Acaso ou destino

16 Capítulo 15- O homem sem laços


A divisa norte era uma região pouco utilizada até mesmo pelos moradores de La Push.

A floresta se tornava mais densa naquele ponto, e o terreno irregular dificultava a passagem de veículos. Não havia casas, trilhas turísticas ou qualquer razão para que seres humanos se aproximassem durante a noite.

Era o lugar ideal para uma conversa que jamais poderia ser testemunhada por pessoas comuns.

Sarah e Jacob chegaram pouco antes do anoitecer.

A linha da fronteira não era visível, mas Jacob conhecia cada parte daquele território. Parou ao lado de duas árvores antigas, cujos troncos inclinados formavam uma espécie de arco sobre o caminho.

— Daqui em diante começam as terras externas — explicou.

Sarah observou a floresta.

— Ele já chegou?

— Não sinto nenhum cheiro.

— E os outros?

Jacob não precisou perguntar a quem ela se referia.

Sam, Paul, Embry e Leah estavam escondidos na mata do lado quileute. Permaneciam longe o suficiente para respeitar o pedido de uma conversa privada, mas perto o suficiente para agir caso Marcus atacasse.

Do outro lado, Carlisle, Edward e Bella aguardavam em uma área mais distante. Não atravessariam a fronteira nem se aproximariam, a menos que fossem chamados.

— Todos estão em posição — Jacob respondeu.

Sarah olhou para ele.

— Isso ainda conta como uma conversa privada?

— Marcus pediu que não trouxéssemos ninguém. Não disse que a floresta precisava estar vazia.

— Uma interpretação conveniente.

— Prefiro chamar de interpretação segura.

Sarah tocou o pingente.

A prata permanecia morna.

— Está nervosa? — Jacob perguntou.

— Vou encontrar um dos três vampiros mais antigos do mundo. Ele enxerga vínculos e talvez deseje que eu o mate. Sim, estou nervosa.

Jacob segurou a mão dela.

— Não tocará nele se não se sentir segura.

— Talvez eu precise tocar para compreender o que deseja.

— Então eu permanecerei ligado a você.

— Foi por isso que aceitei vir.

Ele levou a mão dela aos lábios.

— Se alguma coisa parecer errada, voltamos para a reserva.

— Combinado.

A noite desceu lentamente sobre as árvores.

O céu adquiriu um tom azul-escuro, e os primeiros raios da lua atravessaram as nuvens.

Então Jacob sentiu o cheiro.

Antigo.

Adocicado.

Morto.

Um rosnado surgiu em seu peito.

— Ele está vindo.

Marcus apareceu entre as árvores sem produzir qualquer som.

Era alto e muito magro. Os cabelos negros caíam até os ombros, e a pele parecia ainda mais pálida sob a luz da lua. Vestia um casaco escuro que lembrava roupas de outra época.

Contudo, foram seus olhos que mais impressionaram Sarah.

Não pela cor vermelha.

Pelo vazio.

Marcus parecia alguém que continuava existindo apenas porque a morte se recusava a recebê-lo.

Ele parou do lado externo da fronteira.

Seus olhos se voltaram primeiro para Sarah e depois para Jacob.

Durante alguns segundos, não disse coisa alguma.

— Vejo agora — murmurou.

Jacob se colocou um pouco mais à frente.

— Vê o quê?

— O vínculo.

Marcus inclinou a cabeça.

— Em milhares de anos, nunca encontrei algo semelhante.

Sarah sustentou seu olhar.

— O imprinting?

— É apenas uma parte.

Marcus ergueu lentamente uma das mãos, sem se aproximar.

— O laço do lobo nasceu no instante em que ele a viu. Era absoluto, mas seguia em uma única direção. Depois, algo mudou.

— Sarah aceitou o vínculo — Jacob afirmou.

— Sim.

Os olhos de Marcus permaneceram fixos no espaço entre os dois.

— A escolha dela criou um segundo laço. Não uma cópia do primeiro, mas uma resposta. Os dois vínculos se entrelaçaram e formaram um ciclo.

Sarah olhou para as mãos unidas.

— É assim que minha força retorna?

— Seu poder percorre o laço e encontra o caminho de volta.

— Aro sabe disso?

— Suspeita.

— E Selene?

— Enxerga o brilho, mas não compreende a estrutura. Eu sou o único capaz de ver cada ligação.

Jacob estreitou os olhos.

— Então foi por isso que pediu para nos encontrar.

Marcus voltou a atenção para ele.

— Em parte.

— Qual é a outra parte?

O vampiro permaneceu em silêncio.

Sarah percebeu que, por trás do vazio, havia medo.

— Didyme — disse.

A mudança foi imediata.

Marcus não respirava, mas seu corpo reagiu como se tivesse perdido o ar.

— Carlisle contou — Sarah explicou. — Disse que ela era sua companheira.

— Era mais do que isso.

A voz dele adquiriu uma profundidade dolorosa.

— Didyme era a única presença que tornava a eternidade suportável.

Jacob continuava atento a cada movimento.

— Ela foi destruída.

— Sim.

— Por quem?

Marcus olhou para a escuridão entre as árvores.

— Durante séculos, acreditei que tivesse sido um inimigo dos Volturi. Aro afirmou que não encontrou qualquer rastro do responsável.

— Mas descobriu a verdade — Sarah concluiu.

Os olhos vermelhos voltaram para ela.

— Meu dom permite enxergar vínculos, não memórias. Aro sempre soube disso. Durante muito tempo, escondeu o próprio envolvimento atrás de pessoas que não possuíam ligação emocional com o crime.

— Então como descobriu?

— Um dos guardas que ajudou a destruir Didyme desenvolveu arrependimento. O laço entre ele e o segredo tornou-se visível para mim.

Sarah sentiu um frio profundo.

— Foi Aro.

— Sim.

A palavra pareceu carregar séculos de sofrimento.

— Didyme desejava partir de Volterra — Marcus continuou. — Seu dom produzia felicidade nas pessoas. Ela não queria que Aro o utilizasse para manipular outros clãs. Planejávamos abandonar os Volturi juntos.

— Aro não permitiria perder vocês — Jacob disse.

— Não permitiria perder a mim. Minha habilidade era importante para seus planos. Então destruiu a própria irmã e fingiu procurar o assassino.

— Por que permaneceu ao lado dele depois de descobrir? — Sarah perguntou.

Marcus ergueu o braço.

Por um instante, linhas escuras pareceram surgir sob sua pele, envolvendo o pulso como correntes.

— Porque Chelsea me mantém ligado aos Volturi.

Jacob mostrou os dentes.

— Ela controla sua lealdade.

— Enfraqueceu todos os vínculos que poderiam me afastar de Aro e fortaleceu minha ligação com a guarda. Mesmo depois de descobrir a verdade, não consegui partir.

— Mas conseguiu vir até aqui.

— Por pouco tempo. A cada quilômetro de distância, sinto a necessidade de retornar.

Sarah observou as linhas escuras.

Não sabia se eram reais ou se seu poder começava a perceber aquilo que Marcus enxergava.

— Foi por isso que pediu minha ajuda.

— Você expulsou o veneno do corpo de uma metamorfa — Marcus disse. — Talvez consiga retirar algo que não pertence à minha mente.

Jacob apertou a mão de Sarah.

— Isso pode ser uma armadilha.

— Pode — Marcus concordou. — Aro usaria exatamente esta história para despertar a compaixão dela.

— Como provamos que é verdade? — Sarah perguntou.

Marcus olhou em direção ao lugar onde Edward estava escondido.

— O leitor de mentes pode se aproximar.

Jacob ficou tenso.

— Você disse que viria sozinho.

— E vim. Não me oponho às testemunhas que já estão na floresta.

Sarah quase sorriu.

Marcus enxergava cada vínculo. Seria impossível esconder dele a presença dos outros.

— Edward — chamou.

Alguns segundos depois, ele surgiu entre as árvores do lado externo da fronteira. Carlisle e Bella não o acompanharam.

— Há quanto tempo sabe que estou aqui? — Edward perguntou.

— Desde que chegou.

— E não se incomodou?

— Se pretendesse atacar, o lobo já teria se transformado.

Edward parou a alguns metros de Marcus.

— Posso ler sua mente?

— Pode tentar.

O silêncio se prolongou.

Edward franziu a testa.

— Há interferência.

— Chelsea — Marcus explicou. — A ligação artificial ocupa cada pensamento que se aproxima de Aro.

— Mas consigo ver Didyme.

Uma dor atravessou o rosto de Marcus.

Edward fechou os olhos.

— Ela queria partir. Aro pediu que se encontrasse com ele antes da viagem. Depois... escuridão.

Marcus não se moveu.

— Continue.

— Você descobriu a verdade por meio de um guarda chamado Andreas. Ele participou da emboscada.

— Andreas foi destruído no dia seguinte.

— Por Aro?

— Por Caius, a pedido de Aro.

Edward abriu os olhos.

— Ele está dizendo a verdade.

Jacob continuou desconfiado.

— Isso não significa que Sarah consiga quebrar o vínculo sem se ferir.

Marcus olhou para ela.

— Não peço que arrisque a vida.

— Então o que pede?

— Uma escolha.

— Qual?

— Liberte minha mente. Depois, decidirei se ainda desejo continuar existindo.

Sarah se aproximou da fronteira.

Jacob não soltou sua mão.

— Não posso trazer Didyme de volta.

— Eu sei.

— E não usarei meu poder para matar você.

— Não precisa. Quando estiver livre, encontrarei meu próprio caminho.

— Também não o libertarei apenas para que procure a morte.

Marcus pareceu surpreso.

— Não pode determinar o que farei.

— Exatamente. Assim como Aro e Chelsea não podem. Meu poder não substituirá uma prisão por outra.

Ela parou diante dele, ainda do lado quileute.

— Se eu romper a ligação, prometerá esperar até o julgamento antes de decidir qualquer coisa?

— Por quê?

— Porque sua história pode impedir que Aro condene pessoas inocentes.

— Deseja usar meu sofrimento como arma.

— Desejo que a verdade seja conhecida.

Marcus contemplou os fios luminosos e escuros que apenas ele podia enxergar.

— E depois do julgamento?

— Depois, a escolha será sua.

— Sarah — Jacob advertiu. — Não sabemos o que acontecerá quando ela tocá-lo.

— Permanecerei ligada a você.

— Marcus é muito mais antigo do que Carlisle.

— Não tentarei fazê-lo viver novamente. Apenas retirar o que não pertence a ele.

Edward observava a mente do vampiro.

— Ele acredita que pode funcionar.

Jacob olhou para Marcus.

— Se tentar qualquer coisa...

— Não desejo a morte dela — Marcus respondeu. — Sua existência é a primeira possibilidade de justiça que encontrei em séculos.

Sarah estendeu a mão livre sobre a fronteira.

Marcus olhou para ela.

Depois colocou a própria mão sobre a sua.

A pele era gelada.

No instante do contato, Sarah foi atingida por uma escuridão profunda.

Viu corredores de pedra.

Tronos.

Séculos de silêncio.

Viu uma mulher de cabelos negros sorrindo sob o sol de uma época distante. Didyme girava entre flores, e a felicidade ao redor dela parecia possuir cor.

Depois veio o fogo.

A ausência.

E uma corrente escura envolvendo Marcus, puxando-o de volta para Aro todas as vezes que tentava partir.

Sarah quase perdeu o equilíbrio.

Jacob aumentou o contato.

O ciclo se abriu.

A luz prateada percorreu os braços dos dois e atravessou a mão de Marcus.

As correntes escuras ficaram visíveis.

Edward recuou.

— Consigo vê-las.

Sarah concentrou-se.

Não tentou curar o corpo morto nem despertar o coração. Procurou apenas aquilo que não pertencia à essência de Marcus.

A ligação criada por Chelsea resistiu.

Era antiga, fortalecida inúmeras vezes e entrelaçada aos pensamentos do vampiro.

— Está presa à culpa — Sarah murmurou.

Marcus fechou os olhos.

— Chelsea usou meu desejo de permanecer perto das lembranças de Didyme. Fez-me acreditar que abandonar Volterra seria abandoná-la novamente.

— Mas Didyme queria partir.

— Sim.

— Então escolha cumprir o último desejo dela.

A luz se tornou mais intensa.

Marcus viu Didyme novamente.

Não no salão dos Volturi.

Na estrada que planejavam seguir juntos.

Livre.

Esperando.

A primeira corrente se rompeu.

O som não foi físico, mas todos o sentiram.

Marcus arqueou o corpo.

A segunda corrente tentou se prender à memória de Aro como irmão e amigo.

Sarah encontrou a verdade escondida sob aquele vínculo.

Traição.

Ela a expôs.

A corrente se desfez.

A terceira ligava Marcus à guarda.

Jacob sentiu a força de Sarah diminuir.

— Chega.

— Falta uma.

— O ciclo está enfraquecendo.

— Eu consigo.

— Nossa regra.

Sarah percebeu que ele estava certo.

A energia retornava com dificuldade. Romper um dom mantido durante séculos exigia mais do que curar uma ferida.

— Marcus — chamou. — Preciso que também escolha.

Ele abriu os olhos.

— Como?

— A última ligação não pode ser rompida apenas por mim. Você precisa deixá-la ir.

Marcus olhou para Volterra, embora a cidade estivesse do outro lado do mundo.

Durante quase três mil anos, os Volturi haviam sido sua identidade.

Aro, sua prisão.

Didyme, sua dor.

— Eu escolho partir — declarou.

A última corrente se rompeu.

A luz explodiu entre eles.

Sarah teria caído se Jacob não a segurasse.

Marcus recuou.

Pela primeira vez, seu rosto demonstrou algo além de vazio.

Espanto.

Ele olhou ao redor como se a floresta fosse um lugar novo.

— O chamado desapareceu.

Edward tentou ler sua mente.

— A interferência também.

Marcus levou a mão ao próprio peito.

O coração não batia.

Ainda assim, algo dentro dele havia despertado.

Vontade.

— Está livre — Sarah disse.

Marcus olhou para ela.

— Você não retirou apenas o dom de Chelsea. Protegeu minha mente.

Edward confirmou:

— Consigo ouvir os pensamentos dele agora, mas existe uma camada prateada ao redor das lembranças que envolvem Sarah.

— Aro não conseguirá ver esta conversa quando tocar sua mão — ela compreendeu.

Marcus observou o novo vínculo.

Um fio prateado ligava sua essência à de Sarah. Não era submissão nem lealdade artificial.

Era proteção.

— Seu poder concede liberdade — disse.

Sarah apoiou-se em Jacob.

— Use-a.

Marcus olhou para Edward.

— Retorne aos outros. Preciso falar apenas com eles.

Edward hesitou, mas obedeceu.

Quando desapareceu entre as árvores, Marcus se aproximou novamente da fronteira.

— O julgamento já possui uma sentença — revelou. — Caius deseja destruir os lobos e os Cullen. Aro deseja conservar Sarah e Jacob. As testemunhas foram convocadas apenas para assistir.

— Então por que permitir uma defesa? — Jacob perguntou.

— Porque Aro precisa manter a aparência de justiça. Alguns clãs já questionam a autoridade dos Volturi.

— Você testemunhará contra ele? — Sarah perguntou.

— Sim.

— Isso o condenará.

— Já fui condenado no dia em que Didyme morreu.

— Prometeu esperar até o julgamento antes de escolher a morte.

Marcus contemplou o rosto dela.

— Cumprirei a promessa.

— E depois?

— Ainda não sei.

A resposta era suficiente.

— Há mais uma coisa — Marcus continuou. — Jane, Alec e Chelsea atacarão primeiro. Se o escudo resistir, Caius ordenará o avanço da guarda.

— E Aro?

— Tentará tocar você.

— Para ler meus pensamentos?

— Para possuir cada lembrança de seu poder.

Jacob mostrou os dentes.

— Ele não chegará perto.

— Aro contará com sua reação. Deseja que ataque primeiro para justificar a sentença.

— Então o que sugere?

Marcus olhou para Sarah.

— Obrigue-o a tocar alguém que não consegue ler.

Ela compreendeu.

— Você.

— Quando Aro encontrar silêncio em minha mente, saberá que perdeu o controle. Diante das testemunhas, pedirei que leia minhas lembranças sobre Didyme.

— Mas não conseguirá.

— Exatamente. Pela primeira vez, todos verão que o dom de Aro possui um limite.

Sarah pensou na estratégia.

— E então contará a verdade.

— Sim.

Marcus recuou.

— Preciso partir. Minha ausência será percebida.

— Aro tentará ler você assim que retornar — Jacob disse.

— Encontrará apenas aquilo que Sarah permitiu que permanecesse visível.

— O quê? — ela perguntou.

Um brilho discreto surgiu nos olhos de Marcus.

— O desejo de morrer.

Antes que pudessem responder, ele desapareceu entre as árvores.

Marcus retornou ao local onde a guarda aguardava antes do amanhecer.

Chelsea foi a primeira a perceber.

Levantou-se abruptamente e levou a mão ao peito.

— O vínculo desapareceu.

Jane voltou-se para ela.

— Que vínculo?

— Marcus.

Aro surgiu entre as árvores com um sorriso sereno.

— Meu querido irmão.

Marcus parou diante dele.

— Aro.

— Fez uma caminhada longa.

— Precisava pensar.

Aro estendeu a mão.

— Permita que eu veja.

Durante séculos, Marcus oferecera a própria mão sem hesitar.

Dessa vez, precisou escolher.

Colocou os dedos sobre os de Aro.

O líder dos Volturi fechou os olhos.

Esperava encontrar a floresta, Sarah, Jacob e tudo o que fora dito.

Encontrou apenas escuridão.

Um silêncio profundo e prateado.

Aro abriu os olhos.

O sorriso continuava em seu rosto, mas algo perigoso surgiu por trás dele.

— Que extraordinário.

Marcus retirou a mão.

— Algum problema?

— Nenhum.

Aro olhou para Chelsea.

Ela estava assustada.

Pela primeira vez em quase três mil anos, nenhum vínculo obrigava Marcus a permanecer ao lado dos Volturi.

Ele continuava ali por escolha.

E essa escolha duraria apenas até a lua cheia.