Abstinência
2 Um quase acordo
Notas iniciais
★ HOJE ★
A luz da manhã chegou até minhas pálpebras passando pela fresta entre as cortinas verde limão.
Sem me levantar, abri os olhos e observei o quarto do hotel. Como chegamos muito tarde do show de ontem, só agora pude reparar no cômodo e notei que, tirando as paredes brancas e o chão de madeira polida, tudo era verde: Verde nos móveis, nas colchas, e até no tapete.
“Verde é o inimigo.” Eu dizia com meus cinco anos de idade. “Não quero comer verduras!”
“É uma pena, Rin. Tem um saco de laranjas te esperando caso coma tudo.” E com esse argumento, mamãe sempre vencia a guerra diária.
Sorri com as memórias. Como eu era boba... Me vendendo por uma fruta cítrica tão comum...
Um murmúrio vindo da minha esquerda acabou me tirando de meus pensamentos e girei o corpo em sua direção. Na cama ao lado — quando será que ele foi para lá? -, meu irmão dormia profundamente. Devo ter observado a cena por bons 5 minutos sem cansar. Sempre gostei de vê-lo dormindo, mas ultimamente esse tem sido o único momento do dia em que ele parecia realmente livre.
Quando acordado, Len preocupava-se em parecer feliz e confiante para agradar aos outros. Sua posição no grupo musical mais famoso do país pedia por essa postura, mas ele não me enganava com aqueles sorrisos falsos e, no fundo, eu sabia que toda a pressão o atormentava.
Bocejando, sentei-me na cama e procurei pelo celular no criado-mudo para verificar as horas: Meio-dia.
Sem hesitar, agarrei meu travesseiro e lancei sem piedade na cabeça de Len, que pulou das cobertas gritando e olhou assustado para mim.
– Shh! – repreendi — Quer que os seguranças arrebentem a porta, barulhento? Não grite assim.
– E você queria o quê, Rin? Experimente ser surpreendida logo de manhã.– repondeu antes de bocejar. Então, como se fosse combinado, nos espreguiçamos e mexemos em nossas franjas igualmente loiras e bagunçadas ao mesmo tempo. Curiosamente, desenvolvemos o mesmo hábito diurno quando ainda éramos bem pequenos. “Coisa de gêmeos” mamãe dizia. — Sorte sua eu não querer me vingar...
– Em minha defesa, já estamos no turno da tarde e você não faria isso. – desafiei fazendo careta.
– Tem certeza? – ele saiu da cama com o travesseiro em mãos – Eu sou mais forte e você sabe disso.
Seus lábios sorriram com maldade e eu senti meu corpo todo tremer. Não que eu estivesse com medo... Oh não. Acontece que vê-lo seminu vindo em minha direção trouxe de volta toda a excitação de ontem à noite.
Quando chegou bem perto da cama, fingiu lançar o travesseiro e eu pus as mãos na frente do rosto para me proteger. Quando percebeu que eu havia caído em sua armadilha, largou a arma, agarrou meus pulsos e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, fui derrubada no colchão macio.
– Não devia me provocar garotinha... — disse soltando meus braços e levando as mãos para minha cintura.
Eu não conseguia parar de sorrir. Ele já estava totalmente em cima de mim e, ainda com o olhar perverso, começou a desabotoar a blusa que, apesar de ser dele, eu usava para dormir.
– O quê foi? – perguntou quando fechei os olhos em puro êxtase. Agora ele beijava minha barriga e ia subindo, passando pelos seios, e indo em direção ao pescoço.
Mordo o lábio inferior.
– Isso não é justo. – protestei passando as mãos em torno de seu pescoço — Eu estava... – não pude concluir a fala pois arfei quando ele mordeu o lóbulo da minha orelha esquerda.
– Estava o quê? — perguntou enquanto me puxava para mais perto de si.
Eu desci os braços até sua cintura e ele voltou a beijar meu pescoço.
– Estava... Indefesa. — conclui abrindo os olhos calmamente.
Foi então que vi todo seu corpo paralisar. Seus olhos azuis pareciam distantes enquanto encaravam os meus. Seus lábios, que antes exibiam um sorriso provocador, retorciam-se como se sentisse repulsa por algo.
Percebi o impacto de minhas palavras e praguejei mentalmente.
Desejando que não fosse tarde de mais, tentei beijá-lo, mas o loiro virou o rosto e saiu rapidamente de cima de mim.
– Desculpe... – tentei mesmo sabendo que não poderia evitar a situação que estava por vir.
– Não. – ele desabou em sua própria cama – Sou eu quem deve pedir desculpas, Rin. Mas sempre cometo o mesmo erro, não importa o quanto eu tente...
Ele esfregava as têmporas com as mãos e tinha os olhos bem fechados.
– Len...
– Mesmo eu sabendo do absurdo que isso tudo é, não posso evitar. É mais forte do que qualquer coisa. – o rapaz me ignorou para continuar seu monólogo deprimente.
– Len, nós já conversamos sobre isso... – arrisquei ainda mantendo a calma.
– Todas as vezes... – ele abriu os olhos de supetão e olhou para mim – Todas as vezes em que acordo ao seu lado, Rin, sinto tanto ódio de mim mesmo... Sei que posso me controlar... Ou melhor, não. Agora já não sei se sou tão civilizado como acreditava ser.
A minha garganta começou a queimar.
– Não diga isso! – levantei indo em sua direção – Não me venha com essa história outra vez, ouviu bem? Len, nós já conversamos e você sabe muito bem que eu quero isso. — ele se retraiu como se eu o tivesse agredido. – Não há nada de errado nisso...
– Nada de errado, Rin? – ele sorriu com ironia – Então me diga, por favor, qual parte disso não é errada! Somo irmãos. De sangue. Viemos da mesmo ovócito, aliás.
– Não seja criança! – eu já tenho o pavio curto, mas ele conseguiu estourar a bomba bem antes do tempo. Com a raiva aflorando, continuei – Já temos 17 anos. Eu, pelo menos, sei bem o que quero ou não quero.
– Mentira. Você é só uma garotinha, apesar desse seu gênio. Tanto que um aproveitador descontrolado como eu, consegui te seduzir sem muito esforço.
Bufei com desprezo.
– Len, honestamente, eu não tenho paciência para esse seu drama. – declarei indo para meu lado do quarto e pondo a camisa de volta no corpo – Você precisa entender que eu sempre me senti atraída por você. Não houve esse “aproveitamento” da sua parte. E admita de uma vez que você me ama!
Ele veio como um raio e me agarrou.
– É claro que eu amo, sua boba. Não quero que duvide disso nunca. – ele me apertou pela cintura mas logo em seguida abraçou os próprios ombros como se para manter as mãos longe de mim – Meu corpo deseja o seu todos os dias e, ao que parece, não sou forte o bastante para impedi-lo de conseguir o que quer.
Percebendo sua quebra de defesas, tentei beijá-lo mais uma vez e ele permitiu. Fechei os olhos para aproveitar melhor o momento mas, segundos depois, seus lábios sumiram.
– E é isso que eu mais odeio. – continuou, dessa vez mais tristonho que zangado — Eu não devia amá-la... Não desse jeito! – então levantou-se da cama e deu as costas para mim — Eu te amo e, se fosse possível, ficaria com você para sempre.
Corei com a declaração.
– E o que te impede, Len? – disfarcei minha inquietação com uma voz firme.
– Não posso viver sabendo que sou um criminoso.
– Qual o crime? – questionei unindo as sobrancelhas.
– Transar com a minha irmã. – respondeu simplesmente e ajeitou o cabelo rindo. – Isso se chama incesto e não é bem aceito pela lei, caso não saiba.
– Grande coisa – dei de ombros e aproveitei seu novo estado de espírito para puxá-lo pela mão até estarmos os dois sentados na minha cama – Vários irmãos pelo mundo praticam incesto e vivem felizes assim. O que importa é o que realmente sentimos um pelo outro.
Ele apertou minha mão e senti que estava conseguindo persuadi-lo.
– Se nós nos amamos, não vejo o motivo dessa resistência. – finalizei.
– Será que não percebe que isso não te faz nenhum bem?
– Claro que faz, Len. Todo mundo gosta de estar junto da pessoa amada, de beijá-la, dormir com ela...
– Não é só isso, Rin. – declarou passando os dedos de leve por meus cabelos — Nós nos tratamos como namorados mesmo quando estamos na frente dos outros. Não acha isso perigoso? – perguntou – Pois eu acho e por isso venho tentando disfarçar, mas parece que alguém aqui não se preocupa nem um pouco em cooperar. — ignorei sua acusação e fingi estar interessada em minhas unhas. – E mais: você está a cada dia mais dependente de mim.
– Isso não é verdade! – me defendi afastando-o de mim.
– Você sabe que é verdade, não seja teimosa! — pôs o dedo indicador na frente de meus lábios a fim de calar meus protestos e deu um sorriso tímido antes de enumerar os fatos — Se eu não te der pelo menos um beijo ao dia, os nossos ensaios não progridem; se eu não for para sua cama a noite, você não consegue dormir... Admita!
Eu tentei pensar em algo para usar de argumento, mas ele tinha razão. Eu, Kagamine Rin, a cantora pop mais relevante do momento, cabeça dura e mandona, estava totalmente apaixonada pelo meu irmão. Mais que isso: viciada.
Desejava seus lábios a todo minuto do dia e ficava aflita quando éramos postos em quartos separados nos hotéis. Tudo o que Len disse era verdade, mas não estava disposta a ceder para sua conversa moralista. Já a tivemos diversas vezes ao longo dos últimos meses, e em todas elas eu acabei persuadindo-o a deixar de baboseira. Por que agora seria diferente?
– Viu? Dependente! É por isso que insistir nessa maluquice só vai nos levar a ruína. – ele acariciou minhas bochechas e acabei corando mais ainda.
– P-pare de cuidar de mim só porque é o gêmeo mais velho. – ordenei.
– Mas eu sempre fiz isso. Estou acostumado a tomar conta da minha irmãzinha.
– Idiota. – com isso, sorri e pus a cabeça em seu ombro direito.
– Acho que dessa vez nós nos expressamos bem e conseguimos evoluir com o problema. – concluiu orgulhoso. — Podemos tentar então?
– Tentar o que, garoto confuso? – debochei.
– Sem sexo essa noite. O que acha?
– Fora de cogitação! — gritei.
– Rin...
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