Acaso ou destino
1 Prefácio
O choro da recém-nascida preencheu a sala com uma força surpreendente para um corpo tão pequeno. Era um som vigoroso, quase impaciente, como se aquela menina tivesse chegado ao mundo determinada a anunciar sua existência.
A enfermeira sorriu enquanto a acomodava cuidadosamente nos braços de Sophia.
— Parabéns, mamãe. É uma menina linda e saudável.
Sophia chorava quando recebeu a filha. Seus braços tremiam, não pelo esforço do parto, mas pela emoção de finalmente poder abraçá-la. Durante meses imaginara aquele momento. Tentara adivinhar o formato de seu rosto, a cor dos cabelos e até mesmo como seria o primeiro som de sua voz. Ainda assim, nada a havia preparado para o amor absoluto que sentiu ao contemplá-la.
Aproximou o rosto do dela e percorreu com os olhos cada pequeno detalhe: as bochechas coradas, os fios escuros grudados na testa, os lábios delicados e as mãos minúsculas que se abriam e fechavam, como se procurassem alguma coisa em que se agarrar.
— Meu pequeno tesouro... — murmurou entre lágrimas. — Você é a coisa mais preciosa da minha vida. Eu amo tanto você.
Como se reconhecesse aquela voz, a bebê começou a se acalmar. Seus dedos fecharam-se ao redor do indicador de Sophia, que sentiu o peito apertar com uma mistura dolorosa de amor e saudade.
Aquele deveria ser um momento de felicidade completa. Contudo, faltava alguém naquela sala.
Alguém que deveria estar ao seu lado.
Alguém que também deveria segurar a filha nos braços.
Sophia acariciou o rosto da menina.
— Seremos você e eu — sussurrou. — Seu pai não pôde ficar conosco, mas sei que, onde quer que esteja, continuará olhando por você. Ele a amava antes mesmo de saber que você existia. E teria sentido tanto orgulho...
Sua voz falhou.
Por um instante, Sophia fechou os olhos e permitiu que a lembrança de Benjamin surgisse em sua mente. Viu novamente o sorriso largo, os cabelos negros agitados pelo vento e o modo como ele a olhava, como se ela fosse a única pessoa existente no mundo.
A dor ainda estava ali.
Provavelmente sempre estaria.
Mas, naquele momento, enquanto segurava a filha contra o peito, Sophia compreendeu que Benjamin lhe deixara uma parte de si.
A melhor parte.
A filha deles.
A enfermeira permaneceu em silêncio por alguns segundos, respeitando a emoção da jovem mãe. Depois se aproximou e estendeu os braços.
— Precisamos limpá-la e examiná-la. Logo a traremos de volta para você alimentá-la. Já escolheu o nome?
Sophia olhou novamente para a filha.
— Sarah Mitena Ateara.
A enfermeira repetiu o nome em voz baixa, como se experimentasse sua sonoridade.
— É um nome diferente.
— Mitena vem da família da minha mãe. Significa “lua vindoura”. Ateara é o sobrenome do povo de seu pai. Benjamin costumava dizer que os filhos de sua família eram como fios de luz atravessando a escuridão.
— E Sarah?
Sophia sorriu e depositou um beijo delicado na testa da menina.
— Princesa.
A bebê abriu os olhos.
Sophia prendeu a respiração.
Eram olhos incomuns para uma criança recém-nascida. Apesar da forte luminosidade da sala, havia neles um tom esverdeado e profundo, como águas tranquilas tocadas pelos primeiros raios da manhã.
A enfermeira também pareceu surpresa, mas nada disse.
— Sarah Mitena Ateara — Sophia repetiu com ternura. — A princesa da lua vindoura.
Antes de entregar a filha, Sophia afastou cuidadosamente a manta que envolvia seu pequeno corpo. Foi então que seus olhos encontraram a marca situada no alto das costas da menina, próxima ao ombro esquerdo.
Uma pequena mancha escura desenhava algo semelhante a uma lua crescente. No centro dela, protegido pelo arco lunar, havia uma forma que lembrava a silhueta de um lobo.
O sorriso desapareceu dos lábios de Sophia.
Durante alguns segundos, ela apenas contemplou a marca.
O quarto pareceu se tornar pequeno demais. As vozes do corredor ficaram distantes, o som dos aparelhos desapareceu e até o ar pareceu abandonar seus pulmões.
Não poderia ser.
Benjamin lhe contara aquela história apenas uma vez.
Naquela noite, os dois estavam sentados na praia de La Push, observando o reflexo da lua sobre o oceano. Sophia se lembrava do tom grave de sua voz e da maneira como ele segurara suas mãos antes de falar sobre uma lenda que sua família preservava havia muitas gerações.
Uma criança nasceria marcada pela lua e pelo lobo.
Uma criança cujo nascimento despertaria algo adormecido.
Sophia rira ao ouvir a história. Dissera que era apenas mais uma das belas lendas de seu povo. Benjamin, contudo, não sorrira.
— Se um dia tivermos uma filha e ela nascer com essa marca, você deve levá-la para longe de La Push — ele lhe pedira.
— Está falando sério?
— Nunca fale sobre ela com ninguém. Nem mesmo com meu pai.
— Por que eu esconderia nossa filha de sua família?
Benjamin desviara os olhos para o mar.
— Porque algumas criaturas passaram séculos procurando por alguém como ela.
Naquela ocasião, Sophia insistira para que ele explicasse o que aquelas criaturas queriam. Benjamin apenas respondera que determinados poderes jamais deveriam pertencer àqueles que desejavam dominar o mundo.
Ela não compreendera completamente. Não tivera tempo para isso.
Poucos meses depois, Benjamin morrera.
E, agora, a marca estava diante dela.
Exatamente como ele havia descrito.
— Senhora? — chamou a enfermeira. — Está tudo bem?
Sophia piscou diversas vezes, retornando ao quarto. Cobriu imediatamente as costas da filha e a apertou contra o peito.
— Sim.
— A senhora parece assustada.
— É apenas uma marca de nascença.
A enfermeira tornou a estender os braços.
— Não precisa se preocupar. O pediatra irá examiná-la.
Sophia hesitou antes de entregar a filha. Tudo dentro dela gritava para que não permitisse que ninguém levasse Sarah para longe de seus olhos.
Entretanto, obrigou-se a respirar e afrouxou os braços.
— Por favor, não demore.
— Ela estará de volta em poucos minutos.
Sophia acompanhou a enfermeira com os olhos até a porta se fechar. Assim que ficou sozinha, virou o rosto para a janela.
A lua ainda podia ser vista no céu, apesar dos primeiros sinais do amanhecer. Seu brilho pálido atravessava o vidro e se espalhava pelo chão do quarto.
Sophia levou a mão à boca, tentando conter o soluço.
— O que devo fazer, Benjamin? — perguntou ao silêncio. — Como posso protegê-la de uma coisa que nem sequer compreendo?
Nenhuma voz lhe respondeu.
Contudo, em sua memória, as palavras dele permaneceram nítidas.
“Leve-a para longe de La Push.”
Naquela manhã, Sophia tomou uma decisão.
Criaria Sarah distante das lendas, dos lobos e das criaturas que Benjamin temera. Não entraria em contato com a família Ateara. Não contaria a ninguém sobre a marca. Não permitiria que o nome de sua filha fosse pronunciado por pessoas capazes de compreender seu verdadeiro significado.
Sua ausência causaria sofrimento. O pai de Benjamin jamais saberia que possuía uma neta. Sarah cresceria sem conhecer o povo ao qual também pertencia.
Mas permaneceria viva.
Sophia acreditava que esse seria um preço justo.
Nos anos seguintes, ela fez do pequeno lar em Grand Forks um lugar de respeito, coragem e ternura. Criou Sarah cercada de amor e lhe ensinou que a bondade não era fraqueza, que a coragem não significava ausência de medo e que nenhuma pessoa deveria permitir que outros escolhessem o seu destino.
Sarah cresceu e se transformou em uma criança de beleza incomum. Seus cabelos eram escuros, sua pele clara e seus olhos, de um verde translúcido, pareciam mudar conforme suas emoções. Tornavam-se brilhantes quando ela sorria, profundos quando se entristecia e quase luminosos quando sentia raiva.
A marca em suas costas cresceu com ela, conservando perfeitamente reconhecíveis a lua e o lobo.
Sophia jamais ensinou a filha a temê-la.
Sempre que Sarah perguntava o que aquele desenho significava, a mãe dizia que era apenas uma marca de nascença. Uma recordação de que ela viera ao mundo de maneira única.
Porém, algumas vezes, a pequena Sarah insistia:
— Por que é uma lua e um lobo?
Sophia afastava os cabelos do rosto da filha e respondia:
— Porque algumas histórias dormem durante muitos anos antes de despertar.
— E quando essa história vai acordar?
— Espero que nunca, meu amor.
Sarah não compreendia a tristeza escondida naquela resposta. Apenas abraçava a mãe e voltava a brincar.
Os anos se passaram.
Sophia mudou de endereço mais de uma vez, evitou fotografias públicas e jamais levou a filha para perto do estado de Washington. Quando Sarah perguntava sobre a família de Benjamin, ela respondia com histórias cuidadosamente escolhidas: falava sobre a coragem de seu pai, sobre seu sorriso e sobre o amor que os unira.
Nunca mencionava os lobos.
Nunca falava sobre a lenda.
E jamais revelava a promessa que fizera silenciosamente no dia do nascimento da filha.
Sarah cresceu acreditando que sua vida seria sempre feita da voz da mãe, do calor de sua casa e das recordações de um pai que nunca tivera a oportunidade de conhecer.
Durante vinte e quatro anos, os cuidados de Sophia pareceram suficientes.
A menina marcada pela lua permaneceu escondida.
As antigas histórias continuaram adormecidas.
E aqueles que a procuravam passaram a acreditar que a criança jamais havia nascido.
Mas nenhum segredo permanece enterrado para sempre.
Em uma noite distante, nas profundezas de uma construção antiga na Itália, uma mulher de pele pálida despertou de uma visão. Seus olhos vermelhos abriram-se lentamente, fixando-se em um ponto que ninguém mais conseguia enxergar.
Diante dela havia uma estrada coberta pela neve.
Uma mulher de cabelos negros.
Olhos verde-água.
E, sobre sua pele, a marca de uma lua envolvendo um lobo.
A visão durou poucos segundos.
Foi o bastante.
— Ela está viva — anunciou.
Sentado em seu trono, Aro Volturi sorriu.
Naquele mesmo instante, do outro lado do oceano, Sarah dormia tranquilamente, sem perceber que todos os esforços de sua mãe acabavam de fracassar.
Sophia acreditara que bastaria atravessar o país, apagar antigos endereços e manter a filha distante de La Push.
Não sabia que certos destinos não precisam conhecer o caminho para encontrar alguém.
Precisam apenas esperar que essa pessoa volte para casa.
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