Abismo.
1 Balanços, árvores, meklings.
Notas iniciais
Uma garota pequenina pulava de um balanço para outro.
Eles estavam pendurados pelo chão. Olhando para baixo, podia-se ver o abismo finito. Viam-se árvores, suspensas no ar, com as raízes se espalhando sincronizadamente com os galhos. Também havia móveis, cada qual em seu cubículo, bem ordenados e organizados. A garotinha imaginou o que aconteceria se houvessem paredes.
Paredes, ela pensou, comicamente. Que ideia engraçada.
Balançou a cabeça. Não era tempo de imaginar coisas impossíveis. Não com ele vindo atrás dela. Com o ruído característico, abafado, um baque oco, ela se sobressaltou. Seus pés escorregaram da base de madeira do balanço, e ela ficou pendurada, segurando-se apenas nas cordas.
Olhou pra baixo. Seus pés se agitaram, tentando se firmar em algo que não estava ali. O vento frio fez sua pele arrepiar-se. Seus braços começavam a doer, e a sensação era nauseante.
Ela respirou fundo. O ar tinha o cheiro habitual de mato cortado. Ela balançou os pés pra trás e pra frente. O balanço tremia, e seus braços também. Ela apoiou os pés na madeira de outro balanço, mas escorregou. Tentou de novo, firmando os pés e entrelaçando-os com as cordas, e deixou-se ficar ali por alguns segundos. Mexeu as pernas para garantir firmeza, e então continuou.
Retirou uma mão da corda, ficando suspensa apenas por um braço. O outro ficou inerte por um segundo, até a garota transformar seu desespero em força, e jogar sua mão mais alto na corda. Segurou-se e impulsionou o corpo. Soltou a outra mão. Seus pés começavam a doer. Ela agarrou a corda, e puxou, com os dois braços, seu corpo pra frente.
Testando sua resistência, fez seu corpo ir pra baixo, depois pra cima novamente.
Agora vem a parte difícil, ela pensou, agoniada e com uma pontada de desafio para si mesma. Puxou, com seus pés, a o balanço pra mais perto dela, e ficou balançando descontroladamente por alguns segundos, até conseguir manter firmeza.
Com seu corpo mais pra cima, ela colocou o traseiro no balanço e soltou os pés da corda. O balanço ficou de frente pra trás, descontroladamente. Ela olhou pra baixo. As árvores agitavam-se com o vento, que soprava os cabelos da garota. Ele olhou pra frente. Ainda faltavam muitos, e ela pensou em desistir.
Como?, pensou. A única alternativa era se jogar na direção de uma árvore. Então, poderia agarrar-se aos galhos e ir descendo por ela, até retornar ao seu mundo normal. Mas então ela olhou pra trás, e ouviu algo. Pela névoa, não podia-se ver o que era, mas ela sabia que não estava longe.
Tomou coragem, agarrou as cordas do balanço e encolheu os pés. Ficou em pé no balanço, olhando a vastidão do que ainda tinha para pular. Olhou para cima. O chão não estava longe. Ela estendeu as mãos. Era frio e úmido, com ervas crescendo entre as lajotas cinzas.
A garota sorriu, depois voltou a olhar pra frente, estendeu as mãos, na esperança de se agarrar nas cordas de outro balanço, mas não conseguiu agarrar. Seus pés escorregaram e ela teve que se segurar na madeira do outro balanço.
Olhou pra baixo.
Havia tocado o chão.
Agora era hora de voltar.
Ela largou a madeira, sentindo imediatamente a gravidade contrária fazer efeito. Foi caindo e caindo. O vento batia em seu rosto e em meu vestido, e ela virou o corpo, de forma que aquilo parecesse um mergulho. Olhou pra trás, para os balanços, pendurados, com as cordas saindo do chão, e sorriu.
Realmente havia tocado o chão.
Voltando seu olhar para frente, deparou-se com uma enorme árvore ao longe. Bem, nem tão longe. Relativamente distante. Mas até que parecia perto. Sim, possivelmente estava perto. Bem perto. Perto demais. Se aproximando, e se aproximando...
Estendeu os braços bem no momento em que passou caindo por um galho. A árvore não tinha espinhos, e a garota ficou grata. Olhou para baixo, examinando. Aquela árvore provavelmente pertencia a alguém muito rico, possivelmente um Investidor. Havia móveis entre os galhos, separados, com um espaço vácuo. Havia realmente um espaço vácuo que os galhos formavam como se evitassem um cubículo específico.
A garota examinou a árvore. Era uma das maiores que já tinha visto. Balançou as pernas, até encaixá-las no mesmo galho em que estavam suas mãos. Soltou as mãos, deixando-as pender, depois agarrou-se às hastes do tronco principal e soltou os pés do galho. Suas pernas bateram no tronco principal e ela escorregou um pouco, mas logo recuperou seu equilíbrio.
Foi subindo pelas hastes, até chegar ao cubículo periférico. Pulou em cima de uma cômoda, e ouviu um gato miar em algum lugar. Levantou o rosto. O bicho estava num galho, olhando pra ela com um olhar curioso.
A garota ficou em pé na cômoda. Levantou os braços, e impulsionou seu corpo pra cima. Subiu no galho, ficando em pé, e, se agarrando em galhos laterais, começou a andar. Subia ocasionalmente, sem saber aonde ia, e sabendo onde queria estar.
Chegou à ponta dos galhos, e se agarrou ao mais forte que pôde achar. Levantou o rosto, e olhou para cima, avistando o chão. Os balanços estavam lá, pendurados. Alguns tremiam pela ação do vento.
Então, ela o avistou, pulando de balanço em balanço, sem hesitação. Agarrava-se agilmente nas cordas, com passadas largas, olhando para baixo, para frente e para baixo de novo. De repente, ele olhou para a árvore. A garota não ousou respirar. Ele focalizou seu olhar por um momento, depois voltou a olhar para frente, sem dar atenção.
A garota esperou-o sumir de vista para poder continuar escalando a árvore.
* * *
Adélie tentava manter a maior integridade possível.
Coluna reta, queixo erguido, ombros pra trás, olhar fixo a frente. Mas sentia empurrões e toques, então seu lábio tremia.
-- Quanto oferece por ela? – ouviu o homem de boina dizer. Ela queria pular nele e cravar as unhas em seu rosto, mas continuou parada, e limitou-se a torcer os lábios.
-- 15 feklings – um homem barbudo na plateia disse.
-- Augustus ofereceu 15, 15 feklings, eu ouvi mais? Alguém?
-- 18 – outro homem narigudo disse, rindo. Os outros homens riram também. Alguns seguravam garrafas de bebida, e suas barbas pingavam.
-- 18! – o homem de cabelos grisalhos comemorou. – 18, por essa beldade – ele passou as mãos nas costas de Adélie, que contraiu os músculos. – Quem dá mais?
-- 39! – um homem disse, finalmente, erguendo a garrafa.
-- 39! – o homem de boina repetiu. – 39!
Consideraram que não dariam uma aposta maior, então se deram por satisfeitos. Empurraram Adélie da prancha, e ela caiu sob o vácuo, suspensa no chão, encolhida, de cabeça baixa. Leiloada por meros 39 feklings.
-- Um mekling – Adélie ouviu uma voz dizer. Era uma voz grave, mas ao mesmo tempo jovem. Levantou o rosto. No meio da multidão, uma figura alta, magra, com cabelos despenteados e rosto sério. Vestia uma blusa roxa, um colete verde escuro e preto, com uma gravata bege escura. Um sobretudo marrom. As calças beges sugeriam um estilo antigo, e os sapatos também.
Adélie se encolheu. Ele não parecia ameaçador, mas tinha uma expressão fria e olhos penetrantes. O homem olhou para o homem de boina, e repetiu:
-- Eu ofereço um mekling pela garota.
Adélie refez os cálculos. Desde a Ruptura, um mekling valia muito. Muito mesmo. Especialmente naquelas condições. Especialmente onde estava. Adélie olhou para o homem de boina, que gaguejou, e disse:
-- Hum... Teremos que ver...
-- Não, não teremos – o homem magro e alto respondeu, sem rodeios. – Eu te pago, eu levo a garota. Assim que vai ser.
-- Certo, senhor – o homem de cabelos grisalhos interromepu.
O homem alto e magro tirou um pequeno saco marrom amarrado com uma fita dourada. Ele estendeu para o homem de cabelos grisalhos. O homem abriu, e as moedas – várias delas – saíram flutuando do saco em alta velocidade, e depois foram subindo e subindo. Todos os rostos estavam voltados para cima, menos o do homem alto, que fixou os olhos em Adélie. As moedas subiram e subiram, até desaparecer de vista.
* * *
No chão alto, as moedas rodopiavam em círculos e brilhavam. Foram parar no chão, num círculo perfeito. Entraram pelas brechas das pedras, desapareceram por um minuto, e então tornaram a cair.
* * *
Os rostos virados pra cima se contorceram quando as moedas voltaram a cair. Adélie ser encolheu, mas as moedas passaram longe, voando novamente para o saquinho de onde saíram e permanecendo lá.
-- São de verdade – um homem murmurou, abismado. Os outros homens passavam os olhos dele para o garoto magro, e em seguida para a sacola onde o mekling estava depositado. – Deus, são de verdade!
-- Claro que sim – o garoto magro retrucou, bruscamente.
A postura do homem com o saco mudou. Encurvou-se, as mãos segurando humildemente o saco, os olhos gentis.
Nem parece um filho da puta, Adélie pensou.
-- Ora, senhor – disse, maneando a cabeça. – Suponho que, de alguém tão importante à ponto de oferecer um mekling, deveríamos todos saber no mínimo o nome, não?
-- Não é necessário – o garoto retrucou, com a voz mais fria do que gelo seco. Olhou para Adélie, estendendo-lhe a mão. – Vamos.
Adélie não se mexeu. Sentia-se como se não estivesse suspensa no ar, mas sim caindo. Tomou consciência de um braço puxando-a rudemente para cima, mas não era o garoto magro. Era um homem de boina.
-- Faça o mekling que ele gastou com você valer a pena – o homem de boina murmurou, atirando Adélie para o garoto magro. Adélie cambaleou. Os fios de seu cabelo moreno sujo soltaram-se do coque mal feito e balançaram. Alguns entraram na boca de Adélie. Ela puxou-os com a mão, fitando o garoto a sua frente.
Tinha um rosto que passava longe de ser feio. Nariz arrebitado, boca desenhada, olhos pequenos. No entanto, detalhes exibiam seus defeitos. Ele tinha olheiras, cabelo ensebado, cheiro de café. Olhando de perto, podia-se ver arranhões em suas roupas.
Adélie estava assustada, embora lutasse com seu medo, tentando fazer seus sentimentos ficarem o mais dentro possível. A mão ossuda do garoto segurou no braço de Adélie. Não rudemente, mas firme, como se dissesse: “Vamos, agora, por favor”.
O garoto começou a andar, levando uma Adélie cambaleante entre as pessoas da multidão. Os mercadores coloniais vestiam roupas sem graça, meio surradas, mas aquilo não era nada em comparação aos seus rostos. Tudo, de repente, parecia cinza, ou marrom. As cores todas eram opacas.
O pânico de Adélie fez seu lóbulo frontal desconectar-se de seu chip estabilizador, e ela se viu agitando os membros no ar, caindo no vácuo. Batia nas pessoas e, ocasionalmente, levava algumas juntas, mas elas logo se estabilizavam, grunhindo em desgosto e voltando ao trabalho.
Adélie agitou os membros no ar, até se dar conta de uma figura caindo junto a ela. A figura vestia tecidos pretos e marrons, e caía na mesma velocidade. De repente, Adélie sentiu um toque em seu braço, e se viu subitamente parada, suspensa no ar. Podia-se ver quilômetros e quilômetros de vácuo, e algumas pessoas em alguns níveis, olhando curiosamente para Adélie.
Ela se apoiou nos antebraços, mas sua mente ainda girava. O pânico era tão grande que ela teve medo de voltar a cair, mas a mão do garoto magro ainda segurava-a no lugar. Ela tombou para o lado, cansada, atordoada. Olhou para a figura que ainda segurava seu braço. Era o garoto magro.
-- Tome cuidado – ele disse, se levantando e tirando o pó da roupa. Adélie lembrou-se que estava em trapos, então levantou-se também. Seus olhos tinham o costume de estar extremamente arregalados, sempre, e naquele momento não era exceção.
O garoto alto olhou para ela.
-- Qual o seu nome? – ele perguntou. Adélie não respondeu. Ele continuou: -- O meu é Joseph. Para os amigos, Joe – ele sorriu, como que se divertindo. Adélie não esboçou reação, então ele explicou: -- Joe, sabe? Me chame de Joe.
-- Você é americano? – Adélie perguntou, de repente. A pergunta rondou na sua mente e saiu pelos seus lábios, subitamente.
-- Sou europeu – respondeu Joseph, ajeitando um relógio de pulso. – Bem, no tempo em que a Europa ainda era a Europa, né?
-- Inglês?
-- Inglês. Você é francesa, suponho?
Adélie fez que sim com a cabeça. Para um filho da puta, ele parecia bem calmo. Ela olhou para o relógio que ele estava arrumando. Pulseira de couro, com laterais douradas, e ponteiros finos e elegantes.
Do tipo que meu pai usaria, Adélie pensou, subitamente.
Do nada, sentiu a cabeça tontear, enquanto o rosto ficava vermelho. Só então percebeu que deveria estar em muito pânico. Seu pai estava morto, ela só tinha meios-irmãos perdidos, uma família que ela não sabia se estava viva, e estava sem casa, sem dinheiro, nem emprego. Nem roupas. Só ela e seus próprios pensamentos.
-- Hey – Joseph chamou-a. – Calma, eu não mordo, certo? Sou inglês, não russo – ele adicionou, com um sorrisinho. Adélie limpou o rosto. Tinha sido surpreendentemente forte até aquele momento, represando as lágrimas e as emoções, agindo apenas com sua razão, como se todos os seus sentimentos tivessem sido arrancados e substituídos por frieza.
Mas aquelas lágrimas mornas que rolaram pelo seu rosto derretiam todo o gelo que ela tinha aprendido a deixar envolvê-la. Ela tentou limpar o rosto, mas já era tarde, porque só então percebia o tamanho de seu medo. Tremia convulsivamente.
Sem família, amigos, livros, casa, qualquer um em que pudesse se apoiar, ela estava apenas suspensa no vácuo, pela mão de um estranho.
Olhou para Joseph, que parecia sem saber o que dizer.
-- Você não disse seu nome – Joseph disse, afinal. Adélie não respondeu, tentando represar os soluços. – Engula duas vezes, expire pelo nariz e engula de novo – Joseph pediu.
-- Pra quê? – Adélie quis saber.
-- De acordo com livros de medicina, é uma cura 99,9% eficaz para soluços – Joseph deu um sorrisinho.
Sem nada a perder, Adélie engoliu duas vezes, expirou pelo nariz e engoliu novamente. Esperou um momento por um soluço que não veio. Ela olhou para Joseph, que tinha um ar de satisfação.
Não sabia se aquele moleque estava apenas solitário, não sabia se ele a comprara como uma prostituta ou empregada, mas simplesmente não conseguiu correr. Estava com medo, mas não por causa daquele moleque, mas sim porque, se o pânico a dominasse, ela provavelmente voltaria a cair metros e metros, e aquilo apenas realçaria o quanto ela estava sozinha e descontrolada.
-- Obrigada – Adélie disse, com a voz rouca, Olhou para os lados. Era uma das plataformas de armazenamento de alimentos, de forma que se viam caixas de papelão em todos os lugares. Mas todas estavam vazias. Quero dizer, estavam cheias: de teias de aranha e de papéis, mas vazias de comida. Seguindo o olhar de Adélie, Joseph disse:
-- É lamentável, não? – ele indicou o lugar com a mão. – Isso tudo pertencia à alguém. A mim, a você, aquelas pessoas lá em cima. Então, o mundo inteiro enlouqueceu, pegou sua parte do tudo e saiu correndo – ele abanou a mão. – Desespero disperso por aí.
Adélie concordou com cada palavra, mas não disse nada. Em alguns pontos da plataforma, havia pessoas andando de um lado pra outro. Algumas chutavam caixas, outras desciam da plataforma para a plataforma de baixo. Outras, pulavam, agarravam a plataforma de cima e continuavam subindo.
Adélie olhou para Joseph novamente. Em seus olhos, havia algo... Como se ele realmente achasse lamentável. Não havia pânico, medo ou hesitação, apenas pena.
-- Adélie – ela disse, de repente. Joseph virou o rosto para ela.
-- Hã?
-- Adélie – ela repetiu. – Meu nome é Adélie.
-- A-dé-lie – Joseph repetiu. – Bonito nome.
Adélie olhou para as pessoas na plataforma abaixo. Pessoas de todos os gêneros. Iguais e diferentes ao mesmo tempo.
-- O que você vai fazer comigo? – Adélie perguntou. A expressão de Joseph mudou de calma para surpresa.
-- Eu? Nada – ele disse. – Eu nem te falei quem sou, né? Ora, você deve estar confusa.
Adélie estranhou aquelas palavras.
-- Bem, é meio que secreto. Bem secreto. Secretíssimo. Eu posso ser preso, morto, torturado... Bom, é meio difícil ser torturado quando já se está morto, né? – Joseph riu. Adélie continuou impassível. – Oh, bem... Eu vou te levar para um lugar seguro. Relativamente seguro. Bem, realmente não é nada seguro, mas nós podemos fingir que é, não é mesmo? De qualquer forma... É mais seguro que aqui.
-- Você me comprou como empregada ou puta? – Adélie interrompeu. Joseph arqueou as sobrancelhas.
-- Ora, você realmente está com a impressão errada sobre mim – ele disse.
-- Estou? Você me comprou por um mekling, me arrastou pra cá e está sendo gentil.
-- É claro que estou sendo gentil. Sou inglês. Vocês, franceses, são todos grossos? Que vida mais estressante que vocês devem ter – ele deu um meio sorriso. Quando Adélie não retribuiu, ele continuou: -- Se bem que todo mundo tem uma vida estressante desde a Ruptura, né?
Adélie se surpreendeu. Poucas pessoas falavam em voz alta sobre a Ruptura. Fora duro para todos, especialmente para a classe dominante, quando todo o mundo deles desmoronou. As classes baixas tomaram poder, as altas foram rebaixadas. Mas, por incrível que pareça, ninguém ganhou.
Numa guerra, não há vencedores, Adélie lembrou-se das palavras de seu pai, se segurando novamente para manter as lágrimas dentro dela.
Aquele garoto, de certa forma, parecia ser da classe dominante. Mas ele parecia tão normal que Adélie não se surpreenderia ao vê-lo numa multidão. Depois da Ruptura, muitos da classe dominante eram obrigados a fazer o que normalmente eles oprimiam: viver como gente normal.
-- Você vai me espancar ou algo assim? – Adélie perguntou.
-- Por que eu te espancaria?
-- Pra me manter quieta?
-- Quieta sobre o quê?
-- Eu sei lá. Estupro.
-- Você estuprou alguém?
-- O quê? Não.
-- Então o que você tá falando sobre estupro?
-- Você não vai me estuprar?
-- Se eu quisesse transar com alguém eu ia contratar uma prostituta.
-- Não acha que sou prostituta?
-- Você é?
-- Não.
-- Claro que não. Uma prostituta não ia se preocupar em quem ia comprar ela, ia?
Adélie calou-se. De certa forma, de nada adiantava insistir para saber algo. Pressionar aquele moleque não adiantava nada.
Joseph pulou, agarrou a plataforma superior com a mão direita e estendeu a esquerda para baixo, na direção de Adélie, sorrindo simpaticamente.
-- Venha – ele pediu. – Vamos tomar um chá inglês? Ou um vinho francês?
Adélie não respondeu, não esboçou reação. Estendeu a mão para Joseph, e deixou-se ser levantada de plataforma.
* * *
Na ponta da árvore, a garota tirou do bolso o pedaço de papel dobrado. Abriu. Leu e releu, ansiosa, perguntando-se se deixara passar alguma coisa.
Joe,
Eu estou viva. Estou cansada, não sei exatamente em que área do Povoamento me encontro, mas eu estou viva e lutando. Eu o avistei, em algum lugar por perto. Eu podia te dizer onde, mas andei muito, perdi o senso de direção. Acho que é algum lugar ao norte, porque eu estou com muito frio. Porque ao norte é sempre mais frio?
Se eu não te achar, saiba que eu sinto muito por ter sido uma ignorante. De certa forma, você não entende como, mas foi minha culpa. A Ruptura.
Meu irmão, Só lute com tudo o que eu não pude lutar.
Com muito amor,
Jac.
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