Abstinência

15 Tudo bem quando termina mal


Notas iniciais
Oi oi! Como prometido, mais um capítulo e dessa vez grandinho. YEY! Espero que gostem e que os leitores fantasmas deem algum sinal de vida. Gostaria de saber a opinião de vocês também! Bjss Hoe~

Abro a porta do quarto delicadamente e sem pressa. Len está de olhos fechados, em sua cama, tocando seu violão.

Quando o cumprimento com um singelo "oi", meu irmão nem se incomoda em olhar para mim.

— Quer saber por que eu sumo? Para ter um momento de paz, já que por aqui isso aparentemente não existe.

Ignoro o ataque. Ele está zangado comigo, então nada mais justo.

— Você não precisa delas para ter paz. – digo ainda à porta.

— Elas? – pergunta ao finalmente me dar atenção, sem interromper as dedilhadas suaves nas cordas do violão.

Engulo em seco.

— As drogas. – a resposta sai como um suspiro. É como se a palavra "drogas" carregasse um mau agouro.

Ele volta a fechar as pálpebras e fica tocando o mesmo acorde por quase um minuto. Eu continuo parada no lugar com os braços bem unidos e as mãos entrelaçadas.

— Não era para você saber. – diz.

— Não era para eu saber? – repito deixando as emoções aflorarem – Len, você pretendia esconder isso até quando? Até ter uma overdose e morrer? – ele não reage – Era esse seu grande plano?

— Eu não quero morrer. – esclarece ao largar o instrumento de lado.

— Então me deixe fazer parte disso. Deixe-me te ajudar. – imploro enquanto subo em sua cama e sento-me de pernas cruzadas – Antes de qualquer coisa, você é meu irmão. Será que não entende? Não quero que sofra... Não quero que...

Minha voz vai sumindo e acabo me desconcentrando quando me dou conta do que está acontecendo à minha frente: pela primeira vez em muitos anos, Len está chorando. Os olhos azuis brilham devido à umidade e sua boca se contorce numa linha trêmula. Antes que a primeira lágrima chegue ao queixo, movo-me para abraçá-lo.

Ouço-me sussurrando palavras de consolo e vejo minhas mãos acariciando seus cabelos loiros. Estou agindo por instinto apenas. Quero sanar sua dor independentemente do que aconteceu mais cedo ou do que tem acontecido nos últimos tempos.

— Tudo ficará bem.

— Eu estou tentando, sabia? – ele soluça de repente – Juro que estou. Eu quero parar... Eu...

— Calma, calma. – continuo acarinhando-o com determinação quase doentia.

— Me perdoe, Rin. Eu tento, mas não consigo. Temos shows e reuniões o tempo todo, os ensaios estão cada vez mais puxados... Eu preciso relaxar.

— Len, calma. – dou tapinhas em suas costas, pois ele está se engasgando. Os tremeliques voltam e eu o aperto com toda minha força.

Por um lado, sinto-me aliviada por saber que o garoto bondoso com quem cresci ainda existe e grande parte de mim comemora por ele estar se abrindo dessa forma.. Len sempre foi o mais forte, o protetor. Permitir-se chorar na minha frente só mostra o quanto ele está destruído por dentro, mas ainda assim sinto nascer uma fagulha de felicidade em meu interior: É tudo culpa da cocaína. Sim, meu irmão está assim por causa dela. Se tiver ajuda, vai ficar bem. Vamos todos ficar bem.

Envergonho-me pela alegria inapropriada, mas não sou capaz de fazê-la sumir.

— Naquele dia em que desapareci, tive uma crise. – revelou com o rosto ainda afundado em meu peito – Algo similar ao que aconteceu no estúdio. Meu coração parou de bater por 6 segundos.

Pronto. A fagulha está extinta e sinto náuseas. Não sei de onde tiro a coragem para verbalizar a pergunta que faço a seguir:

— Você... Morreu por 6 segundos?

— Havia um enfermeiro lá. Tive muita sorte.

— Lá onde, Len?!

Ele reajusta a postura e limpa o rosto. Apesar de ainda ter os olhos inchados, parece ter se recomposto um pouco.

— No galpão para onde sempre vou.

— Você não pode mais voltar lá para comprar drogas.

— Não é lá que consigo. – explica e eu não escondo minha confusão. Len parece não perceber e continua – Eu estou um lixo, Rin... Sou um lixo.

Suspiro fortemente.

— Não é não. Vício é uma doença e, quando estiver curado, vai se sentir muito melhor. Eu prometo.

Meu irmão se aconchega ainda mais a mim e sinto suas mãos trêmulas.

— Não vou conseguir. – choraminga.

— Len Kagamine! – grito empurrando-o para ficarmos cara a cara – Nós vamos passar juntos por isso!

Ele não concorda nem discorda, apenas deixa o corpo cair no colchão e tampa o rosto com as palmas das mãos. Deito ao seu lado com o coração pulsando como um tambor.

— Rin, eu não vou conseguir. – repete sem tirar as mãos da frente da boca – Eu realmente não tenho como relaxar sem me drogar. Você, que já foi minha fonte inesgotável de alívio e felicidade no meio dessa vida corrida e assustadora, é hoje o meu maior motivo de estresse.

— Está falando sobre nosso amor proibido? – deixo escapar uma risada seca.

— Meu Deus, onde está vendo graça nisso tudo?

— Não estou. – digo ainda sorrindo de forma sofrida apesar de ele não poder me ver – É que mesmo depois de tudo o que tem acontecido e da bagunça que está a vida, nossas conversas sempre acabam rumando para o incesto. Acho que é minha sina.

— Oh não. Sua sina não. – ele finalmente revela o rosto e em encara com os olhos duros – Você não sofre com isso. Não era você quem batia punheta para a própria irmã desde os 13 anos de idade, não é você que fica bruta durante um ato sexual e com certeza não é você que sente a maldita presença de Darren no sangue.

Abro a boca para responder, mas não tenho o que dizer.

— Eu detesto te machucar, Rin. Pensei que eu fosse sádico, mas não sou. Não foi por prazer que eu fiquei daquele jeito enquanto transávamos. – ele cuspe as palavras como se as tivesse guardado por séculos e tudo finalmente estivesse explodindo para fora de sua mente atormentada – Foi por ódio.

— Você me odeia? – é o que consigo perguntar.

— Claro que não. Eu te amo. – seus dedos fincam no colchão – Mas odeio isso. Odeio que seja minha irmã. Saber que te amar é motivo para prisão, que basta um movimento em falso para sua vida ser destruída, isso sim me deixa furioso. Quando me deixo levar pelo desejo, há um pequeno instante de lucidez em que percebo a merda que estou fazendo, e é nessa hora que eu quero parar, mas não consigo. – seus olhos estão tomados por novas lágrimas – Não sou forte o bastante para me controlar, então meu modo de externar a raiva acaba te machucando. E depois que acaba, me sinto pior ainda.

— Len...

— Antes eu achava que era devido às drogas, que eu estava agressivo por ser um sintoma comum da cocaína. – agora é sua vez de sorrir sem humor – Mas percebi que na verdade, eu sempre me senti assim e as drogas apenas me permitiram ir mais longe. Ou seja, eu sempre fui um babaca violento e só não conseguia admitir isso porque tais características me aproximariam da triste realidade: sou filho de Darren. Simples assim.

— Len, você não é como ele! – grito.

— Os frutos não caem longe da árvore, Rin. É por isso que não vou me recuperar. Não posso fugir do que sou.

— O que você é?! – me exalto – Vou te dizer o que você é: um filho esforçado, um irmão protetor, um ídolo nacional, um grande compositor, um guerreiro. Quando estávamos cantando para ter o que comer, o que você me dizia? – não lhe dou tempo de responder – Dizia que desistir não era uma opção e que se déssemos nosso melhor, o céu seria o limite. E agora, Len? É uma opção agora? Viemos até aqui para isso? Desistir? Passamos pelo que passamos para isso? Desistir?

— Rin...

— Não vai ser fácil e seria hipócrita de minha parte dizer que não estou com medo também, mas nós vamos conseguir. Vamos vencer os obstáculos, como sempre fizemos: juntos. – estendo-lhe minha mão e ele hesita apenas por um segundo antes de entrelaçar seus dedos aos meus. – Não vou deixar que continue se maltratando por causa do nosso amor. Divida esse peso comigo, Len.

Então ele se joga sobre mim e sou surpreendida com um enorme abraço. Posso sentir seu coração disparado e ouço sua respiração irregular ao lado de meu ouvido. Ficamos em silêncio e tudo que eu desejo é poder congelar o tempo para que nunca precisemos nos separar novamente.

Em dado momento, acabamos caindo no sono e, de certa forma, meu desejo é realizado.

Pelo menos até o Sol da manhã vir e derreter o gelo.

★★★

— Ei, Rin.

— Hm...

— Rin! – a voz de Len é acompanhada por pequenos toques nos ombros. Quando vejo que ele não vai desistir, abro os olhos.

— Por que está me acordando tão cedo? – murmuro.

— São oito horas. Temos que cobrir os atrasos da agenda, fora que temos uma entrevista hoje à tarde.

— Hoje?! – quase surto. Ele sorri me dando um beijo rápido.

— Não, te enganei. É amanhã.

— Idiota! – grito tacando o travesseiro nele. Obviamente eu erro completamente a direção e isso o faz sorrir ainda mais. Apesar de brava, algo nele me tranquiliza. Aquele sorriso parece... Tão leve.

Continuo deitada devido a preguiça e Len vai para o banheiro da suíte. Enquanto espero minha vez, reflito sobre ontem a noite e percebo que, apesar de o resultado ter sido positivo, não fiz nada do que teria de fazer: não contei sobre Kaito e não falei sobre os planos de Subaru para interná-lo.

Pergunto-me se seria melhor conversar agora ou deixar para mais tarde. A verdade é que quero preservar o estado de espírito maravilhoso de Len. Ele parece realmente melhor depois de se abrir para mim e seria um crime magoá-lo, mas acho que continuar mentindo também não é a melhor opção.

Continuo ponderando sobre o que fazer até depois de pronta para descer e tomar café da manhã. Passo o dia intercalando minha atenção entre as tarefas diárias e Len. Por fim, decido dar um fim definitivo nessa confusão. Mesmo com meu irmão se sentindo um pouco melhor, tudo ainda está uma bagunça, então é como dizem: "para quem já está molhado, um pingo é besteira".

Depois do jantar, Subaru me chama para dizer que a entrevista será nossa última aparição antes da internação e que, por isso, devemos dar o melhor de nós para cativar o país antes da grande notícia.

— O problema do Len vai a público? – pergunto um pouco desconfortável.

— Não. Vamos alegar que a banda está de férias e farei com que se espalhem rumores de que o tempo da pausa está sendo dedicado ao aprimoramento do CD novo.

— Bom plano.

— Eu sou cheio de planos bons. Se vocês dois não os atrapalhassem constantemente, já seriam estrelas internacionais.

Não consigo distinguir se está brincando ou não, mas não perco meu tempo com isso. Despeço-me e vou para o quarto. Antes de eu ir, o empresário me lembra também de que devo convencer meu irmão a ir de boa vontade. Não digo nada e continuo meu caminho.

★★★

No quarto, vejo Len sentado desamarrando o tênis que usou durante o dia.

— Chegou agora também? – pergunto de forma casual. Ele levanta o rosto e me lança um sorriso como resposta.

Coço um dos braços e vou me aproximando sem pressa. Respiro fundo quando paro a sua frente. É agora!

— Len?

— Oi.

— Já que estamos nessa nova fase na qual nos abrimos um para o outro e revelamos segredos, tenho que te contar uma coisa. – introduzo. Ele aperta um pouco os olhos, mas não parece nervoso ou algo parecido.

Sem demora, termina de arrancar o último sapato e joga o par para o outro lado do cômodo.

— Estou ouvindo. – diz.

— Bom, também tem a ver com a noite em que você sumiu. Lembra que fui te procurar sozinha pela cidade?

— Fale logo, Rin. Não pode ser pior do que se enfiar num galpão cheio de maus elementos para cheirar cocaína. – ele quase sorri e uso isso como incentivo para falar tudo de uma vez.

Revelo tudo sobre todos os detalhes que envolvem o tempo que passei nas ruas. Conto sobre o encontro inesperado com um cara que me ofereceu ajuda, sobre todo o apoio que recebi para encontrar meu irmão desaparecido, sobre como nos demos bem e também digo que viramos amigos. Len ouve toda a história em silêncio, até porque não lhe dou brechas para dizer nada. Não paro de falar até o momento em que não há mais nada a acrescentar sobre aquela noite.

Deixo de fora da narrativa, apenas os detalhes referentes à vida de Kaito, pois julgo desnecessário e invasivo que Len saiba sobre isso.

— Pronto. Agora não há mais segredos entre nós. – anuncio.

— E você me escondeu isso porque..?

— Porque não sabia como iria reagir. – fecho os olhos sentindo vergonha, mas também alívio por ele estar calmo. Principalmente em relação à letra de música. – Estava tudo tão estranho com você... Achei que pudesse brigar comigo ou, sei lá, ficar com ciúmes.

— Não vou brigar, mas deveria. – ele cruza os braços – Você passou a noite com um cara de 23 anos. Pior: um marginal de 23 anos. Podia estar morta agora.

Franzo o cenho.

— Não o julgue. Já disse que somos amigos. Kaito jamais faria algum mal.

— Ah, claro. Desculpe. Porque você o conhece tão bem. – debocha.

— Pare com isso, Len. – peço cruzando os braços. Ele percebe minha mudança de humor.

— OK. Não vou falar mais nada, mas você tem que prometer não vê-lo nunca mais.

— O quê?! Por quê?

— Rin, ele é um criminoso. Está mais do que óbvio que quer se aproximar para conseguir algo de nós.

— Ele nem sabia quem eu era quando me ajudou. É uma boa pessoa. – replico enfurecida. Len revira os olhos.

— Duvido muito. – declara ao levantar-se e passar um dos braços por cima do meu ombro. – O que te faz pensar que ele não é um aproveitador?

Afasto-me dele e fecho as mãos em punho.

— Você não o conhece! – acuso – Kaito é um perfeito cavaleiro e eu sei que posso confiar nele.

O loiro deixa escapar uma risada irônica.

— Percebe que está defendendo um ladrão com quem teve contato com algumas horas? Aposto que já está caidinha por ele.

Agora ele conseguiu. Estou realmente irada. Por que insiste em falar mal de Kaito? Por que zomba de tudo que eu digo? Devia me apoiar, assim como eu fiz quando soube do seu terrível segredo.

A raiva sobe até minha cabeça e deixo de lado a razão. Quando abro a boca novamente, surpreendo-me com a merda que sai de lá:

— Acho muito engraçado você julgar meu amigo por ser fora da lei, quando você mesmo fica zanzando por aí fortalecendo o mercado das drogas. – minha respiração cessa enquanto digiro as palavras que pronunciei sem pensar. – Len, você não merecia ouvir isso... Me desculpe... Eu...

Salvando-me do desconforto, alguém bate na porta. Ignoro o horário estranho para visitas e corro para receber a pessoa do outro lado.

— Senhorita Rin, perdoe-me por aparecer tão tarde.

Quem batia era uma das novas seguranças. Esta, que acredito se chamar Mirna, tem cabelos curtos e encaracolados na altura nas orelhas e ainda está com o uniforme preto e branco.

— Está tudo bem. O que houve?

Ela estende um pedacinho de papel dobrado em minha direção.

— Alguém na multidão deve tê-lo posto dentro do meu terno ontem em meio a confusão no estacionamento do hospital. Eu não li, mas parece trata-se de uma carta para a banda.

— Ah, obrigada. – respondo de forma arrastada. Não quero que Mirna vá embora ainda. Não tenho coragem de encarar Len agora. Mesmo assim, apanho o papel e ela me dá boa noite antes de virar de costas.

Fecho a porta sem pressa.

— Uma carta de fã? – meu irmão pergunta. Quando viro para ele, vejo que está pegando o violão ao lado da cama para dedilhar.

— A-acho que sim. – respondo dando uma olhada mais cuidadosa no presentinho. Realmente estava escrito "para Rin" no quadradinho formado pela última dobra. – Acho que é para mim apenas. – Levo-o até o loiro e o desdobro cuidadosamente.

"Está tudo bem com você ou seu irmão? Soube que estavam no hospital graças às telonas pela cidade e corri para lá. Obviamente não consegui entrar no prédio, e vai ser arriscado pôr isso aqui no casaco de algum dos guarda-costas, mas já bolei um plano para vê-la. Aguarde."

— Que carta mais estranha. Parece um bilhete. – comento. Len revira os olhos sem deixar de tocar o instrumento.

É um bilhete. – murmura com a voz dura.

Aproximo o papel do rosto em busca de qualquer informação que possa explicar a reação do garoto ao meu lado. Fora o conteúdo, nada parece fora do padrão. Só quando desço a visão para o rodapé, vejo a assinatura: um solitário "K".

Engulo em seco.

— Parece que seu amigo quer vê-la de novo. – informa sem olhar para mim.

Notas finais
É, a vida da Rin nunca deixa de ficar enrolada. Mas vejamos pelo lado positivo: agora ela não tem mais o peso da culpa (acho...). Beijos e até o reviews! Bom carnaval para todos!! PS: planejo acabar a fanfic no capítulo 20 ou 25. O que acham disso?