, para um parque ou pista de skate, nós íamos após meu turno no estúdio. Ela sempre tinha um restaurante ou bar diferente para a gente ir e eram tantos que eu ficava surpresa de haver essa quantidade de restaurante que eu não conhecia nessa cidade. Graças a esses encontros eu conhecia cada vez mais sobre ela, May vem de uma família pequena de empresários e investidores, sua mãe é filha única, assim como ela, os avós são falecidos, assim como seu pai, segundo ela seus pais foram casados por 15 anos, sua mãe tinha 25 anos quando casou e seu pai 45, uma diferença de 20 anos. Pelo que entendi era um casamento para somar patrimônio, ele era investidor, a família dela tinha vários empreendimentos, foi um casamento que serviu com uma luva, segundo a própria May disse. A mãe a teve com 32 anos, então ela conviveu 8 anos com o pai antes dele falecer aos 60 anos de um infarte. Lembro bem dela dizendo “quando eu tinha quinze anos meu avós disseram que meu pai só morreu de infarte porque se drogava até para trabalhar, que ele era muito ambicioso, não queria parar um segundo, que enquanto trabalhava usava e nas festas também usava, que chegou a um ponto que ele estava tão viciado que ficava drogado até perto de mim, eles falaram isso porque alguém falou pra eles que me viu fumando maconha na rua, que pelo estilo de vida que ele tinha foi surpreendente ele ter vivido tanto” isso lembrou minha família, bem o tipo de coisa que eles falariam tentando ajudar, mas piorando tudo. Enquanto ela falava da historia da família e da vida dela, também disse que depois que seu pai faleceu a mãe começou a ser sócia de muitos restaurantes e trabalhar com empreendimentos gastronômicos. Nessa mesma época engatou relacionamentos com muitos e muitos caras, era um novo por semana e como ela nunca chegou a ver amor entre seus pais, ou ao menos ela não lembra, portanto não sabe se existiu e nunca teve coragem de perguntar a sua mãe, ao ver seu modelo a ser seguido tão feliz levando aquela vida de uma semana alguém novo, bem mais realizada do que ela parecia antes e ela achou que aquilo era felicidade, por isso começou a levar a vida que levou, de sair com todo mundo, só que chegou a um ponto que ela percebeu que aquilo não estava a satisfazendo.
Os agradáveis passeios à biblioteca da cidade, onde eu a levei, se tornaram quase diários antes do expediente do trabalho. Era uma graça sempre que nos encontrávamos lá, ela usava esse adorável óculos vermelho para que ela pudesse ler as letras do livro. Nós escolhemos um livro, de um gênero que eu imaginei que ela gostaria, e toda a vez que íamos até a biblioteca liamos um capitulo dele, já estávamos alcançando mais da metade do livro de suspense e sempre ao acabar o capítulo nós voltávamos de metrô discutindo sobre o que poderia acontecer com a historia. Basicamente estávamos tentando descobrir quem era o assassino da personagem principal Yrina, que nós acompanhamos a historia pelos olhos dela desde o inicio, uma pessoa boa, porém forte e cheia geniosa, ela não era perfeita, era cheia de tons e camadas dentro dela, isso acabou nos aproximando dela, porque ela era uma pessoa comum em uma situação de merda, em um momento onde tudo convergiu contra ela, então quando ela morreu em meio a diversos problemas, disputa financeira e brigas entre famílias, eram muitos suspeitos na mesa e ai então nós começamos a acompanhar a investigação pelos olhos do detetive Lupe, um senhor velho que está fazendo esse último trabalho antes da aposentadoria.
Deve ter por volta de um mês e meio que estamos saindo juntas, hoje ela passou a noite no meu apartamento, está deitada ao meu lado só com o cobertor cobrindo suas costas, peguei o meu celular e tirei uma foto, a bunda está à vista. Eu sei que nós tentaríamos ir devagar, mas meio que não deu pra controlar, como se controlar? É uma manhã de sábado de um feriado, eu me levanto e vou até a padaria comprar o necessário pra fazer um bom café da manhã, dou bom dia para o senhor da padaria e peço sorvete, frios e pão. Enquanto eu estou arrumando a mesa May acorda e vem andando com o cabelo molhando, camiseta e calcinha, deve ter acabo de sair do banho.
— Bom dia – eu dou um sorriso.
— Bom dia – ela responde.
— Fui na padaria, comprei pão e sorvete, só sentar na mesa e se servir.
— Tem café? Tô precisando de uma xícara.
Eu peguei uma xícara para ela e coloquei o café que estava em cima do fogão.
— Obrigada – ela levantou o rosto pedindo um selinho e eu dei. – Então… o que vamos fazer hoje, já que você tem o dia todo livre?
— Não sei, alguma ideia?
— Podemos passar na biblioteca ler um capítulo, depois ir lá pra casa tomar um banho de piscina.
— Hm… pode ser, mas e depois?
— Depois?
— É, a noite…
— Você dorme lá em casa.
— É feriado, May, podíamos aproveitar pra fazer algo, sair à noite, eu queria dançar.
Eu peguei meu copo de suco e sentei na mesa, de frente para ela e apoiei meu pé entre suas pernas e sua mão livre começou a massagear meus pés .
— Tem uma festa rolando, só que tem um impedimento, a Helen me chamou pra sair e eu falei pra ela que não dava porque eu iria passar o dia inteiro com você.
— Se sairmos a gente ainda vai passar o dia inteiro juntas.
— Explica isso a ela.. Helen terminou com o namorado, então tá naquela fase de querer sair e beber, acho que todos já passamos por isso, eu não estava no clima de sair, mas se você quiser sair, vai ter que ser com ela e com o Igor, não tem pra onde correr.
— Tá bom, fala com eles então.
— Pega meu celular lá no quarto? Vou mandar um whats pra eles.
Dei um gole no suco e fui andando até o quarto pra pegar o celular pra ela, que podia estar jogado na cama ou no chão carregando. Comecei a procurar entre os lençóis, percebi a presença da May no quarto, ela me abraçou e caiu na cama junto comigo delicadamente, os cabelos meio molhados encostando gélidos no meu rosto.
— O celular tá comigo, isso era só uma desculpa pra te trazer até o quarto.
Me ajeitei na cama e ela ficou por cima de mim, meus lábios logo encontraram os dela, que estavam quentes e com um leve sabor de café, aproveitei a posição perfeita que ela se encontrava e aproveitei para apertar sua bunda e ir deslizando lentamente para entre as pernas dela, da garganta dela saiu um gemido baixo e abafado, eu podia sentir que ela estava molhada, então, de uma hora para a outra ela começou a tirar minha roupa e assim passamos um bom tempo aproveitando o corpo da outra, fazendo o que prometemos esperar, mas não conseguimos aguentar.
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