Acaso ou destino
21 Capítulo - 20 Quando a lua se ergueu
A guarda avançou.
O movimento aconteceu de forma tão rápida que os olhos humanos não conseguiriam acompanhá-lo.
Felix e Demetri atacaram pelo centro. Outros integrantes se espalharam pelas laterais, tentando cercar os Cullen e alcançar as testemunhas protegidas atrás deles.
Os lobos saíram da floresta.
O impacto entre os dois grupos fez a terra estremecer.
Jacob permaneceu diante de Sarah. Mesmo na forma de lobo, a lua prateada em seu peito continuava visível sob a pelagem avermelhada.
Ela mantinha uma das mãos sobre o dorso dele.
A outra estava estendida em direção a Bella.
A luz percorreu o elo e encontrou o escudo da vampira.
A barreira se expandiu.
Jane fixou os olhos em Sarah.
— Dor.
Nada aconteceu.
Alec lançou a névoa escura sobre os aliados.
O poder atingiu o escudo prateado e se desfez.
Chelsea tentou alcançar os vínculos entre os clãs, enfraquecer as novas alianças e aumentar o medo que alguns já sentiam.
A luz de Sarah encontrou cada laço protegido.
Nenhum se rompeu.
— Eles neutralizaram nossos dons! — Jane gritou.
Aro permanecia atrás da primeira linha da guarda.
Seu rosto já não demonstrava alegria.
— Concentrem-se na humana — ordenou. — O escudo depende dela.
Quatro vampiros mudaram de direção.
Jacob rugiu.
Sam e Paul interceptaram dois deles. Emmett atingiu o terceiro, lançando-o para longe. O quarto conseguiu atravessar a defesa e avançou diretamente sobre Sarah.
Rosalie surgiu em seu caminho.
Os dois colidiram.
Sarah sentiu cada centelha ao redor.
As luzes frias dos vampiros moviam-se rapidamente pela clareira. Os lobos eram chamas intensas. Os humanos permaneciam como pequenas pulsações protegidas no centro.
A luta parecia caótica.
Para ela, contudo, havia uma ordem.
Vida.
Morte.
Luz.
Veneno.
Conseguia distinguir todos.
Rosalie foi lançada contra uma árvore.
O vampiro voltou a avançar.
Sarah ergueu a mão.
A luz atingiu o peito dele.
Por um instante, seu coração voltou a bater.
A surpresa interrompeu o ataque.
Ele levou a mão ao próprio peito.
Tum.
Emmett aproveitou a hesitação e o derrubou.
— Não o destrua! — Sarah gritou.
Emmett parou antes de arrancar a cabeça do adversário.
— Ele tentou matar você.
— Está imobilizado.
O coração do vampiro tornou a silenciar.
Emmett manteve o joelho sobre seu peito.
— Se levantar novamente, nossa definição de imobilizado será diferente.
Sarah voltou a atenção para a batalha.
Não queria matar.
Aro esperava que a raiva revelasse o lado destrutivo de seu poder. Se Sarah retirasse a vida de algum integrante da guarda, ele usaria a ação para justificar tudo o que dissera.
Ela não lhe daria essa vitória.
Caius percebeu sua hesitação.
— Ela não consegue destruir-nos! — gritou. — Ataquem!
A guarda recuperou a confiança.
Felix atingiu Jasper e o lançou contra o solo. Demetri tentou alcançar Edward, mas Benjamin abriu uma fissura entre eles. A terra se partiu, obrigando os dois vampiros a recuar.
Kate tocou um dos guardas. A corrente elétrica percorreu o corpo dele, mas outro atacante surgiu por trás e a derrubou.
Garrett avançou para protegê-la.
Zafrina espalhou ilusões sobre parte do campo, fazendo alguns integrantes da guarda enxergarem apenas escuridão.
O escudo continuava resistindo.
Sarah, porém, começou a sentir o peso.
Não era fraqueza.
A centelha de Jacob mantinha sua força.
Era excesso.
Dezenas de dons atingiam a barreira ao mesmo tempo. Cada ataque neutralizado atravessava o poder dela antes de ser dissolvido.
Jacob sentiu a pressão.
Afaste-se da linha de frente, ordenou através do elo.
Sarah não ouvia palavras como acontecia na mente coletiva da matilha, mas compreendeu a intenção.
— Não.
O lobo virou a cabeça.
— Se eu recuar, Jane e Alec alcançarão os outros.
Jacob soltou um som irritado.
— Eu estou bem.
Não estava completamente.
Uma dor começava a se formar atrás de seus olhos.
Mesmo assim, continuou.
Caius abandonou a posição ao lado de Aro.
Em vez de atacar os Cullen, moveu-se pela lateral da clareira, aproveitando-se do confronto para se aproximar dos humanos.
Edward ouviu o plano em sua mente.
— Caius está indo em direção a Billy!
Seth e Leah deixaram a luta principal e correram para proteger os anciãos.
Caius era mais antigo e experiente.
Desviou de Seth, agarrou Leah pelo pescoço e a lançou contra outro lobo. Depois avançou sobre Billy.
Ateara colocou-se diante do amigo.
— Afaste-se, humano.
— Terá de passar por mim.
Caius sorriu.
— Com prazer.
Sarah viu.
A imagem do pai queimado dentro de um carro atravessou sua mente.
A raiva despertou.
A luz prateada começou a escurecer.
Jacob percebeu.
Volte para mim.
Sarah tentou se concentrar.
Caius ergueu a mão para atingir Ateara.
Ela reagiu.
O poder atravessou a clareira como uma lâmina.
Acertou Caius no peito.
O vampiro parou.
Linhas escuras surgiram sob sua pele, mas a luz as envolveu e começou a puxá-las para fora.
Caius gritou.
Não era dor provocada por Jane ou por uma lesão física.
Era o veneno abandonando seu corpo.
Seus olhos vermelhos começaram a clarear.
A pele de mármore adquiriu temperatura.
O coração bateu.
Tum.
Caius caiu de joelhos.
Tum.
Os integrantes da guarda hesitaram.
Caius olhou para as próprias mãos.
Pela primeira vez em milhares de anos, seu corpo tremia de frio.
— O que fez comigo?
Sarah manteve a mão estendida.
— Retirei aquilo que o tornava mais forte do que as pessoas que ameaça.
A transformação não fora completamente revertida. O veneno ainda existia nas partes mais profundas do corpo, mas Caius estava vulnerável.
Ateara recuou, levando Billy com ele.
Leah se levantou.
Caius tentou atacar novamente.
O grande lobo cinzento o derrubou.
Dessa vez, ele não conseguiu reagir com a mesma força.
A guarda assistiu ao líder cair diante de uma metamorfa.
O medo se espalhou.
Aro percebeu.
— Sarah! — chamou. — Se continuar, o processo pode destruí-lo.
— Então ordene que pare de atacar minha família.
— Caius responde pelas próprias escolhas.
— Assim como eu.
Sarah aumentou o poder.
Caius gritou novamente.
O veneno continuou sendo extraído.
Marcus avançou.
— Pare, Sarah.
Ela olhou para ele.
— Ele tentou matar meu avô.
— E agora não pode. Se retirar todo o veneno de uma única vez, o corpo não sobreviverá à mudança.
— Ele matou centenas sem oferecer escolha.
— Não se torne aquilo que Aro deseja demonstrar que você é.
A luz escura oscilou.
Jacob reforçou o elo.
Sarah sentiu a centelha dele dentro de si.
Quente.
Firme.
Sem julgamento.
Apenas chamando-a de volta.
Ela fechou a mão.
O poder se interrompeu.
Caius permaneceu caído, consciente e parcialmente humano.
Leah manteve uma pata sobre seu peito.
— Se ele se mover, eu o derrubo novamente — comunicou por meio da mente coletiva.
Sam concordou.
Sarah respirou fundo.
Marcus olhou para ela.
— Você escolheu parar.
— Não por ele.
— Ainda assim, parou.
Aro observava.
Agora conhecia o alcance do dom.
Sarah podia retirar o veneno.
Podia transformar os membros da guarda em criaturas vulneráveis.
E, ao lado de Jacob, não se enfraquecia.
— Recuem! — ordenou.
Alguns guardas obedeceram.
Outros permaneceram lutando, confusos entre as ordens de Aro e a determinação de Caius.
Chelsea tentou fortalecer artificialmente a lealdade deles.
Sarah sentiu a manipulação.
Estendeu o escudo.
A influência de Chelsea se rompeu.
Os guardas pararam.
Pela primeira vez, conseguiam distinguir a própria vontade da obediência construída ao longo dos anos.
Alguns recuaram.
Outros olharam para Aro.
— Não escutem! — Chelsea gritou. — Ela está manipulando vocês.
— Não — Marcus respondeu. — Ela está retirando sua manipulação.
O medo aumentou no rosto de Chelsea.
Aro se virou para ela.
— Recupere o controle.
— Não consigo.
Jane tentou atingir Sarah outra vez.
A dor voltou contra a própria barreira.
A jovem vampira cambaleou.
Alec segurou sua irmã.
— Pare.
— Ela precisa cair.
— Não atravessaremos o escudo.
Jane olhou para Aro, esperando uma ordem.
Ele não respondeu.
A autoridade que mantivera a guarda unida começava a se desfazer.
Selene surgiu atrás de Sarah.
Nem Jacob nem Edward haviam percebido sua aproximação. A vampira utilizara os corpos em luta para ocultar o cheiro e o movimento.
Quando Sarah sentiu a centelha fria, já era tarde.
Selene segurou seus cabelos e colocou uma lâmina contra seu pescoço.
— Desfaça o escudo.
Jacob se virou.
O rugido fez a clareira estremecer.
— Não se aproxime — Selene advertiu. — A lâmina está coberta com veneno.
Sarah permaneceu imóvel.
— Meu poder retira o veneno.
— Não se eu separar sua cabeça do corpo.
Jacob avançou uma pata.
A lâmina pressionou a pele de Sarah.
Uma pequena linha de sangue surgiu.
O cheiro atravessou a clareira.
Todos os vampiros reagiram.
Até mesmo os aliados sentiram a sede.
Carlisle fechou as mãos.
Jasper tentou controlar as emoções ao redor, mas o aroma era forte demais.
Jacob perdeu qualquer noção de prudência.
Atacou.
Selene moveu a lâmina.
Sarah sentiu a centelha do lobo explodir dentro dela.
O tempo pareceu diminuir.
Antes que a arma completasse o movimento, a luz prateada envolveu seu corpo.
A lâmina tocou sua pele e se desfez.
Não quebrou.
Transformou-se em partículas escuras que caíram sobre o chão.
Selene tentou recuar.
Sarah segurou seu pulso.
As duas ficaram ligadas.
O dom da vidente abriu-se diante dela.
Sarah viu séculos de objetos tocados, poderes descobertos e pessoas entregues aos Volturi. Viu crianças transformadas porque Aro desejava seus dons. Viu famílias destruídas para que um único vampiro fosse recrutado.
Selene tentou retirar a mão.
— Solte-me.
— Você encontrou minha família.
— Era minha função.
— Encontrou meu pai.
O medo apareceu nos olhos vermelhos.
— Andreas o encontrou.
— Através de você.
Selene não respondeu.
Maggie gritou do outro lado da clareira:
— Verdade!
A luz de Sarah começou a escurecer.
Jacob retornou à forma humana durante a corrida e chegou até elas.
— Sarah.
— Ela entregou meu pai.
— Eu sei.
— Por causa dela, Aro o encontrou.
— Olhe para mim.
Selene aproveitou a distração e tentou atacar.
Jacob segurou seu outro braço.
No instante em que os três se tocaram, o ciclo se expandiu.
A graça de Sarah atravessou Selene.
Seu dom foi arrancado.
Não a vida.
Não o veneno.
Apenas a habilidade que utilizara para caçar pessoas em nome dos Volturi.
Selene gritou e caiu de joelhos.
— Não consigo ver.
— Seus olhos continuam funcionando — Sarah respondeu. — Agora enxergará apenas aquilo que está diante deles.
A vampira levou as mãos à cabeça.
Seu dom desaparecera.
Aro recuou.
Ele compreendeu antes de todos.
Sarah podia escolher o que retirar.
Veneno.
Poder.
Laços artificiais.
Ou vida.
— Ela é uma ameaça a todos nós! — gritou.
— Não — Carlisle respondeu. — É uma ameaça apenas para aqueles que utilizam seus dons para dominar.
Maggie ergueu a voz:
— Verdade.
Os clãs se moveram.
Não em direção a Sarah.
Em direção aos Volturi.
A balança mudara.
Aro olhou ao redor.
Caius permanecia imobilizado por Leah. Selene perdera o dom. Chelsea já não controlava a guarda. Jane e Alec estavam bloqueados. Demetri não conseguia rastrear ninguém protegido pela luz.
A batalha estava perdida.
Mas ele ainda possuía uma última arma.
— Felix — chamou.
O guerreiro surgiu entre os corpos em luta.
Aro apontou para Jacob.
— Separe-os.
Felix avançou com outros quatro guardas.
Jacob se transformou.
Emmett e Sam tentaram interceptá-los, mas dois vampiros os afastaram. Felix atingiu Jacob pela lateral, enquanto os outros prenderam suas patas.
Sarah sentiu o impacto dentro do próprio corpo.
— Jacob!
O lobo lutou.
Felix era forte demais, e os quatro guardas concentraram todo o esforço em arrastá-lo para longe dela.
O elo começou a se estender.
Não se rompeu.
Sarah sentiu a dor de Jacob.
A fúria.
E a certeza de que continuava com ela mesmo quando a distância aumentava.
Aro se moveu.
Enquanto todos olhavam para o lobo, ele atravessou a clareira e segurou a mão de Sarah.
O toque deveria revelar cada pensamento que ela tivera.
Cada lembrança.
Cada limite de seu poder.
Aro fechou os olhos.
Encontrou luz.
Apenas luz.
Sarah apertou os dedos dele.
— Procurando alguma coisa?
Aro tentou se afastar.
Ela não permitiu.
A centelha dele se abriu diante dela.
Era antiga, poderosa e coberta por milhares de vínculos roubados. Habilidades acumuladas, lembranças tomadas e desejos manipulados formavam uma rede escura ao redor de sua essência.
No centro, havia medo.
Não da morte.
Da irrelevância.
Aro precisava possuir tudo aquilo que não conseguia controlar.
— Você não deseja preservar a ordem — Sarah disse. — Deseja ser indispensável.
Ele tentou usar o dom novamente.
Nada.
— Solte-me.
— Quantas pessoas matou apenas porque possuíam algo que queria?
A luz se espalhou pelo braço de Aro.
Os vínculos roubados começaram a se romper.
— Pare!
Memórias atravessaram a clareira.
Não apenas a mente de Sarah.
A onda prateada projetou as imagens diante de todos.
Didyme sendo atraída para uma emboscada.
Andreas seguindo Benjamin pela estrada.
Aro ordenando que o carro fosse lançado do penhasco.
Sophia sendo observada na saída do hospital.
Selene recebendo ordens para localizar Sarah.
Os clãs testemunharam tudo.
Maggie não precisou confirmar.
A verdade estava diante deles.
Marcus olhou para a imagem da irmã.
A dor que carregara durante séculos transformou-se em uma decisão.
— Terminou, Aro.
Sarah sentiu o poder crescer.
Poderia retirar o veneno dele.
Poderia transformá-lo em humano.
Poderia apagar a centelha e encerrar sua existência.
A raiva tentou escolher.
Então sentiu Jacob.
Mesmo distante, preso pelos guardas, a centelha dele permanecia dentro dela.
Não dizia o que fazer.
Apenas lembrava quem ela era.
Sarah escolheu.
Em vez de retirar a vida de Aro, arrancou aquilo que ele utilizara para controlar tantas outras.
Seu dom.
A habilidade de acessar pensamentos através do toque se desprendeu da essência dele como um fio escuro.
Aro gritou.
A luz consumiu o poder e o desfez.
Sarah soltou sua mão.
Ele caiu de joelhos.
Tentou tocar o chão, as próprias roupas e Marcus.
Não encontrou pensamento algum.
— O que fez comigo?
— Devolvi o silêncio que tentou impor a todos.
Marcus se aproximou.
— Você não será destruído sem julgamento.
Aro o encarou.
— Ainda acredita em justiça?
— Acredito em escolha.
Os guardas que prendiam Jacob hesitaram.
Chelsea já não os obrigava a obedecer.
Felix foi o primeiro a soltá-lo.
Os outros recuaram.
Jacob voltou à forma humana e correu até Sarah.
Ela tentou ir ao encontro dele.
O corpo não respondeu.
A luz ao redor da clareira começou a enfraquecer.
Jacob a segurou antes que caísse.
— Sarah?
Ela procurou a centelha dele.
Ainda estava dentro dela.
Mas o esforço de sustentar o escudo, neutralizar os dons, purificar parte do veneno de Caius e retirar o poder de Aro ultrapassara até mesmo o novo ciclo.
— Estou aqui — Jacob disse. — Volte para mim.
Sarah tocou o rosto dele.
— Eu consigo sentir você.
— Então fique.
A marca brilhou.
A lua surgiu no peito de Jacob.
A energia tentou circular.
Não foi suficiente.
Sarah fechou os olhos.
Seu coração diminuiu o ritmo.
— Carlisle! — Jacob gritou.
O médico chegou em um instante.
Ajoelhou-se e procurou a pulsação.
— Está muito fraca.
— A centelha está dentro dela.
— O corpo chegou ao limite.
— Como faço para trazê-la de volta?
Carlisle olhou para a luz quase apagada.
— Não sei.
Jacob tomou Sarah nos braços.
— Você disse que minha força vive dentro de você.
Os olhos verde-água se abriram com dificuldade.
— Vive.
— Então use tudo.
— Posso ferir você.
— Não me importa.
— Importa para mim.
— Sarah...
Ela tocou o centro do peito dele.
A luz prateada surgiu uma última vez.
Em vez de retirar a força de Jacob, Sarah fechou a própria centelha ao redor da dele, protegendo-a.
— O que está fazendo? — ele perguntou.
— Mantendo você seguro.
— Não. Precisa voltar.
O coração de Sarah bateu mais uma vez.
Depois parou.
O grito de Jacob atravessou a clareira.
Todos os lobos responderam.
A lua desapareceu sob as nuvens.
E a luz se apagou.
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