Acaso ou destino

3 Capítulo 2 – Onde estava a Gravidade?


O rugido atravessou a floresta e fez dezenas de aves abandonarem as árvores ao mesmo tempo.

Para os moradores de Forks, o som poderia ser confundido com o trovão distante de uma tempestade. Alguns cachorros latiram, crianças interromperam as brincadeiras e pessoas próximas às janelas olharam para o céu, estranhando a ausência de nuvens mais pesadas.

Nenhuma delas imaginaria o que realmente acontecia no interior daquela mata.

Quatro lobos gigantes corriam entre as árvores, perseguindo uma criatura pálida e veloz. Suas patas atingiam o solo com tanta força que galhos se quebravam sob o peso de seus corpos. Rosnados profundos misturavam-se ao som da vegetação sendo aberta durante a caçada.

O vampiro olhou para trás e sentiu algo que não experimentava havia muitos anos.

Medo.

Quando aceitara a missão, fora informado de que os antigos protetores das terras quileutes já não existiam. Segundo os relatos que chegavam a Volterra, o último grande grupo de metamorfos desaparecera muitas décadas antes.

A informação estava errada.

Terrivelmente errada.

Ele aumentou a velocidade e tentou alcançar a parte mais densa da floresta. Se conseguisse chegar às montanhas, talvez pudesse despistar os perseguidores.

Um lobo cor de areia surgiu pela lateral e atingiu seu corpo antes que alcançasse a trilha. O vampiro foi lançado contra o tronco de uma árvore, que se partiu com o impacto.

Antes que pudesse se levantar, os demais lobos fecharam um círculo ao seu redor.

A criatura mostrou os dentes.

— Afastem-se.

Os lobos responderam com rosnados ainda mais altos.

O vampiro olhou rapidamente ao redor, procurando uma saída. Havia quatro diante dele, mas outros poderiam estar escondidos entre as árvores. Atacar um deles talvez lhe oferecesse alguns segundos de vantagem.

Preparou-se para avançar.

Foi então que os rosnados cessaram.

O silêncio repentino pareceu mais ameaçador do que o som anterior.

Entre as árvores surgiu um quinto lobo. Era muito maior do que os demais e possuía a pelagem de um castanho avermelhado. Caminhava devagar, sem demonstrar qualquer pressa, como se já conhecesse o resultado daquele confronto.

Os outros abriram espaço para sua passagem.

O vampiro reconheceu imediatamente a autoridade daquele animal.

O lobo avermelhado parou a poucos metros de distância. Seus olhos escuros permaneceram fixos no invasor por alguns segundos. Então, em um movimento rápido, seu corpo começou a se transformar.

O processo deveria ter parecido impossível. Entretanto, o vampiro já havia testemunhado acontecimentos muito mais estranhos ao longo de sua existência.

Em poucos segundos, um homem alto e forte ocupava o lugar do animal.

Jacob Black vestiu rapidamente a bermuda que mantinha presa à perna e caminhou em direção ao invasor.

— Você parece surpreso em nos ver.

Não era uma pergunta.

O vampiro tentou esconder o medo atrás de uma expressão de desprezo.

— Disseram que os lobisomens haviam desaparecido desta região.

Um sorriso sem humor surgiu no rosto de Jacob.

— Não somos lobisomens.

— Transformam-se em animais e caçam vampiros. A diferença não parece importante.

— Para nós, é.

Jacob se aproximou mais um passo.

— Você atravessou uma fronteira que sua espécie foi avisada para respeitar.

— Esta floresta não pertence a vocês.

Os lobos rosnaram.

Jacob ergueu uma das mãos, fazendo com que permanecessem onde estavam.

— Ela pertence ao nosso povo. Isso basta. Agora responda: por que tantos frios começaram a se aproximar de nossas terras?

O vampiro não respondeu.

— Há mais de um mês encontramos rastros diferentes na região — Jacob continuou. — Nenhum de vocês permaneceu tempo suficiente para caçar. Entram, observam e vão embora. Estão procurando alguma coisa.

— Talvez estejamos apenas de passagem.

— Vampiros não viajam em círculos.

O invasor sustentou seu olhar.

— Não tenho nada para dizer.

Jacob inclinou a cabeça.

— Tudo bem.

Fez um pequeno gesto com a mão.

O lobo de pelagem escura avançou com tamanha rapidez que o vampiro mal teve tempo de reagir. As presas se fecharam ao redor de sua perna e a arrancaram com um único movimento.

O grito ecoou pela floresta.

A criatura caiu e tentou se arrastar para trás.

— Eu falo! — gritou. — Digo o que quiserem saber!

Jacob fez o lobo recuar.

— Então comece.

— Estamos procurando uma mulher.

— Que mulher?

— Não sabemos o nome.

— Como podem procurar alguém que não conhecem?

— Recebemos uma descrição.

Jacob cruzou os braços.

— Continue.

O vampiro hesitou. Os lobos voltaram a rosnar.

— Dizem que ela pertence a este povo. Uma descendente dos quileutes.

— Existem muitas mulheres quileutes.

— Ela é diferente.

— Diferente como?

— Possui uma marca de nascença.

O corpo de Jacob ficou imóvel.

— Que marca?

— Uma lua crescente envolvendo um lobo.

O vento atravessou as árvores, levando consigo o odor adocicado do vampiro.

— Por que estão procurando essa mulher?

— Há um decreto para que seja encontrada e levada para a Itália.

— Um decreto de quem?

— Dos Volturi.

Os lobos se agitaram.

Jacob conhecia o nome. Carlisle Cullen já lhe contara o suficiente sobre a família que se considerava responsável por impor as leis do mundo dos vampiros.

Se os Volturi desejavam aquela mulher, não poderia ser por uma razão inofensiva.

— O que eles querem com ela?

— Não sei.

Jacob avançou e segurou o vampiro pelo pescoço.

— Tente outra resposta.

— Eu realmente não sei! — A criatura tentou afastar sua mão. — Falam sobre uma antiga lenda. Dizem que ela carrega o poder da lua e da cura.

— O que isso significa?

— Ninguém nos explicou. Apenas disseram que ela precisava ser encontrada viva.

— Quem informou que ela estava aqui?

— Uma vidente.

Alice Cullen foi o primeiro nome que surgiu na mente de Jacob, mas ele rejeitou imediatamente a possibilidade. Os Cullen jamais entregariam uma mulher inocente aos Volturi.

Havia outros vampiros capazes de enxergar fragmentos do futuro.

— Quando receberam essa visão?

— Há alguns meses. No início, acreditavam que a mulher estivesse em outra parte do país. As visões mudaram. Agora sabem que ela virá para esta região.

Jacob apertou ainda mais o pescoço da criatura.

— Quando?

— Não sei.

— Quantos estão procurando por ela?

— Muitos.

— Eles sabem que nossa matilha existe?

— Não sabiam.

A resposta condenou o vampiro.

Jacob não poderia permitir que retornasse a Volterra levando informações sobre os lobos ou sobre a defesa da reserva.

— Espere — pediu a criatura, compreendendo a decisão estampada no rosto dele. — Posso ajudá-los. Posso contar outras coisas.

— Você já contou o suficiente.

Em um movimento rápido, Jacob arrancou-lhe a cabeça.

Os lobos avançaram sobre os restos. Poucos minutos depois, uma fogueira improvisada consumia as partes do corpo do vampiro, e a fumaça espessa subia entre as árvores.

Jacob observou as chamas em silêncio.

Uma mulher.

Uma marca em forma de lua e lobo.

Uma vidente anunciando que ela retornaria àquelas terras.

A história parecia absurda, mas o medo demonstrado pelo vampiro fora verdadeiro.

— Vamos voltar para a aldeia — ordenou. — O conselho precisa saber disso.

Transformou-se novamente no grande lobo avermelhado e correu em direção a La Push, seguido pelos demais.

A voz melancólica de Amy Lee preenchia o interior da picape enquanto Sarah dirigia pela estrada cercada por árvores. Seus dedos acompanhavam distraidamente no volante o ritmo de My Immortal.

Não fora uma boa escolha de música.

A canção despertava lembranças que ela tentava manter sob controle desde que deixara Grand Forks. Ainda assim, Sarah não teve coragem de desligá-la. Havia algo estranhamente reconfortante em permitir que aquela voz expressasse tudo o que ela ainda não conseguia colocar em palavras.

A viagem fora longa e cansativa. Sarah passara horas dirigindo, dormira em hotéis de estrada e sobrevivera a uma quantidade preocupante de café. Quanto mais se aproximava do destino, porém, menos percebia o cansaço.

As placas anunciavam que Forks estava próxima.

Sarah observou a floresta que cercava os dois lados da estrada. As árvores eram tão altas e a vegetação tão densa que, em alguns trechos, quase não se conseguia enxergar além dos primeiros metros.

Havia alguma coisa antiga naquele lugar.

Alguma coisa viva.

O céu estava nublado, e uma garoa fina cobria o para-brisa. Para alguém acostumada aos invernos da Dakota do Norte, o clima parecia ameno. A umidade, entretanto, era diferente. O frio não apenas tocava a pele; parecia entrar lentamente pelos ossos.

Sarah atravessou a pequena cidade de Forks e seguiu as orientações do GPS até a casa que alugara. O imóvel ficava em uma região tranquila, próxima à estrada que conduzia a La Push, mas ainda fora dos limites da reserva.

Ela escolhera aquela casa por causa das grandes janelas, da lareira na sala e, principalmente, da vista para a floresta.

Não era uma mansão, mas possuía mais espaço do que uma única pessoa necessitava.

Talvez Sarah tivesse escolhido uma casa tão grande porque ainda não aceitara completamente a ideia de morar sozinha.

Estacionou a picape e permaneceu alguns segundos segurando o volante.

— Chegamos — disse para o banco vazio ao seu lado.

O silêncio foi a única resposta.

Sua mãe deveria estar ali.

Ela certamente reclamaria da quantidade de árvores, diria que a casa era isolada demais e, cinco minutos depois, escolheria o quarto com a melhor vista. Também já teria comprado cortinas, almofadas e uma quantidade desnecessária de objetos decorativos.

A saudade atingiu Sarah com tanta força que ela precisou fechar os olhos.

Respirou profundamente e tocou o pingente em seu pescoço.

— Uma coisa de cada vez, Beija-flor — sussurrou, repetindo as palavras que sua mãe costumava dizer.

A empresa de mudança havia chegado antes dela. Os móveis principais já estavam posicionados, e as caixas ocupavam parte da sala. Sarah levou as malas para o quarto, tomou um banho e trocou a roupa amarrotada da viagem por uma calça jeans e uma blusa de mangas compridas.

Diante do espelho, soltou os cabelos negros, que caíram até sua cintura. Seus olhos pareciam ainda mais verdes devido ao cansaço e à vermelhidão provocada pelas horas de viagem.

Ela poderia esperar até o dia seguinte.

Seria mais sensato descansar, organizar a casa e telefonar para o hospital.

No entanto, passara vinte e quatro anos esperando por aquele encontro, mesmo sem saber.

Sarah pegou a fotografia de seus pais e a colocou dentro da bolsa. Depois retornou à picape.

Seu próximo destino era La Push.

Mais precisamente, a casa do homem que nunca conhecera.

Seu avô.

A pequena casa dos Black estava cheia.

Os membros do conselho ocupavam os poucos lugares disponíveis na sala, enquanto alguns dos jovens permaneciam encostados nas paredes. Billy Black observava o filho com uma expressão séria.

Jacob terminara de narrar o confronto na floresta, mas suas palavras haviam provocado mais perguntas do que respostas.

— Conte novamente o que ele disse sobre a marca — pediu Billy.

— Uma lua crescente envolvendo um lobo.

O velho Ateara, que até então permanecera calado, ergueu os olhos.

Sue Clearwater percebeu a reação.

— Você conhece esse símbolo?

Ateara trocou um olhar com Billy.

A mudança de comportamento dos mais velhos não passou despercebida por Jacob.

— Vocês estão escondendo alguma coisa.

— Não estamos escondendo — Billy respondeu.

— Acabei de dizer que os Volturi estão procurando uma mulher de nossa tribo. Se vocês sabem o que isso significa, este não é o momento para guardar segredos.

Ateara apoiou as mãos nos joelhos.

— Existe uma lenda.

Paul soltou o ar com impaciência.

— Sempre existe uma lenda.

Sam lançou-lhe um olhar de advertência, fazendo com que se calasse.

— É uma história muito antiga — prosseguiu Ateara. — Tão antiga que deixou de ser contada nas reuniões da tribo. Ela fala sobre uma descendente marcada pela lua e pelo lobo.

— E o que essa mulher faria? — Jacob perguntou.

— Não sabemos ao certo. Parte da história se perdeu. Os relatos afirmam que ela carregaria alguma forma de cura, mas também dizem que sua chegada seria anunciada por lágrimas e sangue.

— Isso é tudo?

— Há mais — respondeu Billy. — Mas não deveria ser discutido sem a presença de todos os anciãos.

Jacob passou a mão pelos cabelos.

— Os Volturi parecem conhecer essa história melhor do que nós.

— Então precisamos reunir tudo o que ainda sabemos — disse Sue. — Faremos uma fogueira esta noite.

Um som de motor se aproximando da casa interrompeu a conversa.

Todos permaneceram em silêncio.

Jacob olhou pela janela e viu uma picape desconhecida estacionar diante da residência.

— Estão esperando alguém? — perguntou.

Billy negou com a cabeça.

A porta da picape se abriu.

Uma jovem desceu.

Do lugar onde estava, Jacob não conseguia ver o rosto dela com clareza. Viu apenas os cabelos muito negros caindo por suas costas e a maneira hesitante como ela olhava para a casa, conferindo o endereço anotado em um papel.

— Eu resolvo — disse.

Preparava-se para abrir a porta quando Billy movimentou a cadeira de rodas.

— Você acabou de enfrentar um vampiro e está sem paciência. Deixe que eu receba a visitante.

Billy abriu a porta no instante em que Sarah se aproximava da varanda.

— Boa tarde — disse ela. — Desculpe aparecer sem avisar.

— Não há problema. Em que posso ajudá-la?

— Meu nome é Sarah. Estou procurando o senhor Ateara. Disseram que ele estaria aqui.

Dentro da casa, o velho Ateara ficou imóvel.

Durante anos, quase ninguém de fora da reserva o procurara.

Levantou-se devagar e caminhou até a porta.

— Eu sou Ateara.

Assim que o viu, todas as palavras que Sarah preparara durante a viagem desapareceram.

Ele era mais velho do que o homem que aparecia nas poucas fotografias guardadas por sua mãe. Seus cabelos estavam grisalhos, e o tempo marcara profundamente seu rosto. Ainda assim, ela reconheceu alguma coisa nele.

Os olhos.

Eram os mesmos olhos de Benjamin.

Por um breve instante, Sarah teve a impressão de que seu pai a observava através daquele homem.

— O senhor não me conhece — começou ela, sentindo a voz falhar. — Mas conheci seu rosto antes mesmo de chegar aqui.

Ateara franziu a testa.

Sarah abriu a bolsa e retirou a fotografia.

— Minha mãe guardou isto durante vinte e quatro anos.

Ele recebeu a imagem com as mãos trêmulas.

Assim que reconheceu as pessoas retratadas, perdeu a cor do rosto.

— Sophia...

— Sim.

Os olhos do ancião se fixaram em Benjamin.

— Meu filho.

As pessoas dentro da casa permaneceram em absoluto silêncio.

Ateara ergueu lentamente a cabeça.

— Quem é você?

Sarah respirou fundo.

— Meu nome é Sarah Mitena Ateara.

Ele continuou encarando-a, como se tivesse medo de acreditar.

— Sou filha de Sophia e Benjamin.

A fotografia quase escapou das mãos dele.

— Meu filho morreu há vinte e quatro anos.

— Há vinte e quatro anos e cinco meses — explicou Sarah. — Minha mãe estava grávida quando aconteceu.

Ateara desceu os poucos degraus da varanda.

Parou diante dela e levou as mãos ao seu rosto. Seus olhos percorreram cada detalhe de suas feições, procurando sinais do filho perdido.

— Os olhos são de Sophia — murmurou. — Mas o restante...

Uma lágrima desceu pelo rosto dele.

— Você se parece com Benjamin.

Sarah não conseguiu conter o próprio choro.

— Mamãe disse que o senhor gostaria de me conhecer.

— Gostaria?

Ele a puxou para seus braços.

— Esperei todos esses anos por alguma notícia. Pensei que Sophia tivesse decidido apagar completamente nossa família da vida dela. Nunca soube que Benjamin havia deixado uma filha.

Sarah o abraçou com força.

O cheiro de madeira e fumaça impregnado nas roupas de Ateara despertou nela uma sensação inesperada de segurança.

— Ela tentou me proteger — contou Sarah. — Ainda não compreendo de quê, mas sei que nunca deixou de amar meu pai.

— Minha neta — ele repetiu. — Minha querida neta.

Dentro da casa, Jacob sentiu o lobo se agitar.

Até aquele momento, observara o encontro com respeito, embora parte de sua mente continuasse ocupada pela ameaça revelada na floresta.

Então o vento mudou de direção.

Um aroma suave entrou pela porta aberta.

Canela.

Madeira úmida.

E algo que Jacob não conseguiu identificar.

Seu coração alterou o ritmo.

A inquietação surgiu tão depressa que ele precisou se afastar da parede. Não conseguia ver a jovem completamente; o corpo de Ateara ainda a escondia em seus braços.

Mesmo assim, alguma coisa o puxava em direção à porta.

Não era curiosidade.

Era necessidade.

Jacob avançou um passo.

Depois outro.

Billy observou o filho se aproximar e percebeu imediatamente que algo estava acontecendo. Conhecia cada expressão de Jacob, mas jamais vira aquela combinação de confusão e urgência em seu rosto.

Ateara finalmente desfez o abraço. Ainda com um dos braços ao redor dos ombros de Sarah, virou-se para as pessoas reunidas na casa.

— Vejam — anunciou entre lágrimas e risos. — Esta é minha neta. A filha de Benjamin.

Foi então que Sarah olhou para Jacob.

Ele estava parado na entrada.

Era muito alto, com os ombros largos e a pele acobreada. Seus cabelos negros estavam curtos, e havia alguma coisa intensamente selvagem em sua presença.

Mas foram os olhos dele que a prenderam.

Negros.

Profundos.

Por um instante, Sarah esqueceu como respirar.

Todo o restante perdeu a nitidez. A casa, as pessoas, a floresta e até o avô, que ainda mantinha o braço ao redor de seus ombros, pareceram recuar.

Existiam apenas aqueles olhos.

O coração dela bateu com tanta força que Sarah levou a mão ao peito. Não era dor. Como médica, conhecia suficientemente bem o funcionamento do corpo humano para reconhecer uma arritmia ou uma reação provocada pela adrenalina.

Aquilo, entretanto, não se parecia com nada que conhecesse.

Era como se alguma coisa em seu interior tivesse despertado.

Jacob também parou de respirar.

Para ele, o mundo não apenas desapareceu.

Desfez-se.

Todos os fios que o prendiam à vida pareceram romper-se ao mesmo tempo. O amor que sentira pela garota que escolhera um vampiro, a mágoa, a lealdade à matilha, as obrigações, os medos e até a imagem que construíra de si mesmo deixaram de ocupar o centro de sua existência.

Um novo vínculo surgiu.

Não era apenas um fio.

Eram milhares deles.

Fortes como cabos de aço, todos ligados à mulher que estava diante dele.

Naquele segundo, Jacob compreendeu o que acontecera com Sam, Jared, Paul e Quil. Compreendeu aquilo que passara anos criticando e jurara jamais aceitar.

Imprinting.

O universo não havia mudado.

Jacob apenas enxergava, pela primeira vez, seu verdadeiro centro.

Sarah.

A gravidade já não o prendia ao lugar onde estava.

Era ela.

O reconhecimento trouxe consigo uma onda de pavor.

— Não — Jacob murmurou.

Sarah franziu a testa.

— Desculpe?

Ele recuou um passo.

Billy chamou seu nome, mas Jacob parecia não ouvir.

— Jake? — Rachel tentou se aproximar.

Jacob olhou para Sarah uma última vez. Havia em seu rosto uma mistura de surpresa, sofrimento e revolta que ela não conseguia compreender.

Então ele se virou e correu.

— Jacob! — Billy gritou. — Volte aqui!

Ele atravessou o quintal e desapareceu entre as árvores antes que alguém pudesse impedi-lo.

Sarah permaneceu imóvel, olhando para o ponto onde ele sumira.

— Eu fiz alguma coisa? — perguntou.

— Não — Billy respondeu depressa. — Você não fez absolutamente nada.

— Então por que ele fugiu?

— Jacob está enfrentando alguns problemas — Sue explicou, lançando um olhar significativo para Billy. — E, infelizmente, fugir costuma ser a primeira reação dele quando não sabe o que fazer.

Paul soltou uma risada baixa.

Rachel o empurrou antes que dissesse alguma coisa.

Ateara apertou delicadamente os ombros da neta.

— Não permita que aquele cabeça-dura estrague este momento. Venha. Você precisa conhecer todos.

Billy afastou a cadeira para abrir espaço.

— Seja bem-vinda, Sarah. Esta casa está mais cheia do que de costume, mas sempre existe lugar para mais uma pessoa.

Sue recebeu Sarah com um abraço.

— Seu avô precisava muito de uma alegria como esta.

Sarah agradeceu e entrou.

Antes de cruzar a porta, porém, olhou novamente para a floresta.

Ela deveria pensar no avô.

Deveria perguntar sobre o pai, mostrar a carta deixada pela mãe e tentar compreender por que todas aquelas pessoas estavam reunidas.

No entanto, seus pensamentos permaneciam presos ao desconhecido que fugira ao vê-la.

Sarah tocou discretamente o pingente em seu pescoço.

A prata estava quente.

Muito mais quente do que deveria.

Dentro da casa, Ateara apresentava cada uma daquelas pessoas, mas os nomes se misturavam na mente da jovem.

Apenas um permanecia perfeitamente claro.

Jacob.

Sarah ainda não sabia quem ele era.

Não compreendia por que o mundo parecera desaparecer quando os olhos dos dois se encontraram.

E muito menos por que, no instante em que ele correu para a floresta, uma parte dela desejou abandonar tudo e correr atrás dele.