Academia de Vampiros- Sonhos Negros ????HIATUS????
24 Fuso do Espírito part 2
Notas iniciais
Assuma o controle Serena. Você é mais forte do que isso!
Parecia cada vez mais impossível respirar direito. Ele era tão atraente! Sua boca vermelha, e aparentemente tão macia, se inclinava em minha direção levemente aberta, o que fazia com que eu fechasse a minha engolindo em seco. Seus olhos me secavam tão intensamente que senti minhas pernas balançarem. Tentador! Fechei meus olhos e suspirei fundo sentindo sua respiração cada vez mais perto da minha. Meu Deus! O que eu estava fazendo? Eu tinha que sair dali o mais rápido ou ficaria sem um pingo de sanidade. Se é que ela ainda existia.
Porém meu corpo parecia pensar o contrário. Eu queria sentir o seu toque, queria ver como ficaria suas mãos enroscando em meu cabelo, dando leves puxões suficientes para inclinar minha cabeça para trás; queria ver como sua boca percorreria a minha de maneira lenta e provocativa, tirando-me todo o ar. Meu Deus! Como eu queria isso!
Em um lapso de foco, desvencilhei-me dele respirando ofegante, ainda de olhos fechados, virando-me de costas. Santo Cristo, Serena! O que diabos pensa que está fazendo? Usei ao máximo minhas forças para controlar a respiração de uma maneira que não transparecesse o quanto eu estava mexida com tudo aquilo e continuei a olhar ao redor, pensando em algo para dizer.
—Definitivamente você tem algum talento, Senhor Ivashkov. – tento soar indiferente apesar de a voz estar trêmula.
—Obrigado. — Adrian disse calmo, sem realmente me olhar ou mesmo tirar os olhos de mim. Era confuso, mas não me permiti focar os olhos nele.
Isaac se aproximou segundos depois e não sei se agradecia por sua presença ou não. Se algo tivesse acontecido, ele teria nos pegado no flagra e não consigo pensar em algo para explicar isso.
—Vou voltar ao perímetro. Avise-nos quando quiser partir. —Digo não o olhando e saindo dali o mais rápido que consigo. Estava quente ou era impressão minha?
P.O.V ADRIAN
Eu sabia. Era mútuo!
Serena sabia que algo acontecia entre nós, por isso se afastava. Eu senti a forma como seu corpo tremeu quando me aproximei. Sua boca quase implorou por um beijo! Meu sorriso não cabia em mim ao vê-la partir. Ela era tão linda, selvagem, uma flor e ao mesmo tempo uma guerreira; trazia paz para mim como nenhuma outra já fez, ao mesmo tempo em que me jogava em um liquidificador de emoções. Isaac se aproxima com sua postura de sempre e me permito olhar uma última vez para a tela do telefone.
Serena...
—Há quanto tempo está em campo, Isaac? — Pergunto voltando a andar vagarosamente pelo jardim, os olhos procurando inconsciente- ou consciente- onde Serena estava.
—Há mais de vinte anos senhor.
—E qual foi sua missão mais difícil até hoje?
—Todas foram difíceis senhor. — O olho de canto e suspiro.
—Tenho certeza de que alguma delas foi mais difícil do que outras. — Insisto— Ah! Qual é? Você pode me contar!
Isaac parece pensar a respeito, e talvez, só talvez, eu tenha visto um brilho diferente cruzar seus olhos, mas sua expressão permaneceu impassível.
—Sim, de fato.
—Isaac, por favor, não quero fazer disso uma ordem. Converse comigo! Estou proibido de beber então preciso de uma distração.
—Proibido de beber? — ele me olha franzindo o cenho.
—Sim. Você tem pessoas bem persuasivas em sua equipe. — Sorrio largo de volta e ele repuxa a bochecha esquerda para cima no que penso ser sua espécie de sorriso.
— A guardiã Gilmore não é mesmo?
—Na mosca. — Rio olhando para o chão- Ela tem uma maneira bem peculiar de convencer do que é certo e errado.
—É claro. Mas não a machuque Senhor, a pobre já sofreu demais nessa vida.
Franzo o cenho e me viro para ele. O que ele sabia? E por que pensa que eu a magoarei? Jamais faria isso, não de propósito pelo menos.
—Eu não seria capaz Isaac.
—Todos somos capazes de machucar alguém Senhor, querendo ou não. – Ele suspira e tento pensar no que foi que já o aconteceu para que ele pense assim.
—O que aconteceu com ela? Você disse que ela já sofreu demais na vida.
—Isso não é algo que eu esteja autorizado a falar Senhor Ivashkov. Não me diz respeito.
Sua expressão séria e compenetrada volta a tomar lugar e eu suspiro me contentando em ter que continuar o passeio em silêncio. Aproveito para tirar mais algumas fotos de todo o local enquanto voltamos para a praça movimentada. A vontade de tomar uma cerveja artesanal gelada, que só é feita aqui, estava me consumindo e estava difícil me concentrar com tantos bares ao nosso redor. Na verdade eu estava até com “fome” a essa altura e ver muitas presas se insinuando para mim não estava ajudando também. Serena pareceu perceber minha inquietação e voltou a se aproximar, no entanto estava mais calada.
Nossa guia informou que se quiséssemos ir até á Ópera do Estado da Bavária, a Bayerische Staatsoper, ainda conseguiríamos assistir ao espetáculo da noite: La Sylphide. Um clássico dos ballets pelo mundo por ser “revolucionário” para época ao fazer com que as bailarinas “voassem” enquanto estavam vestidas de fadas. Concordei e me dirigi ao hotel a fim de me arrumar rapidamente, enquanto Baruel seguia para comprar as entradas. Serena e Isaac ficaram responsáveis de achar uma alimentadora nesse meio tempo e assim que ela chegou me posicionei ao seu lado, pegando seu pescoço em minhas mãos e cravando meus dentes ali.
Meia hora depois estávamos sentados em uma das cabinas arredondadas e bem iluminadas do enorme local. Tudo estava deslumbrante, inclusive Serena. Seu vestido longo e preto, por mais simples que parecesse ser a estava deixando magnifica, o que me deixou com dificuldade para me concentrar durante todo o caminho. Pensar que talvez ela tivesse uma adaga presa na perna me fazia ter pensamentos impuros e me deixavam sem ar. Deslumbrante!
Ela se sentou próxima a mim, fazendo com que nossos braços roçassem. Aquilo não estava bem, nada bem. O espetáculo começara, porém meu foco continuava nela. Eu tinha a plena noção de que Baruel estava ao seu lado também, mas isso não me impediu de olhar mais para ela do que para as bailarinas voando pelo palco. Nunca fui um fã de ballet clássico, ao contrário de Serena que parecia fascinada.
Quando a fada por quem o personagem principal está apaixonado morre, ou pelo menos penso ser isso que acontece, Serena está à beira das lágrimas. É impressionante como ela pode ser forte para uma guardiã e ao mesmo tempo uma mulher repleta de sentimentos. Pego em sua mão por sobre o descanso de braço e ela me observa atenta. Sua pele está macia e quente como me lembrava, e me volto para frente sorrindo. Esta é uma linda noite!
Ao findar do espetáculo seguimos para um restaurante bem reconhecido da cidade onde fiz questão de me sentar em uma mesa afastada, perto de uma enorme janela. Meus guardiões me acompanhavam contra vontade e não sei bem se me arrependia da decisão ou não, já que o silêncio na mesa me fazia sentir como se estivesse sozinho de qualquer maneira.
Isaac estava claramente irritado – como sempre; Baruel parecia tranquilo, mas também alerta. Serena não me olhava. Fiquei pensando no que eu poderia ter dito ou feito- novamente- para que ela agisse assim e em como mulheres são bipolares. Era uma noite agradável, a música ambiente estava de acordo e todos estavam calmos. O que poderia dar errado? Mesmo após o susto que levei no trem, tudo parecia estranhamente bem. Bem até demais.
Comecei a olhar ao redor preocupado. Aquilo era real? As pessoas que estavam ali comigo eram reais? Por que tudo parecia extremamente calmo? Era um sonho? Um delírio? Apertei uma mão na outra e vi que nenhum de meus guardiões me olhava, estavam concentrados em descobrir o que tinha dentro de seus pratos. Afrouxei a gravata. Mas que merda! Porque as coisas não poderiam ser normais para mim?
Garçons iam e vinham o tempo todo, a música parecia mais alta mesmo estando sentado tão longe de onde eles tocavam. “Que isso não seja um sonho, que isso não seja um sonho, que isso não seja um sonho!” repetia várias vezes tentando me acalmar, o que de fato não estava funcionando muito bem. Por que estava sendo tão difícil ultimamente? Engoli em seco mais algumas vezes e passei as mãos suadas sobre as coxas. Aquilo tinha que ser real! Será que eu havia pegado no sono e não percebi, assim como fiz no trem onde falei com Lissa? Não, eu acho que não. Ou sim? Urgh, isso estava me irritando!
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa senti uma mão quente e macia, já reconhecida por mim, deslizar sobre a minha ainda descansando sobre a perna. Olhei direto pra Serena que me observava atenta e me perguntava com os olhos se estava tudo bem. Apertei sua mão de volta e entrelacei nossos dedos como resposta. Se eu estava sentindo aquilo só poderia ser real, não é mesmo?! Ela sorri minimante e entendi como um “estou aqui, não se preocupe” e não se afastou pela segunda vez na noite. Sorri aliviado. Se eu a tivesse tudo estaria bem.
—Você está estonteante esta noite, se me permite dizer. — Falo sorrindo para Serena que me encara e sorri de volta.
—Obrigada, você também. Este terno lhe serviu perfeitamente.
Olhei intrigado para ela por ter me elogiado assim tão abertamente. Isaac e Baruel pareciam alheios a nossa pequena bolha e eu sorri satisfeito, mesmo achando aquilo estranho.
—Conversei com os meninos hoje e eles concordaram em me deixar fazer a ronda em frente ao seu quarto. — minha guardiã sorri se virando para mim com um sorriso insinuante. Sorrio de canto semicerrando os olhos.
—Isso quer dizer...
—Isso quer dizer senhor Ivashkov, que passarei a noite toda na porta de seu quarto. — ela levanta uma sobrancelha sugestivamente e novamente olho para os outros guardiões que permanecem alheios. O que era isso? Sua mão lentamente soltou a minha e continuou subindo pela minha perna, me fazendo engolir em seco. Seu sorriso tímido e ao mesmo tempo provocativo estava surtindo efeito, já que já sentia um aperto em minhas calças.
—O que está fazendo?- pergunto soltando um ofego.
—Você não gosta que eu lhe toque Adrian?- ela disse subindo as mãos até meu peito e apertando de leve ali, seu corpo se aproximando do meu de forma que eu já sentia seu hálito novamente. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo e o porquê de ela estar fazendo isso aqui, no meio de todas essas pessoas, sem se importar se éramos vistos. Minhas mãos subiram para seu pescoço quando ela se aproximou e agarrei sua nuca puxando levemente, vendo como isso a atingia.
O relógio atrás dela marcava duas e meia e pensei em como estava tarde para ainda estarmos jantando, mas logo tirei esse pensamento da cabeça, pois senti suas mãos agarrando meus ombros.
—Eu quero você Adrian...
Ela disse ofegante e eu fiz o mesmo me aproximando mais, sentindo um prazer enorme percorrer meu corpo. Inclinei-me para frente vendo-a apertar mais uma vez meus ombros. Com força.
—Adrian... — sorri ladino e me aproximei mais. Já podia sentir seus lábios nos meus e seus olhos revirando com o toque.
—Adrian!
Um grande puxão em meus ombros me fez cair no chão e olhar ao redor piscando frenético, meio zonzo pela batida. Serena estava parada próxima á alimentadora que mais cedo eu pedi e batia em seu rosto, aflita. Espera o quê? Porque a alimentadora ainda estava aqui? Olhei ao redor me vendo em meu quarto de hotel e Isaac correndo para pegar a garota aparentemente desacordada da poltrona. Oh meu Deus!
Eu fiz aquilo? Eu quase a matei? Meu estômago estava embrulhado e o ar parecia não entrar corretamente em meus pulmões, me fazendo hiper ventilar. Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh meu Deus! Eu quase a matei!? Eu quase me transformei em um Strigoi!!? Arrasto-me para longe dali procurando por ar. O que foi que eu fiz? Onde eu estava com a cabeça? Sussurros urgentes são ouvidos no quarto e apenas vejo os vultos das botas pretas correrem de um lado á outro, talvez levando a garota dali. O que foi que eu fiz? Meus olhos já pareciam estar se fechando ou turvos pelas lágrimas que eu não derramaria enquanto eu continuava a me arrastar até a parede mais próxima.
Uma mão quente se posicionou em meus ombros e me assustei batendo nela, jogando quem quer que fosse para longe de mim. Não, eu não iria machucar mais ninguém!
—Adrian... – Serena começou a falar à medida que voltava a se aproximar e quase vomitei. Não! Ela não poderia se aproximar. Isso era real? Ou era um sonho novamente? Eu não sei, não sei! Nada mais faz sentido. Oh meu Deus, onde eu estou? Sua voz calma, porém alarmada me chamava repetidas vezes, no entanto eu não respondia. Não posso fazer isso até ter certeza de que aquilo era real. Que eu era real!
—Está tudo bem Adrian, eu estou aqui agora. Por favor olhe pra mim!- sua mão estendida em minha direção me fez cerrar os punhos. Não, eu não vou machucá-la. Eu prometi á Isaac que nunca a machucaria.
—Na... Não se aproxime de mim!- falei ofegante enquanto me empurrava pela parede tentando, em vão, ficar mais longe dela. As luzes, agora eu percebia, piscavam freneticamente em todo o quarto e o lustre de cristal chegava a tremer e balançar levemente.
—Adrian você precisa se acalmar. Olhe para mim, eu estou aqui.
—NÃO!- gritei fazendo com que a luz de um dos abajures explodisse e Serena se encolhesse levemente. — Não se aproxime! Eu... Eu não quero te machucar! Não se aproxime!
—Adrian... — ela tentou mais uma vez o que me fez fechar os olhos e ouvir mais uma lâmpada explodir. Respire, apenas respire Adrian. Se acalme. Você consegue fazer isso! Flashes de toda a cena anterior rodavam em minha memória e eu não conseguia me livrar da sensação elétrica que me dominava. Era um poder inexplicável e eu não queria me livrar dele, apesar de saber que era preciso.
Braços magros e firmes enroscaram em meu pescoço de repente, e a respiração quente e ofegante podia ser sentida ali. Tentei afastá-la enquanto empurrava seu quadril para longe, mas ela parecia determinada em não me soltar.
—Não... — falei baixo e de voz embargada ainda tentando a empurrar.
—Shiii... Eu estou aqui Adrian, eu estou aqui. Respire!- ela disse firme apertando mais o abraço ao meu redor, como se isso fosse possível, e eu a empurrei mais uma vez. Não a machuque! Não a machuque! Não a machuque! — Vamos lá, respire. Você consegue. Eu estou aqui, estou aqui com você Adrian.
Engoli em seco e apertei meus olhos ainda mais, repetindo para mim mesmo que precisava me controlar e respirar fundo. Eu não podia a machucar. Simplesmente não podia.
O tempo foi passando e minha respiração se tornava mais regular conforme eu me deixava acalmar. Minhas mãos desistiram de empurrar seu corpo para longe e apenas o trouxeram para mais perto quando a abracei de volta. Tentei manter meu coração batendo no mesmo ritmo que o dela, que pulsava forte, porém calmo e seguro. Era bom e de certa forma eu me sentia seguro também, mesmo sabendo que ela não estava segura em meus braços.
Não sei exatamente quanto tempo se passou, mas meu coração já havia desacelerado e minhas pernas estavam bambas depois de tanta adrenalina liberada. Serena continuava me abraçando sem diminuir o aperto um minuto sequer, apenas quando Isaac apareceu penso ter visto ela fazer algum sinal pra ele, que saiu fechando a porta atrás de si em seguida, porém seu aperto não afrouxou como pensei que faria.
Eu estava cansado, tão cansado de tudo aquilo. Não só o físico, mas principalmente a mente. Eu não tinha mais controle sobre nada e em um impulso quase havia me transformado em um Strigoi. Se Serena não tivesse me impedido á tempo, não sei o que teria acontecido. O quão ruim poderia ser um Strigoi com poderes impulsionados pelo Espirito? Principalmente se eles não estavam sob controle como agora? Suspirei fundo e entrecortado e senti as lágrimas escorrerem finalmente por meu rosto. Eu estava tão cansado e assustado!
—Tudo bem?- ela perguntou se afastando minimante para me olhar. A puxei de volta para meus braços e senti seu queixo apoiar em meu ombro. Ela parecendo entender que eu ainda não estava pronto. Ficamos em silêncio por mais algum bom tempo e eu estava tão exausto que quase cochilei ali, em pé e em seus braços. – Vem, vamos deitar.
Ela me levou pela mão até a cama e caminhei devagar até lá, ouvindo o “crack” dos cacos de vidro no chão, fruto das lâmpadas explodidas. Deitei-me por cima dos edredons e suspirei fundo enquanto Serena se sentava ao meu lado e segurava minha mão me olhando... Terna? Com dó talvez? Eu estava tão cansado que meus olhos pesavam e por mais que eu tentasse os manter aberto estava difícil de aguentar. Quando meu corpo amoleceu e eu quase perdi os sentidos, finalmente pegando no sono, senti sua mão largar a minha e ela se levantar. Abri rapidamente no susto, os olhos a procurando e segurei em seu pulso antes que ela saísse de vez.
—Não vá. Por favor!
—Eu preciso checar as coisas.
—Por favor! Eu... Eu estou com medo de dormir. — admiti me sentindo vulnerável como nunca antes. – Por favor!
Ela pareceu ponderar alguns segundos e enfim concordou, voltando a se sentar dessa vez com as costas apoiadas na cabeceira da cama. Procurei por sua mão e a segurei forte enquanto voltava a fechar os olhos.
—Eu não sei mais se sou real, ou mesmo se isso aqui não é um sonho. — falei tão baixo que não tenho certeza se ela escutou, já que não falou nada em volta por algum tempo.
—Eu sou real.
—Na minha visão você também parecia bem real. — murmurei em volta e ela suspirou fundo.
—Isso parece real pra você?- minha guardiã disse começando a passar a mão em meu cabelo, devagar. Era relaxante, mas ainda assim assustador. Meu corpo tremia levemente, cheio de espasmos pelas descargas de adrenalina.
—Sim e não. No meu sonho você também me tocava e era extremamente real. — virei minha cabeça para cima a olhando e eu não conseguia identificar nenhuma reação passando por seu rosto. – Você... Você pode cantar para mim?
Ela franziu o cenho me encarando confusa, como se perguntasse de onde eu tirei essa ideia de que ela cantava. Continuei a olhando sério, um aperto tomando conta de mim. Ela já havia cantado para mim antes, só não sabia que eu tinha escutado. Não parecia ser algo tão difícil assim ou mesmo vergonhoso.
—Por favor. – Pedi e voltei a olhar ao redor do quarto. Meus olhos pararam no pequeno relógio sobre a cômoda escura ao lado da cama e semicerrei-os pra tentar ver que horas eram.
Não. Não podia ser!
Duas e meia da manhã.
Olhei de volta para Serena que ainda continuava me fitando aparentemente calma, mas sem realmente ter uma expressão definida. Só então notei que seus lábios mexiam, mas nenhum som saia deles. Ela estava cantando afinal.
Pulei da cama automaticamente e me aproximei da janela. Não, não, não, não! De novo não, por favor! Corri até a porta tentando a destrancar rapidamente, meus olhos voltando até onde Serena estava ainda “cantando”. Não, não, não, não, não! Eu precisava sair daqui. Abri a porta rapidamente e dei de cara com Baruel me fitando de braços cruzados. Sua expressão era sarcástica e sem que eu esperasse uma nova Serena se aproximou dele, pegando em sua mão e sorrindo. Eles pareciam felizes, até um casal e isso se confirmou quando ela se inclinou e o beijou nos lábios, sem tirar os olhos de mim. Mas que porra está acontecendo aqui?
Isso não é real, isso não é real, isso não é real! Tapei meus ouvidos e apertei os olhos com força enquanto me abaixava, colocando a cabeça entre as pernas. Isso não é real, não pode ser real. Tem que ser mentira!
Tudo então ficou em silêncio.
Era ensurdecedor o silêncio que nos rodeava e eu estava com medo de abrir os olhos novamente e encontrar mais de uma Serena, ou mesmo o relógio. Respirei fundo algumas vezes então senti minhas mãos formigarem. Era a mesma forma de eletricidade que senti no trem quando nos deparamos com aquele Strigoi.
Endireitei meu corpo lentamente, ainda de olhos fechados e finalmente fiquei de pé.
—Adrian...
Escutei a voz dela me chamar novamente, mas eu não tinha coragem de abrir os olhos. E se ela ainda não fosse real?
—Vamos lá, respire. Você consegue. Eu estou aqui, estou aqui com você Adrian. Por favor, respire. — ela parecia suplicar. — Por favor, volte pra mim.
Abri os olhos devagar e a vi parada a minha frente, os olhos aterrorizados. Estávamos no meio do quarto parados. As lâmpadas ainda pareciam estar quebradas e espalhadas pelo chão e apenas à claridade da lua invadia o quarto através da janela. Éramos apenas eu e ela ali. Mas aquela era Serena, minha Serena?
—Adrian se concentre em minha voz e volte para mim. Vamos você consegue fazer isso. — Ela estendeu sua mão tremula em minha direção, mas seu rosto parecia determinado.
—Você é real?- Perguntei firme e engoli em seco com medo da resposta.
—Sim, eu sou real.
—Então cante para mim.
—O quê?- Ela me olhou confusa e meu corpo tremeu.
—Cante para mim. Prove-me que você é real.
—Ah, ok... O que eu canto? Eu não... Não sei o que tenho que cantar. — ela puxou os cabelos para trás, afobada.
—EU NÃO SEI, APENAS CANTE!- gritei chamando sua atenção a fazendo me olhar sobressaltada. Com um suspiro ela assentiu e começou a cantar baixinho.
There's a hope that's waiting for you in the dark
You should know you're beautiful just the way you are
And you don't have to change a thing
The world could change its heart
No scars to your beautiful
We're stars and we're beautiful
Eu a estava ouvindo. Oh meu Deus, eu a ouvia! Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu a ouvia cantar. Procurei por um relógio próximo a nós enquanto sua voz doce continuava ressoando pelo quarto e encontrei um sobre a cômoda ao lado da parede.
Dez e quinze. Graças a Deus!
Corri me jogando em seus braços e a abraçando firme, de certa a forma a apertando para ter certeza de que finalmente aquilo era real. Os soluços altos preenchiam o quarto e Serena me abraçava de volta, com força.
—Oh meu Deus você é real. Finalmente você é real! — falei beijando seu ombro e ela concordou.
—Sim Adrian, eu sou real e estou aqui com você. Você não está sozinho! Confie em mim, eu realmente estou aqui!
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