Ablazing RPG: Contos introdutórios.
5 Um coração forjado de estrelas.
Notas iniciais
E voltamos mais uma vez a esta personalidade única... Este cavaleiro que deu tudo para proteger quem amava, contudo, traiu sua rainha pela promessa de um mundo igualitário. Hoje ele é chamado de pecador. Hoje ele é dado como foragido ou até morto. Contudo, este é mais conhecido pelo nome de "O Cavaleiro Renegado".
Leon sentava-se ao observar a dança das constelações e meditar intensamente sobre o mirante de um penhasco. Mesmo nos momentos mais tranquilos de seu dia, ele ainda evitava tirar a sua armadura. Aquilo havia se tornado um ritual rotineiro para ele, uma vez que observar as estrelas parecia ser uma das únicas coisas que podia acalmar a sua ansiedade além de escrever cartas a si mesmo.
Era noite de lua cheia, a melhor época para o cavaleiro, supostamente... Ele inspirava profundamente, relaxando o corpo ao sentir seus pulmões encherem-se de ar, com certeza a natureza o fazia bem. Ao fechar seus olhos e segurar o ar por alguns instantes ele então expirava. Sua viagem astral havia começado.
-Então... Você voltou para me atormentar, Quilla? -Sir Knightward regressava aos confins de sua mente inconsciente, representada por um espaço infinito de estrelas. Como se a imagem do céu estrelado fosse refletida pelo chão de espelhos sem fim. -O que você quer?
Subitamente as estrelas se reorganizavam formando uma imensa constelação envolta em uma bela nebulosa tingida de rosa. A mesma, aos poucos, formava a silueta de um corpo feminino, literalmente viva, ela se aproximava dele, envolvendo-o em algo similar a um abraço.
-Querido... -Ela dizia em uma voz doce, maternal, contudo, poderosa. -Tu estás... Tenso... Que te atormenta?
-Eu estou bem. -Dizia ele ríspido dando as costas à grande figura.
-Leon... Por qual razão temes expor-te a ti mesmo? -A figura recuava ao falar. -Aquele trio...
-SELVAGENS! -Em um surto de raiva, ele chacoalhava seu braço enquanto mostrava uma expressão de dor em seu rosto. -Eles não davam a mínima para as próprias vidas... Não parariam por nada! E o pior... ao invés de matar um guerreiro em batalha eu... eu...
-Uma garotinha inocente...
Nos confins do espaço sideral onde aquela viagem astral rumava uma estrela parecia ter explodido em uma Supernova. Lágrimas começavam a se tornar visíveis no olho esquerdo do cavaleiro e, em seguida, da ponta de seu elmo uma água começava a gotejar.
-Sim... -O cavaleiro admitia a dor de seu erro conforme uma sombra cobria os olhos, voltando-se novamente para Quilla, desta vez, cabisbaixo. -Ela não merecia morrer... EU NÃO QUERIA MATAR NINGUÉM!!!
A figura feminina se abaixava e, como uma mãe confortava-o em seus braços. Ele não sabia como reagir uma vez que a morte da menina tinha o afetado tão profundamente. Toda vez que esta memória regredia, trazia outra consigo, a morte de sua noiva, Cecilia pelas mãos de um homem mascarado.
Pouco a pouco Quilla repelia-se do homem à medida que o mesmo começava a temer ter se tornado aquilo que mais odiara. Ela não poderia o confortar... Ninguém poderia. Nada poderia... Será mesmo?
Talvez os pensamentos que ele construía fossem uma crise de loucura chegando, contudo, a culpa de matar uma criança gerava outro sentimento... Vermelho... Feroz... Familiar... A enorme figura parecia recuar assustada conforme o homem cerrava seus punhos com força e um estrondo do espaço longínquo ecoava.
Este sentimento era raiva...
-Leon...!
O universo estremecia com o som e o brilho da morte de severas estrelas espalhadas. Quilla, aterrorizada ao mudar sua entonação, esvanecia conforme as estrelas que compunham seu semblante explodiam uma a uma. Sim! É claro que o cavaleiro tinha a culpa pelo assassinato de Nataly, contudo, ele não fora o único envolvido. Aquele trio teria de pagar por induzi-lo a causar o homicídio.
E de pagamento ele entendia.
—
-Ow, Frangote! Acorda! -Uma figura grande, musculosa e masculina acordava o cavaleiro com um tapa na cara, interrompendo a viagem astral.
Surpreso e com os olhos arregalados, Leon voltava à realidade. Olhar em volta decepcionava ao passo que não impressionava o cavaleiro. Terra queimada, rochas partidas e árvores partidas, parecia que o local havia sido bombardeado.Voltando-se novamente à figura, Leon respirava fundo e fazia uma expressão de desistência.
-É, brutamontes... Foi mal ai. -O cavaleiro dava com os ombros.
O meio-sangue de quase dois metros de altura chacoalhava a cabeça aliviado. Esta figura trajava uma armadura órquica com somente uma ombreira e peito e braço abertos até o cotovelo esquerdo. Músculos definidos e uma pelagem leve sobre o peito enquanto que, no rosto, traços brutos, porém joviais, cobertos por um cabelo castanho e uma barba avantajada.
-Leon... -O maior falava com uma voz esganiçada no mais sério dos tons ao encarar profundamente os olhos do cavaleiro. -Existe algo que você precisa saber.
-Hã? O que é?
-Eu... -Ele movia sua mão direita nas costas, aproximando-se de seu machado. -Tenho algo que precisa ver... -Punha uma caixa de madeira com uma brutalidade viking sobre a grama não queimada. -TROUXE CHURROS! RHAHAHAH!
-TROUXE O QUÊ?! -O Kishin lunar abria um imenso sorriso ao ver uma dezena do seu doce favorito dentro da caixa.
Leon estendia a mão para pegar um, mas seu companheiro impunha a grande mão sobre a cabeça dele, fazendo-o sentar ao chão para aproveitar a refeição. Com os dois no chão observando o céu, um banquete de Churros começava.
—
-Mas me fala, frangote... Como foi com o líder dos Hellhounds?
-Ah... Uma merda. -Leon comia um dos churros enquanto falava. -Aquele "Boca-do-sei-lá-o-quê" parece que não sabe conversar. Agradeceu por termos libertado ele como se fosse um favorzinho qualquer. Ai ele me deu as costas e foi embora com aquela mulherzinha. Pelo visto, não é todo mundo que a chefa consegue convencer, né não? -Ele ria com um toque leve de sadismo em ver a falha na outra enquanto apoiava os dois braços no chão atrás de si.
—E você entregou a Lágrima pra ele assim mesmo, seu bastardo?! -O meio-sangue parecia revoltado com o que ouvia.
—Você tá louco, grandalhão? De jeito nenhum eu ia entregar aquela porcaria que eu me ferrei tanto pra conseguir pra um cara tão ignorante. -Ele retomava um tom sério para um adendo. -Depois eu dou o meu jeito com a Chefa. Duvido que ela vá me culpar.
-Hmpf! -O grandalhão despedaçava o seu doce como um gorila arrebentando uma banana. -Quer saber, frangote? É por essas e outras que eu detesto esses humanos! Tão fracos e tão... acomodados com qualquer situação ridícula! Como pode um povo ser tão pacífico?! Argh!
-Acho que você andou treinando muito esses bíceps e seu cérebro andou atrofiando, Leo Stronda... Você ainda é metade humano.
-É meu ponto fraco...Vai ver é por isso que sou amigo de um franguinho como você.
Os dois amigos começavam a rir naturalmente juntos. Por mais que aqueles dois se conhecessem há pouco mais de um ano, um já podia ver grande confiança no outro. Possivelmente um laço tão forte tenha sido estabelecido pela natureza sofrida mas batalhadora dos dois. Ou talvez pelo gosto em comum por churros, ninguém podia adivinhar realmente.
-Me fala uma coisa... Aquela história que Gana me contou é verdade? -Leon dizia desapegado enquanto segurava outro doce com a boca. -Teu bando vai mesmo-
-Sim. Tenho que limpar a minha honra como Orc... O único meio é um Dragtum'gar. -O maior falava seriamente, aparentemente atormentado, quase esmagando seu churros.
-Entendi... Esse papo todo de honra e tal, né?
-Isso... -O maior hesitava antes de pegar outro doce e parecia estar incomodado com algo. -Tu conheceu ele, não é, frangote? Acha que ele...
-Que ele o que? -O moreno cortava com uma expressão calma e confiante em seu amigo. -Sinceramente, seu inimigo tem muito potencial, quem sabe até mais que você. Mas é como um carvão que nunca será um diamante. E do jeito que você costuma acabar com carvão, ele não vai ter chance! — Leon ria animado ao sacanear seu companheiro.
Com um soco, Leon vai para o chão, deixando cair o churro em sua boca. Instantaneamente, ele se recompõe, ganha apoio e fita o braço estendido do amigo, contudo, no instante seguinte, o soldado estelar podia contemplar toda a tensão de seu companheiro desaparecer.
-EU JÀ DISSE QUE ESTAVA COM FOME!!! E FOI SÓ UMA VEZ, SEU FRANGOTE DEMENTE!!!
Leon não podia evitar um sorriso de surgir em seu rosto e uma série de gargalhadas virem do fundo de seu coração. Em seguida, o brutamontes também cedia ao bom humor, acabando por rir junto de Leon. O renegado poderia até questionar o momento, pois, ele nunca antes conseguira ajudar um amigo daquela forma. Talvez... Só talvez... a vida dele estivesse melhorando.
-Hahaha! Mas me diz uma coisa, Far'raoth... Posso ir com vocês?
-Mas que pergunta é essa, seu idiota? É claro que pode!
Podia parecer uma linha de diálogo comum, mas, no fundo, ambos se animavam com a situação. A amizade deles nunca fora tão fortemente instaurada em outra instância.
—
-É bom mesmo ter vocês dois juntos... -Dizia um homem sombrio coberto em um manto azul escuro com marcas quase mágicas ancestrais, ombreiras finíssimas e uma enorme placa nas costas. -...Teremos problemas dentro de pouco tempo.
O medo se estampava nos olhos dos dois, mas principalmente de Leon. Eis que o mesmo se ajoelhava diante da figura sombria e falava com uma voz desfalecida.
-S-Senhor Baskyou!
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