Academia Do Amanhã

1 Capítulo 1 - O Novo Recruta


Notas iniciais
Nesse primeiro capítulo, os acontecimentos serão contatos pela perspectiva de Jean-Paul Beaubier, mas nos próximos capítulos, a narrativa irá mudar.

Já havia me esquecido de como era acordar depois das 10h. Desde que passei a estudar aqui, a Srta. Frost nos obriga a levantar às 6h da manhã, não nos permitindo ficar na cama por nem mais um minuto. É sempre a mesma coisa: nos levantamos, corremos para a sala de treinamento, ficamos por lá durante umas duas horas e depois vamos para o café da manhã.

Hoje ela nos avisou que não poderia aplicar os exercícios na sala de treinamento, porque teria um compromisso bem cedo – recrutar mais um mutante para a academia. Ela afirmou não ter certeza de que conseguiria recrutar essa pessoa, mas todos nós da academia sabemos que a Srta. Frost consegue ser bastante persuasiva, quando quer.

O fato dela ter usado a palavra “pessoa” para definir esse novo mutante mexeu com a imaginação do Ray. Ele apostava que poderia ser uma garota – a primeira a integrar a Academia do Amanhã. Ele sempre reclamava por ter que viver no meio de tantos rapazes.

Eu e Marvin estávamos a caminho da quadra, quando a voz doce e imponente, mas ao mesmo tempo forçadamente melodiosa ecoou em nossas cabeças:

“Eu quero todos presentes no hall de entrada, para dar as boas vindas ao novo companheiro de equipe.“

“Companheiro”. Então não se tratava de uma garota – Ray certamente ficaria decepcionado.

Marvin e eu nos dirigimos até lá e não deixamos de zombar da cara de Ray. Ele parecia frustrado, nada contente com a chegada de outro rapaz na academia.

O aluno novo estava do lado da Srta. Frost, aparentemente sem nenhuma bagagem, apenas com a roupa do corpo. Era um asiático. Bastante alto, forte, com os longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo. Ele não parecia estar contente, ou mesmo à vontade. Olhando bem para o rosto dele, notei algo estranhamente familiar...

— Espere... – Eu pensei bem antes de falar. – Esse não é o tal mutante que atacou o Capitólio em Washington, nessa semana? Saiu dos jornais e tudo mais...

— Shiro é uma excelente aquisição para a academia. Arrisco dizer que, dentre todos vocês, ele é o que tem mais potencial. – Ela falava satisfeita, orgulhosa pela nova aquisição. – Duvido muito que algum de vocês teria coragem para enfrentar os X-Patéticos sozinhos. Shiro praticamente os derrotou!

O garoto manteve a sua expressão dura, como se estivesse mal humorado, irritado com algo. Olhava para o lado, se esforçando para não encarar a gente.

— Shiro aceitou de bom grado o meu convite e não se arrependerá da escolha. Lutará ao nosso lado e terá a vingança que tanto deseja. Façam a gentileza de levar o Sr. Yoshida até o dormitório. Espero que se deem bem. – E então ela se retirou.

Eu tentei ser simpático, mesmo ficando desmotivado com a cara dele. Estendi a mão para cumprimentá-lo.

— Prazer! Meu nome é Jean-Paul Beaubier e eu...

— Eu acho o caminho por mim mesmo! – Ele rejeitou o meu gesto amistoso e empurrou a mim e a Marvin.

Saiu andando pelo corredor, de punhos cerrados, como se estivesse pronto para socar algo. Estava claro que a convivência com esse novo aluno não seria nenhum pouco fácil.

— Pelo visto ele é esquentadinho. – Marvin disse em tom de escárnio. – Já, já ele se encontra com o Manuel e essa marra toda passa. HAHAHA

Naquele mesmo dia tivemos uma sessão na sala de treinamento, que demorou além do normal, para compensar o tempo livre que tivemos pela manhã. Vestimos nossos uniformes, que eram feitos de uma espécie de elastano ultra resistente. Todos padronizados, inteiramente pretos com algumas listras brancas na parte do peito, nos pés e na cintura. Eles impediam que os ferimentos provocados nos treinos fossem tão graves.

Até então, a sala estava em seu aspecto normal. Era um ambiente metalizado e um pouco escuro. Na sala superior, nós podíamos ver a Srta. Frost através do vidro, programando os últimos detalhes do treino.

— Iniciando o treinamento 775 – A voz dela ecoou pela sala. Já não era mais aquela voz doce e melodiosa de algumas horas atrás. Estava um tom mais severo.

O ambiente começou a tomar forma. Vários tentáculos mecânicos saíram da parede. Na ponta desses tentáculos, pequenos buracos, vazios, como canos. Eram 10 tentáculos ao todo, se movimento pelos ares, focando a mira em todos nós.

Os disparos começaram. Assim que ouvi os primeiros tiros vindos desses tentáculos, comecei a me desviar com toda a destreza e habilidade que me eram conferidas graças aos meus dons. Eles já não podiam me identificar, eu era como um borrão, me esquivando pelos ares, impossível de ser atingido.

O novato nem se mexia. Ficou de braços cruzados e com a mesma cara carrancuda, como se tivesse comido algo muito ruim e estivesse prestes a vomitar. Tudo o que ele fez foi erguer as mãos e disparar aquelas intensas rajadas de plasma aquecido, que destruíram metade dos tentáculos. O clarão causado pelo poder dele era fascinante e eu conseguia sentir o calor emitido por aquela rajada mesmo estando longe dele, pairando no ar em uma distância segura dos tentáculos.

Manuel estava caído. O braço dele sangrava e como sempre, ele estava reclamando. Ray e Marvin tentavam se livrar dos tentáculos restantes e proteger Manuel. O novato nada fez além de observar, nenhum pouco disposto a ajudá-los.

— Manuel, Manuel... – A voz da Srta. Frost soava no microfone, com um profundo tom de desaprovação. – Onde quer chegar com isso? O seu único dom é cair e sangrar durante os treinamentos? Às vezes acho que você está no lugar errado. Talvez se adequasse melhor ao estilo de treino daquele cadeirante tolo.

— Eu já lhe disse... Não sou bom fisicamente. Não sou rápido ou forte o bastante para me sair bem nesse tipo de simulação, dona Frost... – Manuel respondeu intimidado pelo modo como a Srta. Frost falou.

— E acha que essa desculpa irá funcionar em campo de batalha? Acha que isso irá funcionar quando estivermos enfrentando nossos inimigos? Quando alguém apontar uma arma bem no meio da sua testa, pelo simples fato de você ser quem é?

Ray disparava seus raios contra os tentáculos, mas não estava funcionando como ele esperava. A expressão dele se fechou, ele não estava gostando do modo como a Srta. Frost estava falando.

Marvin se virava como podia. De urso para pássaro, de pássaro para um pterossauro, e logo em seguida um rinoceronte enorme – Mudava de forma constantemente, visando destruir os tentáculos que não paravam de atirar.

— Oh. Ohhh! Mas que maravilha! – A voz da Srta. Frost soou irônica. – Você realmente pensa que na escola de Xavier seria diferente, Crisp? – Pelo que ela falava, Ray andou pensando o que não devia. – A porta da saída está à sua disposição. Se quer se juntar àquele bando de fracassados patéticos, a escolha é sua. Os X-Men são fracos! Eles vivem perdendo as suas vidas em batalha, se sacrificando por causas inúteis, causas que eles sabem que estão perdidas! Me desaponta ver que você está aqui há quase dois anos e ainda tem esse tipo de pensamento! Está destinado a ser um fracasso! Talvez eu devesse mandar você de volta para o esgoto de onde te tirei, morlock imundo.

Com tudo o que ela disse, Ray acabou se desconcentrando e se feriu, assim como o Manuel. O novato se manifestou novamente, tocando fogo nos tentáculos, demonstrando uma facilidade que chegava a parecer arrogante.

— É com esses idiotas que você vai me ajudar a ficar mais poderoso? – Ele perguntou descrente, olhando para cima, na direção da sala onde a Srta. Frost estava.

Depois do treino, Ray e Manuel foram para a enfermaria. Desde que chegou na academia, Manuel saiu ferido de 70% dos treinos que participou. Ele detestava a sala de treinamento e preferia as aulas teóricas e as outras disciplinas.

Srta. Frost nunca ficava com a gente fora do horário de aula. Sempre estava no escritório ou trancada em seu quarto. Sempre com algo a resolver; ela era cheia de mistérios. Conhecíamos apenas o seu lado docente.

Já era noite enquanto eu voltava do refeitório, indo em direção ao dormitório. No meio do corredor, Manuel estava encostado na parede.

— Eu sei, Jean. – Ele me abordou, antes que eu pudesse falar algo.

— Hã? – Eu não entendi o que ele quis dizer.

— Os seus sentimentos.

— Como é? Seja mais claro.

— O novato... Sei o que sente quando está perto dele. – Ao ouvir isso, meu rosto ficou pálido e o meu coração quase rasgou o meu peito, saltando para fora. Minhas mãos começaram a formigar, eu fiquei trêmulo.

Manuel pelo visto estava aprendendo direitinho com a Srta. Frost. Se intrometendo nos sentimentos alheios sem permissão. Eu nunca me preocupei com ele, por conta do aspecto de seu poder. Ele não conseguiria entrar na minha mente, nada descobriria, ele não era um telepata. Mas a chegada do novato comprometeu o meu segredo. Eu estava começando a sentir coisas que eu não deveria, perto de quem eu não deveria...

Notas finais
No próximo capítulo, as coisas serão contadas a partir do ponto de vista de Manuel De La Rocha. Espero que tenham gostado!