Abdication
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Melanie viu no treinador do PMI uma oportunidade, por isso quando a noite chegou, ela pegou o cartão que ele havia deixado com ela mais cedo e foi para a casa dele.
Não era difícil encontrar homens bonitos e ricos por ali. Melanie tinha alguns critérios: o cara tinha que ser bonito, rico e não podia ter mais de quarenta anos. Suas três leis da vida a tirava vários clientes, mas ela não se importava. Não ia dormir com alguém de dentes tortos ou com um velho babão. Nunca na vida.
Tyler Whitmore, além de extremamente bonito, é rico e jovem. Não havia o porquê ela não ficar com ele.
Quando Melanie caiu para o outro lado da cama, viu que estava bem mais escuro do que quando ela chegara. Quantas horas ela havia passado na cama daquele homem? Ela não sabia, mas agora que ele havia conseguido o que queria era a vez dela.
– Hum, você é incrível — ele murmura no ouvido dela. — Aquele negócio que você faz com as mãos...
– Será que eu posso te pedir um favor? — ela o interrompe.
– Tudo o que você quiser.
– Eu preciso que você arranje uma identificação para mim.
– Uou, calma aí. Isso não é tão fácil de se conseguir assim...
– Você ficou em terceiro no PMI, foi um militar, hoje é um treinador. É rico, influente... Seu pai é o Conde Frederick Whitmore. Acho que você pode conseguir isso para mim, não é mesmo?
Bajular o homem sempre funcionava, Melanie havia aprendido isso nos seus primeiros dias na rua. Tyler se levantou da cama, fez alguns telefonemas e...
– Você vai comigo amanhã de manhã fazer o seu identificador.
Ela sorri, maravilhada.
– Como você conseguiu?
– Eu sou rico, influente... meu pai é o Conde Frederick Whitmore — ele a imita.
Melanie joga uma almofada nele.
– Obrigada — ela agradece depois de tudo.
– Que tal me agradecer com mais uma rodada?
– Você paga o dobro? — favores são favores, o seu modo de sustento é algo a parte.
– O triplo, o quadruplo... — ele puxa a morena para si. — Tudo o que você quiser.
+++
Depois de saírem de uma casa enorme e amarela de um amigo do treinador do PMI, Tyler puxou Melanie para um beco e começou a beijá-la intensamente.
– Você é um viciado em sexo, não é mesmo? — ela questionou, o afastando. — Quando eu vou conseguir o meu identificador?
– Estamos fazendo isso de modo ilegal. Meu amigo vai fazer o seu identificador e vai invadir o sistema do governo, a inserindo lá como se você tivesse o seu identificador desde que nasceu. Provavelmente uma semana.
– Ótimo — ela diz. — Tenho que ir.
Ele havia a pagado mais cedo, então ela sumiu no meio daqueles labirintos que eram os becos. Melanie havia tomado café da manhã no apartamento de Tyler, então não sentia fome. Ela caminhou pelos setores em busca de um bar e entrou em um quando já estava cansada de caminhar.
– Uísque — ela pede.
Melanie pensava em tomar só uma dose, mas acabou exagerando. Quando sentiu fome pegou um pouco do dinheiro e comprou um lanche de queijo, salada, hambúrguer, bacon e etc., além de uma lata de refrigerante. Depois ela saiu do bar e começou a caminhar pelos setores. Não havia muito o que fazer durante a tarde.
Então começou a chover. As gotas vieram rapidamente e o céu que estava lindo e claro ficou escuro e se encheu de raios. Melanie percebeu que estava no setor Manske, o setor de jornalismo do norte. Frömming é um país muito grande, então tem o setor de jornalismo do sul e do norte.
A morena enrolou o cobertor azul ao redor do seu corpo e se dirigiu para debaixo da lona de uma loja. Melanie nem percebeu as horas passando porque a chuva não parou nenhum segundo e só piorou. O seu frio aumentou e ela começou a ter calafrios. Por dentro ela sentia o seu corpo aquecido, mas conforme as gotículas iam caindo, ela sentia o frio percorrer o seu corpo.
– Ei — ela ouve alguém a chamando. — Ei, garota!
Um carro preto está parado na frente dela. Melanie caminha até ele e dá de cara com um menino de cabelos castanhos escuros bagunçados e olhos azuis brilhantes.
– Por que você não vai pra casa? — ele pergunta. — Está frio e está chovendo.
– Eu não tenho casa — ela responde com a voz meio enguiçada por causa do frio.
Ele olha para ela ali, parada na chuva, tremendo de frio. Melanie percebeu o olhar dele sobre ela.
– Não se preocupe, eu vivo assim a muito tempo. A chuva logo vai embora e eu ficarei bem. Não se preocupe.
– Muito tempo? — ele pergunta, horrorizado. — Quanto tempo?
– Dois anos.
Melanie percebe o olhar de indignação dele.
– Como você consegue viver assim?
– Eu não tenho alternativa.
Então ele sai do carro, vai até ela e abre a porta de carona para ela entrar. Melanie olha para ele hesitantemente. Ele estava tentando ajudá-la, pelo menos é o que parecia estar fazendo. Afinal o que ele poderia fazer contra ela? Estuprá-la? Sexo não é algo que a assuste hoje em dia. Matá-la? Melanie só precisaria de uma faca para impedi-lo antes que ele piscasse. Não havia motivo para ela rejeitar a ajuda dele.
Melanie entrou no carro, molhou todo o banco de coro enquanto o garoto dirigia para sabe-se lá onde. Ela encostou a cabeça no vidro e acabou adormecendo.
+++
– O que está acontecendo? — Melanie pergunta. — O que eles estão fazendo aqui?
– É noite de batida, querida — Valentina fala. — Pegue seu identificador. Vamos.
Melanie corre até a gaveta da mesinha em que ela sempre deixa o seu identificador, mas ele não está lá. Ela acende a luz e retira a gaveta, mas não o acha de jeito nenhum.
– Mãe — ela chama por Valentina. — Mãe!
– Melanie, o que foi? — ela aparece correndo.
– Sumiu — ela murmura. — Meu identificador sumiu.
A mãe se desespera.
– Melanie, você não pode ser vista sem ele. Se os soldados virem você sem o seu identificador...
Eles batem a porta.
– Batida! — um homem berra com voz grossa. — Os proprietários tem dez segundos para se apresentarem com seus identificadores ou entraremos a força.
– Mãe... Mãe, o que eu faço?
– Melanie, vem — Derek aparece. — Você sai pelos fundos.
– Como é?
– Rápido antes que eles cerquem a casa — o irmão a puxa e a empurra para fora.
Melanie ouve os soldados entrarem, revistarem a casa e pedir o identificador de Valentina e Derek.
– Aqui consta que a senhora tem uma filha mais velha — um dos soldados fala. — Onde ela está?
– Ela... ela... ela está...
– Morta — Derek responde pela mãe. — Trabalhar em um setor que produz armas é perigoso, os senhores sabem. Ela morreu durante uns testes essa semana.
Os soldados ficam convencido com a confiança que ele fala e vão embora. Melanie entra de novo na casa quando os ouve bater na porta da casa ao lado.
– O que você vai fazer agora, Mellie? — Derek pergunta.
Ela pensa no assunto. Dessa vez conseguiu escapar, mas as batidas eram constantes e ela não podia arriscar a liberdade da sua família por sua culpa.
– Eu não tenho alternativa — ele fala, balançando a cabeça. — Eu vou sair de casa.
Melanie acorda assustada. A lembrança do dia em que ela saiu de casa ainda a machuca muito. A verdade a aterrorizou por dias e ela ainda chorava quando pensava naquela noite. Onde diabos estaria o seu identificador? Ninguém nunca havia o encontrado.
Ela olha ao redor e percebe que não está nas ruas e que nunca havia visto aquele quarto antes. As paredes são azuis claras, a cama é de casal e há cobertas peludas em cima dela. Há uma escrivaninha no canto e alguns livros sobre ela, um tapete grande cobre todo o quarto, há um enorme guarda-roupa com portas transparentes ocupando uma parede toda e há uma porta aberta que provavelmente dá para o banheiro. Além disso, há outra porta fechada perto da escrivaninha. Em cima do criado-mudo, ao lado da cama, há um copo de água e um porta-retrato de um homem com uma mulher ao seu lado e dois meninos e uma menina. Ela reconhece um dos garotos como o cara que a ajudou ontem, porém mais novo, e começa a se lembrar de tudo.
Ele entra no quarto carregando uma bandeja com comida. Morangos, uvas, chocolate, suco de laranja, pão, queijo, manteiga e várias outras coisas enchem a bandeja. Melanie não via tanta comida junta na sua vida há muito tempo. Ela se senta rapidamente e ele coloca a bandeja no colo dela.
– Bom dia.
– Bom dia — ela pega um morango e mergulha no chocolate. — Quem é você?
Ele sorri e encosta a mão na testa dela.
– A sua febre é interna — ele pega o termômetro e afasta o segundo morango que está a caminho da boca de Melanie. Ele coloca o termômetro na boca dela e Melanie ouve o objeto fazer bipe em um intervalo de mais ou menos três segundos.
Bipe.
– Quem é você? — ela pergunta de novo.
Bipe.
Bipe.
Bipe.
Nove, dez segundos se passam. Ela conta.
– Meu nome é Andrew — ele fala. — Andrew Duninghan.
– Hum.
Ela conhece esse sobrenome de algum lugar. Ela vasculha a sua mente de pessoas importantes, tenta ver rostos, nomes, lugares. Ela se lembra de estar no setor Manske, ela conhece o sobrenome Duninghan, os olhos de Andrew não lhe são estranhos...
– Você é parente do Marquês Herbert Duninghan?
Andrew sorri.
– É meu pai.
– Ah.
Ela não diz nada. Não conhecia Herbert, mas sabia que além do título de nobreza, ele foi apresentador do PMI nas duas últimas edições. As pessoas o adoram, ele é muito bem-humorado e tem um semblante bem alegre. Seus olhos azuis costumam contagiar os participantes do programa.
– Eu sempre me perguntei porque o seu pai é o único cara com título de nobreza que não vive no setor Fieldmann.
– Meu pai, antes de receber o título de marquês de Vincent, era um apresentador de TV. Sempre foi assim e ele preferiu não mudar quando se tornou mais... conhecido.
– Mais rico, mais influente... — ela fala. — Ele quer mostrar a todos que ele não mudou, mesmo estando mais poderoso.
Andrew concorda.
– Você não pode falar muito — ele alerta. — Pode alterar o resultado.
O termômetro faz um bipe, bipe, bipe continuo e Andrew o retira da boca de Melanie.
– Está mais baixo.
– Quanto?
– 38ºC.
– 38? — Melanie se assusta. — Você chama isso de baixo?
– Está mais baixo do que antes.
Melanie respira fundo e pega uma uva.
– Sabe, eu sinto como se eu tivesse dormido por dias.
Ele fica a olhando comer, sorrindo. Melanie acha isso estranho. Ela come tudo muito rápido e ele deve estar tirando sarro dela por dentro.
– Por que você me olha? — ela pergunta.
– Eu gosto de como você é espontânea.
Ela faz uma careta.
– Você nem me conhece.
– Então me diz o seu nome.
– Melanie — sua língua solta antes que ela possa a conter. — Melanie Hemingski.
– Seja bem-vinda ao setor Manske, Melanie Hemingski. Você pode ficar aqui o tempo que desejar.
Melanie olha ao redor. Se pudesse, ficaria para sempre.
Fale com o autor