Academia De Fadas
14 Capítulo 14 — Não pode piorar.
Notas iniciais
Capítulo 14 — Não pode piorar
Natsu
A manhã traz consigo algumas nuvens de chuva, o que é desanimador para todos que teriam que se levantar cedo nesta manhã fria, como eu. Acordo travando uma batalha contra a preguiça que emana por meu corpo. Ela ganha, e eu desabo novamente pela cama. Olho para o lado e vejo meu gato folgado dormindo, depois olho pela janela, vendo o quanto o dia seria chuvoso. Péssimo para estudar. Estudar com um dia radiante já é problemático. Deveria ser proibido ter que ir para a aula em dia de chuva.
— Até que horas vai ficar aí na cama, onii-chan? — Minha irmã aparece, com seus cabelos azuis bagunçados, na porta.
— O tempo que eu quiser, pirralha — digo com meu mau humor matinal.
— Seu grosso — grita inconformada — Vou contar pro papai! — choramingou.
Arqueio as sobrancelhas. Ainda não entendo como ela pode ser tão chorona. Eu faço isso com ela todos os dias, ela deveria se acostumar. Mas o maior problema é: Meu pai sempre fica do lado dela e me passa sermão. “Papai, o Natsu disse cala a boca”, “Papai, o Natsu me chamou de pirralha de novo”, “Papai, o Natsu disse que meu cabelo tá uma droga”. Enfim, suspiro.
— Tá, tá, desculpa — digo cansado — Só me deixa em paz — faço sinais com a mão para ela cair fora dali.
— Tudo bem, mas se arrume logo! — brigou e saiu do meu quarto.
Amém.
Isso tudo logo de manhã? Hoje é dia de ficar dormindo, penso ao sentir o frio entrar pela janela. Levanto-me enquanto espreguiço e vou até a janela para fechá-la. Caminho no modo zumbi até o banheiro para escovar os dentes e tomar uma ducha, visto meu uniforme e desço as escadas.
Puxo minha mochila presa em um gancho na parede adjacente à porta.
— Estou saindo — pronuncio da porta, olhando para minha irmã na cozinha.
— Vá com cuidado!
Bato a porta e começo a caminhar em direção à escola. Olho para o céu cinzento. Eu realmente deveria ficar em casa. Respiro fundo, insatisfeito. Ando mais algumas quadras até me dar conta que estou na frente do apartamento de Lucy. Olho para a janela pensando se seria uma boa ideia acordá-la.
Você é idiota? No que está pensando? É claro que não é uma boa ideia.
Viro-me novamente para o caminho certo e não volto.
―×―
Lucy
Acordo em um pulo, apavorada. Tenho quase certeza que meu despertador tocou e eu o desliguei automaticamente. Olho para mim mesma, com as roupas de ontem. Passei a noite em claro pensando no que quase aconteceu e devo ter dormido no processo. Levanto-me lentamente e olho para o relógio com os olhos semicerrados.
...
07:40?!?!?!?
Droga!
Não tenho tempo para minha leseira matinal. Corro para tomar uma ducha, visto o primeiro uniforme que encontro, coloco meus sapatos de qualquer jeito e saio tropeçando por toda escada do prédio.
Tenho que me acostumar a não ter um rosado irritante me acordando todos os dias, como minha segunda chance de dormir.
Saio do prédio e começo a correr. Sinto uma gota cair em meu rosto. Olho para o céu.
Ah não!
Chuva.
As gotas começam a ficar cada vez mais frequentes e intensas. Vejo que colocar a mão sobre a cabeça não adiantará nada com essa chuvarada, então apenas me concentro em correr o máximo que consigo. E chego ao colégio ensopada.
Droga de dia, droga de horário, droga de chuva!
Ando pelos corredores espalhando a água. Já estou com tanta raiva que o som do meu sapato encharcado a cada passo que dou não me irrita mais. E eu odeio, odeio molhar meu pé. Caminho a passos firmes até a sala e bato na porta, já fechada.
Escuto passos em minha direção, a sombra na fresta embaixo da porta e logo uma fresta se abre, mostrando o professor Wakaba me olhando surpreso. Não pelo atraso, claro. Seus olhos passaram de baixo a cima.
— Isso é hora para chegar? E desse jeito? — questiona e eu me curvo.
— Desculpe, o tempo está horrível! Posso entrar? — falo a voz mais melosa do mundo.
Ele arqueia a sobrancelha e depois abre a porta por completo.
— Tudo bem, só não molhe ninguém.
Ergo a cabeça e entro na sala. Passo reto por todos, ignorando todos os olhares curiosos, que por acaso, são muitos. Alguns maldosos, outros comediantes, enfim, sento-me em minha carteira com tudo.
— Que banho você tomou hein? — Gray debocha. Ignoro.
— Nossa Lucy, você está bem? — Lisanna vira-se para mim, preocupada.
— Estou ÓTIMA! — respondo irritada, fazendo com que qualquer outro comentário que fosse ser feito, ficasse apenas no ar.
Todos se viraram e a aula continuou normalmente. Não sabia desse meu poder. Aliás, não conhecia minha própria raiva. Respiro fundo, tentando prestar atenção no restante da aula.
O Natal parece próximo, porém o fim da aula não. O intervalo não chega nunca! Eu deveria ter ficado em casa. Minhas roupas ainda estão úmidas. Vou acabar pegando um resfriado terrível. Conto os segundos até ouvir o sinal tocar. Eba. Agora só falta uma aula até o intervalo. Suspiro com minha própria ironia. O tempo realmente não está afim de passar hoje.
A professora Evergreen entra na sala com seus óculos de secretária e seu cabelo em um coque. Ela não é feia, mas também não a considero bonita. Invejo seus olhos.
— Bom dia turma! Organizem-se em duplas, vamos fazer um trabalho!
Duplas... tudo o que eu queria. Meu dia não pode piorar mais um pouquinho não?
Sinto meu coração se apertar. Sempre fiz os trabalhos com Natsu... mas nossa relação não está lá muito boa. Quem eu estou querendo enganar? Nossa relação está péssima! Se ele me der bom dia é elogio dos grandes. O que eu faço? Sempre fiquei com medo de ficar isolada da sala nesse quesito, mas Natsu sempre me salvou. Ele não salvará agora. Até ajudaria me matar, se pudesse.
— Vamos juntas Lu-chan? Sempre quis fazer um trabalho com você! — Levy apareceu ao meu lado sorrindo.
Meus olhos quase se enchem de lágrimas. Minha salvadora!
— Claro! — respondo felizmente por ter uma amiga tão reparadora.
Posso escutar Droy e Jet resmungarem. Levy arrasta sua carteira para perto da minha. Tento não olhar para trás para não ver a reação de Natsu... mas sabe quando tem algo em sua mente, que te manipula, como se fosse uma coceira que nunca passa. Bom, virei-me discretamente, fingindo olhar para Levy-chan, para ver quem seria sua nova companhia, e a resposta era clara, Lisanna.
Observo-os conversando e rindo. Natsu diz alguma coisa e ela volta a rir exageradamente. Ele nem é engraçado assim. Que horror Lucy! Balanço a cabeça. É... acho que será assim daqui em diante.
— Lu-chan? — Levy-chan grita ao meu lado — Está prestando atenção no que estou falando?
Dou um pulo na carteira e olho para ela automaticamente.
— Gomem, gomem, pode falar! — respondo disfarçando meu desanimo.
E ela passa a falar tudo novamente, e sinto que não escutei nada de novo. Ouvi uma frase ou outra... Sabe, é estranho... tudo isso.
―×―
— Finalmente hora de ir embora! — gritou Levy esticando seus braços para trás.
Faço o mesmo, esticando meus braços e estralando minhas costas. Ai, isso dói.
— O tempo não passava hoje! — reclamo ainda desanimada com tudo o que aconteceu.
Estamos com nossas mochilas e andamos até o lugar mais próximo da entrada do colégio com cobertura. A chuva ainda despenca sobre nós, e ao em vez de passar, só se torna mais forte. Eu definitivamente não quero me molhar novamente.
— Caramba, como vou embora assim? — choramingo, abraçando meus próprios braços.
— Que tal irmos direto para o trabalho? — Levy sugere — Eu trouxe minha sombrinha daí podemos ir juntas!
— Faria isso, Levy-chan? — Meus olhos brilham.
— Claro, vamos! — sorri, tirando sua sombrinha da mochila.
Ela abre e saímos encolhidas debaixo dessa miniatura. Ofereço-me para segurar a sombrinha por ser a mais alta, minhas costas já estão doendo o suficiente. E não quero confessar para Levy-chan, mas acho que me molharia menos se fosse correndo. A chuva está monstruo...
Natsu passa perto de nós, dividindo seu guarda chuva com Lisanna. Fico um tempo estática até sorrir. Eles são fofos juntos, afinal. Imagino quando eles eram pequenos, “namoradinhos”, deveriam ser ainda mais fofos.
Desperto de meus pensamentos ao sentir meu bolso vibrar. Firmo a mão na sombrinha e pego meu celular com a outra. Mensagem de texto, abrir:
“Oi amor, desculpe não ter passado o intervalo com você, acabei não indo para o colégio hoje, tive que viajar a negócios com meu pai, amanhã estarei de volta. Desculpa avisar de última hora. Já estou com saudades.” — De Namorado fofo.
Suspiro e fecho o celular.
Levy-chan me olha, curiosa.
— O que foi Lu-chan?
— Sting foi viajar — digo com o olhar baixo.
Não é como se fosse o fim do mundo, mas com tudo isso acontecendo, o queria aqui perto de mim. Se bem que com os acontecimentos de ontem... sinto-me um pouco estranha ainda. Foi muito... intenso.
— Nossa assim do nada?
— Pois é.
Mudo de assunto. Passo a falar em como foi horrível acordar e chegar encharcada na escola. Levy-chan apenas ri de minhas trapalhadas. Começo a perceber como foi mesmo inédito e passo a rir junto. Um trovão soa perto de nós, como se nos mandasse calar a boca e nos silenciamos imediatamente. Apressamos os passos até chegar à livraria.
Finalmente! Entramos desesperadas e deixo a sombrinha no canto perto da porta. Arfo, cansada pela correria. Levy aparece com uma toalha e me oferece. Aceito de bom grado e me enxugo. Não adianta muito, mas já ajuda. Comemos alguns salgadinhos guardados para emergências e começamos a organizar mais centenas de livros deixados em lugares inadequados.
— Acho que ninguém virá comprar livros hoje — suspirou Levy.
— É verdade, será que essa chuva não vai passar nunca? — agonizo só de pensar.
Puxo uma cadeira para mim perto do balcão onde estão alguns livros esparramados. Levy está em uma mesa mais afastada, mas como não há clientes, podemos conversar (gritar).
— Não parece que vai passar por um bom tempo.
— Eu ainda tenho que ir para casa! Chega de correr! — brinco, me fazendo de vítima e Levy começa a rir com meu desanimo.
Desgraça alheia, sempre divertindo pessoas em todos os lugares.
— Ei, não ria de mim — finjo estar ofendida — eu já quase não dormi essa noite!
— Ah é, por que? — Levy perguntou curiosa.
Olho para ela, claramente mostrando que eu não deveria ter falado isso. Boca infeliz, sai falando tudo o que acha que pode. Deixe a mente trabalhar mais!
— P-Porque... ora essa, porque estava sem sono — gaguejo. Sou horrível mentindo.
— Isso não me convenceu Lu-chan — Levante-se e anda até mim — Aconteceu alguma coisa? Pode me contar!
Reviro os olhos me dando por vencida. Como esconder algo dela?
— Sting me agarrou em casa — falo diretamente.
Seus olhos estalam perplexos.
— SAFADA! — gritou.
— Ain Levy-chan, não grite essas coisas!
Ela põe a mão em sua boca como um pedido de desculpas, ou pelo menos por perceber que gritar coisas assim não é legal.
— Gomem ne, mas o que aconteceu? Vocês não... — Levy diz com um ar sugestivo.
— Claro que não! — respondo rapidamente — só nos beijamos!
É quase uma ofensa ela sugerir tal coisa. Somos novos, acabamos de nos conhecer e... é, umas ofensa, fim.
— Sei... — murmura sem acreditar muito, depois me olha de uma forma estranha — Você é virgem, Lu-chan?
— O-o... quê? — gaguejou — Que tipo de pergunta é essa?
Meu coração até acelera. Nunca falei sobre isso abertamente com ninguém. Confio totalmente em Levy, mas é totalmente constrangedor conversar sobre esses assuntos íntimos aqui.
— Só por curiosidade — diz, sorrindo — Eu sou, então gostaria de saber como é.
Respiro fundo, um pouco melhor por saber que tem alguém no mesmo barco.
— Ah... Na verdade... meu primeiro beijo foi com Sting — murmuro envergonhada. Minha voz sai praticamente para mim mesma. E eu gostaria que fosse assim.
— Sério?! Que fofa!
— Não conte a ninguém, certo? — suplico.
Não sei exatamente porque. E não tem motivo para ela simplesmente sair espalhando por aí. Não é como se eu gostaria de já ter feito. Mas vejo tantos casos por aí, imaturos e sem sentido.
— Claro que não falarei nada — sorri passando confiança. E eu confio.
— Ainda... ainda não me sinto preparada para dar o próximo passo... — falo em um tom baixo novamente.
Sua mão pousa sobre meu ombro.
— Acho que você vai saber quando for a hora certa Lu-chan.
— Obrigada Levy-chan, você é uma ótima amiga!
Conversamos mais um pouco sobre garotos. Ela me fez dizer tudo o que rolou ontem. Essa garota não tem limites. Fiquei envergonhada e totalmente constrangida, mas no final consegui me soltar mais. Levy-chan é minha melhor amiga, sei que posso confiar e quero que confie em mim também.
Andamos entre estantes e mais estantes, organizando os livros, mas nunca ficamos sozinhas, porque nossas conversas nunca cessam. Olho para o relógio, reparando que era hora de ir. Arrumamos boa parte dos livros e realmente ninguém apareceu na loja. Pior de tudo, a chuva continua forte.
— Essa chuva não quer passar! — resmungo cabisbaixa.
— Eu até te acompanharia, mas é que o dormitório é para o outro lado! — tenta me consolar.
— Tudo bem — aceito seu consolo — Irei correndo, até mais! — aceno e começo a correr.
Busco todas as coberturas que encontro pelo caminho. Não é como se adiantasse algo, mas pelo menos me sinto segura por meio segundo a mais. Chegando perto de meu prédio, não há coberturas em nenhum lugar, então corro ainda mais. Assim que avisto a porta, corro até ela, abro a porta e a fecho com tudo.
Até que enfim. Fecho os olhos recuperando meu fôlego e me arrasto pela porta.
Abro novamente meus olhos e me assusto ao ver a síndica na minha frente.
— Boa noite! — digo formalmente, ficando reta novamente e indo em direção às escadas.
Sua mão pega o canto de minha blusa e me puxa.
— Você não pagou o aluguel — diz sem expressão.
Droga! Esqueci completamente! E não tenho dinheiro aqui comigo, está tudo no banco. E o banco é longe demais daqui!
— Olha, eu trago o dinh... — tento me explicar, mas quando vejo...
... Estou na rua.
— Quando pagar, pode entrar — me expulsa e fecha a porta.
— O Que? Você não pode me deixar na rua com essa chuva! — gritei... em vão.
As gotas caem sobre minha pele. Agarro-me na tentativa de me aquecer, mas nunca irá funcionar enquanto eu estiver aqui sem lugar para ficar. Bato inúmeras vezes na porta, mas ela realmente me deixará aqui. Que mulher capitalista e sem coração!
Espirro.
Não há cobertura alguma. Espirro de novo. Sinto meus olhos se encherem de lágrimas. Olho para a janela do meu quarto. Tão perto. Que droga!
Espirro.
O que eu vou fazer agora? Para onde eu poderia ir?
―×―
Ainda não acredito que me rebaixei à isso. Mas não tive escolha! Não poderia ficar na rua e a chuva só tem aumentado. Meu corpo está quente mesmo com as gotas geladas, e a gripe só está piorando!
A porta se abre.
— O que você tá fazendo aqui? — Natsu pergunta ao abri-la.
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