Acasos
10 Capítulo 10
Acordei por volta de umas nove horas da manhã e já tinha uma mensagem de bom dia da May no meu celular. Dei um grande sorriso ao ler e acordei até mais disposta a enfrentar a quarta-feira atribulada que eu teria pela frente. Comprei um copo de suco logo que desci do metrô e fui caminhando com calma e conversando com ela enquanto ia para o estúdio. Hoje tenho cinco cliente para tatuar, entre esses cinco, dois são de ontem que tive que remarcar e felizmente eles estavam livres para tatuar hoje. Remarquei a tatuagem com o Luther e Kim. Primeiro é o Luther, o cara sempre vai lá fazer uma tatuagem. Nunca tatuou comigo, mas dessa vez ele pediu para o Gabriel marcar a tatuagem comigo, por algum motivo. Normalmente ele tatua com o Lewis não sei por qual motivo mudou. A Kim já tatua sempre comigo, a mulher é apaixonada por cinema, normalmente a gente tem bastante coisa pra falar porque eu também gosto. É claro que não chego a ser uma cinéfila como ela é. Ela trabalha no meio, é continuista se não me engano. Dessa vez ela queria tatuar a Annie Hall, me mandou até a foto da mulher de terninho e pediu que eu fizesse um esboço de forma mais cartunesca, que eu fiz e está no estúdio só esperando pra virar tatuagem.
— Bom dia, Gabriel.
— Bom dia.
— Resolvi o mistério.
— Falou com o porteiro?
— Não, mas quando eu cheguei em casa fui usar o notebook e tinha um post-it lá com o numero do celular dela.
— Então você não está ficando louca, parça – ele deu um tapinha nas minhas costas – parabéns!
— Felizmente ainda não estou ficando louca.
Comecei a organizar minhas coisas, guardar minha mochila. Durante o processo percebi que Gabriel não parava de me olhar, encarei ele.
— Que foi?
— Conta o resto, parça! Vai me dizer que você que achou o número e deixou por isso mesmo?
— Vixe, calma! Você ta parecendo aquelas tias fofoqueiras sabe? Que ficam no portão da casa o dia inteiro querendo saber o que acontece na vida dos outros.
— To mais pra tio do pavê ou pra comer.
— Depois que eu peguei o numero, a gente se falou, marcamos de sair na sexta-feira.
— Você me deve uma.
— Eu te devo uma?
— Uhum.
— Gostaria de saber por qual motivo!
— Por ter te arrumado uma mina, coisa que esse seu aplicativo de merda nunca te deu.
— Primeiro que você não me arrumou uma mina, segundo que o aplicativo realmente não me ajudou em nada, terceiro que se eu tenho alguém a agradecer é o cara que forçou a barra e tentou me agarrar.
— Para um minuto pra pensar, quem te levou pra beber?
— Você.
— Então pronto, tudo começou comigo, então eu fui o fator principal, sem o senhor Gabriel aqui te levando pra tomar umas biritas você ia tá no Netflix assistindo algum filmezinho.
Dei dois tapinhas no ombro dele.
— Pode se iludir que você me ajudou a arrumar uma garota, quando na verdade única coisa que você fez foi beijar uma garota e arrumar uma briga, o resto foi ironia do destino.
Foi só dar o horário da tatuagem que o Luther entrou no estúdio, super pontual. Fiquei meio sem saber como cumprimentar ele. Sempre fui sem jeito para cumprimentar as pessoas. Tem que ver quando eu vejo um conhecido na rua, não sei aceno, se dou “oi”. Nasci com um defeito nesse sistema. Fiquei só sorrindo e esperei ele vir até o balcão e decidir como queria me cumprimentar.
— Oi, como você está? — Luther estendeu a mão para mim e veio com um largo sorriso no rosto, era estranho ver um cara tão parrudo ser tão simpático.
— Oi, Luther. To ótima e você como tá? Preparado pra tatuagem?
— Claro, sempre preparado.
— Queria me desculpar por ter cancelado ontem, eu não tava me sentindo muito bem.
— Não se preocupa, hoje é um novo dia... Na verdade foi até bom, me fez pensar mais no presente que eu vou dar pra minha esposa.
— Presente pra sua esposa? – Fiz com a mão para ele me acompanhar até a sala.
— É a gente vai completar dois anos de casado daqui a algumas semanas e eu tinha decidido fazer a tatuagem com um trecho da música que nos consideramos nossa entende?
— Entendo sim, é uma boa ideia.
— Eu planejava fazer só isso como surpresa, a tatuagem – ele coçou a barba e completou – mas ontem eu fiquei pensando e pensando e percebi que não era o bastante pra ela, apenas uma tatuagem, me pareceu um presente meio egoísta.
— Não é egoísta, é lindo! É um vinculo que vocês dois tem, uma musica que liga vocês, você sempre vai lembrar dela quando ver e ela sempre vai lembrar de você.
— É o que eu pensava a princípio, mas tenta ver minha linha de racicíonio – parei e ouvi ele atentamente – é um simbolo lindo, de fato é, mas me parece pequeno perto do que ela merece.
— Então você quer dar vários presentes para ela?
— Sim e uma tatuagem não me parece um presente para ela, apesar de eu estar pensando nela ao fazer, então eu decidi que vou dar uma festa e vou escrever uma canção pra ela e apresentar na festa, além do presente que sempre trocamos todo ano no dia que comemoramos nosso aniversario juntos.
— Vai ser lindo com certeza, uma ótima ideia escrever uma música.
— Então, não foi um problema ter desmarcado ontem, só me ajudou a pensar.
— Que bom que não te atrapalhou em nada e ainda te ajudou.
— Você tá convidada pra festa, vai ser no bar que eu tenho, lá é bem legal primeiro tem show de algumas bandas e depois tem open mic e cada um canta o que quiser é como um karaokê.
— Claro que vou, obrigada por me convidar.
— Vou entregar o convite para o Lewis quando estiver se aproximando, ai ele te dá, pra você saber o endereço do bar.
— Muito gentil da sua parte. Falando no Lewis, desculpa perguntar, não se ofenda é só curiosidade. Por que você não pediu para ele fazer a tatuagem?
— Na verdade eu pedi, mas ele falou que você é mil vezes melhor que ele quando se trata de letras e caligrafia, que você tem mais precisão então eu acatei o conselho, porque eu quero que fique perfeita.
— Nossa o Lewis me elogiando? Que surpresa! Você só tem que escolher a fonte.
Entreguei para ele um catalogo das fontes que ele poderia escolher.
— Qual frase vai ser?
— “I fell in love at the seaside”
— Eu acho que já ouvi essa música.
— É do The Kooks, eu não tenho cara de quem gosta de The Kooks, mas ela que gosta.
— E porque é a musica de vocês? Vocês se conheceram enquanto ela tocava ou algo do tipo? – Ele soltou uma risada calorosa.
— Não, é que a gente já era amigos de anos e eu já nutria um sentimento por ela apesar de nunca ter contado a ela – Luther sorria como se lembrasse claramente do momento em sua mente – então um belo dia quando a turma se juntou para ir à praia, tava frio na praia e todo mundo tava sentando junto se aquecendo com uma coberta a noite.
— Então você ficaram juntinhos passando frio né? Posso imaginar.
— Sim, eu aqueci ela e não faço ideia do que me deu, meu coração tava saindo do peito e eu virei e contei para ela que eu sempre gostei dela e felizmente ela sentia o mesmo.
— Own, que lindos.
— Ela me falou que sentia o mesmo só que não tinha coragem de vir me questinar e eu falar que não sentia nada e ficar um clima estranho, acabar a amizade.
Luther continuou folheando as páginas do catálogo com as fontes.
— Então eu não me apaixonei a beira-mar como diz na música, porque eu já era apaixonado por ela antes, porém digamos que foi quando a nossa paixão se consolidou, nós nos apaixonamos, as coisas se concretizaram naquele, porque antes eram paixões isoladas a minha por ela e a dela por mim.
— E não tinha música tocando – eu ri descontraída – é só uma musica que lembra vocês daquele momento?
— Exato.
Ele escolheu uma fonte com a caligrafia bem desenhada e escolheu tatuar cruzando o peitoral de maneira que atravessasse toda a extensão do peitoral. E começamos o processo de tatuar a homenagem.
— Então qual é o nome da sua esposa?
— Olivia e ela é magrinha então imagina os apelidos e piadas super óbvias que o pessoal faz.
— Tipo “Olivia palito”
— Sim e já me chamaram de marinheiro Popeye.
— Você nem parece o Popeye, parece mais o outro cara, era Brutus o nome dele? Só que um Brutus mais arrumado.
— Pelo menos isso, mais arrumado que o Brutus era estranho.
— Ela trabalha com você no bar? – Essa sou eu tentando puxar assunto durante o processo da tatuagem.
— Ela trabalha só na parte da noite porque faz faculdade de psicologia, acho que ela deve fazer isso na tentativa de me entender, porque ela vive dizendo “juro que não te entendo” – ele apontou para um desenho na perna dele que a bermuda estava tampando antes dele levantar para exibir – Eu fiz até uma tatuagem do Popeye como piadinha, agora acho que vou ter que tatuar o Brutus também, porque eu pretendo ser o único homem da vida dela.
— Opa, mais trabalho para o estúdio. Bem fofos vocês juntos, espero ter metade disso com alguém um dia, já iria ficar bem grata.
— Você vai ter, coisas boas acontecem para boas pessoas.
Luther falou só que entre dentes sentindo dor aparentemente, então eu deixei de puxar assunto, é dificil de conversar enquanto alguém sente dor ou a pessoa se controla em não se mexer ou ela responde com alguma coerencia. Então pude me concentrar ainda mais no trabalho que eu estava executando. Fui fazendo o desenho das letras da forma que ele queria, parando algumas vezes para limpar o sangue e dar uma conferida. Não foi foi muito demorado porque ele não pedia para eu ficar parando, ele aguentava a dor continuamente. Pelo visto ele é uma pessoa bem tolerante a dor ou deve tá acostumado a fazer tatuagem mesmo. Quando eu terminei de tatuar entreguei um espelho pra ele e tirei as luvas da mão.
— Terminou? Deixa eu ver como ficou – Lewis veio entrando na sala – cara, ela vai adorar a tatuagem, ficou irada.
Os dois deram um aperto de mão bem barulhento, foi mais pra uma batida de mão.
— Eu tinha certeza que ficaria, vocês que trabalham aqui são ótimos tatuadores, não to puxando saco não, só que quando alguma coisa é bem feita ela merece elogios e você sabe que eu recomendo aqui para os clientes lá do bar para amigos meus.
Enquanto eles conversavam eu coloquei plástico filme e uma bandagem para proteger a tatuagem e ele agradeceu.
— Você sabe os cuidados, mas não custa nada relembrar mantêm limpo, recomendo que lave com água morna e sabão neutro. Manter a proteção por 1 hora e depois que tirar a proteção não precisa colocar de novo, deixa a pele respirar. Lá pro terceiro dia pode passar uma pomada de manteiga de cacau pra não deixar que pele seca, umas duas vezes por dia tá bom.
— Obrigado, Alana. Queria te dar um abraço, mas não dá né – ele deu uma risada calorosa e já deu um tapa no ombro do Lewis – eu vou te dar o convite depois, pra você dar pra ela que convidei ela também.
— Falou, bora comigo lá pro caixa.
— Tchau, Alana te vejo na festa viu, não vai esquecer.
— Tchau, pode deixar que eu vou tentar ir.
— Vai tentar nada, você vai.
Eu só dei uma risada e ele foi saindo da sala junto com o Lewis. Ele é do tipo de pessoa sociável e carismática. Bem diferente de mim, não sou nada sociável, sou bem quieta na minha. Apesar de estar tentando mudar isso aos poucos.
Depois eu tatuei a Kim, que foi algo bem mais demorado porque exigia mais detalhes e mais técnica e não ficaria pronto no mesmo dia ia ficar divido em duas sessões pelo horário apertado que ela tinha e por ser mais complexo mesmo. No básico em resumo ela contou sobre um filme que eles estavam filmando no centro da cidade, ao ar livre e que o trabalho dela ficava muito mais complicado porque ela tinha que prestar atenção onde as pessoas estavam a cada corte porque se não as coisas ficavam desconexas, já pensou o mesmo figurante passando toda hora na cena? Ficaria meio incoerente pra cena do filme, estou só reproduzindo as palavras delas, porque eu não sou tão detalhista assim a ponto de observar quantas vezes alguém passa ou deixa de passar atrás da cena de um filme.
O resto do dia não foi muito interessante, foi trabalho e mais trabalho, joguei um pouco de conversa fora com o Gabriel, comi uma besteira qualquer pra não ficar com fome e esperei o fim do expediente pra ir pegar o metrô nosso de cada dia. Durante a viagem peguei o celular e tinha uma mensagem no whatsapp da May perguntando que horas eu chegava em casa e eu respondi dizendo que já estava no metrô à caminho e ela visualizou, mas não respondeu. Isso é tão cruel, visualizar e não responder. Tentei deixar isso pra lá, prendi meu cabelo, desci na minha estação e fui caminhando pro prédio que não ficava muito longe, só duas ruas de distancia. Refleti sobre a quantidade de trabalho que eu tive enquanto abria o portão do prédio com a chave. Tomei um susto quando senti dois braços me abraçando do nada, meu coração acelerou e só fui respirar aliviada quando vi a cara da May.
— Nossa, você me deu um puta susto.
— Só queria te fazer uma surpresa.
— Nossa! — eu tentei me acalmar – Podia ter dado só um “oi”... Meu Deus! Quase me matou do coração – coloquei a mão no peito.
Ela segurou minha mão e me deu um beijo um pouco demorado e enquanto meu coração foi se acalmando eu fui ficando meio sem jeito com a presença dela e comecei a não saber como me portar e o que dizer.
— Como foi seu dia lá no estúdio?
— Cheio.
— Eu só passei pra te ver mesmo, eu to indo com a galera andar um pouco de long e colorir umas paredes por ai.
— Ta bom.
— Você tá calada.
— Eu sou meio calada... Desculpa, é que to meio sem jeito primeira vez que eu te vejo sem estar bêbada.
Eu só conseguia pensar como eu estava com cara de acabada e ainda por cima com meu cabelo preso e provavelmente horrível.
— Quer ir comigo? Melhor que a gente se conhece melhor.
— Não quero te atrapalhar, to vendo que você veio de long. – O long estava na calçada, apoiado na grade do prédio.
— Não vai atrapalhar, a gente pode pegar um ônibus.
— Queria poder ir, mas tenho um monte de coisa pra fazer amanhã e to bem cansada só queria deitar e dormir, mas se você quiser subir...
— Não tem como, já marquei a gente se vê depois então.
Ela me beijou, nos despedimos e eu acenei pra ela indo embora no longboard.
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