Notas iniciais
P.O.V SERENA
A noite estava calma e quente, e depois daquele dia cansativo de treinamentos o que eu mais queria era descansar. Sob a luz da lua e das estrelas isso se tornaria perfeito! Andei por todo o complexo da corte observando o escuro. Mesmo eu não querendo, meus olhos vagavam para as partes mais suspeitas e as analisavam com mais precaução do que realmente eram necessárias.
O único pensamento que me vinha á mente era como ele estaria. Sabia que não podia me deixar levar por isso, deixar minha mente vagar para as memórias que construímos juntos e que aparentemente não foram suficientes pra que ele ficasse, mas parece que não consigo fazer isso.
Parei por alguns segundos olhando aquela lua cheia, onde um dia foi usada como juramento de um amor eterno. Bom, talvez não tão eterno assim. Pelo menos pra mim!
Cerca de três metros de mim Adrian Ivashkov estava parado. Sua postura derrotada e pra baixo me fez prestar mais atenção ainda nele.
Todos na corte sabiam quem ele era e tudo pelo que tinha passado. Sua tia- a rainha Tatiana- fora brutalmente assassinada por Tasha Ozera; sua mãe, todos descobriram, estava tendo um caso com o dhamphir Ambrose- algo que não se era de admirar devido á sua fama já conhecida- e fazia questão de não esconder de ninguém tal fato; o pai, um homem arrogante e safado estava viajando “á negócios” pra Inglaterra, entretanto o mundo Moroi sabia, ele estava fugindo da vergonha de ter sido traído pela esposa socialite ou estava com uma de suas muitas amantes; e por fim o escândalo de seu envolvimento com a recém-guardiã Hathaway, protetora da nova rainha Vasilisa, que resultou apenas em um coração partido. O dele.
Rosemary Hathaway demonstrou ser exatamente aquilo que eu pensava: uma garota corajosa, inconsequente, gosta de brincar com a vida das pessoas que a cercam e não mede esforços para conseguir o que quer. Nada de muito admirável!
Afinal para ser uma guardiã de respeito é sua obrigação ser destemida e não medir esforços para aquilo que foi designada.
Aproximei-me devagar, olhando-o de canto.
—Lindo né!- ele me olhou brevemente, provavelmente avaliando quem é que o perturbava.
—Sim, muito. Fazia tempo que não parava pra vê-las, elas meio que se apagaram pra mim!
Sinto a dor em sua voz. Uma pessoa tão jovem e bonita, desiludida com a vida dessa maneira é triste, entretanto não o culpo. Eu mesma já passei por isso.
— Talvez seja ao contrário. Talvez, você tenha se apagado pra elas! Temos esse costume quando deixamos que os problemas tomem o controle da situação. Nós olhamos, mas paramos de ver! — Falo pra ele, porém uso de conselho pra mim. É a verdade, simples assim.
Quando fui abandonada daquela maneira o meu mundo tinha caído. Não havia nada pelo qual eu queria viver, nada pelo qual meus instintos me fizessem lutar. Se um strigoi tivesse aparecido em minha frente naquela época com certeza hoje eu seria uma deles ou não estivesse mais aqui.
—Tem razão... Olhamos mas não vemos! Infelizmente estamos cercados de mentiras e pessoas que falam demais. Geralmente é inevitável fazer com que as estrelas brilhem novamente.
Suspirei fundo diante daquilo. Estamos cercados de mentiras! Esta é uma das poucas certezas que tenho na vida. Mentiras! Ninguém, por mais que suas ações sejam boas, diz plenamente a verdade. Ou é para nos proteger, ou se proteger, entretanto em algum momento sempre vão mentir. Principalmente sobre seus sentimentos.
—Só queria mais amigos! Mais sorrisos e mais amores, quem sabe. Apenas a verdade. E só.- aquilo de certa forma partiu meu coração. Ele só queria algo que deveria ser por direito de todos.
—Qual o seu problema no momento?- perguntei com medo de estar sendo invasiva demais. Ele pensou por algum tempo, antes de finalmente falar, mas sem realmente me encarar.
— Meu problema sou eu! Eu acho. Tenho o dom de me apegar ás pessoas que não se apegam a mim. — Assenti ouvindo.
Eu sabia perfeitamente á que ele estava se referindo. E isso doía em mim também.
O vento balançava meus cabelos para os lados me trazendo novamente á memória dos dias felizes. Mas eu estava fechada pra balanço, e não sei por quanto tempo isso ainda faria de mim o que sou hoje.
—Entendo!
Disse por fim e o deixei. Ele precisava desse tempo sozinho, assim como precisei do meu.
Voltei para meu alojamento devagar, o cansaço tomando conta de mim. Procurei as chaves em meus bolsos assim que alcancei a porta e a destranquei com um tintilar. Antes que pudesse entrar ouvi a risada de uma mulher se estender pelo corredor. Vinha do quarto de Ambrose, obviamente, que ficava a cinco portas de distancia do meu.
Era Daniela Ivashkov. Ela arrumava a saia e saía com um sorriso enorme estampado no rosto pra fora dos alojamentos.
Pobre Adrian!
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—Ok, já entendi, já entendi! — Falei rapidamente pra Baruel que me prendia no chão entre suas pernas.
Eu vinha treinando com ele durante algumas semanas já. “Aperfeiçoar minhas técnicas” foi o que ele me disse quando sugeriu o treino. Aceitei de bom grado, primeiro por que conhecia sua fama e sua capacidade de luta, não era a toa que fora designado pra ser da guarda vermelha, o sonho de todo guardião; segundo porque eu realmente precisava de mais treinos assim, sempre foi minha nota mais baixa na escola.
Corpo á corpo sempre me deixou nervosa. Dentro ou fora de uma luta.
—Você melhorou Serena, mas ainda continua sendo pega desprevenida. Cuide mais com o apoio de perna, coloque sua força aqui!- ele se aproximou por trás de mim e tocou minha barriga com a palma da mão.
Ela estava quente sob minha camisa preta de treino e eu estremeci com o contato, saindo rapidamente.
—Pode deixar, vou prestar mais atenção nisso!- disse colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e limpando o suor.
O treino estava sendo ao ar livre, o que queria dizer que estávamos embaixo do sol. Aquele dia estava sendo estranhamente quente, para a época do ano em que estávamos pelo menos.
—Baruel!- ouvi Hans gritar ao se aproximar.
Ele era o chefe da guarda moroi, mas se achava o próprio rei.
—Preciso de você e mais dois guardiões pra uma missão. Tem alguém de sua confiança pra indicar? Pensei em Isaac e Lorenzo!- ele colocou aquele pirulito vermelho na boca o que enojou meu estômago.
—Boa tarde para o senhor também!- sorri com a resposta de Baruel para aquele velho barrigudo. — Sim eles são bons, mas para o que seria exatamente senhor?
—Preciso de três de vocês pra fazer uma viagem guardando a vida de um dos Morois da realeza – ele falou olhando pra todos nós e parando o olhar em mim. Seus olhos brilharam de um jeito estranho de repente, me analisando de cima a baixo, o que me incomodou muito. Coloquei meu casaco agilmente e o fechei até o pescoço.
—Ah sim... Bem, Isaac é sempre uma ótima escolha e – Baruel olhou pra mim sorrindo e acenou com a cabeça. — Acredito que Serena também seja uma escolha ideal.
—Quem é Serena?
—Sou eu!- disse tapando a garrafa de agua. —Serena Gilmore senhor.
—Muito bem então, preciso dos três em 20 minutos na sala da rainha. Arrumem suas malas e estejam lá sem atraso!- ele disse e enfatizou a ultima parte olhando pra mim, depois se foi.
Agradeci a Baruel à oportunidade e corri pra meu quarto. Não havia muita coisa pra arrumar, já que era apenas o uniforme que usava dia após dia. Tomei um banho rápido e fiz um rabo de cavalo em meu cabelo, indo direto para onde Hans havia ordenado.
Não demorou muito pra que ele chegasse e nos passasse as instruções já conhecidas por todos nós. Quando a rainha Vasilisa- Meu Deus é a rainha!!!- abriu a porta e nos cumprimentou com um sorriso, ali soube que a coisa seria séria.
Eu havia sido designada pra um pedido da rainha!
Hans foi o primeiro a entrar, seguido de Isaac, Baruel e por fim eu.
Tentei manter minha postura e feições dignas quando vi quem estava na sala. Eu deveria ter imaginado quem era.
—Senhor Ivashkov- Hans falou ─Tenho aqui três de meus melhores guardiões. Ficará em boas mãos. Estes são Isaac, Baruel e Serena.
Adrian estava parado ali com um envelope na mão meio perdido e consternado, mas me olhou com reconhecimento de quem eu era. Acenei em reverencia a rainha e pra ele. Então iria trabalhar para o senhor Ivashkov agora! Mas que ironia do destino.
A sala parecia tensa e não tinha ideia do por que. Seus olhos ainda estavam sobre mim quando fomos liberados. Peguei minhas poucas coisas e segui pra onde o carro que o esperava estava estacionado.
Era a primeira vez que eu viajaria de avião e isso estava me apavorando de certa maneira. O medo de altura era outra certeza que eu tinha na vida!
Adrian chegou minutos depois, ainda com expressão de cansaço e derrota. Será que ele havia visto sua mãe com Ambrose mais cedo?
—Prontos?- ele esfregou as mãos nos olhando com expectativa. Confirmei e entrei no carro.
—Também estou ansioso por nossa incrível amizade!- sorri o ouvindo murmurar e me virei pra Isaac que bufava olhando longe.
—Que foi Isaac?
—Só estou me preparando psicologicamente para aguentar o filhinho da mamãe ali pelos próximos meses.
Isaac mantinha aquela carranca desde que eu o conheci, mas no fundo seu coração era enorme. Ele tinha sobrevivido á uma chacina anos atrás em uma batalha épica contra strigois, o que lhe rendeu aquela cicatriz no olho esquerdo. Ao invés de se sentir inferior por causa da marca que o cegou ele a usava como motivo de honra e intimidação.
—Não fale assim Isaac, você não sabe as batalhas que ele enfrenta.
—Com toda certeza são inferiores as minhas!- ele diz e eu sorrio me inclinando pra beijar sua bochecha.
Vejo Rose se aproximar e observo toda a cena através da janela. Meu coração se aperta por ele, mas sei que Adrian vai superar, assim como eu o fiz.
Partimos um tempo depois, ele calado e com o olhar longe. Gostaria de poder ajudar falando que ficaria tudo bem, todavia eu tinha que ser profissional ali, mesmo que isso fosse contra meus princípios.
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Turbulência!
Droga, isso era sério? Eu já estava apavorada em ter que andar nessa geringonça á sabe-se lá quantos mil pés de altura e agora me inventava de chover e ventar? Só podia ser brincadeira! E pra ajudar Adrian estava aparentemente tendo um pesadelo.
Aproximei-me com cuidado pra não cair e sentei na beirada de sua cadeira. Ele tremia e se debatia e com um salto se levantou, ofegante.
—Está tudo bem senhor, é apenas uma tribulação. — falei colocando sem perceber minha mão sob sua perna, tentando o acalmar. O avião balançou novamente e eu estremeci indo me sentar em meu acento e procurando pelo cinto de segurança.
—O piloto avisou que faremos escala em Frankfurt em meia hora por causa do temporal que se aproxima. — falei tentando tirar o foco de meu pavor, sem muito sucesso.
—Tem medo de altura?
—Não!- respondi rapidamente e minha voz saiu trêmula. Droga!
Mais um balanço, forte desta vez, me fez fechar os olhos e agarrar com mais força a lateral do assento, formigando minha mão.
—Está tudo bem, é apenas uma tribulação!- ele repetiu minha fala me fazendo rir nasalmente. — Onde estão os outros?
—Jantando. Se o senhor quiser posso ir chamá-los!- por favor, não! Não me faça levantar daqui!
—Não, tudo bem.
O avião balançou mais uma vez e eu pulei. Eu era uma guardiã droga, não deveria temer nada! De repente uma mão segurou a minha, abri os olhos surpresa.
Ele havia vindo sentar-se ao meu lado e estava apertando minha mão. Eu era uma patética, tinha certeza disso agora!
—Pode apertar minha mão se sentir medo, eu não me importo com a dor. Não mais!- Adrian sorriu sincero e por algum motivo aquilo não foi surpresa pra mim. Seu coração estava partido e nada poderia doer mais que isso no momento.
Permanecemos assim, de mãos dadas por mais algum tempo até o balanço diminuir. Eu não conseguia não olhar pra nossas mãos juntas, como uma só. Incrivelmente eu estava mais calma, a presença dele me permitia sentir-me segura.
—Porque não mais?- perguntei depois de mais algum tempo.
—O que?- ele me olhou confuso e novamente temi estar entrando em sua intimidade.
—Por que não se importa mais com a dor?
—Não vale a pena. — Deu de ombros fitando o painel branco á nossa frente.
—Como pode não valer mais a pena os próprios sentimentos?- falei sem pensar me arrependendo em seguida.
Eu estava sendo antiprofissional entrando na intimidade assim e me repreendi interiormente. Antes que ele pudesse responder o piloto anunciou nossa decida. Larguei a mão dele me fazendo de forte e olhei pela janela as luzes de Frankfurt brilhar.
Algum tempo depois estávamos dentro de uma lotada e barulhenta balada da cidade. Adrian havia nos dispensado pra “aproveitar” à noite, mas não era algo que eu faria.
Toda aquela gente suada e barulhenta se jogando de um lado pro outro ao ritmo daquela batida.
Eu estava em serviço, isso era algo que eu já tinha em mente.
—Vai tomar algo?- Baruel perguntou se apoiando no balcão de forma casual.
—Mas é claro que não, estamos de serviço!
—Eu estava brincando!- ele disse rindo com as mãos levantadas em rendição. —A propósito, você está linda!
Olhei pra baixo e observei meu vestido. Adrian tinha bom gosto, definitivamente.
O tecido era leve e caia muito bem em mim, ressaltando curvas que nem eu mesma sabia que tinha. O cetim rosa bebê que tinha por baixo da renda de mesma cor me fazia sentir livre e como se estivesse vestindo nada. Me senti linda como em tempos não me sentia.
—Obrigada!- falei sem graça.
Baruel me ofereceu uma garrafa de água que tomei com gosto. Por sorte Adrian aceitou que viesse sem salto, por que eu estaria sofrendo em cima deles.
Vinte minutos depois o observei conversando com uma ruiva vulgar, atrapalhada que só. Entrei na multidão pra olhar mais de perto caso ela oferecesse algum perigo. Ele sorria amplamente e semicerrei os olhos diante disso. Ela? Sério? Mas ela era tão vulgar! O que é aquela tatuagem dela na perna que instiga até a mim, a saber, onde termina?
Eles saem para conversar na área vip e eu acompanho tudo mantendo certa distancia pra sua privacidade.
Quando eles voltam e ela esta com a maquiagem borrada suspiro fundo voltando para o bar. Baruel está entretido com algumas garotas que dançam ao seu redor e Isaac como sempre está de guarda, como um cão. Balanço a cabeça e volto pra pista de dança.
Porque preciso tanto saber do que eles estão falando?
Ela rebola devagar nele, trazendo seu corpo pra mais perto enquanto ele a segue no ritmo constante da musica. Seus olhos vagueiam pelas pessoas até parar em mim. O que eles estão dizendo?
Olho pra ele da mesma maneira, balançando devagar meu corpo com a música e pra não parecer uma completa estranha no meio do lugar. Uma mão em meus quadris me tira de meus devaneios.
—E ai gata... Tá sozinha aqui? – aquele ser loiro, praticamente um albino pergunta e posso sentir o bafo forte de tequila.
Idiota!
—Não, estou com meu namorado. Ele foi pegar uma bebida!- minto olhando pra longe dele.
—Mentira!- ele cantarola em meu ouvido e eu me esquivo. — Estou te observando já faz algum tempo princesa, você está sozinha!- sua mão sobe em minha perna e eu me arrepio em repúdio.
Pego sua mão e a torço, ouvindo o estalo em seguida. Ele se curva todo torto e com o rosto transmitindo dor urra baixo.
—Cai fora!
—Calma princesa, eu só estava querendo conversar! Ai ai, ta doendo, solta!
Solto e ele sai segurando a mão no peito e me xingando em alguma língua desconhecida.
Olho de volta pra onde Adrian estava, ele não está mais lá! Nem ele, nem a ruiva descarada.
Onde eles foram?
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