POV Santana

Em meio a um dos extensos corredores da primeira classe do Titanic, Quinn parou de andar às pressas, como fazia até então. Bateu algumas vezes em uma específica porta ao nosso lado e, ansiosa, esperou. Em poucos segundos, fomos atendidas por alguém.

Era Mercedes.

Ótimo.

A mesma parecia estar sozinha e tranquila.

Por isso, aliviei-me. Ao nos enxergar, um simpático sorriso se traçou em seus lábios, ao mesmo tempo em que Lucy atirava-me para dentro dos aposentos. Não havia tempo para pensar, ou prorrogar a situação. Sabia que poderia confiar de olhos fechados em Fabray, à garota estava numa verdadeira corrida contra o tempo para salvar minha pele. Queria que ela fizesse isso por si mesma também, com tanta disposição quanto agora.

Será que isso voltaria a acontecer algum dia?

— Nos vemos em breve! — Foi à última coisa que Quinn disse-me, antes de fechar a porta e ir atrás de mamãe, que segundo ela, estava sendo enrolada pela Berry.

Suspirei, e voltei a olhar para a Jones.

— Olá... Obrigada por... Bom, você sabe... Ajudar-nos.

Ela riu.

— Não seja tão formal, Santana. Você não precisa me agradecer. Conheço Sebastian e Maribel... — Ela deu às costas e andou pelo cômodo, apossando-se de uma xícara antes pousada sobre a mesinha de centro do lugar. — Chá?

Assenti e apanhei a louça, servindo-me.

— Obrigada.

— Você parece feliz...

Um pouco tímida, abri um sorriso, pensando em Brittany. Não iria mentir. Estava feliz mesmo, exceto pela parte de ter que continuar fingindo ser a Santana que todos esperavam eu ser um pouco mais. Não tinha muita convicção que conseguiria. Porém, era necessário conseguir.

— Eu estou.

— Deixe-me adivinhar, andou repensando em toda a sua vida, enquanto passeava por aí?

Arregalei os olhos, surpresa, e concordei.

— É... Pode-se dizer que sim. Como sabe?

— É nítido.

Claro, minhas feições deveriam estar mais transparentes que nunca. A esperança que havia desaparecido há algum tempo, tinha sido reestabelecida com vigor dentro de mim. Minha salvação não era Brittany, mas ela fazia parte do processo da mesma.

— Entendo... É que, ultimamente, eu só ando fazendo isso... Todavia, agora, parece que encontrei uma saída definitiva, para certos problemas.

— Compreensível. — Mercedes sentou-se num sofá. — Perdoe-me a intromissão, mas por que está noiva do Smythe? Eu não entendo. Vocês não parecem ter nada em comum... Já não posso dizer o mesmo em relação a sua mãe.

Ri, e dei um gole no meu chá.

— Pois é, achei que só eu tivesse notado como eles são perfeitos um para o outro, uma pena que a idade seja um problema. — Após darmos umas boas risadas, respirei fundo e relaxei os ombros. — Bom, Mercedes... De fato, eu e Sebastian não temos nada em comum. E eu sei que não deveria sair por aí revelando tal coisa, porém, nosso casamento é arranjado... Pela minha mãe, essa é a verdade.

— Claro. Bem que eu desconfiava que houvesse algo errado. Se quiser, eu posso te ajudar.

— O que? Ajudar-me mais do que já ajudou? Eu agradeço, mas você não precisa.

— Você que sabe, estarei aqui caso mudar de ideia...

O toque na porta nos interrompeu, e quando Mercedes a abriu, Maribel e Quinn nos esperavam do outro lado.

O plano ocorria bem, mamãe não parecia irada.

E, apesar de não apreciar muito minha aproximação com a Jones, ela fazia questão de demonstrar como se encontrava, extremamente, satisfeita apenas por eu me localizar bem longe da terceira classe. Como Sebastian ordenara que eu ficasse. Como ela esperava que eu ficasse.

Um problema a menos. Ao menos, a minha pessoa.

Fui para meu quarto, e vesti-me, entretanto não antes de agradecer a Rachel, é claro. Não queria me fazer de cega, ela era minha amiga também. Uma ótima pessoa. Logo, mais outro daqueles jantares entediantes, prolongou-se.

E Sebastian fez questão de me escoltar até meu quarto, depois.

E eu, realmente cansada, o espantei amigavelmente.

E como o cavalheiro que ele dizia ser, aceitou sem grandes complicações. Possivelmente, por ainda não sermos casados, além de ter muito conhaque e charutos na sala de fumo a sua espera e de outros grandes, grandes boçais do universo. Deus ouvira minhas preces, essa havia sido por pouco.

(...)

Na tarde do dia seguinte, caminhando pelo deque junto a Quinn, ouvi uns marinheiros avisando o capitão Figgins sobre algum iceberg no mar.

Ele, logo que percebeu minha surpresa, quis me tranquilizar.

Oh, não precisam se preocupar, senhoras. Gelo é normal nessa época do ano. Na verdade, estamos acelerando. Acabei de mandar acender as últimas caldeiras. Tudo está sob controle.

Assenti, desconfiada do tom de sua voz e continuei o trajeto, afinal, eu e Lucy precisávamos encontrar com Sebastian e Biff na academia do navio.

(...)

Enfim, ao pôr do sol, após o chá da tarde, concluindo de vez minha “lista de tarefas do dia”, já que a ideia era furar o jantar desta vez -graças a Rachel e Quinn, que inventariam algo por mim- eu fui me encontrar com a Pierce na proa do navio. Despistando qualquer um que pudesse me atrapalhar, com sucesso. Essa deveria ser a melhor parte do meu dia, definitivamente.

Já estava sendo.

Impressionante.

Não sabia se aguentaria mais outro dia daqueles. Minha cabeça doía, só de imaginar.

Como havíamos marcado, Brittany estava lá, com um caderno em mãos, desenhando algo. Sua pacificidade era contagiante. Dei alguns passos até ela em silêncio, não querendo atrapalhar sua concentração. E assim permaneci, por algum tempo.

— Oi, Santana... — Ela disse simpaticamente, sem olhar para trás. — Tudo bem?

Eu ri.

— Como sabe que sou eu?

— Ora, você tem um jeito único de andar com esses saltos...

— Ah, tenho?

Uhum... Fora que eu estava te esperando e senti sua presença por tempo demais, ou era você, ou uma assombração... Prefiro sempre apostar na melhor alternativa.

— Engraçadinha... — Gargalhei com a Pierce e coloquei-me a seu lado, tentando espiar o desenho que ela esboçava. — O que está fazendo, hein?

— Bem... — A loira se virou e deu-me um beijo acentuado, entregando-me seu caderno no processo. — Eu estava querendo guardar esta visão sem igual que temos da proa, bem aqui... Só faltam algumas sombras e outros pequenos detalhes... Mas, acho que já serve, não sou tão boa com paisagens.

Analisei a ilustração, impressionada.

— Como não? Tá perfeito, Brittany.

— Se você acha... — Eu olhei para ela e a Pierce sorriu. — Como foi seu dia?

— A mesmice horrível de sempre... — Devolvi o caderno para suas mãos. — A melhor parte é agora, se quer saber.

— Idem.

Sorri, mexendo no cabelo.

— E quanto ao seu dia?

Ahn, eu passei boa parte dele desenhando...

— Ah, sim. Deve dar trabalho. A maioria de seus desenhos parecem fotos.

— É, dá certo trabalho mesmo... — Ela passou a mão por seus cabelos loiros, prendendo um punhado atrás da orelha. — Mas, eu adoro desenhar. Vou parar em outro mundo no processo em que o grafite toca o papel, como mágica. Isso compensa todo o tempo gasto.

O genuíno sorriso em seus lábios rosados alegrou-me, e fez-me ruborizar ligeiramente com alguns bobos devaneios, então, sorri também.

— Neste caso, eu tenho um pedido a fazer a você... — Comecei. — Quero um retrato meu. Pode fazer?

— Claro... Posso sim. — De imediato, ela concordou. — Será um prazer.

(...)

— É seguro, posso lhe garantir. — Abri a porta, para Brittany entrar junto a mim no cômodo em questão. — Esta é a sala de estar, não a utilizamos muito.

Ela adentrou o lugar, olhando tudo ao redor, calada. Eu encostei a porta e observei seus movimentos, curiosa. No que ela estaria pensando?

— A luz é suficiente? — Questionei.

— O que? — Brittany olhou para mim, confusa.

— Artistas não precisam de uma boa iluminação para desenhar?

— Sim, precisam. Uma pena que as condições aqui sejam tão horríveis, né... — Respondeu irônica, e eu a acompanhei no riso. — Monet!

A Pierce correu até um de meus quadros no chão, apoiado a uma parede e o observou maravilhada.

— Conhece o trabalho dele? — Perguntei-a, pasma.

— Claro! — A loira observou a pintura mais de perto e passou os dedos pela tela. — Olhe só o uso dessas cores... E esses traços... Não é incrível?

— É extraordinário! — Eu sorri. — Sabe Pierce, eu preciso reaver diversos conceitos que tenho em relação ao mundo...

POV Brittany

Em certo segundo, Santana pediu para que eu a acompanhasse até uma das várias portas presentes pele perímetro da sala de estar. Ela não especificou o motivo, e eu meramente a segui. De repente, a morena passou a mexer em um cofre. E eu, confusa, não abri a boca para dizer nada.

— Sebastian insiste em levar esse trambolho para todos os lugares... — Ela contou-me. — Uma chatice.

— Ele voltará logo?

Eu olhei para os lados, preocupada com a possível aparição do mesmo. Ele não gostaria de me ver ali. Ninguém gostaria.

— Não até se dar conta de que eu não vou comparecer ao jantar hoje, disso tenho certeza.

A morena apareceu em minha frente, tirando um colar -com uma pedra azul gigante pendurada- de dentro de uma caixa de joias, para dar-me nas mãos. Uau. Aquilo era, realmente, enorme e pesado. Não me parecia muito seguro, muito menos confortável, permanecer com algo assim no pescoço.

— O que é? Um diamante?

— Sim, um dos raros.

— Muito bonito...

— Brittany... — Santana se colocou ao meu lado, com calma. — Quero que você me desenhe como uma daquelas garotas do seu caderno, usando isso.

— Ok... Eu posso fazer.

— Não. Você não entendeu. Quero dizer, usando apenas isso.

Hã?

Congelei.

Eu tinha escutado corretamente? Ela queria um retrato... Nua? Olhei para ela, e vi um sorriso travesso desenhado em seus lábios carnudos e meu coração passou a bater muito, muito forte. Não sabia se seria capaz de me concentrar em tal desenho. Não sabia mesmo.

(...)

Eu estava esperando por Santana há alguns minutos, nervosa naquela poltrona. Tinha concordado com a ideia da nudez. Isso me apavorava... De um jeito bom. Havia acabado de preparar o grafite que usaria e ajeitar a sala como cenário para o retrato, todavia o tempo demorava a passar.

De súbito, Santana saiu de seu quarto vestindo meramente um robe dourado no corpo, os cabelos negros soltos e o diamante azul na garganta.

— A última coisa de que preciso, é outro retrato meu parecendo uma boneca de porcelana. — Ela chegou a mim e beijou-me, suavemente. — Por isso, espero do fundo do meu coração receber a realidade que desejo e necessito. Não me decepcione. Você só possui uma chance para me impressionar, Srta. Pierce.

Eu ri, suas feições eram sagazes. Cheias de vida. Era ótimo ver Santana daquela forma. Era radiante, e muito confortante também.

— Como quiser, estou às suas ordens.

Ela deu alguns passos para trás e começou a deixar o robe escorregar por seus ombros, até cair no chão. Eu respirei fundo, tensa, quando pude ver seu corpo nu por completo. Era lindo. O mais lindo que já tinha visto.

Tinha que me concentrar.

No desenho.

Apenas no desenho.

— E-Em cima da cama... Do sofá. Em cima do sofá. — Pedi, engasgando. — Perdão.

Ela sorriu e fez o que solicitei.

— Agora, deite-se.

— Fala-me quando estiver bom...

— Ok. — Eu passei a imaginar que pose seria melhor, à medida que ela se mexia. — Coloque seu braço onde estava antes... Isso... Coloque a outra mão perto do seu rosto...

— Assim? — Ela indagou.

— Sim. Assim mesmo. Agora, abaixe um pouco o queixo e relaxe os ombros.

A morena deu um riso envergonhado, talvez ela tivesse se dado enfim conta do que pedira.

— Fique olhando para mim. — Eu disse, adorando o brilho presente nos olhos castanhos. Arrumei meu caderno, o colocando na horizontal. Começaria já. — Tente não se mover, por favor. Imagine que é uma pedra. Ou algo tão imóvel quanto.

Assim que falei ela começou a rir, e eu a acompanhei.

— Desculpa... É que foi engraçado.

— Tudo bem.

Eu suspirei e me apossei do grafite apontado, iniciando um esboço de seu físico. Eu tentaria não demorar tanto ali, por duas razões. A primeira, Santana estava nua em minha frente. A segunda, eu preocupava-me demais com o que poderia acontecer caso Sebastian brotasse do nada e visse aquela cena.

— Tão séria... — Ela brincou, fazendo uma careta. Eu sorri, e continuei o retrato. Foco, Brittany. Termine o retrato. — Hum, acredito que esteja ficando tão vermelha quanto um pimentão, Srta. Artista...

Ignorei seu comentário e apenas sorri, tentando me acalmar.

— Não ria, por favor.

Ela respirou profundamente e jogou todo o ar para fora, aquietando-se.

Os batimentos dentro do meu peito não paravam de acelerar. Eu realmente estava ficando tão vermelha quanto um pimentão. Meu rosto e mãos queimavam.

E os traços de meu grafite eram cada vez mais acelerados, e certeiros.

POV Santana

Ficar diante de Brittany daquela forma, totalmente nua exceto pelo coração do oceano em meu pescoço, estava sendo libertador. Meu coração batia forte a cada olhada dos olhos azuis em minha direção, isso era novo.

Intenso.

Inexplicável.

Quando a Pierce terminou o retrato, ela assoprou os fragmentos de grafite para o ar e pediu para que eu me aproximasse. Vesti o meu robe dourado, que residia no chão, e assim o fiz. Dei a volta ao longo da poltrona que Brittany se acomodava e avistei o desenho, estava esplêndido.

Ela era muito profissional.

A loira se virou para trás e entregou-me o caderno para eu poder ver de perto, quando o peguei, depositei um beijo profundo em seus lábios.

— Obrigada, nem tenho palavras para dizer o quanto eu amei.

— Fico feliz...

— Eu já volto. Ok?

Ao devolver o desenho para suas mãos, dei-a um selinho e deixei-a para trás. Precisávamos ir para outro lugar, antes que alguém que não fosse de confiança aparecesse.

Encaminhei-me até meu quarto, onde tirei o colar de diamante e resolvi trajar-me devidamente, com algo leve. Cabelo solto, livre de espartilho, salto alto ou apetrechos irritantes. Quando voltei à sala de estar, notei que Brittany havia posto o sofá no lugar, e tudo estava em plena ordem. Do corredor, ela constatou minha presença e retornou para dentro do cômodo.

— Parece que está ficando frio lá fora... Nossa... Está linda, Santana. — Ela elogiou. — Quero dizer, você é linda de qualquer jeito... É só que... Bom...

Ri de sua falta de jeito, e suas bochechas coraram.

— Eu entendi... Obrigada. Você também.

A loira deu mais alguns passos à frente para beijar-me, mas, subitamente, ouvimos fortes batidas em outra porta. Paramos, aflitas. Quem seria? Que não fosse Sebastian ou mamãe, que não fosse.

— Srta. Lopez? — Reconheci a voz de Kenneth, o maior capacho-Smythe que há. — Ei, está aí Srta. Santana? Está bem? Responda, por favor! Caso contrário, eu terei que entrar aí! Vamos lá! Um...

Droga.

Dois...

— Vem comigo.

Segurei a mão de Brittany e a puxei junto a mim, para que ela não fosse vista. Não iria para lugar nenhum com aquele homem, muito menos Brittany. Tínhamos que escapar dali, o mais rápido. Eu não deveria ter a levado para lá. Por que eu havia a levado para lá? Péssima ideia, péssima. Em partes.

— Santana... — Ela sussurrou e olhou para trás algumas vezes, acompanhando-me, apesar da preocupação excessiva com algo. — E meu caderno?

Oh, claro. O caderno. E os desenhos.

— Não se preocupe, eu o devolverei a você.

— Eu sei, mas e se ele achar?

— Shh...

Passamos por algumas portas, como se estivéssemos num vasto labirinto, apenas para voltar ao corredor sem encontrar com o capacho de Sebastian. Começamos a andar normalmente por lá, disfarçando, e quando olhamos para trás percebemos a presença do Tanaka. Sinal vermelho.

— Ei, vocês dois!

— Vamos! — Gritei, puxando-a novamente. — Por aqui...

Corremos para longe, adentrando dois corredores até um elevador.

— Espera, espera! — Berrei, e juntas, nos jogamos para dentro do mesmo. — Vai, logo! Anda! Estamos com pressa!

— Rápido!

O funcionário fez o que pedimos, horrorizado com a grosseira. Irado com nossa fuga, Kenneth deu um murro nas grades que nos separava dele. Mostrei o dedo do meio em sua direção, e Brittany riu comigo. Eu sempre quis fazer isso.

O momento era tenso, mas ao mesmo tempo divertido.

Como era possível?

Saímos do elevador trombando com umas pessoas e nos desculpando sem olhar para trás, não pararíamos de correr até ter a certeza de que aquele homem pararia de nos seguir. Eu não voltaria a ficar perto de Sebastian nunca mais. Nunca.

Eu era livre agora.

Nada me pararia.

Eu e Brittany nos contemos um instante, gargalhando, fixas em algum corredor.

— Nossa... Esse cara é persistente demais para um criado, não acha? — Brittany comentou ofegante, olhando para o chão. — Tá mais para um policial.

— Acho que ele costumava ser. — Eu disse, checando outra vez o lugar de onde tínhamos vindo. — Droga, o Ken...

— Corre!

Voltamos a nos distanciar de Kenneth, entrando naquele labirinto de corredores extensos. Todos muito parecidos. Todos cheios de portas. Tanaka deveria ter um dom.

Brittany abriu uma delas e me puxou para dentro com ela. A salinha onde havíamos ido parar era extremamente barulhenta, quente e tinha cheiro de queimado. Eu olhei para o chão e vi uma passagem, possivelmente para a fornalha do Titanic.

— E agora? — Indaguei, tampando os ouvidos. — Pierce?

— O que disse?

— E agora?!

— Fornalha?!

— Ok!

Descemos as escadas daquele buraco no chão, indo para num lugar incrivelmente mais quente.

— Mais carvão no número cinco, amigo.

Olhei para os lados, qual caminho seguir?

— Ei, o que vocês estão fazendo aqui?! — Enxerguei o homem que perguntara, logo atrás de mim. — Voltem para cima! Não deveriam estar aqui! É perigoso!

Claro que era. Apossei-me de uma mão de Brittany e puxei-a comigo. Não iríamos voltar. Mesmo que não soubéssemos para onde estávamos indo, não voltaríamos. Paramos num lugar pouco movimentado, e a Pierce roubou-me um beijo. Depois trocamos olhares, com as mãos firmes uma na outra, ofegantes pela correria.

Havia muito barulho ao fundo, e mesmo assim, tudo parecia claro.

— Escute, eu nunca mais vou voltar para lá, sabe disso não sabe, Pierce?

Ela assentiu.

— Posso lhe perguntar uma coisa?

— Claro...

— Como se sente fugindo, oficialmente?

— Fantástica.

— Ótimo... Então vamos continuar, para sempre.

— Para sempre?

— Sim... Sempre.

A Pierce passou em minha frente risonha e abriu uma porta branca. Finalmente, um lugar mais fresco. Não sabíamos que parte era aquela, deduzi então se tratar do depósito do navio, muitas tralhas concentravam-se na região.

Wow, olha só o que temos aqui... — Brittany se manifestou, ao adentrarmos mais o espaço. — Legal, parece de última geração.

Havia um automóvel estagnado avante. Direcionei-me até a porta do mesmo e limpei a garganta, chamando a atenção da loira. Ela me deu a mão e abriu a porta para mim.

— Obrigada. — Agradeci, sentando-me nos bancos traseiros.

Abaixei o vidro que separava ali do posto do motorista, enquanto Brittany sentava a frente. Quando ela se ajeitou, deu duas apertadas na buzina do carro, brincalhona.

— Para onde, senhorita?

— Para as estrelas. — Sussurrei em seu ouvido.

— Hã?

Ri, e a puxei para trás, fazendo-a passar para meu lado. Ela entrelaçou minhas mãos as suas e nós ficamos trocando olhares, por alguns instantes.

— Está nervosa? — Ela perguntou-me.

— Não... E você?

— Um pouco.

Eu beijei seus dedos, decidida do que queria. Queria algo a mais dela. Algo que nunca ninguém havia me despertado interesse antes. Algo que o Smythe havia tentado diversas vezes. E, eu, sempre arrumava um jeito de fugir, pois sentia asco dele. Ele nunca me teria. Com Brittany era diferente.

Confiava nela. Queria sua pele na minha.

Precisava disso.

Não me importava nos conhecermos há apenas quatro dias, parecia bem mais que isso.

— Brittany... — Eu levei sua mão direita até meu peito. — Ponha suas mãos em mim.

Num piscar de olhos, seus lábios colidiram-se nos meus.

Notas finais
Até ♥