Finalmente chegou o fim de semana, poderia acordar mais tarde, ficar de preguiça na cama, por sinal a cama do Jean era muito acolhedora. Dava vontade de ficar eternamente ali, quieta entre as cobertas para fugir do frio gostoso da manhã, mas quando passo a mão do lado onde estaria Jean dormindo, estava vazio e frio. Olho por todo o quarto com uma certa dificuldade, a luz do banheiro apagado e nenhum sinal dele no closet. Escuto Jean bem longe falando parecia estar no telefone e decido ir investigar.

— É claro que já comprei... Aham.... Isso mesmo.... Não ela está dormindo ainda... fica tranquila que eu dou um jeito. – Dizia Jean com o telefone no ouvido apoiado pelo ombro enquanto estava cozinhando, ele estava sorrindo, mas ao me ver para de sorrir. — Falo com você depois.

— Quem era? – Questiono.

Eu não lembro uma única vez que Jean fale ao telefone perto de mim, aquilo me irritava e me intrigava. Por que não poderia atender o telefone perto de mim? Sempre que eu me aproximava, desligava o telefone rapidamente cortando a pessoa se caso ela estivesse falando.

— Ninguém importante.... Está com fome? Decidi fazer um café da manhã especial.

Ele volta a atenção para o fogão, mas antes guarda o telefone no bolso da calça de moletom. Como sempre o telefone fica com ele o tempo todo ou em seu campo de visão.

Jean serve o café da manhã em nossos pratos, a cada dois minutos olhava para o visor do celular, as vezes um sorrisinho de canto de lábio surgia em seu rosto e quando me olhava o sorrio sumia.

— Está tudo bem? – Questiono sendo interrompida por mais um barulho de notificação do celular dele.

— Está sim, eu só estou...- Diz olhando novamente para o celular.

— Está? Jean você pode deixa o celular um minuto por favor? Estamos comendo. – Digo, mas percebo que estou sendo ignorada novamente.

— O que disse? – Diz Jean que finalmente guarda o celular.

— Nada, estava apenas querendo conversar... – Digo desanimada olhando para o que ele havia preparado, mas já havia perdido o apetite.

— Ótimo, eu preciso conversar com você também, na verdade te fazer um pedido. – Diz Jean

Ele pega a minha mão, me fazendo soltar o talher, olhando no fundo dos meus olhos como se pudesse ver minha alma e aquele olhar me deixava sem jeito.

— Eu preciso de você, Catarina – revela calmamente — Estou com alguns problemas e.... Só você pode me ajudar.

Jean parecia estar realmente preocupado, dava para notar sua aflição em seu rosto, ainda mais por vir até a mim e pedir ajuda, deve ser algo realmente importante para chegar a este ponto de me pedir ajuda. Jean gostava de resolver seus problemas sozinhos, mas me pedir ajuda para algo seria a primeira vez e eu fico feliz em ser útil em sua vida.

—Do que precisa, meu amor? Eu faço o que for preciso para te ajudar. – Seguro em suas mãos e ele sorri para mim.

— Fico aliviado em saber que vai me ajudar.... Eu preciso que você me ajude com a minha formatura. – Ele levanta da cadeira retirando os pratos da mesa e indo para a pia. — Como sabe, estou na reta final com o meu trabalho de conclusão de curso, ainda tenho meu estágio obrigatório do hospital, preciso resolver a documentação da residência e eu não estou conseguindo tempo para as minhas coisas, já que estou resolvendo todas as coisas da formatura para a turma. Preciso que resolva pelo menos o da formatura para mim durante as próximas semanas.

— Como se eu não tivesse nada para fazer... Está esquecendo que eu ainda tenho aulas durante a semana toda? – Questiono terminando de tirar os copos da mesa e colocando na pia próximo ao Jean

— Catarina, você está reprovada em uma matéria por falta e você já tomou bomba na prova de terça que provavelmente eu acho difícil você se recuperar esta nota mesmo fazendo uma recuperação. — argumenta Jean com uma careta.

— Mas isso são só duas matérias que faço em dois dias da semana . Até onde eu sei a semana tem sete dias, desses a faculdade usa cinco e eu só perdi dois dias.... Logo ainda tenho os outros dias da semana com aulas...

Jean pega os copos e os joga dentro da pia me assustando fazendo eu dar dois passos para trás involuntariamente. Ele me olha, percebo seu rosto vermelho sei que fiz ele chegar ao seu limite

— Por que você sempre tem que argumentar? Será que não pode pensar em mim primeiro? Você só pensa em você, tudo é sempre você! – Ele grita apontando o dedo na minha cara. — Eu nunca te peço nada pois sei o quão egoísta você é, mas eu achei que agora por você não ter com o que se ocupar poderia me ajudar.

— Desculpa.... Eu não queria... – Digo em voz baixa

Jean morde os lábios, a sua mão que estava apontando o dedo para mim se fecha socando a bancada da pia e depois sai, me deixando sozinha. Ele bate à porta do quarto, isso é um sinal para eu não seguir, mas nem conseguiria porque fico paralisada. Olho para os copos quebrados na pia e tento segurar o choro. Jean aparece novamente e noto que trocou de roupa. Ele pega o molho de chaves pendurado na parede e caminha para a porta.

— Onde você vai? – Pergunto tentando alcança-lo, mas ele só fecha a porta do apartamento com outra batida.

Novamente o Jean está chateado comigo, eu não havia percebido que estava sendo egoísta com ele. Era a primeira vez que ele precisava de mim e eu estupida disse não. Quando eu mais precisei ele disse sim, sem argumentar ou pestanejar, enquanto fiz exatamente o oposto.

Sento no sofá, pego a manta e me enrolo. Ficarei sentada aqui até o Jean voltar e vou aceitar sim ajuda-lo. Realmente não faz sentido ir para uma aula que estou reprovada.... Aliás, devo admitir que nem sei o que se passa nas outras matérias. Porém, vou tentar me dedicar nas outras matérias, mesmo que madrugue estudando e vou ajudar o Jean. Ele faz tanto pelos outros e por mim, tem uma vida mais corrida que a minha e dá conta de tudo. Então sim, vou dar contar de ajudar Jean e das outras matérias, sei conseguirei tirar isso de letra.

Vejo a manhã ceder espaço para tarde e agora o sol dar o seu espaço para a noite, enquanto isso fiquei sem receber uma notícia se quer de Jean. Nenhuma mensagem ou ligação... Era como se eu não existisse mais para ele. Sei que ele está me punindo pelo que fiz e por isso decido não ligar em seu telefone. Saio do sofá e vou para a cama matar o tempo assistindo a TV até ele chegar, mas acabo caindo no sono.

Sou acordada sentindo um peso sobre meu corpo. Inalo um cheiro forte de álcool ao mesmo tempo que mãos geladas tocavam em minhas pernas e um vento gelado bate em minhas partes intimas. Abro meus olhos com dificuldade, só conseguia ver que era a silhueta do Jean por conta da luz da televisão. Ele estava sem camisa e abaixando sua calça. Noto que ele conseguiu tirar meu short do pijama ficando a minha calcinha exposta.

—Jean... O que está... fazendo? – Pergunto sonolenta, tentando me sentar. Mas ele me arruma me puxando pelas pernas.

—Eu preciso de você... – Diz Jean com o rosto bem próximo ao meu com um bafo de álcool muito forte. — Cat, você não tem ideia do quanto te desejo...

Jean era mais forte que eu sem dúvida, a ponto de abrir as minhas pernas mesmo eu tentando resistir. Posiciona-se entre elas e sinto que ele coloca a minha calcinha para o lado. Abro meus lábios para dizer que não estou no clima, mas só o seu olhar me inibe e prefiro não dizer nada, pois negar seria mais um motivo para virar discussão e seria a última coisa que eu gostaria de fazer.

Sinto uma pressão ao sentir o Jean entrar, mas não estava doendo como na minha primeira vez. Ele beija meu pescoço, passa suas mãos por meu corpo e não para de movimenta seu quadril contra o meu. Eu não sabia bem exatamente o que eu estava sentindo, parecia estar ficando gostoso até que me lembro do que as meninas falaram.

—Jean não goza dentro. –Sussurro em seu ouvido.

Ele faz mais alguns movimentos, começa a gemer mais alto até que se afasta de mim e goza em minha barriga. Ele olha para mim sorrindo olhando todo o meu corpo, parece que estava gostando da visão que tinha e se joga ao meu lado. Não demora muito para Jean pegar no sono, seu ronco era o sinal que estava adormecido e então respiro aliviada. Toco em minha barriga e sinto aquele liquido branco com cheiro estranho e forte, o que me dá nojo.

A sensação do meu corpo estar sujo ainda me incomoda, então decido tomar um banho quente rapidamente. Termino o banho me esfregando bastante a minha barriga para ter certeza que não ficará vestígio e fico aliviada ao ver que saiu completamente. Visto meu roupão e quando começo a secar os meus cabelos, algo chama a minha atenção: meu pescoço tinha um chupão, um maldito chupão enorme e bem visível. Tento ver maneiras de esconder aquilo com meu cabelo, até que escuto o som de notificação do celular do Jean.

Conforme aumenta a frequência do som de notificação mais aguça a minha curiosidade. Quero saber quem fica mandando mensagem para ele inúmeras vezes. Entro no quarto pé por pé a procura do telefone de Jean, mas para a minha surpresa, ele começa a vibrar e sua tela acende, mostrando que alguém estava ligando para ele. Quem liga para a outra pessoa tão tarde da noite?

O celular estava ao lado do Jean que dormia profundamente, o visor do telefone me atraía cada vez mais ao mesmo tempo em que mostrava um número e vibrava... Era irresistível. Então estendo minha mão em direção ao telefone.... Então meu pulso é apertado com toda força, me assustando:

—Catarina... Oque está fazendo? – Pergunta Jean me segurando, deixando meus dedos a centímetros do telefone.

—Eu ia.... Desliga para não te incomodar. – Minto.

Seus olhos me observam atentamente a procura de qualquer incerteza da minha parte. Então ele finalmente solta meu pulso e pega o telefone, sentando na cama. Continua me encarando sério até que me afasto e fico encostada na parede esfregando meu pulso dolorido. Ele atende o telefone e faz sinal para eu ficar em silencio.

— Alô? – Atende Jean sério. —Eu falo com você amanhã. – Ele desliga e levanta da cama.

—Quem era? – Questiono.

— Ninguém importante... – Ele se aproxima de mim e faz um carinho no meu rosto com a sua mão.

Eu quase não conseguia respirar, meu estomago embrulhou até que ele se afasta e entra no banheiro. Finalmente poderia respirar aliviada, até que percebo que ele levou o telefone para o banheiro. Aproximo-me do meu lado da cama, onde sento virada para a porta do banheiro. A vantagem do banheiro do Jean é ser à prova de som.... Ainda me recordo da minha primeira vez e de certa forma fiquei agradecida por Jean não me escutar dentro dele. Porém, agora vejo isso como uma enorme desvantagem.

Não sei o que o Jean faz no banheiro, se retornou para aquela pessoa, ou se sua fala era um código para continuarem o assunto por mensagem. Fico ali sentando apenas criando cenários por vários minutos, até que ela finalmente se abre e o meu namorado sai quieto. Pela sua cara não gostou de eu estar sentada feito um cão de guarda a sua espera.

— O que foi agora? – Resmunga passando por mim.

— Precisamos conversar – Digo seguindo seus movimentos igual a um girassol. Ele respira fundo enquanto pressiona seu maxilar. Sei que ele está prestes a soltar palavras duras para cima de mim então me antecipo — Eu vou te ajudar Jean. Sabe, esse tempo em que ficou fora me ajudou a refletir e vejo que você tem razão.

— Mesmo? – Questiona Jean, surpreso. Ele senta na cama ao meu lado então começa a alisar o meu braço. — Fico muito feliz em saber que usou esse tempo para cair em si e ver que estou certo.

— Sim, é o mínimo que posso fazer por você depois de tudo – completo oferecendo um leve sorriso.

— Se você quer assim – comenta Jean me puxando contra seu corpo até me beijar — Eu te amo Catarina, não se esqueça disso.

****

O pedido do Jean, no início, foi bem simples: ajuda-lo com as coisas que faltavam para sua formatura. Pensei que isso seria algo que conseguiria resolver em uma semana, o que foi de fato. Peguei o terno dele na alfaiataria na terça feira, a Stephanie me ajudou a encontrar os sapatos exclusivos que o Jean desejava na quarta feira, junto com a gravata. Marquei ainda um horário na barbearia que ele gostava no mesmo dia da formatura, conforme Jean desejava. Logo, era menos um problema para o Jean lidar.

Depois o seu pedido se estendeu a procurar um apartamento próximo ao hospital onde faria residência, pois segundo ele jamais moraria no alojamento cedido pelo programa. Porém, para encontrar o local perfeito custava muito do meu tempo. Os corretores de lá não tinham tempo a perder e o Jean não estava com muito tempo para falar com eles, então me tornei uma mensageira. Entre sim e nãos, demorou quase um mês até que finalmente encontrei o lugar perfeito e agora só preciso da aprovação do meu namorado que almoçava rapidamente na bancada do apartamento.

— Então o que acha? – Pergunto mostrando as fotos do apartamento para ele que mal olhava —Eu gostei do preço e do estilo do apartamento. Eu sei que você não gosta desse estilo de mobília, mas o corretor me garantiu que você pode trocá-la por outras.

— Aham – responde Jean observando o celular.

— Jean, isso é um sim ou um não? – Questiono irritada com o fato dele sorrir enquanto lê uma das mensagens — Com quem está falando? Sérgio?

— Ninguém – responde desligando a tela do telefone.

—Só quero que entenda que isso é para você e não para mim – Aviso empurrando o computador em sua direção.

— Ótimo – Diz sem nem ao menos olhar todas as fotos — Pode solicitar o contrato.

— Tudo bem – respondo, frustrada. Demorei todo esse tempo, nem ao menos almocei... Para receber um ótimo. Pego o computador e caminho em direção a sala de estar.

— Leãozinho, você já comprou a minha passagem? – Questiona da cozinha —Você sabe que não pode deixar isso para cima da hora.

— Oi? – Pergunto surpresa enquanto volto para cozinha — Não lembro de você ter me dito para fazer isso.

— Estou dizendo agora – responde Jean colocando seu prato na pia — Ah, tem que ser uma semana antes do estabelecido... sabe, preciso conhecer a região. O que me lembra, peça a entrega do apartamento para o mesmo período e confirme com a concessionária também. Claro, as minhas coisas daqui com a transportadora e por favor, diga a eles para embalarem corretamente...

— Jean, Jean, calma aí. Eu tenho as minhas coisas para fazer.

— Como o quê? – Questiona Jean com um olhar cético.

— Meu curso, as matérias que eu ainda tenho e que estou com os prazos apertados porque fico fazendo várias coisas para você! – Digo aumentando o tom da minha voz, algo que claramente ele não gostou nada – Olha eu fiz as coisas que você me pediu...

— Olha só, foi você quem disse que gostaria de me ajudar – rebate Jean nervoso colocando as mãos na cintura.

— Eu sei, mas estou exausta – comento encolhendo os ombros.

— Quer dizer que eu canso você, é isso? – Questiona Jean erguendo seu dedo em direção a minha cara. — Adivinha só, você não é a única que está cansada por aqui... eu também estou! Estou cansado de tirar plantões, ir para faculdade estudar e ainda ter que aguentar você reclamando como se o mínimo que faz no dia fosse grande coisa! Deixa eu te contar uma coisa: Não é! Esse curso de merda que você faz até um analfabeto faria e tiraria dez com a mão nas costas!

— Bom saber que é isso que você pensa ao meu respeito – Digo tentando segurar as lágrimas.

Caminho em direção ao quarto, onde pegou a minha mochila para ir à biblioteca estudar e reaver o tempo que perdi com o Jean e salvar as poucas matérias que me restam. Viro em direção a porta e encontro o Jean entrando no quarto. Passo por ele, sem dizer uma palavra até que ele se coloca entre eu e a porta, fechando a mesma com força:

— Você não vai a lugar nenhum!

— Jean, por favor, saia da frente. – peço encarando Jean que aproxima seu rosto do meu.

— Faça-me sair – desafia.

— Eu estou pedindo para você sair, por favor – repito colocando minha mão na maçaneta da porta.

Em instantes meu corpo saiu de perto da porta e foi jogado na cama. Jean joga seu corpo por cima do meu prendendo meus braços, enquanto me encara ... seus olhos estavam vívidos e cheios de raiva. Eu já tinha visto aquele olhar antes, só nunca o tinha visto para mim.

— Sai de cima de mim – Grito lutando contra ele.

— Não! Você vai me escutar! – Berra Jean segurando meus pulsos com uma mão enquanto a outra está com o dedo próximo ao meu rosto — Preste muito atenção! Eu faço tudo por você! Tudo e estou cansado de receber nada em troca!

— Nada? – Questiono

— O quê? Você acha mesmo que fazer essas coisinhas se compara a tudo o que fiz por você? – Jean perguntando apertando ainda mais os meus pulsos — Acha que dá o direito de você agir comigo dessa forma? Você está muito enganada!

Sua mão se aproxima do meu rosto e então fecho os olhos com força aguardando o tapa prometido. Porém, tudo o que sinto é o meu corpo ficar leve o que me leva a abrir os olhos e ver o Jean de pé me encarando com uma respiração visivelmente ofegante. Ele passa a mão pela cabeça e então me encara:

— Você vai ficar aqui e vai pensar muito bem nas suas atitudes.

Jean vai até a porta do quarto, pega a chave e quando noto que vai me trancar no quarto, tento correr para impedir, mas ele fecha a porta rapidamente e tranca a porta do lado de fora.

— Jean! Abre essa porta agora! – Grito socando a porta. – JEAAAAAAANNNN!.