Era início de tarde. O céu estava com um leve tom acinzentado.

Ib e seus pais iam para uma galeria de arte. Iriam ver as obras do falecido artista Guertena.

A garota tinha nove anos. Usava uma saia de pregas vermelha com bolso, uma blusa de mangas branca e uma grande fita vermelha que caía sobre o corpo, amarrada em volta da gola da roupa.

Ela tinha cabelos lisos, da altura do peito, castanhos claro. Sua franja era reta. Possuía belos olhos castanhos. Aquele tipo de castanho que parecia ser quase um vermelho escuro.

– Ib, você está com seu lenço? – Perguntou sua mãe. Ib era a cara dela.


“Você se lembra de tudo, Ib?"


– Estou – respondeu.

– Que bom – ela sorriu, um tanto aliviada. – Deixe ele seguro em seu bolso. Não perca-o – pediu.



– Bem, chegamos – falou a mulher, sorrindo. – É sua primeira vez em uma galeria de arte, certo, Ib? Nós viemos aqui hoje para ver a exposição das obras de um artista chamado Guertena. E aqui, não vão ter apenas pinturas, mas esculturas, também. E várias outras criações dele! – Os olhos da mulher brilhavam. Ela estava realmente empolgada.

– Hmm... devemos ir até o balcão de recepção? – Perguntou o pai de Ib, tentando não rir de tanta alegria que sua mulher deixava transbordava com palavras.

– Ah, sim. Vamos pegar alguns panfletos também – sorriu. Os três chegaram até o balcão.

O pai de Ib começou a conversar um pouco com o recepcionista, que era um homem velho.

– Essa é realmente uma bela a que está tocando aqui, não é? – Comentou o pai da garota.

– Ah, sim. Chama-se Corelli La Folia. Logo após Guertena morrer, um grande amigo dele fez essa música em sua homenagem – explicou. Como era recepcionista, obviamente ele sabia dessas coisas.

E então, sua mãe pediu algumas informações sobre os quadros. Ib suspirou. Aquilo realmente demoraria...

– Mãe... – ela puxou levemente o vestido vermelho que ela usava, chamando sua atenção. – Será que eu posso ir vendo as obras, enquanto você o papai estão aqui, conversando com ele?

– O que? Você quer ir na frente? Francamente, Ib... – ela suspirou. – Tudo bem, desde que não faça nenhum escândalo por aqui. Acho que não tenho necessidade de me preocupar com você... mas não cause problemas aos outros visitantes, certo?

A garota sorriu, concordando com a cabeça, e saiu.

Perto da recepção, tinha algumas escadas. Em frente, um corredor.

Decidiu ir até o corredor, antes.

Tinham algumas pessoas em volta de uma obra. Porém, ela estava pintada direto do chão.

Era um peixe, mais parecido com uma piranha, dentro de um mar escuro. Ib lembrou-se que aquela era a obra central da exposição.

Decidiu ler sobre tal obra, então.


“--- Of The Deep”

Um mundo para onde um homem nunca iria...

Para --- esse mundo, eu decidi que iria --- ele dentro da tela.


Ib suspirou. Existiam algumas palavras que ela não conhecia. Mas não se importou. A pintura era realmente incrível. Parecia que aquele peixe estava realmente ali no chão, e isso deixou a pequena impressionada.

Logo, avistou a escultura de uma rosa. Encantada, decidiu ir olhá-la.


“--- De Espírito”

Linda em um relance, mas se você chegar muito perto, ela irá --- dor. Ela só pode florescer em --- corpos.


– Droga, não sei o que significam essas palavras – porém, mesmo assim, ela não desanimou-se. Entendia agora a empolgação de sua mãe para ver as obras.

Ib andou mais um pouco, passando por várias obras, pinturas e esculturas (“The Lady In Red”, ”Um Significado Bem ---”, ”Worry”, ”Morte Do Indivíduo”, etc). Algumas das obras mais interessantes, na opinião da jovem, estavam após subir aquelas escadas que estavam perto da recepção – e quando passou por lá, seus pais ainda estavam falando com aquele senhor atrás do balcão -.

Então, entrou um outro corredor. Porém, esse estava vazio. Tudo que ela ouvia, agora, invés de murmúrios de várias pessoas, eram apenas seus passos e a música “Corelli La Folia”.

Em tal corredor, tinha apenas um quadro. Um largo quadro. Porém, a garota não entendia o que Guertena havia pintado nele.

Ele era colorido. Tinha tons de verde, azul, vermelho, rosa, amarelo... e, pode até ser impressão de Ib, mas ela podia jurar que viu o quadro “The Lady In Red” pintado nele, também. Mas claro, sem todos os detalhes da obra original, apenas um borrado com as cores da mulher, o que deixava a morena na dúvida se era apenas coisa da sua cabeça ou não.

Abaixo da moldura, um texto de Guertena sobre essa obra. Ela inclinou-se um pouco para lê-lo.


“--- World”

Uma vez...


As luzes piscaram, e a garota enrijeceu-se. A música havia parado de tocar, e o local virou um silêncio total.

– Acho melhor procurar meus pais... – sussurrou a si mesma, sem se importar em terminar de ler sobre aquela obra.

Saiu do corredor, porém, no outro, não viu nenhuma pessoa. Bem, deveriam estar vendo outros quadros, pensou a garota.

Passou perto de uma pintura que tinha um gato preto. Então, ouviu um miado. Ela assustou-se e, obviamente, olhou direto para tal pintura, chamada “Sua Figura Escura”.

– Deve ser apenas coisas da minha cabeça... – disse, e continuou seu caminho.

Andou corredor acima, e passou por uma obra chamada “Fruto Amargo”.

A garota, quando vira o quadro pela primeira vez, não sabia que frutas eram. Mas uma era verde, e outra que estava na sua frente, era vermelha, lembrando um tomate. Mas ela não tinha certeza absoluta se realmente era um.

Passou pela obra, e ouviu um barulho atrás de si. Virou-se. Engoliu em seco.

No chão, em frente a “Fruto Amargo”, algo parecido com um tomate estava caído, sujando o chão e as paredes brancas de vermelho.

Assustada, olhou novamente para o quadro.

A fruta vermelha sumiu.

– E-eu tenho certeza que tinha o-outra coisa nesse quadro – gaguejou para si mesma.

Agora, ela acelerou seus passos, sem passar o olho por nenhuma obra de Guertena. Logo, chegou na recepção. E as luzes haviam apagado.

Agora sim, ela estava definitivamente com medo.

Não pelas luzes terem se apagado. Na verdade, seria ótimo se fosse apenas isso.

Seus pais, o recepcionista, os visitantes da galeria...

Todos haviam sumido, e ela só percebera agora.

– Mãe, pai? – Chamou. – MÃE, PAI! ONDE VOCÊS ESTÃO?

Andou até a porta de entrada do local. Talvez tivessem pedido para que todos saíssem da galeria, e ela não ouvira o chamado. Poderiam estar lá fora...

Mas não estavam.

A porta estava trancada. Ela começou a bater nela, gritando, chamando por seus pais.

Se realmente estivesse lá, teriam a ouvido.

Decidiu procurá-los pela galeria, novamente.

Subiu as escadas. Decidiu voltar até o corredor onde estava aquele largo quadro.

Quando chegou, estava vazio. Mas havia algo abaixo da moldura daquela obra. Era um texto, escrito com tinta azul.


“Vá para baixo, Ib.

Vou te mostrar um lugar secreto”


Isso assustou-a.

Seu nome estava ali, naquele texto.

E aquele texto não estava ali antes.

O que estava acontecendo, afinal?

Engoliu em seco. Ela olhava para os lados sem parar, assustada.

– Um lugar secreto... – repetiu, baixo.

Mesmo que fosse suspeito, ela ainda assim tinha nove anos. E agora, estava curiosa para saber sobre isso.

Decidiu, então, voltar para o lugar onde estava a obra central da exposição.

Mas havia algo errado.

Quando chegou novamente chegou lá, duas das cordas que estavam em volta da pintura – impedindo que visitantes tocassem ou pisassem nela – estavam faltando. E em seu lugar, um par de pés, marcados com tinta azul.

A mesma tinta usada naquele texto.

– Mas... o que será que é isso?

Ib andou um pouco para mais perto dessa pegada.

Ela perdeu o equilíbrio quando aproximou de mais seu pé direito da obra.

Afinal, ele não sentia o chão abaixo de si.

Ib gritou, assustada, caindo dentro daquela pintura no chão.

Ela caía e caía. Havia água em volta de si. Sentia-se no fundo do mar.

Mas ela não estava molhada.

Fechou seus olhos, com medo.

Apenas os abriu novamente quando sentiu chão.

Estava completamente seca.

E perdida.

Olhou para cima. A água em que estava, parecia distante. Como se fosse um céu.

Apesar de estar assustada, aquilo era incrível.

A água parecia estar flutuando no ar. Se não estivesse com tanto medo da situação, a morena teria achado aquilo realmente incrível.

Olhou para trás. As paredes eram azuis escuras.

Tinha dois quadros, ali, mas sem texto.

Eram idênticos, na verdade.

Uma grande rocha no canto inferior, e dois pedaços dela flutuando na sua diagonal.

A única coisa que diferenciava as pinturas era que a rocha do quadro esquerdo estava direcionada para a direita, com um fundo avermelhado; e a rocha do quadro direito estava direcionada para a esquerda, com um fundo azulado.

A pequena olhou para a direita.

Olhou para a esquerda.

Mordeu o lábio.

Parecia estar prestes a chorar ali mesmo.

– Onde eu estou...? – Perguntou a si mesma, abraçando-se.

Ib nunca havia sentido tanto medo quanto sentia naquele momento.