Abrindo os Olhos de Mário Calderón
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Precisamente às 18 horas, o corsa azul de seu Alfredo estaciona em frente ao Teatro Municipal.
Do carro descem: dona Edite trajando um discreto conjunto de saia e blaizer azul marinho, que segundo ela ajudava a disfarçar as gordurinhas.
Logo a seguir vem Nanda com um lindo vestido rosa de mangas curtas. Ela está linda com os cabelos presos em um coque bem elaborado, que Dona Edite fez questão de pentear com todo o capricho.
Os gêmeos estavam uma graça! Pareciam dois homenzinhos trajando calça jeans azul, com camisa social de mangas compridas, uma era azul em tom bem clarinho e a outra verde claro. Seus cabelos estavam muito bem penteados, pois dona Edite passou um pouco de gel, para que eles ficassem mais assentados. Tinham a aparência de dois garotinhos muito bem comportadinhos.
Só a aparência, pois assim que desceram do veículo, saíram correndo em disparada para dentro do teatro, subindo os degraus de entrada como dois furacões.
–Nanda nós vamos pegar os lugares na primeira fileira! – fala Felipe todo esbaforido, seguido pelo irmão, não menos esbaforido.
–Mas meninos... – começa a falar Nanda, preocupada que eles se perdessem.
–Deixa Nanda! – fala dona Edite, tentando acalmá-la — Eles conhecem este lugar melhor do que todos nós, afinal já vieram aqui várias vezes!
Enquanto elas seguem para a porta de entrada principal do teatro, seu Alfredo vai estacionar o carro na rua detrás pois era proibido estacionar em frente ao teatro.
Ah! E por falar em seu Alfredo ele estava também muito elegante trajando uma calça social marrom escura e uma camisa social cor creme.
Quando dona Edite o viu pronto falou que ele estava um gato!
Dona Edite sobe os degraus com Nanda ao seu lado. Toda cuidadosa pega na mão da jovem e a coloca apoiada em seu braço, só neste simples toque a boa senhora percebe que a mão da jovem está fria.
“Tadinha da minha Nanda está super nervosa! – pensa dona Edite -Vou fazer de tudo para acalmá-la. Afinal ela se esforçou tanto nesses meses de ensaio que merece que tudo saia bem.”
–Vamos Nanda! – fala a senhora- Tenho certeza que você se sairá muito bem, minha filha. Vai dar tudo certo! Você vai mostrar que tem muito talento! – continua dona Edite procurando estimulá-la enquanto sobem os degraus.
Aos poucos o coraçãozinho da jovem vai se acalmando.
Assim que entram, dona Edite observa a decoração do hall de entrada: piso de madeira brilhando e nele o reflexo de um enorme lustre de cristal que iluminava o ambiente, lindas cortinas vermelhas com detalhes dourados, impediam que a luz de fora entrasse, completavam a decoração dois enormes vasos com plantas decorativas, dando ao lugar um aspecto de luxo e requinte.
Já há várias pessoas ali, algumas se dirigindo ao auditório e outras acompanhando as jovens bailarinas ao camarim.
As duas mulheres sobem uma escadaria ao fundo do hall de entrada, que as levaria ao auditório.
Assim que chegam ali, dona Edite percebe que tudo estava muito bem iluminado.
Conforme andavam, seus pés afundavam no grosso carpete vermelho que revestia todo o assoalho.
As poltronas do auditório eram de couro bem macio, o que trazia um imenso conforto ao público, que ficaria horas sentados assistindo ao espetáculo.
Vários holofotes com luzes coloridas iluminavam o palco.
Dona Edite percorreu com os olhos todo o auditório e com satisfação viu os garotos, já sentadinhos.
Não estavam na primeira fileira como queriam e sim na terceira, pois as duas primeiras fileiras estavam reservadas para as autoridades da cidade e suas comitivas.
Os gêmeos ficaram encarregados de guardarem cinco lugares, um para a dona Edite, outro para o seu Alfredo, um para cada um deles e o último para o amigo, o Mario Calderón, pois em seus coraçõezinhos estava a certeza de que ele viria.
Dona Edite e Nanda chegam até eles. A jovem lhes avisa:
–Garotos, tudo bem se eu for ao camarim me aprontar? A dona Edite irá comigo para me ajudar.
Felipe e Fabio sorriem para a irmã, se sentindo, importantes como dois homenzinhos e imediatamente concordam:
–Tudo bem Nanda. Nós ficaremos aqui. Não se preocupe. – diz Felipe.
–É Nanda, logo o seu Alfredo virá sentar com a gente. – completa Fabio.
Dona Edite coloca sua bolsa em uma das poltronas e diz baixinho para os gêmeos:
–Olha, deixem minha bolsa guardando o lugar, vocês sabem para quem — e lhes dá uma ligeira piscadela.
Felipe e Fabio se entreolham animados e a seguir olham para a boa senhora, assentindo com cumplicidade.
Nanda ansiosa como estava, nem percebeu o cochicho dos três.
Logo chega o seu Alfredo, para se sentar com os meninos e dona Edite e Nanda se dirigem ao camarim.
Quando lá chegam percebem a correria que ali se instalou!
Apesar de enorme e com várias penteadeiras, o camarim se tornou pequeno, pois muitas mães ou amigas das bailarinas estavam ali acompanhando-as, como dona Edite.Todas tinham a missão de ajudá-las a se vestirem, pentearem-se e se maquiarem.
Quatro penteadeiras com espelhos adornados com pequeninas luzinhas, serviam para que as jovens fossem penteadas e maquiadas, além dos produtos de maquiagem havia sobre elas várias escovas e pentes.
Encostado na parede ao fundo havia um imenso guarda roupa com as vestimentas das bailarinas. Collants, tutus ( saias) e sapatilhas.
Cada vestimenta e sapatilha tinha uma fita crepe com o nome de cada garota.
Assim o serviço se tornaria mais fácil.
A professora de Nanda e mais duas ajudantes orientavam tudo com muito carinho e dedicação, pois sabiam o quanto as alunas estavam ansiosas e o quanto aquele dia seria importante para elas.
Assim que percebe a presença de Nanda, a professora se aproxima e lhe fala abrindo um imenso sorriso:
–Nanda querida, chegou para você um enorme buquê com lindas flores coloridas e um cartão. Eu coloquei naquela penteadeira onde você costuma se arrumar.
Depois que dá o recado a Nanda, a professora vai atender a um chamado de uma das alunas.
Fernanda fica surpresa!
–Quem me mandaria flores? – pergunta curiosa a dona Edite.
–Minha querida, só saberemos quando lermos o cartão. – fala dona Edite sabiamente.
A boa senhora se dirige com Nanda até a penteadeira e vê o buquê.
–Nanda que coisa mais linda! Aqui há flores de tudo quanto é cor! – fala dona Edite toda encantada.
–Por favor, dona Edite, pegue o cartão e leia para mim. – pede Nanda ansiosa em saber quem seria a pessoa que lhe mandou aquelas flores.
A boa senhora obedece a jovem imediatamente e pega o cartão, e ao invés de ler a mensagem primeiro, vai direto ao nome que está escrito embaixo da mensagem e vê com alegria a assinatura: “Mario Calderón! Sabia que era ele!”- pensa dona Edite.
–Dona Edite de quem é? – pergunta-lhe Nanda.
A boa senhora se faz de ingênua, resolvendo fazer um pouco de suspense e lê pausadamente a mensagem do cartão colocando muita emoção em sua voz:
“Fernanda desde o primeiro momento em que a conheci, percebi que você era uma jovem de muita fibra. Você demonstra que tem uma grande força interior, que transparece em tudo o que faz. Assim como conseguiu superar os vários obstáculos que a vida lhe impôs, tenho a plena convicção que se sairá muito bem em sua apresentação e que será um sucesso. Nanda dance e mostre ao mundo do que você é capaz. Um forte abraço Mario Calderón.”
Nanda fica admirada e ao mesmo tempo emocionada com aquelas palavras!
Nunca imaginaria que o seu Mario, aquele que fez amizade com seus irmãos e que lhes ajudou em uma mentira, seria capaz de escrever algo tão bonito e tão profundo.
Parecia até que ele a entendia muito bem, que sabia o que ia no mais fundo de sua alma. Aquelas palavras mexeram em seu coração. E teimosas lágrimas começaram a inundar os seus olhos.
Dona Edite estava tão encantada com o conteúdo do cartão que custou a perceber as lágrimas agora rolando pelo rosto da jovem.
–Nanda você está chorando minha filha? –pergunta-lhe a senhora preocupada assim que se dá conta do fato.
Nanda rapidamente enxuga com as mãos as lágrimas que teimavam em sair de seus olhos e lhe diz tentando controlar a voz que sai emocionada:
–Não se preocupe dona Edite, só fiquei um pouco surpresa. Mas logo vai passar.
Dona Edite sorri e pensa consigo mesma:
“Esse seu Mario! Já está conquistando a minha Nanda! Não sabia que ele escrevia tão bonito!”
Logo a seguir ela pede que Nanda sente-se pois vai ajudá-la a se maquiar, a colocar a redinha nos cabelos e como toque final, irá prender com um grampo uma linda rosa que colheu do jardim de Nanda. Depois então irá ajudá-la a se vestir e ao final ajudá-la com as sapatilhas.
Dona Edite vai fazendo tudo isso, mesclando esse trabalho com palavras carinhosas e de incentivo, que vão deixando a sua querida Nanda mais confiante e animada.
O tempo passava rapidamente e já eram 18h45, os gêmeos já estavam impacientes, olhando a todo momento para a entrada do auditório para ver se seu amigo havia estava chegando.
O auditório já estava ficando lotado e várias pessoas já haviam perguntado se aquele lugar onde estava a bolsa de dona Edite estava guardado.
Os meninos se cansaram de dizer que estavam aguardando a chegada de um amigo.
–Que amigo é esse? – quis saber o seu Alfredo.
Felipe e Fabio se olham sem jeito e vendo que não podem mais esconder aquele segredo, resolvem contar a verdade a ele.
–É o seu Mario! – fala Felipe.
–É. Ele prometeu que se desse ele viria. – complementa Fabio.
Seu Alfredo balança a cabeça em dúvida e diz aos garotos:
–O seu Mario é um homem muito ocupado. Vocês acham que ele vai se deslocar lá da zona sul neste horário para vir aqui pra zona norte? É muito longe meninos! Percam a esperança!
Foi como se jogassem um balde de água fria num fogo fervente! Os meninos ficaram decepcionados e tristes na mesma hora.
Já estavam quase cedendo o lugar para uma moça quando Felipe olha para a porta e vê o seu Mario Calderón, parado procurando por eles. No mesmo instante o garoto sai da sua poltrona e vai correndo pelo corredor gritando:
–Seu Mario! Seu Mario! Venha aqui! Guardamos o seu lugar!
Fabio, não querendo ficar para trás, também corre para o encontro com o amigo tão querido.
Logo os dois chegam até Mario e o abraçam com carinho, um de cada lado, como fizeram na casa de dona Edite.
“Que bela recepção! – pensa Mario- Estou muito feliz em rever meus amiguinhos!”
Os coraçõezinhos dos dois garotinhos só faltam sair pela boca de tanta alegria!
Cada um pega na mão do amigo e o encaminham até a poltrona que guardaram para ele.
Assim que chega Mario cumprimenta o seu Alfredo e a dona Edite que também acabara de chegar do camarim. Foi só o momento de todos se acomodarem e toca o sinal indicando que apresentação vai começar.
Mario achou graça de colocarem-no no meio, ficando escoltado por um garoto de cada lado.
Sentiu que era mesmo muito querido por eles.
Logo aparece no palco a professora de Nanda para falar um pouco sobre a apresentação.
Ela discursa explicando como é o projeto e a lição que ela e as alunas tiraram disso. E ainda disse o quanto é maravilhoso sentir que de alguma maneira é responsável poder ajudar a realizar os sonhos de suas alunas. E o quanto toda a conquista é gratificante.
No final ela completa com a voz embargada pela emoção:
–Dizem que a dança é uma maneira de expressar às pessoas o que elas tem de bom, seus mais doces sentimentos. Espero que vocês sintam isso e se encantem assim como nós com esta apresentação e que o seus aplausos sejam pela qualidade do trabalho destas bailarinas e não por serem deficientes. Ela recebe muitos aplausos do público e sai do palco, dando lugar a primeira apresentação.
A seguir, as cortinas se abrem, e aparece um lindo painel com uma bela paisagem. Ela representa uma floresta com árvores e flores coloridas.
Para dar mais realidade ao cenário foram colocadas nas laterais algumas árvores artificiais, como se fosse uma continuação da floresta pintada no painel ao fundo.
Os holofotes multicores iluminam o cenário e todos ficam em silêncio e muito atentos.
A música começa a tocar e várias bailarinas entram e dançam na pontinha dos pés ao som de uma linda melodia.
As jovens fazem movimentos graciosos, rodopiam e saltitam em determinados acordes da música. Movimentam os braços delicadamente como se fossem os movimentos das asas de pássaros voando.
Mario olha atentamente para as moças procurando por Nanda, mas não a vê.
Quando termina a música as moças são muito aplaudidas e agradecem fazendo reverência.
Fica um pouco decepcionado, pois Nanda não estava naquele grupo de bailarinas.
Felipe e Fabio também se decepcionam e perguntam à Dona Edite:
–Cadê a Nanda, dona Edite?
–Por que não apareceu dançando?
–Psiu! Ela vai entrar na próxima música, fiquem quietinhos.
Mario escuta o que a boa senhora diz e se apruma na poltrona, ansioso pela entrada da jovem no palco.
Em seguida começa a tocar uma música que Mario conhece: O lago dos cisnes de Tchaikovsky.
Aparece então Nanda acompanhada de um rapaz.
Nanda faz os movimentos do balé com muita segurança e naturalidade.
Ela usa uma vestimenta azul. Sua cor preferida!
Mario fica encantado ao vê-la na pontinha dos pés rodopiando como a bailarina da caixinha de música.
Cada movimento é preciso de acordo com os acordes da melodia.Movimenta-se com precisão entrando em harmonia a dança e a música.
Todos ficam apreciando a dança e nem se lembram mais que aquela bailarina é uma deficiente visual.
Felipe, Fabio e seu Alfredo nem piscam, estão orgulhosos de Nanda.
Dona Edite nem se fala chora silenciosamente tal a emoção que sentia ao ver sua Nanda dançando no palco.
Mario fica quase sem respirar encantado com a beleza e a segurança que a jovem transmite nos seus passos seguros.
Quase no final do número aparecem todas as bailarinas segurando um bambolê todo decorado com flores e ficam em volta do casal de bailarinos.
No fim Nanda dá um salto e o seu par a pega no ar pela cintura fazendo um belo efeito artístico.
Nanda parecia uma linda princesa dançando com seu príncipe encantado!
Foi lindo! A plateia aplaude entusiasticamente!
Na terceira fileira Seu Alfredo, dona Edite, Mario e os gêmeos ficam de pé aplaudindo o maravilhoso desempenho de Nanda e de suas colegas.
Os demais imitam e também se levantam.
Depois de agradecerem muito com várias reverências ao público, as bailarinas se despedem.
Dona Edite corre a ajudar a Nanda no camarim.
Seu Alfredo, Mario e os garotos combinam de esperar por elas do lado de fora em frente ao teatro.
Todos estão felizes e não param de comentar o quanto gostaram do espetáculo que presenciaram.
De repente alguém chama Felipe e Fabio.
Eles se viram procurando a voz daquela pessoa e ficam surpresos.
–Tito! – grita Felipe.
–Tio Bala- completa Fabio.
Mario se lembra na hora daquele nome e apelido.
“Então esse era o noivo da Nanda!” – pensa Mario enquanto observa o rapaz alto e de olhos verdes que se detém olhando fixamente para ele, como se fosse um intruso.
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