Notas iniciais
Ola pessoal estou postando o capítulo 12 da fanfic, espero que gostem e se possível comentem.

Geraldo percebe que Mario está indeciso sobre contar ou não a sua história de vida.

Tem plena consciência que esta atitude tem que partir do próprio Mario. Não quer forçá-lo a nada, sua intenção é apenas ouvir e ajudá-lo no que for possível.

O deficiente fica então em silêncio, aguardando com paciência o momento certo em que ele abrirá o seu coração.

“Será como um teste. Se Mario tiver confiança em mim e me considerar seu amigo de verdade, ele me contará tudo o que vai no fundo de sua alma”- reflete Geraldo, torcendo para que ele se abra.

Como se tivesse ouvido os pensamentos de Geraldo, Mario começa a falar, a princípio inseguro e depois mais firme e confiante. Geraldo sente no íntimo uma alegria imensa em saber que ele o considera um amigo verdadeiro. Fica calado, escutando e atento a tudo o que ele vai lhe contar.

–Bem Geraldo, não sei por onde começar... — fala Mario com um sorriso triste nos lábios – Talvez lhe contando sobre a minha origem, seja mais fácil para que você entenda melhor a minha história, onde tudo começou. — se ajeita no sofá, dá um suspiro profundo e começa a relatar com precisão tudo o que guardou no coração por muitos anos — Meu pai, Carlos Eduardo Herrera Calderón, sempre foi milionário, veio de uma linhagem de empresários e sócios de empresas multinacionais. Meu avô já era rico quando faleceu e deixou toda a herança para o meu pai, seu único filho, que em pouco tempo, com sua habilidade e seu tino comercial, conseguiu triplicar o que havia herdado. Só que era um homem muito solitário, sério e sem muitos amigos. Sempre concentrado no seu trabalho. – continua Mario — Certo dia, convidado por um sócio de uma de suas maiores empresas, como era muito avesso a estes espetáculos, não teve como recusar o convite de seu sócio e foi assistir a uma peça de teatro em uma cidade próxima de Bogotá, creio que foi em Cáli. Meu pai que quase nunca saia para eventos assim, ficou encantado com uma jovem atriz que começava a despontar para o sucesso. Ela era muito linda, talentosa e simpática. Meu pai se encantou por ela e em todos as apresentações, lá estava ele, na plateia, aplaudindo-a na primeira fila. Mas sem muita coragem, nunca tentou se aproximar dela.

–Olha como são as coisas Geraldo, — fala Mario fazendo uma pausa em seu relato — Meu pai, apesar de ser um grande homem de negócios, ficava hipnotizado na presença daquela mulher.

–Então certa noite no final de mais uma apresentação de sucesso, a atriz, que se chamava Glória Veléz, havia há muito tempo percebido os olhares dele, pediu então que um de seus assessores convidasse o tal milionário para uma conversa em seu camarim.

–Quando foi interpelado pelo tal assessor, meu pai ficou surpreso e ao mesmo tempo feliz, pois ia conhecer a mulher que estava tirando o seu sono todas as noites, a linda atriz, Glória Veléz.

Mario dá um suspiro profundo e continua a narrar a história, olha para Geraldo e percebe que ele está quase imóvel e muito atento escutando-o.

–Quando chegou ao camarim, a jovem o recebeu com simpatia e com um belo sorriso nos lábios, o milionário se encantou mais ainda. Conversaram bastante naquele dia e combinaram de jantar na próxima noite. Daí em diante eles começaram o namoro, eram sempre vistos juntos tanto em eventos empresariais onde meu pai a apresentava todo orgulhoso a todos, quanto aos eventos artísticos onde ela tinha um grande rol de amizades.

–Meu pai estava cada dia mais apaixonado, tanto que a pediu em casamento, apenas alguns meses depois de terem se conhecido.

–Glória muito feliz, aceitou imediatamente o pedido. Se casaram e partiram para a Europa em uma longa lua de mel. Creio que foram muito felizes neste tempo. Quando voltaram para a Colômbia, seis meses depois, ela já estava grávida de mim.

–Meu pai estava todo orgulhoso, pois ia ter um filho com a mulher que amava intensamente, já minha mãe estava mais preocupada em não engordar muito para não perder as formas pois tinha um sonho de voltar a atuar logo depois da gravidez. Isso era algo que meu pai não queria de jeito nenhum, pois morria de ciúmes dela. Mas para não desagradá-la, ficava calado deixando-a falar de sua volta triunfante aos palcos.

–Em meio a tudo isso eu nasci. Dizem que era um menino muito bonito e saudável, mas para minha mãe não passava de um bebê chorão, que a incomodava muito.

– Segundo fiquei sabendo anos depois, o que mais importava para minha mãe era ter seu corpo esbelto de volta e não abria mão de seu sono de beleza.

–Isso para ela virou uma obsessão. O meu choro, a minha presença a importunava. Para ela eu era o culpado de tudo.

– E em meio a tudo isso eu, um bebê que necessitava de carinho e aconchego de sua mãe ficava horas e horas abandonado no berço aos cuidados de uma babá e de uma enfermeira, que se revezavam cuidando de mim 24 horas por dia.- contava Mario com uma voz muito triste.

– E o seu pai? Como reagia a tudo isso?- manifesta-se pela primeira vez Geraldo curioso.

–Para o meu pai o que mais importava era minha mãe. Ele fazia de tudo para vê-la feliz. Contratou uma babá e uma enfermeira que ficavam a minha disposição noite e dia, para que minha mãe ficasse tranquila, livre da tarefa de cuidar de mim.

–Ele vinha me ver sempre que voltava do trabalho, mas não nutria um grande amor por mim.- fala Mario de cabeça baixa.

–Seis meses após o meu nascimento minha mãe voltou aos palcos. Havia voltado a antiga boa forma e linda como sempre e arrancava suspiros de todos os que a viam no palco. Para ela isso era o mais importante, o sucesso e a admiração do público.

–E o seu pai permitiu que ela voltasse aos palcos? – quer saber o deficiente.

–Meu pai não teve mais argumentos para impedir. Fazia tudo para vê-la feliz e satisfeita.Na verdade ele a mimava de todas as maneiras. Sempre a enchia de perfumes e joias valiosíssimas. Para ele, ela era o que mais importava em sua vida.

–Hoje percebo que não havia amor por parte dela nem para mim nem para o meu pai, pois pouco tempo depois, se envolveu com um colega de trabalho e nos abandonou.Fugiu com um ator da companhia.

–Nossa Mario! Como pode isso?- pergunta Geraldo intrigado.

–Esse ator com quem ela se envolveu era muito famoso na época, também era casado e sua esposa estava grávida. Eles não tiveram escrúpulos e fugiram juntos do país, deixando tudo para trás.

Mario dá um longo suspiro e continua sua triste história:

–Meu pai quando soube ficou arrasado! Para ele o mundo havia se acabado. Nem a minha existência o consolava. Aliás creio que ele ficou com raiva de mim, que era apenas um pobre bebê de quase um ano de vida. Dizem que eu era a cara da minha mãe. Os mesmos olhos castanhos, os cabelos levemente encaracolados e quando sorria tinha as duas covinhas no rosto, iguais as da minha mãe, que tanto encantara a meu pai.

–Para ele era difícil olhar para mim e ver refletida a imagem da mulher que o traíra. Sei que ele deve ter sofrido muito. Mas e eu? Que culpa tinha? – Mario pergunta em tom mais alto, olhando para o amigo que sentado ao lado dele no sofá o ouvia com atenção e muito penalizado.

–Nenhuma, meu amigo, nenhuma! – fala Geraldo tocando o ombro de Mario em solidariedade.

–Meu pai não suportando mais aquela situação, achou como a melhor solução, me mandar para um colégio interno, fui criado e educado neste colégio de 1 ano de idade até os 18 anos, quando saí para ingressar na faculdade.

–Nossa Mario! E como foi sua vida no colégio interno?- pergunta Geraldo com curiosidade.

–Era um dos melhores colégios do país. Creio que também um dos mais caros. Lá recebi uma educação muito refinada, aprendi de tudo o que você possa imaginar, além das matérias normais de um ensino, aprendi várias línguas estrangeiras, tive também aulas de etiqueta. Não me faltou nada no que diz respeito às coisas materiais, mas o amor esse eu não tive. Aliás tive sim o amor de uma cozinheira que morava também no colégio. Ela era uma pobre senhora, viúva e sem filhos, creio que ela me adotou como seu netinho. Quando todas as crianças saiam de férias eu ficava lá no colégio, pois meu pai, ainda sentindo muita mágoa de minha mãe, não me queria por perto.

Esta senhora, a dona Matilde, para mim a vovó Matilde, foi como um bálsamo em minha vida de menino triste naquele colégio interno. Foi ela quem me deu o meu primeiro livrinho de histórias “O soldadinho de chumbo” e em noites de tempestade em que eu acordava chorando, apavorado com o barulho do trovão, ela me contava esta história, me confortando, segurando minha mão até que eu pegasse no sono.

Ela me confortava tantas vezes em que eu chorava ao ver pela janela os meus colegas felizes ao reverem sua família e eu ali triste e abandonado por meu pai. Dona Matilde foi a minha família,desde que eu comecei a me entender por gente.- conta Mario com lágrimas nos olhos.

–E ela? Onde está neste momento? – quer saber Geraldo, sentindo simpatia pela senhora que cuidou deste pobre menino rico.

–Infelizmente ela faleceu quando eu já tinha 16 anos. Para mim foi uma perda irreparável. Ela, uma mulher simples e pobre me deu muito mais amor que meu pai, um homem milionário.

Geraldo fica pensativo, analisando tudo o que Mario estava lhe contando e sente uma vontade imensa de abraçá-lo e mostrar o quanto era solidário com essa dor que ele sentiu e sentia neste momento.

E sem pensar em mais nada se aproxima de Mario e o abraça forte, mostrando ao amigo, que apesar apesar de ser uma pessoa com alguma limitação física o seu coração era ilimitado em se tratando de ajudar um amigo.

Mario se emociona mais ainda e chora, um choro a princípio contido e depois livre e assim consegue se acalmar. Lavar a alma, como se costuma dizer.

Percebendo que Mario estava mais tranquilo, Geraldo lhe pergunta:

–E a sua mãe, meu amigo? Nunca lhe procurou?

–Não, nunca.- diz Mario tristemente- Creio que para ela eu fui um acidente, um incômodo em sua vida. Vida essa onde só havia lugar para o estrelato e glamour.

–E agora? Onde ela está? Você teve notícias dela?- questiona Geraldo.

Mario suspira e fala com a voz ainda mais triste:

–Soube alguns anos depois que estava no colégio que ela morreu em um terrível acidente de avião. Ela estava na companhia de um novo namorado, um famoso piloto de fórmula 1. Infelizmente todos morreram na queda do avião. E eu nunca pude conhecer a minha própria mãe.

–E seu pai? Como foi que o recebeu em casa quando você saiu do colégio, aos 18 anos.- quer saber o amigo.

–Ele me recebeu como eu previa, com indiferença, como se eu fosse uma visita incômoda. Não fiquei muito tempo com ele, pois logo ingressei na faculdade e fui morar numa república com alguns colegas.

–E foi lá que você conheceu Armando Mendoza? O homem que estava no restaurante naquele dia? – pergunta-lhe Geraldo.

–Foi sim. – responde Mario — Armando Mendoza foi um ótimo amigo que fiz na faculdade, aliás o único, pois na escola nunca me abri com ninguém, tinha apenas amizades superficiais. Nunca quis contar meus problemas, por isso disfarçava minha tristeza mostrando-me sempre alegre e engraçado, isso me fazia ser popular, no entanto intimamente essas amizades nunca me preencheram. Já com o Armando foi diferente a gente tinha um entrosamento muito bom.Tínhamos os mesmos sonhos: ele queria provar a seu pai que poderia ter sucesso ao herdar a presidência da sua empresa e eu queria provar a meu pai que poderia sobreviver sem depender de sua fortuna.

Mario revive aqueles anos de faculdade com saudades. Pois foi nesta época que conheceu o seu primeiro amor. O amor que marcaria sua vida toda. O amor que o transformou no que era até a alguns dias atrás.

Notas finais
Aguardem os próximos capítulos.