Já tinham se passado ao menos dez minutos e nada de Gabriel. Tentei diversas vezes falar com ele e nenhum sinal de vida. A essa altura eu já estava pensando em outras saídas para não deixar a cliente esperando muito tempo. Enquanto ela andava pelo estúdio, fui até onde o Lewis estava tatuando, logo depois de ter conferido que ia demorar pra próxima cliente dele chegar. Eu sei que ele vai ficar puto comigo e eu odeio incomodar as pessoas, mas eu preciso saber se ele vai demorar muito tempo. Caso ele não vá demorar tem como ficar na recepção até o Gabriel chegar, provavelmente ele vai chegar logo.

— Ei, Lewis! – Cheguei de mansinho na sala de tatuagem que ele estava.

— O que é, Alana? Você não tá vendo que eu to ocupado? – Ele olhou puto pra mim como eu já previa e falou com sua voz rouca e alta, como se já não bastasse à barba, os vários piercings, alargadores e tatuagens inclusive na cabeça que não tinha cabelo para me intimidar.

— Me desculpa te interromper não quero atrapalhar, juro que vou falar rapidinho.

— Parceiro, agora é o momento pra você relaxar um pouco sem dor – disse Lewis para o cliente que estava deitado fazendo uma tatuagem Maori no peitoral.

Lewis veio caminhando até mim com cara de poucos amigos e parou ao lado da porta.

— Fala logo o que você quer, não é muito profissional largar um cliente assim esperando.

— É que apareceu uma cliente agora para tatuar comigo, só que eu não posso tatuar agora porque to na recepção enquanto o Gabriel saiu.

— Ele ainda não voltou? – ele passou a mão na careca e eu fiz que não com a cabeça. – Já tentou falar com ele? – fiz que sim com a cabeça novamente. – E o Riley e a Megan?

— Riley não vai vir hoje, foi resolver papelada de divorcio e a Megan você sabe como é, deve aparecer só à noite.

— Caralho, ainda falta até que bastante pra eu terminar – ele fez uma pausa, pensou um pouco e acrescentou. – Quando eu terminar posso ficar na recepção, mas se minha próxima cliente chegar e nada de Gabriel aparecer você vai ter que terminar a sua cliente outro dia.

— Pode ser – toquei na mão do Lewis quando ele a esticou como se fechássemos um acordo. – Valeu.

Voltei para a recepção e a Vicky estava sentada em um sofá de espera, fiz um sinal para que ela viesse até o balcão da recepção para que eu pudesse explicar toda a situação. Quando ela levantou reparei na roupa dela. Ela usava um vestido preto com certa transparência que dava pra ver o que ela usava por baixo. Junto com o vestido ela colocou um pequeno cinto preto acinturado que dava destaque as suas curvas. Seu delineador era bem marcante nos olhos chamava o olhar, um batom de um vermelho escuro. Muito bonita por sinal, um tipo de beleza que não se vê todo dia. Ela transmitia uma força e uma confiança desde o jeito de falar, às tatuagens espalhadas pelo braço e pernas, e ao mesmo tempo passava uma delicadeza quando sorria.

— E então? – ela perguntou empolgada.

Imagino que achou que eu tinha resolvido tudo.

— Bom... – busquei as palavras certas. – Vamos ter que esperar o Lewis terminar a tatuagem dele – a expressão dela não mudou, continuava sorrindo. – Vai demorar um pouquinho pra fazer nossa obra de arte, por enquanto você pode ir pensando.

Eu me afastei um pouco do balcão pra pegar um refrigerante no frigobar. Vicky disse algo muito baixo e eu não consegui ouvir, ofereci um refrigerante para ela e pedi que ela repetisse.

— Aceita? Não temos vodca.

— Ah, obrigada – ela riu, abriu a latinha e tomou um gole. – Eu disse que já sei o que vou fazer.

— E o que é?

— Eu tava aqui pensando na historias que meu pai contava sabe? Mitologia grega e tal – eu a interrompi.

— Está pensando em tatuar uma Deusa ou um Deus?

— Na verdade não, eu queria fazer o rosto da medusa, aqui nas costas.

— Medusa?

— Sim, não sei se você conhece a historia da Medusa. – Pela minha cara ela percebeu que não. – A Medusa era filha de dois deuses marinhos, ela sempre foi considerada muito bela, então foi escolhida por Atena, a deusa da sabedoria, para ser sacerdotisa no seu templo, porque para ser sacerdotisa nesse templo a garota tinha que ser virgem e ter uma beleza excepcional – ela olhava nos meus olhos e eu desviava o olhar timidamente. – Medusa era a mulher mais bonita do templo com seus lindos cabelos, a beleza dela atraía os adoradores de Atena e isso deixava Atena com ciúmes – dizia ela de maneira misteriosa.

Ela articulava como se contasse uma historia magnifica e eu sorria com a empolgação dela de explicar a historia da Medusa, mesmo não sendo necessário.

— A Medusa só se preocupava em cumprir seu trabalho no templo, até que um dia sua beleza atraiu Poseidon que alucinado pela beleza de Medusa pega ela de surpresa e a estupra.

— Não... Espera, tenho que te interromper – olhei pra ela meio perplexa. – Seu pai contou isso quando vocês eram crianças?

— Eu era adolescente, meu irmão era criança – ela deu de ombros. – Meu pai não achava que criança deveria viver em uma redoma de vidro.

— Ok, pode continuar a historia.

— Quando Atena descobriu que seu templo foi violado, descarregou a ira na Medusa que era vítima e inocente. – Eu já estava boquiaberta a essa altura com a historia. – Pois é! Eu entendo completamente sua cara, um absurdo né... Continuando, Atena a transformou em uma mortal, deixou a pele dela escurecida e cheia de escamas – ela tocou minha mão. – Só que mesmo assim os cabelos da Medusa continuavam lindos, então Atena os transformou em serpentes. – O rosto dela estava serio. – Medusa ficou horrível, implorou por justiça a Atena, mas nada foi feito, Atena ainda fez com que todos que olhassem pra Medusa se transformassem em pedra. E essa é a triste historia da Medusa.

— Que obscuro... que absurdo!

— É e eu acho isso um simbolismo forte, você não acha?

— Acho. – Eu queria ter dito algo a mais, mas eu ainda estava processando aquilo tudo.

— Só que eu não queria fazer ela feia e monstruosa, eu quero uma medusa sexy – em seus olhos havia um brilho de determinação. – Foda-se Poseidon. Foda-se Atena. Vamos dar poder a Medusa, eu com meu sangue e dor , você com sua arte.

— Vou fazer a Medusa mais magnifica e poderosa que eu puder.

— Eu confio em você. – Ela segurou minha mão e sorriu.

Peguei um papel pra começar a desenhar a Medusa imediatamente e com aconselhamento da Vicky, que permaneceu ao meu lado dando dicas e ideias, logo fiz três versões diferentes da Medusa badass, todas elas bem detalhadas, com sombras e tudo mais. Cada versão foi um aprimoramento da outra, a terceira versão ficou perfeita e foi a escolhida. Decidimos dar um pouco de cor para a boca da Medusa que seria vermelha e para os cabelos de serpente que seriam de um verde vivo. Eu estava bem orgulhosa do trabalho que fiz desenhando aquela medusa. Já estava até imaginando como ficaria na pele dela que era bem branca. O verde vivo e o vermelho bem cintilante. Iria demorar algumas horas pra ficar pronta, mas quando tivesse concluída seria mais uma tatuagem linda na coleção de tatuagens que ela carregava na parte visível de sua pele. Todas feitas por ótimos tatuadores, dava pra ver só pela qualidade do traço.