Abdication
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Melanie olhou para os lados, perdida. Ouviu os estalos da cerca e parou. Era possível ouvir a metros de distância a cerca e o medo de tomar um choque era grande. Preferia ficar viva. Uma escolha que Morgana não tinha. Ela conseguia ouvir o passo apressado de Josh atrás dela, correndo para acompanhá-la. Seus braços a envolvem pela cintura e seus lábios tocam os dela. Eles ficam em silêncio, no ar apenas o som da respiração enquanto lágrimas silenciosas escorrem dos olhos de Melanie.
– Você fez o que deveria ser feito.
– Morgana morreu porque na minha cabeça ela era Amber.
Josh beija o topo de sua cabeça, depois sua testa... Melanie não o deixa passar daí. Seu rosto está cheio de respingos de sangue. A morena sentia o líquido secando e se agarrando a sua pele, como se fosse seu, para mostrar que o peso dessa morte caminharia para sempre ao seu lado.
Ela o afasta.
– Eu matei alguém, Josh. Será que podemos focar nisso?
– Eu estou tentando fazer você esquecer.
– Não é algo que eu vou simplesmente apagar da minha memória — ela aponta para o corpo de Morgana. — Eu não a matei com um tiro na testa, rápido e quase indolor. Digo, olha o que eu fiz! Eu estraçalhei o corpo dela como uma besta faria com um inocente.
– Vivendo no norte, mais cedo ou mais tarde sangue aparece nas suas mãos.
Melanie não consegue acreditar nas palavras que saem da boca de Josh. Ela estava apavorada com o fato de estar se tornando como Vincent, mas na verdade alguém já havia se tornado: Josh. E ela estava no caminho.
– Você deve estar acostumado com isso, não é? A morte, o gosto do sangue, o cheiro fétido dos corpos... eu vivi nas ruas por setecentos e quarenta e cinco dias, exatos dois anos, duas semanas e um dia. Eu nunca havia matado alguém.
Ela aponta para o corpo de Morgana.
– Você já viu alguém fazer isso com um corpo? Você já imaginou que a sua namorada cortaria um corpo em pedaços por você?
Josh então percebe a gravidade da situação. Melanie estava horrorizada. Apesar de ter passado por tantas coisas difíceis, sentia que aquilo era pior e ele deveria estar lá para apoia-la. Ela estava se culpando por algo que fez em um momento de inconsciência.
A primeira morte cometida sempre é a pior. Ele se lembra de quando matou pela primeira vez, do que seu pai o disse.
Foque em um sentimento. Foque em algo que o definirá pelo resto da vida. Quando matar alguém, foque sempre nesse sentimento e nunca mais se ficará perdido.
Mas em menos de cinco horas eles entrariam em um avião e iriam para casa, cada um para o seu caminho.
Ele pega o rosto dela entre as mãos.
– Me escute, Mellie: é difícil? Sim. É pior ainda quando é alguém inocente, mas pense na situação. A Diretoria obrigou vocês a irem em direção à morte, a participar de uma chacina. Não é algo que você poderia evitar.
– Morgana era extremamente irritante, mas eu não precisava ter a matado. E eu a matei simplesmente porque imaginei que era a noiva do cara que eu amo.
Mais lágrimas escorrem dos seus olhos, fazendo uma bagunça no seu rosto ao se misturar com o sangue.
– E tudo foi em vão, no final, porque amanhã iremos para caminhos diferentes. Eu imaginei que estava matando Amber e... — ela cobre o rosto com as mãos. — Deus, que vergonha. Na minha cabeça isso solucionaria nossos problemas. Na minha mente insana poderíamos ficar juntos. Mas ainda tem Vincent e eu seria morta porque matei uma nobre e... o que eu estava pensando?
– Eu sirvo ao Primeiro Exército. Nos veremos constantemente na mansão Fieldmann.
– Eu não posso... você não entende. Eu tenho uma dívida com Vincent e ela deve ser paga. Estarei amarrada a ele por sabe-se lá quanto tempo. Estando comigo, ele irá te machucar se o ver por perto.
– Eu não ligo.
– Você irá se casar.
– Você será a amante do cara mais poderoso do norte.
A morena suspira.
Josh tenta beijá-la, mas Melanie se afasta. Com o olhar magoado, ele diz:
– E Amber?
– Não vou casar com ela. Eu prometo.
– Promessas — ela suspira. — Promessas que você faz sabendo que não pode cumprir.
Melanie decide que não quer isso pra sua vida. Ela não podia... Josh tinha, como Herbert a disse uma vez, seu destino traçado. Ela não tinha o direito... agora percebia claramente. Josh é o tipo de cara que ficará a enrolando, vai ficando com ela até enjoar e jogá-la fora, depois vai voltar para Amber. A loira havia a dito isso uma vez. Todos os homens são assim, por que com Josh seria diferente?
Melanie se sentia tão estúpida por ter se humilhado tantas vezes para ter aquele homem.
– Eu tenho que enterrar um corpo — ela diz, por fim — e arrumar minhas malas.
– Mellie — Josh a puxa de volta, mas Melanie se desvincilha dele. — O que foi?
– Eu preciso fazer isso.
– O que está acontecendo?
– EU TIREI A VIDA DE UMA PESSOA! — ela berra. — Morgana poderia não ser tão inocente assim, mas eu a matei! Eu não sou assim, Josh. Eu não quero ser assim. E se eu estiver me tornando esse tipo de monstro, vou lutar com todas as minhas forças para que isso não aconteça.
Ela suspira, passando os dedos pelos cabelos. Uma mania que adquiriu de Josh.
– Depois de te conhecer eu comecei a sentir. Você está acontecendo.
Ele não sabe o que dizer.
– Desde que decidi entrar no PMI, minha vida virou uma bagunça. O chefão quer que eu seja dele, você também diz que me quer, mas nunca fez o menor esforço para me ter, e tem Tyler e Andrew e... eu não quero isso. Não quero isso para mim. Eu matei alguém — ela sente o sangue de Morgana voltar a grudar em suas bochechas e ela tenta, em vão, limpá-lo, fazendo uma bagunça ainda maior. Ela volta a chorar. — Eu estou coberta de sangue. Eu sou uma assassina e isso não vai passar. Eu não vou esquecer.
– Como assim eu nunca fiz o menos esforço pra te ter? — ele indaga. — Eu estou arriscando uma carreira porque sou idiota demais de me apaixonar por uma das minhas alunas. Eu posso ser destituído, posso ser expulso do Primeiro Exército!
Josh respira fundo.
– Eu estou aqui, com você, podendo perder tudo a qualquer momento. Ser Comandante sempre foi minha vida, Mellie, e eu estou arriscando tudo isso por você. Estou arriscando tudo isso porque eu te amo.
Melanie o escutava, mas só conseguia pensar que precisava limpar o sangue do seu rosto. Pensava que tinha que ficar longe dessas pessoas que acham que assassinato é normal porque ela não é assim, não quer ser assim. Foi criada ao redor de armas, foi treinada para domá-las para a segurança, não para usá-las para matar.
– E eu não vou deixar você perder isso por minha causa.
– O quê? — ele sussurra, incrédulo.
– Eu estou te deixando livre para casar com Amber, ser Comandante e o pacote completo.
– Melanie, não faz isso...
– Eu não quero alguém pela metade, Josh! — a morena explode. — Eu vivi minha vida inteira pela metade, sempre tendo que dividir tudo que eu conseguia. Comida, roupas e sapatos? Tudo para o meu irmão. Eu sempre fiquei com as sobras e, sinceramente, eu acho que mereço algo inteiro dessa vez. Se você não estiver inteiro não é pra ser, eu não o quero pela metade.
– E você acha que Vincent virá inteiro? Ou qualquer outro?
Ela se lembra da conversa que teve com Benjamin Beckering mais cedo.
– Seu pai me pediu para escolher: você ou seu irmão. Bom, pode dizer a Herbert que eu já escolhi e não escolho nenhum dos dois. Eu escolho a mim mesma. Eu escolho viver a minha vida. Eu escolho Melanie Hemingski.
+++
Tyler observa o refeitório vazio. Todos estavam se arrumando para ir embora. Ele deveria estar na reunião da Diretoria. Todos estavam lá.
Eu nunca quis vir para cá mesmo, ele dá de ombros. Não me importa.
Uma mão fria toca seu ombro e ele se vira. Amber.
– Onde você estava de madrugada?
– Na cozinha — ele mente. — Você sabia que eles fazem burritos? Eu descobri que adoro burritos.
– Não minta. Eu sou melhor nisso do que você.
– Você não é a irmã mais velha, para de me encher e vai pra lá.
Amber o segura pelo punho e rosna:
– Eu quero saber onde você estava que não era na Diretoria.
Tyler se afasta bruscamente e acerta um tapa no rosto de sua irmã que a faz cair no chão.
– Nunca mais encoste em mim dessa maneira.
Amber sorri.
– Deve ser por isso que Heather prestou queixa. Além de quase matar a namorada, vai espancar a irmã?
Tyler aponta o dedo para o rosto dela, nervoso.
– Você não sabe de nada. Tudo isso aconteceu pelos erros do nosso pai e eu quis tanto matá-lo por me esconder a verdade que eu... — ele pareceu perceber com quem estava falando e parou. — Você é uma peste, Amber, agora dê o fora daqui.
+++
Melanie se lembra do seu desespero ao tentar enterrar o corpo da garota. Havia cavado uma cova improvisada e embalado seu corpo em uma lona para dormir. Depois a rolou até a cova e começou a jogar terra em cima.
Estava traumatizada demais para pensar em qualquer coisa, mas suas emoções estavam a mil. Precisava ser forte. Tinha que enfrentar isso e voltar para o chalé e arrumar suas coisas. Todos mataram alguém. Ela não entendia porquê se sentia tão mal. Essa garota talvez tenha matado alguém. De acordo com suas raízes, é provável que tenha o feito.
Porém, Melanie não consegue entender porquê com ela é diferente. Seria tão mais fácil ser fria e não ligar para nada disso.
Quando termina de jogar terra em cima de Morgana, ela decide voltar para o refeitório e segue esse caminho, mas acaba pisando em falso e caindo.
Suas costelas se encontram várias vezes com o chão enquanto ela rola morro abaixo. Não há barulho algum na mata além do estalar da cerca. A dor lancinante a inunda e ela segura um grito de dor, porque talvez não esteja sozinha.
A morena caminha de maneira silenciosa até uns arbustos, tentando não pisar em nenhum galho. Aquele lugar era esquisito, sabe-se lá o que ela podia encontrar. Tudo o que sabia era que estava perdida e em poucas horas todos partiriam. Ela não podia ficar para trás.
Melanie ouve vozes não muito longe dali e decide segui-las. Talvez fosse alguém do acampamento. Ela perdeu sua arma, mas na mochila ainda havia um pouco de água e facas, além da lanterna. Logo iria amanhecer, o céu estava começando a acinzentar.
Melanie retira as facas da mochila e as guarda no cinto. Ela segue as vezes e depois de caminhar com cuidado, ela para. Está perto do mar, ouve o quebrar das ondas, mas não há sinal do cais, o que significa que ela está do outro lado da ilha. Então se seguir as águas pode encontrar o acampamento novamente.
Ela quase revela seu esconderijo atrás dos arbustos quando percebe que há pessoas na costa. Eles não falam o Idioma Comum. É algo totalmente diferente do que ela já ouviu.
– Szdravai winibah incendia — um homem com voz extremamente grossa profere. — Octhnikia esthrien kilius y blund.
O que diabos esse homem está falando?
– Octhnikia sta kiliamus os tropkiski — uma mulher vociferou. — Szdravai thamus ba kilim y blund.
– Szdravai winibah croktin. Szdravai winibah kilim. Szdravai winibah tumaka.
A mulher virou-se para um monte de gravetos. Esfregou pedras que pegaram fogo e as largou no morte. Outros começaram a aparecer e Melanie percebeu que a fogueira era gigante. Não havia pinturas no rosto ou no corpo, eles não andavam curvados e nem com lanças, martelos e outras ferramentas medievais. Não eram nativos.
O que eram, então?
Uma mulher de calça jeans clara e surrada e jaqueta de couro marrom batida apareceu. Os cabelos extremamente loiros presos em um rabo de cavalo muito bem feito. Não era possível ver qualquer outro detalhe, mas não parecia exalar poder, não como Vincent.
Mas as pessoas se curvavam diante dela. A reverenciavam.
– Thunk os tropkiski — ela pediu.
Um garoto e uma garota de cabelos loiros vivos apareceram. Estavam de mãos atadas, com trapos na boca e sangue espalhados pelo rosto. Eram tão parecidos... Eles chegaram mais perto e Melanie pôde ver quem eram: Benjamin e Beatrice.
– Kili os tropkiski! — o homem de antes berra, puxando o coro. — Croktin y blund! Croktin y blund! Croktin y blund!
A mulher levanta a mão e no mesmo instante eles se silenciam.
– Kemah no thamus ba croktin y blund! — ela grita. — Kemah thamus ba uah incendia! Kemah thamus tumaka y blund!
As pessoas berram, alegres. Elas comemoravam como nunca. Melanie percebe que estão levando Benjamin e Beatrice para a fogueira.
De repente, Melanie parece entender.
Incendia. Incêndio, que poderia ser fogo. Blund. Blood. Kilim. Kilius. Kili. Kill.
Fogo. Sangue. Morte.
Eles não vão só derramar o sangue de ambos. Vão queimá-los vivos.
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