Academia de Alquimistas
11 Capítulo 11 - Karma
Notas iniciais
Vanessa tocou minha testa com a mão livre e começou a falar uma espécie de mantra, que parou quando a fruta irradiou uma espécie de luz rosada por toda a sala. Nós estávamos vagando pelas minhas memórias.
A sala mudava rapidamente para cada parte que ela entrava para procurar respostas, eu vi tudo de novo... eu senti tudo de novo... Minha formatura, a alegria de sair daquela escola, a chegada do Lion, minha felicidade por ganhar um novo amigo, meu primeiro beijo, a timidez que senti do garoto que eu gostava, minha infância... Charles brincava comigo no quintal de casa...
Mas não eram essas as memórias que ela procurava...
— Eu achei a barreira mais antiga... com sorte será essa... – Falou.
Ao esmagar a frutinha na mão enquanto falava o mantra fortemente, eu senti um calor em minha testa vindo de seus dedos, um calafrio percorreu minha espinha, como um aviso.
A barreira foi quebrada e a sala mudou novamente... a lembrança apareceu... Eu estava brincando na areia, devia ter uns cinco anos de idade, era minha primeira vez na praia, eu estava realmente feliz, até que um homem apareceu, ele tentou me dar um picolé e eu recusei, corri para perto de meus pais.
Nós resolvemos entrar na água, aquele homem apareceu de novo, mas dessa vez ele tapou minha boca, eu estava com medo, eu senti todo aquele desespero novamente, e aquela voz me ameaçou “Você é perigosa de mais para permanecer viva”.
O frio de uma lâmina atravessou meu estômago ao mesmo tempo que um mundo de algas engoliu aquele homem, que se debatia pela sua vida. “Charles!” Eu chamei desesperada tanto dentro da memória quanto na realidade, enquanto ninguém conseguia desviar o olhar daquela cena.
— PAREM – Uma voz ecoa forte pela memória assustando a todos, fazendo com que a diretora se afastasse de mim, quebrando a memória.
A Sala volta a forma original, o dono da voz, Charles, me segurava enquanto caia, deixando todos incrédulos, eu estava sangrando na barriga onde tinha sido apunhalada na memória, enquanto segurava o galho que brilhava um tom avermelhado vivo.
— Bottany! – Kevin exclamou se aproximando.
— O que aconteceu? – Michael rosnou para a diretora de forma acusatória.
— Eu... não sei... não deveria...
— Foi a memória – Charles falou calmamente – Aquela cena tinha sido bloqueada por ela como um sistema de defesa de seu corpo... E ao lembrar
— Eu devo revive-la totalmente – Falei engasgando – Em todos os sentidos...
— Eu posso cura-la – Kevin falou encostando em meu machucado. Uma luz saiu de suas mãos fazendo com que o sangramento parasse aos poucos, me fazendo recuperar minhas forças.
Charles me levantou e me colocou no sofá, enquanto puxava Vanessa para conversar em um canto distante. Michael e Kevin me encaravam ao meu lado sérios.
— Você não cansa de quase morrer hein – O mais velho falou sincero.
— Na verdade já cansei, mas parece que ninguém percebe – suspirei rindo – Mas agora está mais do que na cara de que os demônios não gostam de mim.
— Pelo contrário, eles te querem até demais – Ironizou Charles se aproximando novamente – Parece que agora que a Vanessa liberou uma de suas memórias bloqueadas, as outras devem voltar também, o que torna ainda mais necessário a presença de vocês perto dela – Ele olhou para os meninos – Ela sozinha pode não sobreviver, mas não dá pra parar o processo.
Finalizando a frase ele me olhou triste, como se pedindo desculpas por isso, e percebeu que eu ainda segurava o galho e que ele brilhava forte.
— Acho melhor vocês terminarem o que estavam fazendo, mas por favor sem mais focos de poder por memórias. – Ele exclamou cansado enquanto andava em direção a porta, desaparecendo antes de alcança-la
“Esteja pronta às 14h para ir ver seus pais”
— Ah, você está bem Bottany? – perguntou a diretora mais uma vez preocupada.
— Estou sim, aqui – lhe entreguei o galho.
Pegando da minha mão e colocando na balança, ela não se mexeu de primeira, mas logo foi abaixando até mostrar um número: 687.
Minha expressão de surpresa coincidiu com as zombarias dos meninos, que brincaram comigo dizendo que eu nem precisava de proteção.
— Bom, então acho que vocês podem começar no 1º Ano do Segundo Segmento – A diretora falou em um tom calmo – E vocês dois vão ter que ensinar tudo o que ela deveria ter aprendido no Primeiro Segmento hein! — Ela riu da cara de desânimo deles – Além disso venha ao final das aulas aqui, eu vou lhe passar as coisas que você outrora me ensinou.
— Agora vão pois o alfaiate já deve estar esperando! – Ela disse quase nos expulsando – Rápido rápido!
Ao sermos expulsos da sala nos entre olhamos rapidamente, mas fomos cortados pelo ronco do meu estômago, parece que eu gastei muita energia naquela memória.
— Vamos, na cidade nós comemos alguma coisa antes de ir no alfaiate. – Michael falou mostrando o caminho.
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A cidade estava alegre e cheia de vida, além de uma incrível variedade de raças, parecia mais que eu tinha entrado no mundo de RPG.
Do porto saia um caminho grande e largo de pedra, com lojas com seus produtos à mostra na frente, um lindo comércio de artesanato desse povo que eu desconhecia aparecia na minha frente, enquanto outras lojas possuíam produtos comuns a outras cidades, mostrando a integração ao resto do mundo.
— O que vocês vão querer comer? – Perguntou Michael
— Tudo – falei simplesmente
— Isso é difícil, não temos dinheiro – Kevin falou cabisbaixo
— Claro que temos – Michael mostrou uma carteira cheia de dinheiro – Acho que a Vice-diretora não vai precisar de tudo isso aqui.
— Cara você tem que me ensinar esses truques! – Brinquei puxando os dois para uma loja com comidas suculentas na frente.
Enquanto esperava o pedido, que foi um prato com nome estranho mas que eu escolhi por ter carne e batatas, eu observava as pessoas que passavam, uns tinham a aparência humana, outros possuíam a pele verde e tinham folhas no lugar de cabelo, alguns eram azulados e meio transparentes enquanto haviam aqueles que eram pequenos e afinados, até mesmo pessoas altas e esbeltas residiam naquela floresta.
— Vocês nomeiam as raças aqui como nos jogos de RPG? – perguntei curiosa
— Parecido – Kevin respondeu rindo
— Aqui há tanto humanos normais como alguns elfos – Michael disse apontando discretamente para as pessoas altas, se aproximando para falar baixo – Aquelas esverdeadas são chamadas de ninfas, as azuladas, não é impressão sua, elas são feitas de água – explicou ele — São chamadas de náiades, enquanto os pequeninos são o que você conhece de duendes ou fadas, depende do mito.
— Que legal – exclamei sem perceber, fazendo eles soltarem um risada.
— Mas aí Bottany – Kevin falou me vendo comer a carne de meu prato que tinha acabado de chegar – essa carne aí... sabe o que ela é?
— Não – falei entre as mordidas o vendo fazer uma careta – Por que, você não gosta? Está deliciosa!
— É... Isso aí é Crocodilo... – Ele falou, obviamente ele não gostava.
— Continua uma delícia, você já experimentou ou só acha nojento por preconceito? — perguntei sincera, percebendo que Michael estava quase se engasgando de tanto rir.
— É que ele foi criado com o pensamento de que crocodilos são seres sujos – Falou quando parou de rir.
— Ah queridos, comida é comida, na hora da necessidade, se a comida for saudável não importa se é hambúrguer de boi, porco, frango ou rato.
— Eergh – Kevin quase vomitou, o fazendo soltar os talheres enquanto Michael caia no riso novamente – Eu odeio vocês.
Terminamos nossos pedidos e nos dirigimos para o alfaiate, ele ficava em uma casa próxima a esse centro comercial, com um pequeno caminho de pedra levando até lá.
Quando entramos nos surpreendemos com quem nos recebeu, era um elfo, mas não tinha a mesma seriedade que os outros que vimos antes, ele era bem animado, quanto a casa, ela tinha um interior claro e um ar leve, mas ao mesmo tempo era extremamente decorado, possuía cortinas lilás, diversos guarda-roupas, provadores e espelhos dourados.
— Então vocês são os alunos novos de que eu ouvi falar... – Ele nos olhou sério e cauteloso – Vocês são lindos! – Ele falou por vez me fazendo rir – Olhe esse cabelo! Tão volumoso e imponente! – Ele brincava com as mechas do meu cabelo – Um rosto tão delicado para um garoto... Espera, você não é um garoto!
— Acho que não – Aquele comentário me fez rir
— Oh querida – Ele olhou rindo para mim, tinha percebido a confusão que tinha feito – Isso só melhora meu trabalho, adoro esculpir o corpo de lindas donzelas com minhas roupas!
Rapidamente ele e uns assistentes começaram a tirar nossas medidas, colocando-as em painéis nos guarda-roupas, tirando de lá diversas itens já do nosso tamanho, e logo já estávamos experimentando.
Saímos de lá com os uniformes, que eram calças escuras e um casaco longo preto (eram só para os meninos, mas eu não queria usar saia então também peguei o uniforme masculino) e camisas cinzas de botão, além de roupas aleatórias, como calças jeans e de moletom, shorts confortáveis, camisas normais e casacos de frio. Ah eu também ganhei o número do Alfaiate para caso precisasse falar com ele, e seu nome era Reiel.
— Sério que você pegou o uniforme masculino? Assim que você vai ser sempre confundida com um garoto! – Michael debatia quando nós entramos no meu quarto e deixamos as sacolas no canto
— Eu detesto saias – Confessei sentando no sofá – E não ligo para o que os outros pensam então... uniforme é uniforme ninguém pode me obrigar a usar o feminino se eu não gosto dele!
— Ela é assim desde a primeira vida, vocês não vão conseguir mudar isso nela – Charles apareceu sentado na cama atrás do Kevin, que se assustou e deu um pulo.
— Eu sinceramente te odeio – ele exclamou depois de se acalmar.
— Seus pais estão na porta da floresta – O senhor escroto falou ignorando o moreno.
— Eles estão bem? – perguntei – Por que não entram?
— Não podem... Eles não tem sangue mágico nem nasceram aqui.
— Oh... – Percebi tristemente que teria que me levantar e de que nem poderia mostrar a beleza da floresta para eles — Então me leve até lá por favor...
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