Abismo.
4 Dúvidas, complementos e chips.
Notas iniciais
Adélie ficou remoendo o que sabia sobre Joseph, tentando juntar peças e estimar no que aquilo ia dar. 1) ele tinha comprado ela por um mekling, então claramente não lhe faltava dinheiro – aquilo era algo estranho, especialmente porque, se era rico, não deveria estar ali. Não poderia estar ali. Mas até que fazia sentido, justamente pelo fato 2) seu pai tinha expulsado-o de casa porque ele se recurara a ir ao Centro Acadêmico que tanto falavam. Mas Joseph ficara com parte do dinheiro. Talvez do fato 3) a mãe morta.
O estômago de Adélie se revirou. A mãe morta. Adélie olhou pra baixo. Lembrava-se claramente do dia em que aquele Agente tinha dado um tiro bem no meio da testa de sua mãe, fazendo-a cair metros e metros, infinito abaixo. Lembrava-se de ver, num relance, os olhos da mãe se fechando, enquanto seu cabelo esvoaçava a frente dela e seus membros eram arrastados junto com o compro.
Lembrava-se de ouvir gritos. Não sabia se eram seus ou se eram de seu pai, a questão é que eram gritos. Lembrava-se de estar em pé num galho; aquilo fora o que a salvara. Se estivesse suspensa no ar, sabia que teria se desconectado do chip e caído junto com a mãe. A parte mais dolorosa de sua vida fora sua adolescência: além das mudanças em si, o mundo parecia estar enlouquecendo. Tudo do jeito errado. A única pessoa para ajudá-la era seu pai, que trabalhava dia e noite, incansavelmente, em busca de dinheiro. Antes da Ruptura, eles se mantinham com o salário de professora da mãe e de relojoeiro do pai, mas, depois que tudo enlouqueceu, cada um teve que arranjar seus meios.
Adélie não sabia muito bem como funcionava, mas sabia que tinha que ter algo mais no chip, não apenas algum mecanismo para suspender todos no ar. Porque ela não sentia vertigem nem tontura, e ninguém mais parecia sentir. Ela olhou pra frente. Joseph girava seu relógio de bolso nos dedos. Era um relógio velho, meio enferrujado, com a tela trincada, e provavelmente estava quebrado.
–- Por que você está com isso, Joe? – Adélie perguntou.
–- Era da minha mãe – Joseph respondeu, sem olhar para Adélie. – Eu peguei quando fugi.
–- Você não disse que foi expulso?
–- Eu fugi, depois eu voltei. Sabe como é, eu era adolescente. Daí ele me expulsou.
–- Há quanto tempo você está por aqui?
–- Um tempo – refletiu Joseph. –Eu já perdi a conta, na verdade. Meu grupo provavelmente sabe, mas é um grupo meio grande.
–- Quantas pessoas?
–- Cinquenta.
–- E o que vocês fazem, exatamente?
–- Sobrevivemos.
–- Bem, eu também sobrevivo. Mas por que estão juntos? Só por estar?
–- Nós sobrevivemos melhor juntos, sabe? – Joseph finalmente olhou para Adélie. Ele começou a andar de costas de uma maneira casual, quase indiferente. Continuava girando o relógio velho nos dedos, mas passou a olhar para Adélie. – Tem um núcleo do nosso grupo que está tentando pesquisar como isso foi acontecer.
–- Você faz parte desse grupo?
–- Eu tentei, por um tempo – Joseph franziu o cenho. – Mas eles piram muito, sabe? Fogem totalmente do assunto. Não tem foco. São medrosos demais pra sair, pesquisar, examinar, descobrir, pensar.
–- De onde eles são?
–- De vários lugares. Têm dois noruegueses, alguns ingleses, um francês, vários americanos, alguns brasileiros... Acho que tem até um chinês. Ou ele é japonês? Talvez ele seja coreano. Desculpe, eu não sei a diferença.
–- Na maioria das vezes que as pessoas pensam que são chineses, japoneses ou coreanos, na verdade são tailandeses. Dá pra saber porque tailandeses normalmente tem traços mais fortes e uma pele menos clara.
Joseph semicerrou os olhos.
–- Como você sabe disso? – ele perguntou.
–- Eu gosto de estudar etnias – animou-se Adélie. – É divertido.
–- Matemática também é divertido. Só que não.
Adélie deu de ombros.
–- Você não tirou todas as minhas dúvidas sobre você, sabia? – ela comentou.
–- Ah, é? – Joseph sorriu. Abriu os braços. – Pergunte o que quiser.
–- Qual é a sua idade?
–- Eu tenho 24. Na verdade, 23 e 7 meses, mas eu acho que 24 soa melhor.
–- E o que você acha que causou isso?
–- Placas tectônicas.
–- Placas tectônicas?
–- Sim.
–- Por quê?
–- Pense comigo – Joseph começou a gesticular. – Faz sentido. Você lembra quando o chão ruiu? Aconteceu no mundo todo, e daí a lava foi caindo e caindo lá pra baixo. E tipo, se você pensar bem, faz todo o sentido, não faz?
–- Provavelmente. Não que eu tenha entendido muito bem, mas acho que, se eu tivesse, faria sentido.
–- Sim.
Voltaram a ficar em silêncio. Joseph começou a olhar para o chão. Enquanto Adélie examinava-o. Ele tinha aproximadamente 1,85, e quase nada de massa muscular. Era realmente muito magro. Adélie não sabia dizer como ele não tinha quebrado no meio.
–- O que você vem fazendo esse tempo todo? – perguntou Adélie. Joseph olhou pra ela de sobrancelhas arqueadas.
–- Pra uma francesa quieta, até que você fala bastante – ele disse.
–- Quero saber quem me comprou.
–- Certo. Tem razão, acho que você tem direito. Eu só tenho ajudado o grupo. Como eu disse, pesquisar não ajudou muito porque ninguém me levava a sério – Joseph apontou pra si mesmo. – Eu não tenho cara de alguém que pode ser levado a sério. Bom, é isso aí. E você? O que vem fazendo?
–- Depois que meu pai sumiu? Fui... Sequestrada não é o termo certo.
Joseph ficou sério.
–- Você foi... Prostituida? – ele perguntou, hesitante.
–- Quase – admitiu Adélie. – Mas digamos que, quanto mais eles me torturavam, mais eu me recusava a fazer qualquer coisa. Até que eles desistiram de me alugar e resolveram me vender.
Joseph balançou a cabeça em descrença.
–- Eu não achei que tudo ia chegar a esse ponto. Quer dizer, o mundo enlouqueceu, mas não é desculpa, é? Isso não deveria acontecer. Nunca.
–- Acho que não. O que eu posso fazer?
Joseph ficou em silêncio. De repente, uma forte rajada de vento balançou os cabelos bagunçados de ambos os jovens. Adélie tremeu dentro de seus trapos, se encolhendo. Joseph tirou seu casaco marrom, que ia até os joelhos, e estendeu para Adélie. Por baixo, ele vestia um pulôver cheio de bolinhas e uma manga de lã por baixo, que não lhe cabiam bem.
Sem protestar, Adélie vestiu o casaco marrom, fechando todos os botões. Joseph continuou a andar de ré, sem olhar pra trás, girando o relógio nos dedos.
–- Como era seu pai? – ele perguntou, finalmente.
–- Quieto. Inteligente. Esquisito. Meio depressivo, pra falar a verdade – Adélie olhou para Joseph. – Ele se parecia com você. Fisicamente falando.
–- Ah, é? – Joseph sorriu.
–- Sim. Minha mãe era diferente. Ela era o yang da relação, sabe? Era extrovertida, animada, pintava o cabelo, vestia roupas coloridas, parecia uma adolescente. Eu puxei ao meu pai. Claramente.
Joseph deu uma risadinha.
–- Acho que eu não puxei ninguém da minha família – ele admitiu. – Meu pai é muito... Argh. Sabe? Minha mãe tinha depressão. Eu nem me lembro dela direito. Ela se matou.
Adélie arregalou os olhos.
–- Eu não sabia – ela murmurou. – Hum... Desculpe.
Joseph ficou em silêncio. Voltou a andar normalmente, dessa vez olhando pra baixo. Adélie apressou o passo e começou a andar ao lado dele, sem falar nada. Começava a anoitecer. Era assustador, mas lindo ao mesmo tempo.
Para falar a verdade, era indescritível.
O sol passava através dos oceanos, que brilhavam, suspensos no ar. Iam infinito abaixo por um lado, e acabam no chão por outro. Eram distantes, mas de certa forma pareciam perto. Era lindamente bizarro.
–- Eu poderia tirar uma foto disso – Joseph murmurou, de repente. – Se ainda existissem câmeras fotográficas.
–- Existem? – perguntou Adélie.
–- Eu sei lá. Talvez. Quem sabe?
–- Eu não vi uma desde a Ruptura.
–- Que pena. Seria uma linda foto pro Tumblr.
Adélie assentiu. Não tinha a mínima ideia a que distância estava do oceano, não sabia de onde vinha o vento gelado e não sabia pra onde estava indo.
* * *
–- Não, não e não – retrucou Häns. – Nem pensar. Nunca. Não posso fazer isso. Não consigo.
–- Você consegue – insistiu Jacques. – Por favor. O Joe precisa de você.
–- O Joe – interrompeu Häns. – Provavelmente está morto, Jac.
–- Não está – insistiu Jacques. – Não pode estar. Pelo menos tente, por favor.
–- Eu não consigo. Não sei falsificar complementos.
Jacques suspirou. Aquele norueguês vagabunda irritava ela, mas ele era um gênio, e ela precisava de alguém genial disposto a ajudá-la. O problema é que ele não iria fazer aquilo.
–- Você tirou a porra do chip da minha cabeça – ela explodiu. – Você não consegue escrever umas palavras um papel, falar “abracadabra” e fazer funcionar?
–- Não é desse jeito – murmurou Häns, voltando seus olhos para uma engrenagem e tentando encaixá-la numa outra engrenagem, um pouco maior. Jacques sentou-se na mesa de Hâns e suspirou. Detestava precisar ser insistente, detestava guardar a irritação para si.
–- Então me explique – ela pediu. – Só me explique.
–- Os chips – começou Häns. – São mais complexos do que apenas chips. Eu tenho estudado eles desde a Ruptura, e eles são mil vezes mais complexos do que nós conseguimos entender – Häns jogou uma engrenagem de volta num pote e experimentou mais duas. – Eles não só nos mantêm no ar. Eles tiram nossa vertigem, nossa tontura, nossa fobia de altura. Eles estão localizados no hipocampo do nosso cérebro, mas além do físico, eles mexem com nosso psicológico.
–- Eles nos deixam retardados? – simplificou Jacques.
–- Não – corrigiu Häns, encaixando as engrenagens e começando a encaixá-las por um parafuso. – Eles nos deixam ser manipulados. Eles podem tirar coisas de nós, mudar coisas em nós, substituir nossas lembranças, mexer com elas ou apagá-las.
–- Me explique. Um exemplo, uma metáfora, eu sei lá.
Häns largou o parafuso e as duas engrenagens. Começou a gesticular enquanto falava.
–- Tem esse cara. Vamos chamá-lo de Bob. Antes da Ruptura, Bob era... Sei lá, contador. Ele detestava aviões, detestava alturas altas. Daí, o chip dentro do cérebro dele foi ativado. E o que aconteceu? Ele passou a não detestar alturas altas.
–- Isso é bom? – perguntou Jacques.
–- Aí que está. Por quê ele detestava alturas altas? Digamos que era um trauma de infância. Mas não dá pra parar de detestar andar de avião sem esquecer esse trauma.
–- Então o chip apagou o trauma dele?
–- Sim e não. O chip pode fazer isso, mas ele não faz ainda. Ele pode tanto apagar quanto reprimir. E mais: digamos que o chip apagou alguma memória do Bob, mas essa memória levava a outra memória. O que acontece?
–- A segunda memória fica sem explicação?
–- Exato. E o cérebro do Bob não consegue aceitar isso, porque memórias não surgem do nada. Daí o cérebro do Bob inventa alguma coisa pra explicar a existência da outra memória.
–- Não seria mil vezes mais fácil apagar as duas memórias?
–- Aí que está! – o tom de Häns elevou-se. Ele parecia animado. – Imagine a nossa mente como ruas de uma cidade. Cada rua é uma memória. E as ruas precisam de outras ruas pra nascer. Se fossem fechando e fechando as ruas, o que aconteceria?
–- Não ia ter mais cidade?
–- É! Não se pode simplesmente ir apagando. Senão, sua mente volta à estaca zero. Bob não teria trauma de infância, portanto, não teria medo de altura. E ele prefere viajar de trem a de avião, e num trem ele conheceu sua esposa, e daí eles se casaram e tiveram filhos! E o que acontece?
–- Ele não se lembra de andar de trem? Daí ele não se lembra da esposa.
–- Nem dos filhos!
Jacques assentiu. Franziu o cenho.
–- Quem controla isso? – ela perguntou.
–- Ótima pergunta – disse Häns, pegando um negócio azul minúsculo num pote. – Imagine que isso é um chip. É só uma réplica, na verdade, mas imagine que é real. É uma cópia perfeita, vê? Agora, eu peguei minha melhor lupa e examinei o chip. Montei e desmontei-o zilhões de vezes, na esperança de descobrir onde foi fabricado. Sabe o que eu descobri?
–- O quê? – Jacques empolgou-se. Häns arregalou os olhos, com um sorriso insano no rosto, e aproximou-se de Jacques. Ele disse:
–- Nada.
Jacques ficou em silêncio.
–- Nada? – ela perguntou.
–- Bem, sobre o chip, eu descobri muita coisa – ele admitiu. – Mas não de onde ele vem. Tudo que é fabricado vem com pelo menos uma dica de onde é. Eu examinei cada pedacinho dessa belezura aqui, usando o modelo original. E não tem nada, Jac. Não foi feito nos Estados Unidos, nem na Rússia, nem na China, Japão, Noruega, Brasil, França, Inglaterra, Haiti, Argentina, Paraguai, Cuba, México, Canadá...
–- Eu entendi – interrompeu Jacques. – Mas... Sei lá, deve ter alguma coisa.
–- Você não está compreendendo – continuou Häns. – Em projetos secretos ou perigosos, não escrevem “fabricado em tal lugar”. Isso seria estupidez. Eles dão dicas sutis. Cada país desenvolve um material ou uma forma própria de montar. Eu vasculhei todos aqueles livros sobre engenharia, engenharia química, tecnologia, biotecnologia, até um pouco de medicina – Häns apontou para uma estante no fundo da árvore. – E o modelo desse chip não consta em nenhum deles.
–- Já tentou arquivos particulares? – sugeriu Jacques.
–- Sim.
–- Engenharia mecânica?
–- Sim.
–- Engenharia tecnológica?
–- Sim.
–- em Os 50 Arquivos da Computação?
–- Quem você acha que eu sou? – Häns perdeu a paciência. – Eu já tentei tudo que eu consegui. Fui na casa de todos os engenheiros que eu conheço. Eu fiquei uma semana tentando descobrir onde isso foi montado , e eu não achei nenhum sistema que se comparasse.
Jacques ficou em silêncio. Pegou a réplica entre os dedos. Era quase um chip de celular, só que menor. Azul escuro, quase preto, com três listras prateadas de um lado.
–- O que são essas listras? – perguntou Jacques.
–- Eu apelidei elas de Conectores. Porque são elas que transmitem as informações do chip pro cérebro.
–- O que acontece se tirar elas?
–- O chip para de funcionar.
Jacques olhou fixamente para Häns.
–- Você tirou as listras do meu chip ou você tirou o meu chip? – ela perguntou, deixando a réplica de lado.
–- Eu não podia tirar seu chip – admitiu Häns. – Senão, eu levava um pedaço do seu hipocampo junto e você ficava paraplégica. O que eu fiz foi desativar remotamente o chip. Eu conectei ele num notebook e instalei um firewall pra bloquear todo o acesso dele. Como se ele fosse um chip de celular, mas sem número nem operadora. É só um pedaço de plástico no seu cérebro.
Jacques pensou um pouco.
–- Isso é perturbador – ela concluiu.
–- Certamente – concordou Häns, voltando sua atenção para as engrenagens novamente.
–- Sabe o que é mais perturbador?
–- O quê?
–- Saber que você é um gênio e não consegue nem falsificar a porra de um complemento.
Häns fitou Jacques por um minuto. Os olhos azuis de Häns tinham uma ponta de desconfiança, mas por fim, ele se rendeu:
–- Certo – concordou. – Eu não posso fazer isso sozinho. Vou precisar de você e de mais duas pessoas.
–- Eu não conheço mais duas pessoas que sabem fazer isso – avisou Jacques. Häns sorriu.
–- Eu conheço.
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