Acasos

13 Capítulo 13


— Como vão pagar, dinheiro ou cartão? – Falou o Gabriel que o encarregado disso, ele que lida com o dinheiro, eu fiquei quieta na minha já que não é da minha competência.

— Eai, Mayra? Você que trouxa a gente aqui pro estúdio dizendo “vamos no estúdio fazer uma surpresa e uma tatuagem em grupo” achei que você ia bancar geral.

Eu olhei para cara dela e não era cara de “relaxa, sou filha do Silvio Santos, to cheia do dinheiro, sou bilionária e vou pagar para todos e ainda deixarei gorjeta” foi mais uma cara de “fudeu” mesmo. Uma cara de quem estava totalmente perdida e confusa. E quando ela deu com a mão na testa. Quando eu a vi fazer isso eu tive a certeza indubitável de que tinha dado uma merda federal. Respirei fundo e tentei não transparecer nenhuma expressão. Mesmo vendo achando que ia dar merda, eu me mantive quieta na minha, não deixando transparecer minha premonição interna. Não há muito o que eu possa fazer ou há? O que eu devia fazer nessa situação? Única ação que consigo tomar, é a omissão. Eu fiz a tatuagem a parte financeira é do Gabriel com os clientes. Ele que tem que cobrar. Minha responsabilidade é a arte, é o que eu sei fazer. Então decido tirar meu corpo fora.

— Po gente, eu to com meu cartão de debito aqui, mas pelo que eu to vendo do valor só vou poder pagar a minha, é o que eu tenho de dinheiro na conta.

— Caralho, Mayra! Tu é foda! E agora? – Um dos garotos falou, um barbudo de cabelos morenos.

Eu fiquei olhando pro telhado, quase pedindo por uma luz divina, por uma solução. Quase orando para cair dinheiro do céu. Como eu sabia que era impossível de rolar uma intervenção divina, fingi que eu não tinha nada a ver com aquilo. Mayra soltou minha mão e foi conversar com o Gabriel. Eu virei para olhar os quadros na parede do estúdio que eu já conhecia muito bem, mas era o melhor que eu poderia fazer nessa situação, fazer a egípcia, fazer a desentendida, a ingênua. Tudo para evitar aquela situação. Tudo para evitar essa saia-justa.

— Nem tem como, gata… Se for desse jeito que você tá falando vai sair tudo do meu bolso e meu bolso é um bolso de recepcionista de estudo de tatuagem, não é um bolso muito cheio, na verdade é um bolso bem humilde.

— Complicado, não sei o que fazer… – Ela passou a mão pelos cabelos, um claro sinal de preocupação. – Não tem mesmo como?

— Olha vou explicar. Você tem que ver com a Alana, resolver com ela, ela que fez a tatuagem vocês vão pagar para ela, meu trabalho é anotar a quantidade de dinheiro que entra e para quem entra… Então esse valor é tudo para pagar o material e o trabalho da Alana. Porque no final do mês quando fazemos o balanço cada um recebe pelo que tatuou e eu recebo meu salário que é pago por todos eles.

— Alana vem cá fazendo o favor.

— Se você e ela não entrarem em um acordo, ai que as coisas complicam um pouco sabe, colega. – Gabriel estava com a cara dele de sério, que é uma cara raramente vista.

Eu fui andando com a maior cara de sonsa do planeta terra, tentando me fazer de a desentendida, com uma expressão mais blasé do que a que eu cheguei hoje no estúdio tentando disfarçar minha felicidade para o Gabriel. Meu Deus! Que situaçãozinha de merda, porque você tem que fazer isso comigo? Acho que é verdade o que dizem por aí, que sapatão só se fode.

— Olha gente, eu não faço a menor ideia do que fazer, o que eu sei fazer eu fiz que é tatuar. – Fui sincera, botei a mão no peito e tudo, para mostrar o quão perdida eu estava em buscar solução para aquele problema.

— Eles tem que pagar, eles não tem dinheiro, só tem o dinheiro de uma tatuagem, nós temos um impasse que só você pode resolver, ou eles se viram em dinheiro, ou você abre mão de algum valor, ou eu vou chamar a policia né que é a ultima coisa que eu quero fazer, mas é o que eu vou ter que fazer se não chegarmos a um acordo.

Gabriel pode ser desleixado, brincalhão e tudo mais, mas quando se trata de dinheiro, de financeiro, ele vira uma fera. Ele assume uma expressão compenetrada, seria. Parece que ele está em uma mesa de Poker, que ele é profissional e você um mero amador. Ele não foi contratado para o trabalho à toa, ele foi contratado para o trabalho porque ele sabe faze–lo com maestria, empenha essa função muito bem. Eu já vi ele chamando policia para cliente que não pagou, mas isso nunca foi comigo. Não subestime ele por andar de skate na hora do serviço. Eu, até hoje, tive a sorte desse tipo de coisa nunca acontecer comigo. Todos meus clientes felizmente, pagaram. Acho que realmente, tem uma primeira vez para tudo. Eu estou entre a cruz e a espada. De um lado Gabriel implacável com seus deveres. Do outro lado a garota que eu gosto e sua cara de perdida. Gabriel e a ligação para a policia. Mayra e seus amigos que não podem pagar. Eu aqui parada tendo que pensar em uma solução. Ela tem o valor da tatuagem dela, o que é suficiente para cobrir o custo dos materiais. Isso quer dizer que eles podem pagar pelos materiais e eu dou meu trabalho de cortesia. O que não gosto muito disso, mas o que eu posso fazer? É policia ou isso. É a única solução que tenho em vista.

— Não, não tem necessidade de chamar a policia, só cobrar deles os materiais e a mão de obra e tempo gasto não tem necessidade de cobrar, deixa como cortesia.

— Tem certeza? – Ele arqueou a sobrancelha tipo “não acredito que você vai fazer isso”.

— Tenho.

Eu tinha que solucionar aquilo e tinha que aparentar firmeza e certeza. Coisa que eu não tinha. Só que fiquei receosa de no mínimo sinal de hesitação Gabriel decidisse que a melhor opção era chamar a policia. Fiquei com medo que ele tomasse a atitude por mim, achando que eu tinha medo de tomar a atitude. Ele me olhou com uma cara de quem não estava gostando nada da situação. Eu vi na cara dele que ele preferia que chamasse a policia e aparecesse um monte de pai e mãe aqui, mas que impressão eu iria passar? Além de todos os amigos me odiarem, ela me odiaria. Eu ia ficar remoendo isso pelo resto da vida. Provavelmente não me perdoaria por ter posto dinheiro na frente de pessoas. Que opção que me resta? Vai doer no bolso, mas logo passa, eu tenho outras tatuagens para fazer, posso trabalhar dobrado durante algumas noites, buscar cliente na internet. Melhor doer no bolso do que doer no peito. Pelo menos eu acho. Tomara que eu esteja certa. Foi o que eu repeti para mim mesma para esquecer tudo isso. Repeti como um manta “melhor doer no bolso do que no peito”. E então resolvemos o pepino, Mayra passou o valor dos materiais no debito, então pude respirar aliviada.

— Pronto, tudo resolvido. – Ela disse e os amigos que respiraram aliviados como eu.

— Bora ralar, que ainda temos muito grafite pra fazer. – O garoto loiro, do cabelo loiro cortado bem curto que falou, já empurrando a Helen para fora. Foi ele quem votou junto com ela na escolha da tatuagem, foi o segundo a ser tatuado e a dele foi nas costas.

— Eu ainda tenho um cliente. – Eu falei baixo só para ela ouvir. – Você não me ligou nem nada, o combinado era a tarde, eu tenho serviço até meio dia, daqui a pouco meu cliente tá chegando e não posso deixar ele na mão.

— E o que a gente faz? – Logo os amigos dela se aglomeraram para ouvir, zero privacidade.

— Senta e espera ou passa aqui meio dia que eu já devo ter terminado.

A cara de todos eles era de impaciência, a maioria deles ficaram putos da vida, o único que pareceu não se importar tanto foi o tal loiro. Ele deu de ombros e foi andar pela recepção. Que dia péssimo. Quando meu cliente chegou eu já estava na sala esperando ele e tive que tatua-lo com uma barulheira na sala de espera e uma áurea péssima, mal conversei com ele, só o básico para ser educada. Primeiro porque estava uma algazarra de vozes mais altas do que o ideal que mesmo abafada era alto, segundo que eu não tinha humor para papo. Uma tatuagem de uma hora e meia em absoluto silêncio. O cliente falou tendo que levantar a voz para poder ser ouvido e eu só era sorrisos educados e plastificados. E respostas vagas, por pura educação. Normalmente, pra mim, tatuar é um momento de realização e paz. Além de ser minha maneira de ganhar a vida é algo que eu amo fazer. Eu tenho prazer e uma felicidade a cada tatuagem. É uma felicidade genuína a cada processo, para mim não é nada exaustivo. Eu amo ver a alegria no rosto da pessoas ao final de cada tatuagem. Eu amo a arte. Amo até as conversas chatas. Gosto do cheiro do ambiente. Amo conhecer a vida das pessoas. Tudo simplesmente me realiza. Só que hoje não foi nada prazeroso, não foi nada realizador, nada agradavel, não foi nada legal, nada bom. Foi exatamente o oposto, extremamente desagradável. Me senti descendo ladeira abaixo sem freios, pronta pra bater de cara no muro. De uma tatuagem ótima que me deixou feliz pela historia, para uma saia justa. E a falta de reconhecimento do sacrifício que eu fiz. Em ter dado meu trabalho de graça. Isso me afetou de um jeito que me deixou anestesiada durante o processo de toda essa tatuagem. Se eu falar que eu sei o nome do cliente, eu estaria mentindo, ele me relembrou quando entrou na sala, mas logo eu esqueci.

Quando terminei minha tatuagem o Gabriel entrou imediatamente na sala e trancou a porta quando o cliente saiu.

— Não vai lá quitar a tatuagem?

— Já resolvi tudo antes, para poder falar com você agora.

— Então fala. – Já imaginava o que ele ia dizer.

— Olha não quero parece um pé no saco, não quero ser o cara que passa sermão, mas eu preciso falar.

— Sou toda ouvidos.

— Isso é um absurdo, chegar aqui com um bando de amiguinhos e ninguém ter dinheiro pra pagar, é uma irresponsabilidade, aonde já se viu vir fazer tatuagem sem um puto no bolso? Eles tão achando que é tatuagem de big big? Que paga 20 centavos, mastiga um chiclete, depois cola na pele e passa cuspe que fica tudo lindo? Caralho, isso é o seu trabalho, é sua arte! O curso leva um tempão, e depois te conheci no estúdio entregando currículo, quando foi contratada ficou sendo tratada feito merda no estúdio do Carlão! Tudo isso para poder ter uma oportunidade de por o que aprendeu em prática para aprimorar seu trabalho e pra que? Pra chegar esse bando de merdinha, filhinho de papai do caralho, que não faz nada da vida só anda de long e não dar valor a porra nenhuma disso, ao sofrimento que vocês tiveram, cara! Porra eu vi você ter que dividir apartamento com os outros enquanto trabalhava no estúdio com salário merda de aprendiz, ficou um tempão pra poder tatuar e ganhar dinheiro. Fora a fase do curso que eu te conhecia e você nunca falou sobre, mas pelo que eu escuto da galera não é nada fácil e nada barato. Você passou por toda essa porra até ganhar respeito, você lutou caralho! Você é uma lutadora. Pra agora ter que dar teu trabalho de graça pra um bando de pirralho encostado na vida. Sinceramente já não fui com a cara dessa garota, pelo que você falou, chegou aqui sem convite. Pode ter sido na melhor das intenções do mundo, pra fazer surpresa e os cacetes, mas ela botou no teu rabo sem cuspe nem nada. Já chegou aqui mentindo pra mim que vocês tinham combinado. Ela não é retardada, os amigos dela não são retardados. Eles vieram aqui na má fé. Na mal intenção de, na melhor das hipóteses, ser encostado nas costas dela. O que já não é bom. Ou eles estavam todos fechados para ser encostado na suas costas, já que você da uns beijinhos nela pensam logo “Oba! Tatuagem grátis”.

— Você tem razão, tem razão em estar puto e em tudo o que disse, mas acho que você está julgando mal ela, acho que não foi por mal. E eu sei que é uma merda, eu sei que é meu trabalho, é minha arte. Eu to tão puta quanto você, mas o que eu deveria fazer? Te deixar chamar a policia, ia encher de mãe e pai aqui, ia dar uma puta dor de cabeça. Ela ia me odiar, nunca mais ia falar comigo. E eu gosto dela, ela trouxe o dinheiro pra pagar a dela, talvez na empolgação do momento ela se desligou, mas ela teve até a delicadeza de trazer um chaveiro pra mim e… – Ele me interrompeu.

— Legal, seu trabalho tá valendo um chaveiro, vou começar a cobrar em cifrão e cobrar em chaveiros agora. Na minha opinião você deveria chamar a policia, foda-se se ela ia de odiar, se ela te odiasse por isso você não deveria nem estar com ela. Nenhum deles foi proativo de ligar para os pais ou pra alguém com dinheiro e ainda ficaram putos contigo que você tinha que tatuar um cliente antes de sair, bando de pirralho mal agradecido, minha vontade é de pegar meu skate e quebrar na cabeça desses filhos da puta. Eu já não ia com a cara desse povo do long, agora então… Esse atropelamento te saiu pior que encomenda, o durante o meu atropelamento quebrei meu celular e tomei menos preju que tu.

Eu abracei o Gabriel.

— Não precisa quebrar seu skate em ninguém, você está certo, queria eu não estivesse, mas está, só que eu gosto dela e se algo do tipo voltar a acontecer, você vai ser o primeiro a saber. – Eu olhei para ele por alguns momentos. – Eu estava tão feliz pelo encontro de ontem a noite, eu queria te contar, você tinha que ver como eu estava hoje de manhã, eu fiquei tão feliz por ontem, mas você estava todo ocupado não quis te atrapalhar.

— Eu estava repondo os estoques. O que eu vou guardar é a imagem da sua cara fechada quando aquele tanto de gente chegou do nada, você ter estranhado estava certo e eu deveria ter expulsado todo mundo. E guardo a imagem da sua cara agora, espero que os momentos bons superem esses desagradáveis.

— Esquece isso.

— Você é muito boazinha por esquecer, eu não conseguiria.

— Tem certeza que não quer ir? – Falei zoando, ele tinha que trabalhar.

— Só se for pra quebrar a cara daqueles pirralhos no muro que eles vão grafitar, não quero me misturar com essa galera não, eu ando de skate, faço o que tenho que fazer, mas pago minhas contas, tá ligada parça. Vai lá pro seu role, se divirta, mais tarde a gente se fala.

Notas finais
Caso esteja acompanhando a história deixa um comentário para eu ter uma noção de quem está lendo. E ajuda muito quem a mim que estou escrevendo, dá aquele gás. Não custa nada, prometo que nem doí. Pode deixar um feedback do que gosta e do que espera. Vamos conversar, criar um dialogo que fica bem mais divertido. Se quiser pode até me mandar uma mention no twitter, vivo por lá: @shippatona.