Abiodun
2 Primeiro
Notas iniciais
Grande parte dos membros daquela aldeia nunca haviam visto de perto homens como aqueles; eram sujeitos engraçados, de pele rosada e vestes estranhas. Chegaram trazidos pelo mesmo mar que levava embora as oferendas a Olorun.
Vinham fazer comércio, como disseram ao chefe da tribo. Presentearam as crianças com coisas vindas de sua terra, trocaram objetos exóticos por artefatos de pouco valor.
Todos os homens negros zombavam da ingenuidade do homem branco.
Um dia, porém, um deles fez uma proposta. Além-mar, existia uma terra distante; nela, precisava-se de pessoas para habitar, plantar, colonizar.
As promessas eram muitas: solos que produziam qualquer coisa, chuvas abundantes, animais cuja carne deleitaria o mais exigente dos homens; felicidade...
Se essa história fosse contada alguns séculos mais tarde, dir-se-ia que ele servira-lhes uma porção de perspectiva fresca, agradável e bem temperada.
O primeiro a aceitar foi um dos mais respeitados aldeões, atraindo dúzias de outros atrás de si. No dia da partida, despediu-se de sua esposa com um beijo, de seus dois filhos com um abraço e de sua casa com um aceno. Prometeu reunir riquezas o bastante para buscá-los o quanto antes, para que todos pudessem viver juntos no paraíso.
Seu pesadelo teve início logo que colocou os pés no navio. Foi amarrado, torturado, espremido com outras centenas de africanos num porão que cheirava a urina; deixado lá por semanas. Se reclamasse, castigavam-lhe; quem se rebelasse, morria. Os que sobrevivessem à viagem nunca mais seriam donos de seus próprios corpos.
Naquele momento, todos os brancos zombavam da ingenuidade do homem negro.
Abiodun resolveu esquecer-se do remorso e das lembranças de seus erros que lhe atormentavam. E, naquela noite, apreciando o contraste do céu estrelado com a linha escura do horizonte, adormeceu. A saudade do que deixara já era tão grande que lhe escorria pelos olhos.
Fale com o autor