Academia De Fadas
16 Capítulo 16 — Ferrado?
Notas iniciais
Capítulo 16 — Ferrado?
— De quem é aquela mochila? — A albina perguntou estranhando. Aliás, o que uma mochila feminina estaria fazendo no sofá de Natsu?
Natsu olhou para mochila, sentindo seu coração sair pela boca. Droga Lucy, quer me ferrar? Pensou, tentando criar alguma desculpa.
— Ahn, de quem...
— Me parece familiar — Lisanna se sentou na cama, olhando novamente para mochila, depois pousou seus olhos em Natsu.
O rosado reza silenciosamente para que Lis não se lembre das aulas.
— É... d-de quem , oras... dá minha irmã claro — disse nervoso.
Lis arqueia as sobrancelhas, reparando no nervosismo do garoto.
— Você está agindo estranho Natsu, algo errado? — questiona com sua voz suave de sempre.
Natsu ajeita-se na cama, xingando mentalmente todos os acontecimentos. Tudo estava tão bom, por que isso tem que acontecer?
— V-você acha? Porque tô me sentindo super normal — gagueja.
A albina suspeita ainda mais da reação do mesmo. Sua boca se abre lentamente para formar alguma próxima pergunta, porém seu celular toca no mesmo instante. Sorte para o rosado.
— Alô? Mira-nee? Ah já estou indo, vim apenas dar um oi para o Nat-kun. Certo. Ja nee. — Conversou e desligou o celular — Tenho que ir — falou tristemente — Até amanhã?
Diz, levantando-se.
— Claro — respondeu aliviado e levantou-se também.
Os dois conversaram sobre coisas banais, deixando a história da mochila para trás. Natsu a acompanha até a porta, abrindo a porta para a albina. Ela se vira, e lhe beija uma última vez, antes de acenar e sair. Ele continua sorrindo até ela se afastar e fecha a porta.
Virou-se e se debateu com sua irmã, dando-lhe um susto.
— Ela é simpática! — comenta sorrindo, e olhando suspeitamente para o irmão.
— É sim, agora vou dormir, não me incomode — cortou-lhe, virando-se de costas e subindo novamente para o quarto.
A garota ficou no ar. Havia algo errado com seu irmão... E ela iria descobrir.
[...]
Lucy
Assim que ouvi o barulho da porta se fechar e perceber a ausência de Lisanna, sai debaixo da cama, me arrastando.
— Até que enfim, não aguentava mais ficar aqui — reclamei, batendo em minha roupa após me por de pé.
Olho para frente e vejo Natsu vindo em minha direção, sem ao menos piscar. Ele para suas mãos sobre meus ombros e me olha parecendo apavorado.
— Você é louca? — grita, mas se recompõe, lembrando que estou aqui escondida — Deixar sua mochila ali? — sussurra indignado.
Afasto suas mãos de mim, e lhe olho indiferente.
— Ei, você devia me agradecer por pensar rápido o suficiente para me esconder! — retruco, lembrando do meu desespero para pensar em algo.
Ele continuou me fitando pensativo, depois suspirou pesadamente e sorriu.
— Certo, obrigado.
Fico pasma com sua reação repentina. Sinto até que meu rosto esquentou. Viro-me para disfarçar meu nervosismo. Isso não é normal. Natsu se rendendo?
— De qualquer forma, obrigada por me deixar ficar — digo um pouco envergonhada. Ainda não acredito que estou aqui.
— Tudo bem, obrigado por arrumar meu quarto — agradece suavemente e senta-se na cama, jogando seu corpo.
Acho que funciona assim, estamos quites. Ficamos em silêncio, dessa vez cada um olhando para um lado do quarto. Que situação... horrível. Não sei o que dizer, nem se deveria dizer algo. Não costumo ficar sem assunto com Natsu, mas depois... do beijo, as coisas mudaram. Tenho até medo de pensar sobre isso, como se as paredes pudessem ouvir meus pensamentos.
Limpo a garganta incomodada e vou até o sofá — que por acaso, agora tem espaço para sentar —, acomodo-me, olhando para a parede à frente. Meu coração está começando a acelerar. Essa é a segunda vez na semana que fico em um quarto sozinha com um garoto... como pode ser tão confuso?
— Nee Natsu... — murmuro.
— Hm?
Não o encaro. Engulo a seco.
— Desculpa por ter brigado com você, não devia ter falado daquela maneira... — desculpo-me tranquilamente e verdadeiramente.
Odeio brigar com meus amigos, ainda mais com meu melhor amigo. Sei que pensamos diferentes e que iremos brigar muitas e muitas vezes, mas não quero que fiquemos de cara virada um para o outro. Ele ri baixinho, olhando para as próprias mãos e senta-se de frente para mim na cama. A cama e o sofá ficam a 3 metros de distância, ou seja, ele está perto.
— Acho que não tem jeito, me desculpe também.
Olhamos um para o outro e sorrimos. Acho que acabamos de fazer as pazes e isso é um alívio.
— Mas você tinha que ficar se agarrando com a Lisanna em cima de mim? — reclamo, lembrando dos gemidos desnecessários que tive que aguentar.
Ele realmente não precisava ficar nos amassos sabendo que eu estava ali! Ainda mais depois... de tudo. Não deveria ser uma ofensa, mas me sinto ofendida! Natsu continua me olhando.
— Porque está brava? — questiona e abre seu sorriso de lado, maldito — Queria que fosse você ali?
Quê?
— Nem morta — respondo rapidamente, e ele ri.
— Você é... estranha — sussurrou, com o olhar baixo indecifrável.
— Não me chame de estranha.
O silêncio volta. Sinto que estamos fazendo perguntas um para o outro mentalmente. Queria saber tantas coisas, nada que eu tenha coragem de dizer em voz alta. Acho que sou mesmo estranha.
— Mas e então, posso saber porque você está aqui e não em qualquer outro lugar?
Sua pergunta me desperta novamente. Volto a olhar para ele.
— Bom, talvez eu tenha esquecido de pagar o aluguel...
— Talvez? — provoca.
— Fique quieto — repreendo, mas sem deixar de sorrir também — Concluindo fui despachada... eu não tinha para onde ir e precisava achar algum lugar antes que morresse de pneumonia.
— E porque me escolheu para essa missão? — Pergunta convencido.
Idiota.
— Na verdade... porque ninguém me atendeu — respondo diretamente, apagando seu sorriso sem motivo — Mas me surpreendi... quando você me deixou entrar sem reclamar — Voltei a encará-lo um pouco corada e sorri — Realmente obrigada.
— Tudo bem, amigos... são para isso.
Sinto-me desconfortável ainda, apesar de um pouco menos por estarmos conversando. Também tenho a estranha sensação de segurança. É bom conversar “normalmente” com Natsu, mesmo nessas circunstâncias. Aqueço-me esfregando minhas mãos por meus braços. Olho para baixo, depois volto a olhá-lo.
— Ahn... Natsu... — Falei, então o vi mais próximo, ao meu lado. Assusto-me por nem ter percebido sua presença. Estou assim tão distraída? Seu olhar está tão fixo em mim, que meu corpo treme.
— Nee Lucy — diz calmamente, medindo cada palavra, sem tirar seus olhos dos meus — Quando nos beijamos... no baile... — Meu coração acelera só de relembrar. Fico imóvel, perdida em seus olhos firmes e ternos. Por que isso do nada? Não estava bom enquanto fingíamos que isso não aconteceu? Sua boca se abre trêmula — O que você... sentiu?
Seu rosto cora um pouco após formular a pergunta. Natsu... corado. Isso existe? O que eu senti...? O que ele está querendo dizer? Aonde ele quer chegar com esse assunto?
— Hmm... é... c-como a-a-assim, o-o-o q-que e-eu s-senti? — gaguejo todas as palavras, desviando de seu olhar para não ter que encará-lo. Essa sua aproximação me deixa inquieta.
Que tipo de pergunta é essa? Não estava bom do jeito que estava? Sem se lembrar mais disso, seguindo a vida. Penso no dia do baile, quando de um jeito inesperado, seus lábios pousam sobre os meus. Posso quase senti-los como se fosse agora. E isso não é nada bom.
Sua mão toca meu queixo de leve e me leva a encará-lo novamente. Nossos olhares se cruzam, me sinto ofegante, e não fiz nada para ficar assim.
— Somos mesmo só amigos?
Minha respiração está densa, minha boca se abre, mas não consigo encontrar palavras para responder. Diversos pensamentos rodeiam minha mente, todos confusos e inconclusos.
Por que estou tão nervosa? Se somos só amigos? É claro que somos. Se não fossemos, o que deveríamos ser então? Por que meu coração está tão acelerado? O que ele é para mim? Quando ele me beijou... sei que não foi só amizade. Amigos não se beijam, idiota. Por que... ele tem que me deixar tão confusa?
— Lucy... talvez eu... — Volta a se pronunciar, e se aproxima aos poucos. Sua mão toca meu rosto suavemente, me acaricia, enquanto sua outra mão pousa ao meu lado no sofá. Não consigo me mexer. Sinto-me perplexa e perdida. Nem ao menos sei se quero me mexer. Seu olhar é tão profundo, e me diz tantas coisas que ainda não sei decifrar. Sua respiração está tão ofegante quanto a minha, e está próxima o bastante para eu senti-la. Fecho meus olhos lentamente...
Meu celular toca.
Desperto automaticamente, como se fosse pega no flagra. Ele se afasta. Meu corpo está trêmulo, e sinto meu rosto ferver.
— A-acho que é o meu — Minha voz finalmente surge. Pego o celular ao meu lado, ainda sentindo meu coração acelerado. Nem ao menos consigo clicar no botão para acender a tela.
Minhas mãos tremem. Enfim, descubro ser uma mensagem. Tento ler a mensagem para esquecer do que acabara de acontecer.
“Boa noite gatinha, não sei se irei amanhã para a aula tá bom? Mas prometo que aparecerei no outro dia. Desculpe novamente. Espero que esteja bem, saudades” — de Namorado Fofo
Leio a mensagem angustiada, tremendo por dentro e por fora. Fecho a mensagem e deixo o celular novamente ao meu lado. Meus olhos encontram os de Natsu e desviamos o olhar logo em seguida. Ficamos em silêncio por horas, quero dizer, é o que pareceu.
— Ahn... D-desculpa, não sei o que deu em mim — diz, olhando para o chão.
— T-tudo bem... — respondo cabisbaixa. Respiro fundo tentando desacelerar as batidas do meu coração.
Nossa... isso é tão errado. Sinto-me mal demais. O que estou fazendo? Sei que Natsu não fez por mal... mas eu não deveria tê-lo deixado se aproximar tanto. O que Sting pensaria de mim? Eu deveria dormir na rua, e não na casa de outro garoto.
— Era o loirinho?
Assinto com a cabeça, e ele balança a sua também pensativo.
Por que me sinto tão insegura de repente? E não quanto Natsu, mas quanto a mim mesma.
— Você gosta dele? — diz, olhando-me de lado.
Surpreendo-me com sua pergunta pessoal. Não sei o que responder. Nunca falei sobre nada tão íntimo com Natsu, sempre estamos só rindo e brincando. Essa troca repentina de assuntos, me deixa desconfortável. Não quero falar sobre o que eu penso, me deixa constrangida. Olho para minhas mãos e penso em alguma coisa para me tirar dessa situação.
— Você gosta da Lisanna? — devolvo-lhe uma pergunta pessoal de si mesmo.
Ele me olha, parecendo surpreso pela pergunta, da mesma maneira que fiquei quando ele fez o mesmo. Depois seu olhar desvia novamente para o chão.
— Talvez — responde indiferente.
Foi minha vez de encará-lo.
— Talvez? — repito para confirmar.
Como assim talvez? Ou gosta, ou não gosta. Na verdade, acho que a surpresa maior foi por não ouvir um “Sim” de cara. Sempre estive tão crente de seus sentimentos por ela. Ainda mais de tudo o que ela contou...
— Tenho algumas... Dúvidas — disse pensativo e voltou a me encarar, como se estivesse me dizendo algo. Como se eu fizesse parte de suas dúvidas. Coro com esses pensamentos, vendo seus olhos fixos em mim — Mas não pretendo fazer ela sofrer.
Desvio o olhar por algum tempo para me recuperar. Limpo a garganta.
— Ela gosta muito de você.
— Eu sei... — suspira pesadamente — por isso não quero machucá-la.
Sua postura está tão séria, que me incomoda. É intrigante vê-lo assim, tão diferente do que é normalmente. Nunca imaginei ver Natsu assim algum dia, não é um lado que ele costume mostrar. Será que mais alguém já chegou a encontra-lo desta forma? Será que... foi esse lado que fez Lisanna se apaixonar?
— Então acho melhor não beijar nós duas na mesma noite! — disparo sem medir palavras. Arrependo-me logo em seguida quando ele me olha curioso.
O que deu em mim? Estou louca? Isso não tem nada a ver. E a maneira como falei, foi como se... fosse por mim, e não por ela.
— Ahn... — murmura confuso, depois arqueia as sobrancelhas — Pelo que eu saiba, você não pode falar muita coisa.
— O que quer dizer? — indago, olhando-o firme.
— Você beijou Sting e a mim na mesma noite, também — replica com certa repulsa.
— Sting é meu namorado! E foi você que me beijou! — praticamente grito, e levo minhas mãos até minha boca por lembrar que estou na casa de outra pessoa.
— E você correspondeu!
Seu olhar pesa sobre mim. Tento ir no impulso de mostrar o quanto ele está errado, mas a questão é... ele não está. E não tenho argumentos para dizer o contrário, por mais que eu queira com todas as forças acreditar nisso. Ficamos nos encarando em silêncio. Então ele desvia o olhar e se levanta.
— Melhor dormirmos certo?
Apenas balanço a cabeça, tentando afastar esses pensamentos.
— Certo...
Natsu alonga seus braços de costas para mim, e anda até a cama. Virando-se para mim um pouco antes de sentar.
— Olha só, amanhã não terei que pular nenhuma janela, né? — sorriu.
Sorriu como se nada dessa discussão sem sentido tivesse acontecido. Acho melhor eu fazer o mesmo e esquecer isso.
— Verdade — ri baixinho.
Acho que estamos bem... E ficaremos melhor se eu não ficar me recordando de nada disso.
Natsu anda até a porta, desligando a luz, e depois deita-se em um dos lados da cama, completamente despreocupado. Algo me incomoda.
— Ei, onde eu vou dormir? — Encaro-o com medo da resposta.
— Aqui — Ele diz batendo ao seu lado na cama, com um sorriso idiota. Só pode ser piada.
— O que? Nem pensar que vou dormir ai com você — retruco apavorada só de me imaginar... dormindo com ele.
Meu rosto e acho que todo meu corpo se aquece. Devo estar parecendo um pimentão.
— Bom, o chão e o sofá está ai, fique à vontade — responde indiferente, dando de ombros e se virando de costas para dormir.
O que? Como ele pode? Argh! Que cara irritante. Esse é o Natsu que conheço. Quanto cavalheirismo. Tento me acomodar no sofá. Nunca que eu iria deitar ao seu lado, ainda mais depois de seu sorriso convencido. Ajeito-me de um lado, depois de outro. Isso é muito duro e desconfortável. Olho para o teto. Durma, Lucy. Durma. Tento me hipnotizar. Não funciona. Sento-me novamente, olhando para o chão. O que será pior?
Olho para cama... Nem pensar.
— Vem logo, idiota — sua voz soa, ainda de costas para mim.
Suspiro, levantando-me e indo em direção a cama. Sento-me de leve ainda hesitante. Não acredito que estou fazendo isso. Começo a me deitar devagar até estar completamente aconchegada.
— É melhor não tentar nada — sussurro, virando-me para o outro lado e me cobrindo.
— Para de reclamar, quero dormir — resmungou.
Fixo o olhar na parede à minha frente. Tudo o que passei hoje. Não vou esquecer tão cedo... fecho os olhos, e o sono me domina.
―×―
Abro meus olhos lentamente, tentando identificar onde estou. Vejo a claridade invadir o quarto pela janela. Um quarto que não é meu. Lembro-me vagamente de todos os ocorridos de ontem. Meu corpo está mole. Aqui está tão confortável... e quente. Abro meus olhos um pouco mais, então sinto que tem algo errado com o colchão. Olho para o lado e vejo que estou deitada nos braços de Natsu, com a mão em seu peitoral. AI MEU DEUS!
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH! — gritei como se estivesse sendo assassinada, e comecei a me movimentar de todas as maneiras possíveis para sair dessa situação embaraçosa, o que não é fácil, porque a coberta começa dar voltas e voltas.
— Mas que merd... — Escuto Natsu resmungar baixinho, abrindo os olhos.
Mas é só isso que consigo enxergar antes de cair da cama. Com ele.
— Ai Lucy! Você é louca por acaso?
Ouço sua voz, enquanto ainda me recupero do tombo. Abro meus olhos, passando a mão por minha cabeça que dói. Mas não tanto porque algo amorteceu minha queda. Algo... Natsu. Me apavoro ainda mais quando me vejo em cima dele, presa por essa coberta infernal que parece uma algema.
Sinto que meus olhos estão estalados, e acho que estão mesmo. Não tenho outra opção, além de olhá-lo. E ele também não. Sabe quando você sente um conflito imenso?
Essa troca de olhares para ao ouvirmos a porta se abrir. Olhamos desesperados para ela, no mesmo instante. E ali, está uma garotinha com um olhar perverso.
— Você tá ferrado — disse antes de nos lançar um sorrisinho e sair.
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