Abrindo os Olhos de Mário Calderón
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem e se possível comentem.
Mário Cálderon entra furioso no elevador da Ecomoda!
Jamais pensaria na vida que sua sociedade na empresa e o que é pior sua amizade com Armando Mendoza acabariam por causa de uma mulher!
Uma mulher que transformou o seu ex-sócio e agora também ex- amigo em um completo idiota!
"Antes da Betty, Armando era como eu!- reflete Mario enquanto desce no elevador- Sabia como aproveitar tudo o que a vida e as mulheres nos ofereciam! Mas depois dela, tudo mudou! — continua pensando, enquanto limpa com um lenço o sangue do ferimento que escorre dos lábios inchados. Ferimento esse provocado pelo soco que Armando lhe dera — Que soco eu levei! Tudo por que falei da mulher da sua vida, como ele disse! Não fiz nada demais, falei como eu e ele estávamos acostumados a falar das mulheres que passavam por nossas vidas!
Armando definitivamente está mudado!"
Mario desce do elevador e já na garagem vai a busca de seu automóvel. Quando chega onde seu veículo está estacionado, para e observa.
O pneu estava murcho!
"Mais essa agora! — pensa com raiva — Onde estará o Wilson?" — olha em volta a procura do segurança da Ecomoda.
"Vou pedir que ele troque o pneu."- olha novamente procurando e nada do segurança! "Deve estar comendo por aí! Aquele guloso só sabe fazer isso!"
Dá uma volta a pé por todo o estacionamento da empresa, vasculhando tudo quanto é canto e nada do segurança!
"O jeito é tentar trocar o pneu eu mesmo!"- pensa resignado.
E retorna até onde está o seu carro.
Abre o porta-malas e para sua surpresa não encontra o estepe!
Coça a cabeça tentando se lembrar de onde estaria o bendito do estepe.
De repente um lampejo de luz se acende em seu cérebro:
"Homessa! Eu havia me esquecido que deixei o pneu na borracharia hoje de manhã cedo, estava murcho também, com um enorme prego atravessado na borracha!"
"Eu já estou usando o estepe! Que droga! — pensa impaciente — Vou ter que pegar um táxi! Amanhã eu pego o pneu consertado na borracharia e peço ao Wilson para trocar para mim."
"Por enquanto sou obrigado a deixar o carro aqui na garagem da Ecomoda. Que amolação! Como se não bastasse ser socado pelo Armando, ainda acontece esse contratempo!
E o pior é ter que voltar amanhã aqui novamente! Pensei que estivesse livre desta corja de traiçoeiros!"
Resmungando com os seus botões Mario deixa a garagem da Ecomoda.
Empresa onde havia decidido nunca mais botar os pés!
Resolve espairecer e caminhar para ficar o mais longe possível daquele lugar que lhe remete tantas lembranças!
Segue caminhando pela rua a esmo. Resmungando e caminhando, se afastando cada vez mais, sem nem mesmo ver e saber por onde estava indo.
Procura não pensar em mais nada, afinal o que quer é ficar o mais longe possível dali.
Tem plena noção que seus lábios doloridos estão inchados. Passa a mão cuidadosamente sobre eles e ainda sente a dor aguda do ferimento.
E novamente pensamentos sinistros lhe veem à mente:
"Maldito Armando! Você ainda vai me pagar muito caro por isso! Cretino! Onde já se viu deixando-se levar por uma mulher!
Em meio aquele plano que bolamos, o bobão foi se apaixonar! Só podia acontecer com ele mesmo!
Comigo isso nunca aconteceria! Tenho plena consciência que jamais me deixaria envolver assim! Armando foi muito bobo, um verdadeiro imbecil!"
Quando se dá conta, olha ao redor e percebe que caminhou até demais!
Estava tão absorto em seus pensamentos que nem notou que foi parar em um local desconhecido, uma praça mal cuidada, mal iluminada e deserta.
Mario apreensivo olha para seu relógio e nota que é quase 9 horas da noite. O tempo passara e ele nem notou que estava tão tarde!
Então olha cautelosamente para os lados, torcendo para não ser assaltado, essa era a última coisa que faltava lhe acontecer.
De repente escuta vozes! Apruma os ouvidos.
Parece uma discussão!
- Seu safado! Esse chocolate é meu! Me devolve!
- Vem pegar se você for homem! Você não me pega! Não me pega!
Mario levanta os olhos, procurando de quem são aquelas vozes, e se depara mais a frente com dois meninos de mais ou menos 7 anos de idade que discutem.
- Devolve o meu chocolate! Seu bobão! Vou contar tudo pra Nanda! — fala um dos garotos.
- Pode falar seu mariquinhas! Você está mesmo sempre se escondendo atrás da saia dela! — fala o outro.
O menino ofendido não aguenta e parte para cima do outro.
Os dois garotos começam então a trocar socos e pontapés.
Mario não se contém, se aproxima rapidamente e os separa, segurando firme nos pulsos de cada garoto.
- Parem meninos! Parem! Assim vocês vão se machucar!
Os dois se assustam e olham para ele.
Como se tivessem combinado os dois começam a rir ao mesmo tempo:
- A gente se machucar? — diz um dos meninos, rindo sem parar.
- Olha só a sua cara toda inchada!- continua o outro rindo também.
- Acho que ele brigou com alguém. — fala o primeiro rindo e apontando o lábio inchado de Mario.
- E ainda quer que a gente pare. — continua o outro, rindo também.
Mario fica mais bravo ainda e segurando com mais força nos pulsos dos garotos fala possesso:
- Parem com essa algazarra! Vocês são muito crianças para estar na rua a essa hora! Onde está a mãe de vocês?
Os dois garotos imediatamente param de rir e abaixam a cabeça ao mesmo tempo, parecendo tristes e desolados.
- Me digam onde ela está? E o pai de vocês? Quero conversar com eles! — insiste Mario olhando-os — Onde já se viu deixar dois garotos desta idade, soltos na rua neste horário! Já passa das 9 horas da noite! — continua nervoso.
- Nós não temos pai e nem mãe! — responde com voz triste um dos meninos.
- Isso mesmo! Somos órfãos! — diz o outro com a mesma entonação de voz.
Mario fica surpreso com tal comentário e imediatamente afrouxa as mãos que seguram os meninos, mas não os solta de maneira alguma, e lhes pergunta:
- Vocês não tem ninguém na vida? Moram sozinhos?
- Não moço nós moramos com a nossa irmã mais velha. — explica um deles.
- Isso mesmo a nossa irmã, a Fernanda. — completa o outro.
- Então ela é uma irresponsável! Onde já se viu deixar dois moleques desta idade na rua de noite. — completa Mario.
- Nós não somos moleques viu? — diz um deles ofendido.
- E a Fernanda não é irres.... irres...- tenta dizer o outro igualmente magoado.
- Irresponsável. — complementa Mario, achando graça por ele não conseguir completar a palavra.
- Pois bem onde vocês moram? Quero falar com a sua irmã e dar uns bons conselhos a ela. — continua.
- A gente mora logo...
- Pára Felipe! A Fernanda já nos disse que não é para falarmos com estranhos e nem para falar onde moramos. — reprime o garoto.
- Mas Fabio! Esse moço não parece bandido, não! Olha só que roupa bonita ele veste. — fala o outro menino alisando com a outra mão o paletó de Mario.
Fabio observa bem o traje do homem a sua frente e balançando a cabeça concorda imediatamente com o outro garoto.
Mario por sua vez acha pitoresco o fato de ser analisado por aqueles dois pirralhos.
Solta os pulsos deles, pigarreia e com voz solene se apresenta estendendo a mão direita em cumprimento:
- Bem meninos o meu nome é Mario Calderón. E vocês como se chamam?
- Eu sou Felipe Hernandes! Muito prazer! — se apressa o garoto mais desinibido, apertando-lhe a mão estendida.
Mario aperta mãozinha do garoto, achando-o muito esperto.
- E eu sou Fabio Hernandes! Muito prazer! — cumprimenta o outro imitando o irmão.
Mario faz o mesmo apertando a mãozinha do outro garoto.
- Bem apresentações feitas, me digam qual dos dois é o mais velho? — pergunta aos meninos.
Os dois caem na risada, deixando Mario sem ação e explicam:
- Nenhum! — fala Felipe.
- Nós somos gêmeos! Irmãos gêmeos! — retruca Fabio.
Mario fica surpreso! Olha para eles, agora com mais atenção, analisando-os.
Os dois eram mesmo gêmeos e por sinal gêmeos idênticos!
A mesma altura, o mesmo cabelo preto liso, cortado em estilo tigela e os mesmos olhos castanhos amendoados.
Se vestiam da mesma maneira: bermuda e camiseta polo, só que de cores diferentes. Um com bermuda azul e camiseta listrada de azul e branco e o outro de bermuda verde e camiseta listrada de verde e branco.
Seus trajes eram simples, na verdade, mas os garotos estavam bem limpos e penteados.
Bem se via que eram que os meninos eram bem cuidados.
"Como não reparei antes? São iguaizinhos!"
-Você sabe o que é isso? — pergunta Felipe, tirando-o da observação minuciosa e dando uma de sabido.
Mario se faz de desentendido, só para escutar a explicação da criança e se divertir mais um pouco:
-Eu não sei não! Por favor queiram me explicar.- fala procurando mostrar ingenuidade.
Felipe continua:
- Irmão gêmeo é quando a mãe tem dois nenês na barriga.
- É isso mesmo! — completa Fabio — e quando chega o dia de nascer, nascem os dois no mesmo dia. Isso é gêmeo. Entendeu? — pergunta muito sério olhando para Mario.
Mario balança a cabeça afirmativamente achando graça da esperteza dos dois irmãos.
-Ah! Agora entendi! E quantos anos vocês tem?
- Sete anos! — falam os dois ao mesmo tempo.
- E você? — pergunta-lhe Felipe, o mais desinibido.
Mario pigarreia e fala:
- Eu tenho 30 anos.
-Nossa! Tudo isso! — fala o menino.
- Você é velho! — retruca Fabio.
Mario não fica bravo, admira a sinceridade daqueles dois, pois sabe que para eles, garotos de apenas 7 anos de idade, alguém com 30 anos deve ser muito velho mesmo!
- Agora que nós nos apresentamos, eu não sou mais um estranho para vocês, não é verdade? — pergunta Mario em tom amistoso aos garotos.
Eles se entreolham e balançam a cabeça ao mesmo tempo afirmativamente.
- Posso então acompanhá-los até a sua casa, pois já é tarde, concordam? — continua Mario.
Felipe e Fabio se olham novamente e demonstram ainda certa dúvida.
Nanda ficaria brava em saber que os meninos estavam em companhia de um estranho. Afinal ela era responsável por eles.
Mario percebe a indecisão dos garotos e fala em tom amigável:
- Eu prometo deixá-los na porta de casa e não vou contar a irmã de vocês sobre a briga que tive que apartar. Tudo bem?
Felipe e Fabio se entreolham novamente e sorriem e finalmente concordam:
- Está bem! — falam os dois ao mesmo tempo.
Enquanto caminham lado a lado, Mario pergunta-lhes:
- O que vocês faziam na rua, sozinhos, a essa hora da noite?
Felipe como sempre se adianta na resposta:
- Fernanda pediu que fôssemos à padaria para comprar esses pãezinhos aqui. — mostra a Mario a sacola com os pães.
- E por que ela não veio com vocês? — questiona inconformado com tamanha displicência da irmã mais velha.
-Ah! Porque ela ficou fazendo o jantar. Ela cozinha muito bem apesar de... — falava Fabio quando foi interrompido subitamente pelo irmão.
-Porque ela não pode vir, é isto o que o Fabio ia dizer — emenda Felipe enquanto olha o irmão de maneira significativa, como se o reprimisse por estar falando algo que não devia falar.
Mario percebe todo esse movimento entre os irmãos, mas se faz de desentendido e continua a conversa com os garotos:
- E por que vocês estavam brigando? — questiona, mudando o foco da conversa.
- Porque o Felipe pegou o meu chocolate.
- Ele não queria comer e eu peguei. — diz Felipe querendo ser o dono da razão.
- Mas era meu! Eu ia deixar para comer depois do jantar! — fala o outro.
-Não tenho culpa se estava dando sopa.
Fabio se irrita e faz menção de socar o irmão, sendo novamente impedido por Mario.
- Calma meninos! Calma! — fala em tom conciliador.
Muito a contragosto Fabio se separa do irmão.
Tentando aplacar a fúria do irmão, desviando sua atenção, Felipe fala para Mario apontando uma casa rosa e de janelas azuis:
- Olha seu Mario é aqui! Essa aqui é a nossa casa!
O homem olha rapidamente para a casa que o garoto indica.
Observa com atenção e nota que é uma residência muito pequena e simples.
Mas o que chama a atenção é o lindo jardim que parece dar vida a pequena casa.
Há ali várias espécies de flores: rosas, cravos, margaridas, lírios e orquídeas.
É um jardim muito bem cuidado. Nota-se de longe o capricho e dedicação dos moradores com o pequeno pedaço de terra.
Percebe-se de longe que aquele jardim com as suas inúmeras flores coloridas deu um toque especial à humilde residência.
- Sua irmã deve gostar muito de flores, não é? — pergunta Mario admirando o colorido do jardim.
- Ela gosta sim e é ela quem cuida dele. Nós a ajudamos de vez em quando, não é Fabio? — fala Felipe.
Fabio balança a cabeça afirmativamente e completa:
- Nós ajudamos, trazendo água e tirando as ervas danadas.
- Daninhas, seu bobo. — corrige Felipe, prontamente.
Mario tenta disfarçar a vontade de rir, virando-se e olhando para as lindas flores.
- A Nanda fica aqui muito tempo molhando, cavocando, mexendo na terra. Ela gosta de cuidar das plantas. — completa Fabio.
- Outro dia nos disse que conversa com as plantas e que é bom conversar com elas, pois assim elas crescem mais fortes e bonitas. — relata Felipe, achando muito importante este detalhe.
Mario balança a cabeça com admiração.
"Ela devia cuidar dos meninos tanto quanto cuida do jardim.” Pensa com ironia.
De repente seus pensamentos são interrompidos por um estrondo que vem direto da casa. E logo a seguir escutam um grito de dor.
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