Sinto o gelo derreter-se entre meus dedos.
E se alguém perguntar o que faço aqui?
Responderei, \"Oh, só estou passando o tempo.\" Pois é realmente isso que estou fazendo.


Meu corpo petrifica-se lentamente, e minha roupa está encharcada. O sol começa a queimar meu rosto, e a neve que caiu durante a noite transforma-se em gotículas de água na grama.
Não há um sorriso, um movimento de minha parte. Nem mesmo uma lágrima. E também não há um motivo para olhar para trás (embora tudo que eu tenha agora sejam lembranças).


Sentirei sua falta como uma criança sentiria de um ursinho de pelúcia. E ao mesmo tempo ter-te-ei só para mim, poderei beijar-lhe para todo o sempre.
Adoçarei o demônio com meu coração congelado. Prefiro o frio eterno a nunca mais sentir o calor de teu corpo. Prefiro sonhar contigo eternamente a ver sua sombra escorrer, vazia, pela porta, deixando-me sozinho outra vez.
Prometo-lhe, Ryan, que apenas você habitará meus sonhos.

Estranhamente, levanto-me. Entro em casa, troco de roupa. Um café descongela meu corpo.
Saia daqui. Suas malas estavam prontas, mas eu não.
Eu vou sentar e ver o relógio me avisar que o tempo não pára nem volta, o tempo não existe e eu insisto em contá-lo.
Eu vou sentir um buraco dentro de mim, e engolirei a mim mesmo para não ser consumido por ele.
Eu amei as palavras, e agora meu repúdio é enorme.
Agora derramo minhas forças no chão, certo de que vivi apenas os dois meses em que tive Ryan ao meu lado.
Não tenho uma família, nunca tive amigos que valessem a pena. E por que eu deveria acreditar que já tive um namorado? Eu nunca tive. Mas eu tive o melhor amante desse mundo.
Sinto calor, dor, alegria, saudade, pura ilusão, talvez, um turbilhão de sentimentos invade meu corpo. O piso é frio e isso me faz rir.

- Brendon, isso é frio.
- Cara, é sorvete, o que você esperava?
- Algo que nos aquecesse.
- Bem, faça algo, então. Só achei sorvete no freezer. – disse, lambuzando seu nariz com chantilly.
- Você é louco, cara.
- E você é um fanático por medicina, embora não faça nada da vida. Vamos, aqueça-nos, então.
- Pois não.
E, sem dúvida, aqueles foram o beijo mais quente e o abraço mais acolhedor que já provei em minha vida.

Balanço a cabeça, rindo. Gostaria de entrelaçar nosso dedos novamente, acariciar sua pele, provocar-te arrepios. Ainda se lembra de quando éramos um só?
Quero imaginar seu corpo em chamas em um jardim.
Porque era assim que eu me sentia.
Ryan está perdido na noite, não há uma única luz; Eu fiquei com ela.
Cego de medo, sorrisos enferrujados, as últimas coisas que vi em seu rosto.
Ainda se lembra de quando éramos um só?

Aperto as mãos, uma contra a outra, tentando esmagar o ar entre elas. Pouco a pouco descubro cada minuto de meu passado. Descobri que vivi uma mentira, mas foi a mentira mais agradável que alguém pudesse ter.
Seus braços eram os mais seguros, e até seu silêncio era o mais acolhedor.
Estou sozinho e cansado de respirar. Meus pulmões queimam com o ar frio (ou seriam com as palavras não ditas, os beijos não terminados?).
Gostaria de ver seu sorriso mais uma vez, meu anjo. Quero que seu coração se transforme em cinzas quando o meu se tornar pedra. Isso é estranho até para a própria crueldade, mas o que posso fazer? Tudo o que ouço é o pêndulo do relógio, e os segundos que não existem, e não...
É uma espécie de insanidade em que eu sempre estive mergulhado, embora só percebesse estar nela depois que você entrou em minha vida. E saiu da mesma forma.


E agora não posso mais lidar com isso. Não sozinho.
Só não me culpo por, no fundo, estar gostando disso. Desse pecado inacabado.

Um garoto descalço anda pela areia e grita meu nome. Eu sei, vestígios do oceano sempre ficarão. O tempo pode nos alcançar, mas jamais o deixaremos romper o silêncio da lembrança.
O abraço das águas e a incrível descoberta de uma concha. Os melhores momentos foram os mais banais, em que só havia a nossa respiração e a vontade de viver.
E agora, devo dizer, ela não existe mais.
Então, pela última vez, sussurre algumas palavras incompreensíveis em meu ouvido antes de deixar-se levar pelo sono. Eu vou deitar ao seu lado, abraçar-te e dormir contigo. Você não se lembra? Eu nunca realmente precisei de você, e é isso que te faz tão especial.
Não quero ser egoísta, então não direi que lhe dei todo o amor do mundo. Eu acho que deveria ter lido algumas cartas, há muito tempo atrás, quando eu achava que tudo o que tinha a fazer era absorver a incrível complexidade da vida. Acho que foi aí também que descobri sua (da vida) simplicidade.
Dizem que, de algum jeito, as coisas se ajeitam.
O fato é, precisaríamos de um jeito.

Duvido que você encontre o caminho de volta algum dia. Você nunca foi muito forte nessas situações, não é? Inspirava confiança enquanto a procurava em meus pulmões.
Sabe qual foi a minha mentira favorita? Aquela, dita ao espelho. E aquela outra, sobre pássaros e palavras. Mas principalmente, aquela em que você citou a eternidade. Essa, sem dúvida, tinha um tom sarcástico. Posso até lembrar o gosto amargo de sua boca nesse momento, embora ela soasse mais sincera do que eu esperaria.

Não quero me perguntar onde você está agora. Logo poderei esquecer a saudade como uma fotografia amarelada perdida no fundo de uma gaveta. Isso é entediante, talvez se você estivesse aqui também seria. Não me permitiria pensar por um só segundo que lhe amaria para sempre. O sempre acaba no primeiro dar de ombros.

Batendo as calças, como se tivesse sentado em um monte de areia, vou até a sala e acendo o fogo na lareira. Eu realmente tentaria fazer algum esforço pra não lembrar disso, se eu tivesse outra coisa pra fazer agora. Costumávamos nos sentar diante do fogo e cantar.
Costumávamos? Fizemos isso duas vezes, talvez três. Veja que em dois meses isso não é exatamente uma rotina, embora também não seja um momento assim tão insignificante para ser esquecido. Era quando eu tentava ler seus olhos, e desistia no primeiro parágrafo. É verdade, Ryan, eu planejei uma vida inteira ao seu lado. Não queria lhe entender, mas viver descobrindo cada canto (empoeirado, devo dizer) de sua alma. As estradas nem sempre nos levam para onde queremos ir.


Enfim, um último pensamento é capaz de fazer-me sorrir. Cuidadosamente, ajeito cada detalhe de nossa casa. Cada vaso fora do lugar, os livros esparramados pelos sofás, dvds jogados no chão. Faço questão de limpar cada canto, deixar tudo perfeito. Porque nossa vida nunca foi assim, organizada, não é? Não sei o que poderia me fazer acreditar de que agora ela deveria ser. Mas, certamente, agora ela tem um aspecto de jardim bem cuidado, que é regado todos os dias, mesmo que com lágrimas, mas de alguma forma não se deixa morrer.

Subo as escadas lentamente, procurando observar cada detalhe, cada quadro, deslizando a mão pelo corrimão, buscando aquele perfume tão familiar. Cada degrau é apenas um degrau, mas cada dia em que tive sua mão ao lado da minha foram, basicamente, toda a minha vida. A porta do nosso quarto está fechada. Abro com cuidado para não deixar escapar nenhum ruído. Aproximo-me da cama. Seus olhos abrem-se lentamente para mim.
Acaricio sua face, procurando lembrar de cada detalhe. Será que em meus sonhos você será exatamente assim?
Um sorriso compartilhado, olhos queimando como brasa. Talvez isso seja um sonho.
- Eu te amo, Brendon. Tanto, tanto, tanto... Pra sempre, meu amor.
- Não seja hipócrita, Ryan. Você sabe...
- Shiiu. Eu não disse que te amo?
- Eu também te amo, meu pequeno.

Aos poucos vou abrindo meus olhos e soprando a neve dos meus pulmões. Todo meu corpo está congelado.
Então vou sorrir. Por que estou vendo a lua, meu pensamento está vazio. Estou afastando todos os fantasmas e procurando uma razão para isso.
A noite tem o seu cheiro, e o som de um beijo interrompido. Por isso estou fechando meus olhos, para tornar-nos realidade. Talvez uma realidade ofuscada pela dimensão dos fatos, mas quem se importa?
É o pêndulo do relógio, que conta os segundos, mas eles não existem, eles não...

Fim.

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