Abrindo os Olhos de Mário Calderón
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Dona Edite e Nanda conversam na cozinha.
–Ah! Dona Edite! A senhora hein? Por que não me contou que eles estariam aqui? — pergunta a jovem — Poderia ter me poupado de fazer papel ridículo, ficando paralisada feito uma boba.
–Mas Nanda — começa dona Edite se justificando — eu só sabia que o seu Mario viria, o Tito não! Para mim também foi uma surpresa vê-lo lá no teatro. Aliás nem passava pela minha cabeça que ainda veria aquele “manequim ambulante” outra vez. – fala a boa senhora na maior sinceridade.
–É mesmo dona Edite!- diz Nanda achando graça no jeito da amiga — O que será que ele veio fazer aqui depois de tanto tempo? — questiona a jovem muito intrigada.
–Não sei, minha filha. — responde dona Edite toda preocupada — Mas vamos ficar bem atentas, principalmente você, para não cair na lábia dele.
–Que é isso dona Edite! Eu não quero mais nada com ele! — diz Nanda decidida — Acho que ele só ficou mesmo muito curioso. Queria constatar como eu me sairia dançando diante de uma plateia. Veio ver se eu não iria me desequilibrar e cair feito um saco de batatas e sendo então motivo de chacota para todos. – diz a jovem com certa mágoa em sua voz.
Dona Edite balança a cabeça, pois no íntimo sabe como Tito é. Na visão dela ele não dá ponto sem nó. Alguma coisa ele queria com a Nanda! Em todo caso ela ficaria alerta e não deixaria que o “manequim ambulante” machucasse a sua Nanda novamente.
–Nanda — diz dona Edite tentando tirar as preocupações da sua cabeça — O que achou de seu Mario ter ido a apresentação e dos presentes que ele trouxe a você e aos garotos? E não se esqueça do lindo cartão. – finaliza a boa senhora.
Fernanda muda imediatamente de atitude. É como se saísse de um mar de confusões e entrasse em um lago tranquilo de águas cristalinas.
A ruguinha que ela tinha na testa se dissipou como que por encanto e um sorriso lindo aparece involuntariamente em seus lábios, só em pensar o quanto ele fora maravilhoso com ela e com seus irmãos.
Nanda se analisa intimamente e fica surpresa com essa sua reação e não querendo que dona Edite percebesse, se vira de costas para ela, fingindo que ia pegar uma bandeja de salgadinhos.
Dona Edite, muito rápida e esperta, havia notado o lindo sorriso que brotara nos lábios de Nanda e também notara seu movimento brusco, virando-se de costas para ela, como se não quisesse que ela notasse seu sorriso.
Logo imaginou que a jovem estava escondendo seus sentimentos.
Porém Dona Edite, sabiamente, fica quieta, esperando com paciência a jovem responder a pergunta que fizera.
Nanda se recompõe e procurando não demonstrar muito a emoção que sentia, diz apenas:
–Ah! Dona Edite, eu fiquei muito surpresa em saber que o seu Mario veio a minha apresentação e adorei os presentes que ele me deu, as flores, o cartão e a caixinha de música. Sem falar nos presentes dos meninos. Ele foi muito atencioso. Não esperava isso dele. – completa procurando esconder o quanto tudo aquilo havia tocado profundamente em seu coração.
“Esse jeito dela! Hum! – pensa dona Edite olhando-a — Se não me engano, acredito que a minha menina está ficando interessada no seu Mario. E sabe o que mais? Eu ficaria muito feliz se eles se entendessem.”- conclui satisfeita a boa senhora.
–Tem razão Nanda, o seu Mario foi muito atencioso. – concorda dona Edite, não querendo colocar mais lenha na fogueira, pois sabia que com a Nanda, calejada pelos sofrimentos, tudo tinha que ser assim, mais devagar. Sabia como ninguém o quanto a jovem desconfiava de tudo e de todos.
–Bem minha filha — fala a boa senhora, procurando mudar de assunto — Vamos levar estas bandejas de salgadinhos para a sala, pois todos devem estar com o estômago nas costas de tanta fome.
Nanda dá uma risada bem gostosa.
“Só a dona Edite mesmo, para me fazer rir! Com essas frases de efeito!” – pensa a jovem enquanto se dirige à sala segurando com todo cuidado uma bandeja de pasteizinhos de pizza, seguida por dona Edite com uma bandeja de bolinhos de bacalhau.
Hum! Tudo cheirava tão bem!
Assim que elas chegaram na sala, seu Alfredo e os gêmeos foram abrindo espaço na mesa, tirando o vaso com as flores que Nanda havia ganho de Mario, a caixinha de música, e os presentes que ele havia dado para os meninos: o joguinho e o livro.
–Felipe, por favor, pegue os guardanapos na cozinha. – pede dona Edite.
O garoto corre imediatamente à cozinha e retorna com um pacote com guardanapos e os dá a ela.
–Fabio – diz ela ao outro garoto – agora distribua um guardanapo para cada um, por favor.
Fabio prontamente começa a distribuir os guardanapos entre todos que estão ali.
Mario aprecia o jeito em que dona Edite trata os dois garotos, fazendo-os se sentirem úteis e ao mesmo tempo tratando os dois de maneira carinhosa e sem preferências.
“Quando eu tiver filhos tratarei exatamente assim,”- pensa Mario enquanto observa os gêmeos. “Mas o que está acontecendo comigo? Mario acorda! Você nunca pensou nisso! Você vai ser sempre um inveterado solteirão!”– reflete sorrindo para si mesmo, mas sem muita convicção.
Seu sorriso morre, quando observa Nanda servindo o salgadinho a Tito e rindo, sabe-se lá o que aquele sujeito deve ter lhe dito, para provocar essa reação da jovem.
Todos comem os salgadinhos e elogiam muito a dona Edite. Num instante as bandejas se esvaziaram!
Seu Alfredo havia comprado uns refrigerantes, o que não era comum naquela casa, pois dona Edite sempre preferia sucos naturais, e com essa novidade os meninos se esbaldaram.
Minutos depois dona Edite vai à cozinha buscar o bolo que havia feito com imenso carinho e capricho e o coloca sobre a mesa.
Era um bolo grande e redondo, coberto com chantilly branco recheado com geleia de morango e todo decorado com morangos vermelhinhos.
–Oba! Bolo! – gritam os meninos ao mesmo tempo ao verem o lindo bolo.
–Deve estar tão gostoso! – exclama Felipe batendo palmas de contentamento.
–É mesmo! – fala Fabio imitando o irmão – Olhe só cada morango grandão!
Mario acha engraçada a reação dos pequenos e percebe mais uma vez o quanto eles e Nanda são queridos naquela casa.
–Vamos cantar parabéns? – sugere seu Alfredo olhando para Nanda emocionado — Pois o evento de hoje merece ser comemorado. Nanda provou mais uma vez que com seu esforço conseguiu vencer mais esse desafio.
Todos concordam com seu Alfredo e começam a cantar o parabéns a você, uns desafinados, outros alto demais, uns desencontrados, mas não importava, o que importava é que todos estavam felizes com o sucesso de Nanda.
Fernanda fica toda vermelha. Mas se sente feliz pois seu Alfredo tinha razão. Valeram todos seus esforços, os ensaios exaustivos, a força que não sabia de onde vinha, mas ela havia cumprido mais essa missão, graças a Deus e ela satisfeita consigo mesma.
O único que não se encaixava nesta linda cena era Tito.
Sempre egoísta e acostumado a viver no luxo e na boa vida, aquela simples comemoração para ele não queria dizer nada.
Só estava ali pela Nanda. Ficara maravilhado ao vê-la no palco, dançando como uma princesa e recebendo os aplausos do público.
Vez ou outra escutara comentários de alguns colegas seus que o acompanharam : Que gata! Essa moça é linda! Não sabia que a sua ex noiva era tão linda! Você deixou ela? Não acredito! Saiu perdendo.
Parece que tudo isso mexeu com o orgulho de Tito. Agora não a considerava mais como uma deficiente inútil. Voltou a achá-la interessante e se dependesse dele talvez até voltasse a ter algo com ela.
“ Quem sabe se tentasse uma aproximação?” – reflete observando Nanda sorrindo timidamente enquanto cantavam para ela. “Ela sempre foi linda! Mas agora parece que está mais segura de si! Mais mulher!” – continua olhando-a com interesse.
Mario observa os olhares de Tito para Fernanda e não gosta nada, nada.
O bolo estava mesmo uma delícia! Todos comeram e repetiram mais uma fatia.
Dona Edite olhava satisfeita para a bandeja onde estava o bolo, agora vazia.
Para ela era um prazer colocar um pouco de alegria nos coraçõezinhos de Nanda e dos gêmeos. Se pudesse todo dia faria uma festa para eles!
“Como eu os amo! Como se fossem minha filha e meus netinhos! – pensa a boa senhora emocionada – Meu Deus não permita que esse Tito magoe a minha Nanda novamente! — faz um pedido mentalmente ao Todo Poderoso – Só eu sei o quanto minha menina chorou por esse “manequim ambulante” – reflete olhando para Tito todo elegante em seu terno preto de corte italiano e camisa verde de seda egípcia.
Ele era um lindo rapaz, não havia dúvidas, mas havia se tornado a seu ver um monstro impiedoso, quando abandonou Nanda, praticamente às vésperas do casamento. Abandonou-a sem dó e sem piedade quando soube que a sua cegueira era irreversível.
“O que será que ele pretende?”- continua refletindo a boa senhora, enquanto retira os pratinhos da mesa, mas não tirando os olhos do rapaz, que parece devorar Nanda com aqueles seus incríveis olhos verdes esmeralda.
–Seu Mario, vamos jogar o jogo do Toy Story que o senhor trouxe para nós? – sugere Felipe, tirando Mario de sua observação.
–Isso! Boa ideia! Vamos jogar? – Fabio reforça o pedido.
Mario concorda.
–Tudo bem meninos, vamos jogar.- fala sorrindo para os gêmeos.
–Obaaa! – gritam os gêmeos em coro.
Nanda levanta-se da cadeira e vai ajudar a dona Edite.
Seu Alfredo, sem outra alternativa, puxa conversa com Tito.
–E então meu rapaz? O que tem feito na vida? – pergunta seu Alfredo a ele.
Tito se ajeita na cadeira, procurando ficar o mais empinado possível e fala todo orgulhoso, com a voz alta para que Mario escute:
–Ah seu Alfredo eu assumi a empresa de meu pai, assim que voltei da Europa onde fui fazer uns cursos especialização em Administração de Empresas.
–Muito bom! – elogia o velho senhor — E seu pai como está?
–Ele está bem. Ele e minha mãe estão de férias na Suíça, onde tem uma mansão de veraneio.- explica o jovem todo pomposo, querendo fazer bonito para Mario.
Mario mesmo jogando com os garotos, consegue ouvir a conversa de seu Alfredo e Tito.
“Quer dizer que o filhinho de papai assumiu a empresa? Hum, preciso me informar sobre esse cara e verificar se é mesmo verdade o que ele está contando.” –reflete Mario enquanto joga o dado do jogo no tabuleiro, sendo observado pelos olhinhos atentos dos gêmeos, felizes por ele estar ali, jogando com eles.
Depois que arrumam a cozinha dona Edite e Nanda retornam a sala. Logo que a vê Tito se aproxima e lhe fala jogando-lhe o maior charme:
–Bem Nanda a festa foi ótima, mas tenho que ir. Você me acompanha até o portão?
Mario escuta o pedido e fica só esperando ouvir o que a jovem vai lhe responder.
Dona Edite também.
–Tudo bem Tito. – fala Nanda achando que seria falta de educação se recusasse.
Tito dá um belo sorriso, colocando a mostra os lindos dentes brancos como marfim.
Se levanta do sofá onde estava conversando com seu Alfredo e se despede de todos.
–Boa Noite! Obrigado pelo convite.
Quando chega perto do Mario estende-lhe a mão e fala:
–Muito prazer em conhecê-lo, Mario Calderón.
E solta um sorriso irônico, como se fosse o rei do pedaço.
“Definitivamente não gosto deste cara!”- pensa Mario.
Tito coloca a mão esquerda em seu braço e sai com ela até o portão, onde ficam conversando por alguns minutos.
–Seu Mario! Joga o dado! – fala Felipe.
–É a sua vez agora! – reforça Fabio.
Mario se distraíra um momento, olhando Tito e Nanda no portão conversando. Achava muito estranho depois de tudo o que passara, Nanda ainda conversava e ria com o que Tito lhe falava.Muito estranho. Será que ela sentia ainda algo por ele?
Mario esta refletindo, quando escuta as vozes dos garotos e se recompondo se vê obrigado a desviar seus olhos do casal e voltá-los para o tabuleiro do jogo.
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