Acaso ou destino
5 Capítulo 4 - A filha da Lua
Sarah acordou com a sensação de que alguém estivera dentro de seu quarto.
Abriu os olhos rapidamente e permaneceu imóvel, observando a penumbra ao redor. As cortinas ainda não haviam sido instaladas, e a luz acinzentada da manhã atravessava as grandes janelas, revelando as caixas empilhadas junto às paredes e as roupas que ela não tivera disposição para organizar na noite anterior.
Não havia ninguém ali.
A porta continuava fechada.
O silêncio era interrompido apenas pelo som da chuva batendo no telhado.
Sarah respirou profundamente e tentou controlar o coração acelerado. Não se lembrava de ter ouvido qualquer ruído, mas a impressão de não estar sozinha fora intensa demais para ser ignorada.
Então o sonho retornou à sua memória.
Ela estava em uma praia cercada pela neblina. A lua parecia grande demais no céu e lançava sobre o oceano uma luz quase prateada. Sarah caminhava descalça pela areia molhada enquanto uma voz a chamava de algum lugar que ela não conseguia localizar.
Não reconhecia as palavras, mas compreendia o chamado.
Em determinado momento, um lobo avermelhado surgira entre as árvores. O animal se aproximara lentamente, sem demonstrar agressividade. Seus olhos negros permaneciam fixos nos dela.
Sarah estendera a mão.
Antes que pudesse tocar a pelagem do lobo, uma figura pálida aparecera atrás dela.
O sonho terminara com um grito.
Sarah se sentou na cama e levou a mão ao pingente. A prata estava fria, como deveria estar.
— Foi apenas um sonho — disse para si mesma.
A explicação não diminuiu a inquietação.
Levantou-se e caminhou até a janela. A floresta se estendia diante da casa como uma parede verde. A névoa rastejava entre as árvores, escondendo os pontos mais distantes.
Por um instante, Sarah pensou ter visto alguma coisa se mover.
Uma sombra grande demais para ser humana.
Ela piscou.
Não havia mais nada.
O som da campainha a fez se virar.
Sarah consultou o relógio e franziu a testa. Eram pouco mais de sete horas. Ninguém que conhecia apareceria tão cedo, especialmente porque quase ninguém sabia onde ela estava morando.
Vestiu um casaco por cima do pijama e desceu as escadas.
Antes de abrir a porta, olhou pelo visor.
Seu avô estava do lado de fora, segurando uma sacola em uma das mãos. Ao lado dele, Jacob permanecia alguns passos atrás, com as mãos nos bolsos e uma expressão que deixava claro que preferiria estar em qualquer outro lugar.
O coração de Sarah reagiu imediatamente.
Ela abriu a porta.
— Bom dia.
— Bom dia, minha querida — Ateara respondeu. — Trouxe o café da manhã.
Ergueu a sacola como se aquela fosse uma justificativa suficiente para aparecer antes das oito.
Sarah sorriu.
— O senhor sabe que eu tenho comida em casa, não sabe?
Ateara olhou para as caixas espalhadas pela sala.
— Onde?
Ela acompanhou seu olhar.
— Em alguma delas.
— Foi o que imaginei.
O avô entrou sem esperar outro convite. Jacob permaneceu na varanda.
Sarah voltou a atenção para ele.
— Você também trouxe café da manhã?
— Eu trouxe seu avô.
— Fui perfeitamente capaz de me locomover sozinho durante muitos anos — Ateara protestou da cozinha.
— Foi ele quem insistiu — Jacob explicou.
— E você sempre faz o que as pessoas pedem?
Um pequeno brilho surgiu nos olhos dele.
— Quase nunca.
— Então devo me sentir honrada.
— Ainda estou decidindo.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Vai continuar na varanda?
Jacob hesitou antes de entrar.
Assim que passou por ela, o perfume de canela e madeira o envolveu novamente. O corpo inteiro reagiu à proximidade, mas ele manteve a expressão controlada.
Sarah fechou a porta.
A temperatura da casa pareceu aumentar subitamente. Talvez fosse apenas consequência da presença de Jacob, que irradiava um calor incomum.
Ela se lembrou do sonho.
Do lobo avermelhado.
Afastou imediatamente a associação. Jacob era apenas um homem. Um homem estranho, indelicado e excessivamente bonito, mas ainda assim um homem.
— Sua casa é grande — ele comentou, observando a sala.
— Percebi isso ontem à noite.
— Tem medo de ficar sozinha?
— Não tinha até você fazer essa pergunta.
Jacob se virou para ela.
— As portas estão trancando corretamente?
— Estão.
— E as janelas?
— Também.
— Existe iluminação do lado de fora?
Sarah cruzou os braços.
— Isso é uma conversa ou uma inspeção de segurança?
Ateara apareceu na entrada da cozinha.
— Jacob está preocupado porque a região é isolada.
— Jacob nem sequer me conhece.
As palavras atingiram um ponto sensível.
Ele a conhecia havia menos de um dia. Ainda assim, cada instinto em seu corpo exigia que verificasse as portas, as janelas e qualquer possível acesso àquela casa.
— Seu avô está preocupado — Jacob corrigiu.
Ateara soltou um ruído que poderia ser uma risada.
— Não me use como desculpa.
Jacob lançou-lhe um olhar impaciente.
Sarah percebeu a troca silenciosa entre os dois.
— Existe alguma coisa que vocês não estão me contando?
— Muitas — Ateara respondeu.
Jacob fechou os olhos brevemente.
— Isso deveria tranquilizá-la?
— Não tenho idade para perder tempo inventando explicações ruins — disse o velho. — Sarah conhecerá parte da verdade esta noite.
— Parte? — ela repetiu.
— A parte que conhecemos.
Ateara retornou à cozinha antes que ela pudesse fazer outra pergunta.
Sarah olhou para Jacob.
— Você pretende fugir novamente quando eu perguntar o que está acontecendo?
A provocação fez com que ele sustentasse seu olhar.
— Não.
— Então por que fugiu ontem?
Jacob havia ensaiado diferentes respostas durante a noite. Nenhuma delas pareceu adequada diante dos olhos verde-água.
— Porque fui surpreendido.
— Pela existência de uma neta que ninguém conhecia?
— Por você.
A resposta saiu antes que pudesse impedir.
Sarah permaneceu em silêncio.
— O que há em mim de tão assustador? — perguntou por fim.
Jacob desviou o olhar para a janela.
— Ainda estou tentando descobrir.
Ela deveria ter se sentido ofendida. Contudo, o tom dele não carregava desprezo. Havia confusão, vulnerabilidade e algo mais profundo que Sarah não conseguia interpretar.
— Você poderia ter começado com um cumprimento — disse.
— Eu sei.
— Ou permanecido por tempo suficiente para ouvir meu nome.
— Sarah.
O modo como Jacob pronunciou seu nome fez com que algo estremecesse dentro dela.
— Então você ouviu.
— Ouvi tudo.
— E decidiu correr mesmo assim.
— Não foi meu melhor momento.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Sarah.
— Pelo menos concordamos em alguma coisa.
Jacob também sorriu, embora rapidamente. Era a primeira vez que ela o via sem a expressão fechada.
A mudança transformou completamente seu rosto.
Sarah sentiu o coração acelerar e ficou irritada consigo mesma por isso.
— Podemos recomeçar — ela propôs.
Estendeu a mão.
— Sarah Ateara.
Jacob olhou para a mão oferecida.
O simples gesto pareceu mais perigoso do que qualquer confronto que enfrentara na floresta.
Ainda assim, segurou-a.
— Jacob Black.
O contato produziu um choque quente entre os dois.
Sarah puxou o ar, surpresa.
Jacob apertou os dedos dela por reflexo antes de se obrigar a soltá-los.
— Eletricidade estática — Sarah murmurou.
— Provavelmente.
Nenhum dos dois acreditou naquela explicação.
O pingente sobre o peito dela aqueceu.
Sarah levou a mão à joia.
— Isso acontece desde que cheguei.
— O quê?
— O metal fica quente.
Jacob observou o desenho da lua e do lobo.
— Onde conseguiu esse pingente?
— Era de minha mãe. Meu pai deu a ela.
— Posso ver?
Sarah hesitou antes de retirar a corrente. Colocou a joia sobre a palma da mão e a mostrou a Jacob, sem entregá-la.
O símbolo era exatamente igual ao descrito pelo vampiro.
Uma lua crescente envolvendo a silhueta de um lobo.
A expressão de Jacob mudou.
— O que foi?
— Nada.
— Você é péssimo mentindo.
— Não estou mentindo.
— Então me diga por que está olhando para o pingente como se ele pudesse explodir.
Ateara retornou à sala com três canecas.
Ao ver a joia nas mãos da neta, parou.
— Benjamin deu isso a Sophia?
— Sim. Há alguma coisa errada?
O velho colocou as canecas sobre a mesa.
— Seu pai mandou fabricar esse pingente pouco antes de morrer. Na época, não compreendi por quê.
— Ele conhecia a lenda — Jacob concluiu.
Ateara assentiu.
Sarah olhou de um para o outro.
— Que lenda?
— A história que será contada esta noite — respondeu o avô. — E que talvez explique por que sua mãe manteve você distante de nós.
Depois do café, Ateara insistiu em ajudar Sarah a organizar a casa. Na prática, sentou-se no sofá e contou histórias enquanto a neta abria as caixas.
Jacob permaneceu.
Disse que estava ali para carregar os objetos pesados, embora Sarah não tivesse pedido ajuda. Em poucas horas, ele montou uma estante, ajustou uma porta que não fechava corretamente e descobriu um problema na instalação da lareira.
Sarah observava a facilidade com que ele consertava tudo.
— Você sempre invade casas alheias e começa a fazer reparos?
— Apenas quando há risco de a porta cair.
— A porta não ia cair.
Jacob movimentou-a com uma das mãos, fazendo a dobradiça solta produzir um som preocupante.
— Ainda.
Sarah revirou os olhos.
— Sabe que posso contratar alguém para isso.
— Pode.
— Mas vai continuar fazendo mesmo assim?
— Vou.
Ateara, acomodado no sofá, escondia o sorriso atrás da caneca.
A resistência de Jacob parecia perder força sempre que Sarah precisava de alguma coisa. Ele tentava manter distância, mas era incapaz de ignorar até mesmo os menores problemas ao redor dela.
Sarah, por sua vez, começava a se sentir estranhamente confortável em sua presença.
Não compreendia o que havia acontecido no primeiro encontro. Também não entendia por que Jacob alternava momentos de proximidade com outros em que parecia erguer uma barreira entre os dois.
Ainda assim, havia nele algo familiar.
Como se Sarah o tivesse conhecido em outro lugar.
Talvez no sonho.
A lembrança do lobo avermelhado retornou, e ela observou o perfil de Jacob.
— Posso fazer uma pergunta estranha?
— Considerando as últimas vinte e quatro horas, não sei mais o que seria estranho.
— Existem lobos nesta região?
A chave de fenda parou na mão dele.
— Por que pergunta?
— Sonhei com um.
Ateara ergueu os olhos.
— Como era esse lobo?
— Grande. Muito maior do que deveria. A pelagem era castanho-avermelhada.
Jacob permaneceu imóvel.
— E o que ele fez? — perguntou Ateara.
— Nada. Apenas se aproximou.
— Você sentiu medo?
Sarah pensou antes de responder.
— Não dele.
— Havia mais alguém no sonho? — Jacob perguntou.
— Uma figura atrás de mim. Não consegui ver o rosto, mas era muito pálida.
O silêncio tomou conta da sala.
— Foi apenas um sonho — Sarah acrescentou.
Jacob voltou a apertar o parafuso com mais força do que o necessário.
— Talvez.
No início da noite, a comunidade começou a se reunir em uma área aberta próxima à praia.
O fogo já ardia quando Sarah chegou acompanhada do avô. Homens, mulheres e crianças ocupavam os bancos de madeira dispostos ao redor da fogueira. Alguns conversavam em voz baixa, outros dividiam pratos de comida, enquanto os mais jovens circulavam entre as famílias.
Para quem observasse de fora, pareceria apenas uma reunião comunitária.
Sarah, contudo, percebeu que havia algo diferente naquela noite.
As conversas eram discretas demais. Os mais velhos permaneciam sérios, e alguns dos rapazes pareciam mais interessados na floresta do que naquilo que acontecia ao redor do fogo. Sam conversava com Paul e Jared a pouca distância, enquanto Embry e Quil mantinham os olhos voltados para a linha das árvores.
Jacob estava ao lado de Billy.
Assim que Sarah surgiu, os olhos dele a encontraram.
Dessa vez, Jacob não desviou nem fugiu.
Ateara conduziu a neta até um lugar próximo aos anciãos.
— Sente-se aqui, minha querida.
Sarah obedeceu.
Jacob ocupou um banco do outro lado da fogueira, quase diretamente à sua frente. A luz das chamas iluminava parte de seu rosto, deixando a outra mergulhada em sombras.
Embora conversasse com Billy, a atenção dele continuava presa a Sarah.
Não era um olhar invasivo, mas constante. Vigilante.
Como se Jacob estivesse esperando que alguma coisa saísse da escuridão e tentasse alcançá-la.
Depois que todos se acomodaram, as conversas diminuíram gradualmente. As crianças se sentaram junto aos pais, e até mesmo os jovens, que antes trocavam provocações, permaneceram calados.
Billy avançou um pouco com a cadeira de rodas.
— As histórias de nosso povo foram transmitidas de geração em geração — começou. — Algumas são conhecidas por todas as famílias. Falam sobre nossos ancestrais, sobre os primeiros chefes e sobre os espíritos guerreiros que protegiam estas terras.
Sua voz era firme e alcançava todos ao redor da fogueira.
— Outras histórias, porém, foram preservadas apenas pelos anciãos. Não por serem menos importantes, mas porque falam sobre perigos que acreditávamos não precisar enfrentar novamente.
O vento soprou vindo do oceano e fez as chamas se inclinarem.
Sarah apertou discretamente o casaco ao redor do corpo.
— Durante muitos anos — Billy continuou —, acreditamos que uma dessas histórias jamais passaria de uma profecia. Esta noite, pela primeira vez, temos motivos para pensar que estávamos errados.
Os olhares se voltaram para Ateara.
O velho permaneceu alguns segundos contemplando o fogo. Quando começou a falar, sua voz possuía um ritmo diferente, quase solene, como se repetisse palavras que haviam atravessado incontáveis gerações antes de chegarem até ele.
— Antes que nosso povo se estabelecesse nestas terras, antes mesmo que os primeiros espíritos guerreiros aprendessem a abandonar o corpo para proteger suas famílias, os antigos já conheciam a existência dos frios.
Sarah franziu discretamente a testa, mas permaneceu em silêncio.
— Eram criaturas que caminhavam como homens — prosseguiu Ateara —, mas que já não pertenciam ao mundo dos vivos. Não respiravam, não envelheciam e não possuíam calor. Seus corações permaneciam imóveis dentro do peito, e seus corpos eram duros como a pedra. Alimentavam-se do sangue dos seres humanos e atravessavam os séculos escondidos entre aqueles que caçavam.
Um arrepio percorreu as costas de Sarah.
As palavras descreviam vampiros.
Seres que deveriam existir apenas em livros, filmes ou histórias usadas para assustar crianças.
Ela olhou discretamente ao redor, esperando encontrar algum sorriso que denunciasse uma brincadeira.
Ninguém sorria.
— Os frios eram rápidos e fortes — Ateara continuou. — Poucos homens conseguiam enfrentá-los e sobreviver. Para proteger nosso povo, os espíritos guerreiros aprenderam a entrar nos corpos dos grandes lobos. Com o passar do tempo, essa ligação se tornou parte de nosso sangue, e alguns de nossos descendentes passaram a carregar a força necessária para defender estas terras.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Seus olhos se moveram involuntariamente em direção a Jacob.
Ele a observava com uma intensidade difícil de suportar.
Ateara não interrompeu a narrativa.
— Durante muitas gerações, os protetores mantiveram os frios afastados. Entretanto, os anciãos descobriram que existiam criaturas muito mais antigas e poderosas do que aquelas que caçavam perto de nossas fronteiras. Elas viviam além do oceano, em uma cidade de pedra, e governavam os demais frios através do medo.
As chamas estalaram.
— Esses antigos procuravam poderes que pudessem ser tomados e usados. Quando ouviam falar sobre alguém diferente, enviavam seus caçadores. Alguns eram levados para aquela cidade. Outros desapareciam antes que pudessem ser encontrados.
Sarah levou os dedos ao pingente sob a roupa.
A prata estava morna.
— Foi durante uma dessas épocas de perseguição que uma mulher chegou às nossas terras — continuou Ateara. — Seu nome se perdeu com o tempo, mas ela pertencia a uma linhagem conhecida como Mitena.
Sarah enrijeceu.
O sobrenome de sua mãe.
Desejou perguntar se ouvira corretamente, mas se lembrou de que aquela história era contada diante de toda a comunidade. Manteve-se calada, embora cada palavra começasse a parecer dirigida exclusivamente a ela.
— A mulher vinha de um povo que observava a lua e estudava os ciclos da vida. Seus antepassados acreditavam que tudo o que existia carregava uma centelha: os homens, os animais, as árvores e até mesmo aquilo que parecia ter perdido a vida. Por isso, sua linhagem ficou conhecida como a linhagem da Lua Vindoura.
Mitena.
Lua vindoura.
A explicação dada por Sophia no dia do nascimento de Sarah retornou à narrativa como um eco distante.
— A mulher Mitena se apaixonou por um guerreiro de nosso povo — prosseguiu Ateara. — Dessa união deveria nascer uma criança que carregaria as duas heranças: a força dos protetores e a centelha da lua.
O fogo cresceu quando outro pedaço de madeira se partiu entre as chamas.
— Mas a criança não chegou a nascer. Antes que viesse ao mundo, os caçadores da cidade de pedra encontraram sua mãe. O guerreiro lutou para protegê-la e morreu ao seu lado.
A voz de Ateara se tornou mais baixa.
— Antes de morrer, a mulher fez uma promessa. A filha que lhe fora retirada retornaria em outra geração. Nascida novamente entre as duas linhagens, ela carregaria em sua pele o sinal de sua origem.
Billy assumiu a narrativa:
— A marca seria formada por uma lua crescente envolvendo um lobo. A lua representaria a linhagem Mitena. O lobo representaria o sangue dos protetores.
O ar pareceu desaparecer dos pulmões de Sarah.
Instintivamente, sua mão se moveu até o ombro esquerdo.
Jacob percebeu o gesto.
Billy também.
Nenhum deles disse coisa alguma.
Ateara voltou a falar:
— A criança marcada seria chamada de Filha da Lua. Enquanto permanecesse distante da terra dos ancestrais, aquilo que carregava dentro de si continuaria adormecido. Mas, no momento em que retornasse, a lua reconheceria seu sangue, o lobo reconheceria sua alma e o poder começaria a despertar.
Sarah sentiu a marca arder sob a roupa.
Não era uma dor intensa, mas uma sensação quente e pulsante, como se o desenho em sua pele reagisse às palavras.
Seu primeiro impulso foi se levantar.
Não o fez.
Permaneceu imóvel, com os olhos presos às chamas.
— Os antigos não sabiam qual forma esse poder assumiria — disse Billy. — Alguns afirmavam que a Filha da Lua seria capaz de curar qualquer ferida. Outros diziam que poderia tocar a centelha escondida em todos os seres vivos.
Ateara inclinou-se ligeiramente para a frente.
— A versão mais antiga da lenda, entretanto, falava sobre algo ainda mais difícil de compreender. Dizia que suas mãos alcançariam aquilo que a morte havia silenciado. Que, através dela, o que já não possuía vida poderia recordar, por alguns instantes, como era estar vivo.
Um murmúrio inquieto percorreu as pessoas reunidas.
Sarah sentiu um frio profundo.
Seu conhecimento médico rejeitava a história. Um coração que deixara de funcionar poderia ser reanimado em determinadas circunstâncias, mas havia limites. A morte biológica não permitia retornos milagrosos.
Ainda assim, Ateara não parecia falar sobre medicina.
Falava sobre criaturas que já não respiravam.
Criaturas cujos corações haviam permanecido imóveis durante séculos.
— Esse dom não seria apenas uma bênção — prosseguiu o velho. — Também seria uma ameaça. Para os vivos, a Filha da Lua poderia representar cura. Para os frios, poderia representar algo que perderam no momento da transformação.
Sarah olhou para Jacob.
Ele permanecia tenso, com os braços apoiados nos joelhos e as mãos fechadas.
— Quando os governantes da cidade de pedra descobrissem que a criança havia nascido — Billy continuou —, enviariam seus caçadores. Não desejariam matá-la. Tentariam levá-la viva, estudar seu poder e obrigá-la a usá-lo em favor deles.
Uma rajada de vento atravessou a fogueira.
As chamas se elevaram, espalhando pequenas faíscas no ar.
Sarah conteve o impulso de recuar.
— A lenda também fazia um aviso — disse Ateara. — A chegada da Filha da Lua seria precedida por uma grande perda. Ela retornaria à terra de seus ancestrais carregando o luto no coração, acreditando que procurava apenas sua origem. Não saberia que sua volta despertaria forças que haviam esperado durante muitas gerações.
Sarah sentiu as lágrimas se formarem em seus olhos.
Sophia.
A grande perda.
A viagem motivada pelo luto.
O retorno à terra do pai.
Não poderia ser apenas uma coincidência.
— Mas a Filha da Lua não caminharia sozinha — Ateara prosseguiu. — No instante em que retornasse, seria reconhecida por um dos protetores. Um vínculo antigo despertaria entre os dois, unindo a luz da lua à força do lobo.
Jacob ficou completamente imóvel.
Sarah ergueu os olhos em sua direção.
Por um momento, as chamas pareceram desaparecer entre eles. A mesma sensação do primeiro encontro atravessou o peito dela: a impressão de que o mundo diminuía até restarem apenas os olhos negros de Jacob.
Ele desviou o olhar primeiro.
— A lenda não dizia que o protetor seria seu dono — Billy esclareceu. — Tampouco afirmava que ela estaria obrigada a amá-lo. Dizia apenas que ele reconheceria sua existência antes de compreender o motivo e que sua vida passaria a estar ligada à proteção dela.
Sarah continuou olhando para Jacob.
A fuga.
A preocupação com a segurança de sua casa.
A insistência para permanecer por perto.
A maneira como ele a observava.
As peças começaram a se aproximar, embora ainda não formassem uma resposta completa.
— O destino da Filha da Lua não estava escrito — concluiu Ateara. — Ela poderia curar ou destruir. Poderia aproximar os dois mundos ou iniciar uma guerra entre eles. Nenhuma profecia escolheria seu caminho. A escolha seria dela.
O velho se calou.
Durante alguns segundos, ouviu-se apenas o fogo e o som distante do oceano.
Sarah permaneceu em silêncio.
Seu corpo estava tenso, a marca queimava sob a blusa e o pingente parecia pulsar contra seu peito.
Queria se levantar.
Queria perguntar se todos haviam enlouquecido.
Queria fugir para sua casa, arrumar as malas e retornar a Grand Forks.
Mas também queria saber por que sua mãe escondera exatamente a mesma história durante vinte e quatro anos.
Aos poucos, Billy encerrou a reunião. As famílias começaram a se despedir, embora muitos olhares curiosos se voltassem para Sarah.
Sue a abraçou antes de ir embora.
— Você não precisa compreender tudo esta noite.
Sarah agradeceu com um movimento de cabeça. Não confiava na própria voz.
Sam reuniu os rapazes e se afastou com eles, dizendo que fariam uma ronda na fronteira. Paul lançou um último olhar na direção de Jacob, mas, pela primeira vez, conteve qualquer comentário.
Ateara permaneceu sentado ao lado da neta.
Billy aproximou a cadeira de rodas.
Jacob ficou do outro lado da fogueira, observando as pessoas partirem.
Sarah esperou até que as últimas famílias estivessem distantes. Quando restaram apenas ela, o avô, Billy e Jacob, levantou-se.
— Agora vocês vão me contar a verdade.
Ateara também se levantou.
— A lenda é verdadeira, minha querida.
— Não estou perguntando sobre a lenda. Estou perguntando sobre mim.
Ela afastou os cabelos e puxou a gola da blusa para o lado, expondo a parte superior das costas.
A marca parecia mais escura do que pela manhã.
A lua crescente envolvia perfeitamente a silhueta do lobo.
Billy fechou os olhos por um instante.
Ateara levou a mão à boca.
Jacob atravessou o espaço entre eles, mas parou antes de se aproximar demais.
Seus olhos permaneceram fixos na marca.
— É exatamente como ele descreveu — disse.
Sarah se virou para ele.
— Quem descreveu?
Jacob olhou para Billy.
O pai assentiu, autorizando-o a contar.
— Um vampiro que encontramos hoje na floresta.
Sarah sentiu o estômago se contrair.
— Você está falando sério.
— Sim.
— Você realmente espera que eu acredite que interrogou um vampiro?
— Não espero que acredite sem provas. Mas isso aconteceu.
— E o que ele disse?
— Que os Volturi procuram uma mulher descendente dos quileutes. Não sabem seu nome, mas conhecem a marca. Uma lua envolvendo um lobo.
Sarah ajeitou a blusa e se afastou da fogueira.
— Minha mãe sabia.
— Pelo menos parte disso — Ateara respondeu. — Benjamin deve ter contado a ela.
— Então por que me mandou para cá? — Sarah perguntou, com a voz embargada. — Passou a vida inteira me escondendo e, pouco antes de morrer, pediu justamente que eu voltasse ao lugar onde essas criaturas esperavam me encontrar.
— Talvez Sophia soubesse que eles já haviam descoberto você — Billy ponderou. — Se isso aconteceu, La Push deixou de ser o lugar do qual precisava fugir e se tornou o único onde poderia ser protegida.
Sarah passou as mãos pelos cabelos.
— Protegida por quem?
O silêncio dos três homens foi imediato.
Ela olhou primeiro para o avô, depois para Billy e, por fim, para Jacob.
— A lenda fala sobre protetores que entram nos corpos de lobos.
Ninguém respondeu.
— Esta manhã eu contei que sonhei com um lobo avermelhado — continuou. — Depois perguntei a Jacob se existiam lobos nesta região. Os dois reagiram como se eu tivesse dito alguma coisa impossível.
Jacob sustentou seu olhar.
— Existem lobos na região.
— Não foi isso que perguntei.
— Sarah...
— Você sabia que eu era a mulher da lenda desde o momento em que viu o pingente?
— Suspeitei.
— E quando viu a marca?
— Tive certeza.
— O que mais está escondendo de mim?
Jacob respirou fundo.
— Coisas que não dependem apenas de mim.
— Sua vida ficou ligada à minha?
A pergunta o atingiu diretamente.
Billy e Ateara permaneceram em silêncio.
Jacob demorou a responder.
— A lenda pode estar falando de muitas formas de ligação.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Não responda como se eu fosse incapaz de perceber quando alguém está evitando a verdade.
Jacob desviou os olhos para o fogo.
Sarah se aproximou dele.
— Você fugiu porque alguma coisa aconteceu quando me viu.
Não era uma pergunta.
— Sim.
— Foi o vínculo mencionado na lenda?
Os músculos do maxilar de Jacob se contraíram.
— Eu ainda estou tentando compreender.
— Mas aconteceu.
— Aconteceu.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— E o que exatamente isso significa?
Jacob olhou para Billy. Dessa vez, o pai não interferiu.
— Significa que, no momento em que olhei para você, tudo mudou.
A resposta foi simples, mas a intensidade de sua voz fez Sarah perder o fôlego.
— Isso não explica nada.
— É a única explicação que consigo oferecer agora.
— Você se sente obrigado a me proteger?
— Não é uma obrigação.
— Então o que é?
Jacob aproximou-se um passo.
— Uma certeza.
Sarah sustentou seu olhar.
— Você nem me conhece.
— Eu sei.
— Não sabe se sou uma boa pessoa, se sou insuportável ou se vou embora amanhã.
A possibilidade de que ela partisse provocou uma sombra de dor no rosto dele.
— Nada disso muda a certeza.
— E eu deveria aceitar isso?
— Não.
A resposta a surpreendeu.
— Não?
— Você não me deve coisa alguma, Sarah. Não precisa confiar em mim, não precisa permanecer perto de mim e muito menos sentir algo apenas porque uma lenda diz que nossas vidas estão ligadas.
— Mas você vai me seguir?
— Se estiver em perigo, sim.
— Mesmo que eu mande você embora?
Jacob hesitou.
— Tentarei respeitar sua decisão.
— Tentará?
— É o máximo que consigo prometer.
Apesar do medo, Sarah quase sorriu.
A honestidade dele era irritante, mas preferível às respostas cuidadosamente incompletas dos outros.
Ela retornou para perto do avô.
— Digamos que eu acredite em tudo. O que acontece agora?
Billy respondeu:
— Reforçaremos a proteção ao redor de sua casa e da reserva. Ninguém ficará sozinho até descobrirmos quantos vampiros estão procurando você.
— E minha vida? Meu trabalho começa em poucos dias.
— Continuará trabalhando — Jacob disse. — Mas alguém irá acompanhá-la.
— Alguém ou você?
— Eu, sempre que possível.
— Isso não foi um pedido.
— Não.
Sarah abriu a boca para protestar, mas um uivo distante atravessou a noite.
Jacob se virou imediatamente para a floresta.
Um segundo uivo respondeu, vindo da fronteira norte.
Billy ficou tenso.
— É Sam.
Jacob recuou em direção às árvores.
— O que está acontecendo? — Sarah perguntou.
Ele não respondeu de imediato. Toda a suavidade que demonstrara durante a conversa desapareceu, substituída pela postura alerta de um guerreiro.
— Encontraram um rastro.
— De um vampiro?
— Provavelmente.
Sarah segurou o braço dele antes que se afastasse.
O calor da pele de Jacob era quase inacreditável.
— Não vá.
As palavras escaparam antes que pudesse pensar.
Jacob olhou para a mão dela e depois para seu rosto.
Por um breve instante, o medo nos olhos de Sarah abafou todos os conflitos que ele sentia desde o imprinting.
— Preciso ir.
— Por quê?
Outro uivo ecoou.
Mais próximo.
Jacob retirou delicadamente a mão dela de seu braço, mas não a soltou de imediato.
— Porque foi para isso que os protetores nasceram.
Ele se afastou e correu para a floresta.
Sarah permaneceu junto à fogueira, observando-o desaparecer na escuridão.
Seu coração batia de maneira descontrolada.
Não apenas por causa dos vampiros.
Não apenas por causa da lenda.
Mas porque, pela primeira vez desde que chegara a La Push, Sarah compreendeu que o maior segredo não estava na marca, no pingente ou no poder que poderia carregar.
Estava no homem que fugia para enfrentar monstros todas as vezes que ela desejava que permanecesse ao seu lado.
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