Abdication
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Quinze anos atrás
Valentina sorri quando o vê. Seu dia tinha sido uma porcaria e vê-lo ali a fez se sentir um pouco melhor.
– Como você está, meu amor?
– Cansado de viajar... de qualquer forma, acho que vou tomar um banho, hum?
Valentina retira a jaqueta dele com calma e a leva para o quarto.
– Você não estranha? — ela pergunta enquanto liga o chuveiro do banheiro do seu quarto no morno. — Quero dizer, estar em um palácio no Sul e de repente vir para uma casinha no Norte.
– Você salvou minha vida, Vale. Naquele acidente... eu estaria morto se não fosse por você. Sou eternamente grato por isso.
– Então é disso que se trata? Gratidão? — ela questiona, voltando para o quarto e cruzando os braços. — Melanie foi gerada à base de gratidão?
Ele sorri.
– Essa casinha no Norte, você, Melanie... esse é o meu refúgio. O meu porto seguro. Minha válvula de escape. A fuga de todos os problemas do país, da minha mulher e do meu irmão, também tem a filha que eu pensava que era minha...
– Como assim?
Ele a olha com certa tristeza.
– Katerina é filha do meu irmão. Harriet e Joffrey a geraram antes de eu e ela nos casarmos.
– Mas Katerina... ela é uma criança. Não tem culpa.
– Eu sei. E eu a amo, mas queria tanto esquecer do Sul por alguns momentos — ele toca o rosto de Valentina — e eu sinto que em breve eu posso sentir algo semelhante a amor por você.
Valentina sorri.
– Eu o amo desde a primeira vez que o vi, Kurt.
Então ela sela os seus lábios com os lábios finos do ruivo, o rei de Frömming.
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Dias atuais
Melanie foi para o chalé trocar de roupa. O seu uniforma, mesmo sendo preto, estava ensopado de sangue. Ela aproveitou para tomar banho também. Lavou os cabelos, esfregou bem o rosto. O sangue falso parecia impregnado. Quando saiu do banheiro, ela viu Hillary trocando os tênis por uma bota de couro preta.
– É verdade?
Apenas as duas estão no chalé. Melanie percebe isso porque todos são barulhentos e há um silêncio incomum estabelecido.
– O quê?
– Você e o Comandante Duninghan.
Melanie força uma careta.
– Eu não sei do que você está falando.
– Sabe sim. Não finja. Não para mim.
Melanie temia que Hillary a dedurasse para Vincent. Sabia como o Senhor de Meurer poderia ser manipulador quando queria.
De qualquer forma, não havia porquê negar. Hillary sabia. Mesmo assim, ela não se rende fácil.
– E você sabia que o seu pai fica dando em cima de mim?
– Já haviam me informado sobre o assunto...
– Sobre o assunto... então é assim que você lida com a pedofilia do seu pai?
– Você não é de menor.
– Então é isso — Melanie cruza os braços. — É bom saber que Matthew se importa com uma garota que não é nem um cubo de gelo, é um iceberg.
Ela a olha por uma última vez.
– Eu tenho pena dele — a Hemingski diz antes de sair.
A morena pega seu novo uniforme na lavanderia, onde deu de cara com Josh.
– Desde quando o Destruidor vem à lavanderia?
– Estou apenas cuidando para que você não mate ninguém.
– Então agora você está preocupado comigo?
– Com a ameaça que o seu descontrole hoje mais cedo representa.
– Eu sou uma assassina por acaso? Quem foi que eu matei? Bonecos de lego de uma simulação? Que sangue que eu derramei? Falso.
– Você é um perigo para Amber, Frederick disse. Todos viram como você estraçalhou os bonecos pensando que era ela. Ele me mandou ficar de olho.
– E você foi como uma cadelinha obedecendo... — ela suspira. — Não fique tão chateado, mas eu não irei matá-la. Eu tenho tudo sobre controle.
– Tem? — Melanie sente a dúvida na voz dele.
– Me diga você, treinador.
– O que você está querendo dizer?
– Estou perguntando a você, meu treinador, como deveria estar meu emocional agora. O homem que eu amava e que achava que sentia o mesmo por mim está com uma vagabunda que não me suporta e o meu ex nem olha na minha cara. Foi tudo de uma vez. Você, como um especialista, como reagiria em uma situação dessas?
– Eu seguiria em frente.
Melanie dá um sorriso debochado.
– Quem ama de verdade não segue em frente.
– Melanie...
– Me diga a verdade: o que o treinador Joshua Duninghan faria se estivesse no meu lugar?
– Provavelmente daria um soco em alguém.
A morena sorri falsamente.
– Não se preocupe, treinador. Afinal eu sou ótima em esconder os meus sentimentos.
É tão ruim agir como se fossem desconhecidos. Soltando ironias, palavras pingando sarcasmo e nojo, a raiva estampado no rosto quando e o desprezo incrustado em cada ato, quando na verdade a mente diz que tudo é errado, mas o coração clama por um toque cheio de fervor.
Melanie sente o amor borbulhar dentro dela, implorando para que Josh pare de ignorá-la, a puxe pela cintura e a beije. Porém ela está cansada de se humilhar, nunca correria atrás dele. Ela não quer fazer papel de trouxa de novo.
– Você não consegue mentir para mim.
Ela dá de ombros.
– Bem que Tyler me disse que você não me amava.
– O quê? — Josh sussurra, como se acordasse de um devaneio.
– Tyler tentou me alertar dos seus "sentimentos" — ela faz aspas com os dedos — por mim.
– Você pensa que eu fui falso?
– Você por acaso se importa com o que eu penso?
– Responda a minha pergunta.
Melanie dá de ombros.
– Eu nunca — Josh se aproxima, a fazendo recuar até as prateleiras cheias de roupas negras -, nunca mesmo, menti para você sobre os meus sentimentos. Foi real.
– E onde foi parar todo aquele amor que você jurava sentir?
– Melanie, por favor... eu não quero...
– Andrew pediu isso? Ele disse alguma coisa para você me deixar?
– Eu fiz a minha escolha.
Melanie dá o contorno em Josh, indo para a porta da lavanderia.
– Você não vai precisar se preocupar em me manter afastada por muito tempo.
– Sim. Há apenas mais um mês de PMI.
– Eu não estava falando sobre isso.
Josh sabe do que ela está falando. Vincent. Ela havia contado a ele que o irmão está infectado com A Praga e que faria de tudo para ele sobreviver. Josh sabia disso, apenas temia que Melanie aceitasse. Algo dentro dele se negava a ser condescendente com isso, ele queria acreditar que ela não se venderia, mas quando a vida de um irmão está em jogo... ele se lembra de ter acabado a amizade de anos com Tyler por causa de Heather. Sua irmã sofreu demais e ele decidiu tomar uma atitude, sabendo das consequências. Ele fez uma escolha. Melanie também fez a dela.
– Eu não serei mais uma ameaça para o seu relacionamento e nem para ninguém que já passarei o resto dos meus dias trancada no palácio do maldito.
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Melanie se ajeitou na cadeira branca enquanto esperava a sua vez chegar. Depois de conversar com Josh, sua cabeça doía tanto que chegava a latejar. Desespero, raiva, nojo, saudade... tudo a atingia como um turbilhão. Uma enxurrada de emoções. Ela não podia sentir isso, Josh não tinha o direito de mexer com ela.
A morena só percebeu que havia caído no sono quando sentir a cutucar no braço.
– Hum?
– Katie está a chamando — Matthew avisou.
Melanie se levanta rapidamente, esfregando os olhos enquanto cambaleia até a sala.
Os chefões estavam reunidos em uma sala no alto com um vidro de proteção, visualizando os testes finais dos jovens. Estavam presentes o Primeiro Conselheiro Robert McNaughton, o Duque Conrad Beckering, o Marquês Herbert Duninghan e o Conde Frederick Whitmore. Ah, e, claro, o Senhor de Meurer, o Senhor de Meurer Vincent Fieldmann.
Havia outro cara também. Alto, cabelos negros ajeitados para trás de forma imponente, ele usava um manto vermelho por cima das roupas em tons claros e alguns detalhes em dourado. A garota ao seu lado, porém, estava mais discreta. A garota de cabelos ruivos e encaracolados usava uma coroa prateada cravejada em diamantes da princesa com um vestido preto aberto nas costas e com as mangas compridas em tule escuro. Apesar da simplicidade do vestido, ele destacava os brilhantes da coroa.
Não havia como não saber quem eram eles: os Archiberz. A Família Real. O Regente Joffrey e sua sobrinha, a princesa herdeira Katerina.
Certa vez a mãe de Melanie contou a ela que o rei de Frömming, Kurt, e sua mulher, Harriet, morreram. Como a herdeira direta, Katerina, ainda era pequena, o seu tio assumiu no lugar. Porém a promessa ficava: a pequena garota cresceria, se tornaria forte e seria uma grande rainha, melhor até que seus pais.
Junto com os nobres e a família real, estavam os treinadores do PMI: Josh, Savannah Huddington com seus cabelos lilás, Amber e sua cara de nojenta de sempre e Tyler.
Melanie faz uma breve reverência, de mau gosto, e logo dirige seu olhar para o estande das armas. Arcos e flechas, armas de fogo, bestas, lanças... nada que a chamasse muito a atenção.
Facas.
Pelo canto do olho, ela vê Amber a encarando e ao perceber que a morena a encarava de volta, sentou-se no colo e Josh e o beijou. Ele retribuiu.
Ignorando as pontadas no peito, Melanie mira no boneco de papel.
– Qual é o nome dela? — Katerina pergunta, distante o bastante para que a morena não a ouça.
– Melanie Hemingski — o Senhor de Meurer responde. — É a garota mais pobre do programa. A encontramos nas ruas.
Para Katerina, aquilo foi um comentário preconceituoso. Ela viu um certo desprezo nos olhos de Vincent e o repudiou desde o primeiro momento por isso. Depois de olhá-lo novamente, viu que havia algo a mais nos seus olhos e pensou que o que tinha visto anteriormente talvez não fosse desprezo.
Uma admiração contida.
– Ela é boa? — a ruiva pergunta.
– Nunca a vi — ele diz, dando de ombros.
– Ela é — Joshua entra na conversa. — É a melhor garota do programa. Ouso a dizer que é a melhor participante deste ano.
– Já conversei uma vez com a garota depois do treinamento — o pai de Joshua, Herbert, confirma. — A garota é realmente muito boa não só no treinamento, mas de cabeça também.
Katerina também nota o olhar fixo de Joshua na garota. Seus olhos azuis escuros brilham e gotas de suor começam a surgir na testa dele, deixando seus cabelos loiros mais escuros. Ele está nervoso.
Quando a primeira faca da garota acerta o centro do alvo, ele esboça um sorriso contido. Ele está orgulhoso dela.
Melanie vira de costas e gira para a esquerda, jogando a faca e acertando no círculo do meio, depois vira para a direita sem nem ter tempo de esperar e lança a segunda faca. Por último, ela fica de frente e joga a quarta faca.
– Ela é muito boa — ela concorda.
Amber volta a beija Joshua. Katerina sente fome e se levanta para pegar um pedaço do carneiro assado na mesa dos fundos, quando ouve um estrondo de vidro quebrando e logo em seguida sente seu braço latejar.
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Melanie joga todas as facas com muita calma, ignorando a raiva que começa a latejar e crescer dentro dela. Porém Amber não parava de provocá-la e a noite em que Melanie os flagrou na sala de treinamento subterrânea voltou a sua cabeça.
Tudo parecia tão claro, mas de repente a sua vista estava tão embaçada, com pequenos pontinhos vermelhos e logo ela estava de volta a mais cedo, quando esfaqueou os bonecos de lego, pensando que um deles fosse Amber. Quando ela os estraçalhou com as próprias unhas sonhando com o momento em que poderia fazer isso na pele pálida de verdade.
Melanie só percebeu que havia lançado a faca em direção ao vidro quando ela passou raspando pelo braço de Katerina, rasgando uma parte do seu vestido e estilhaçando por completo o vidro, fazendo um barulho alto soar e assustar todos.
– Argh! — ela geme e olha para o braço e vê o sangue ensopando o tule. A faca lançada por Melanie está cravada na parede e Katerina a olha rapidamente, com raiva. Apesar disso, ela vê pesar nos olhos da garota.
Eu sinto muito, Melanie murmura com desespero, mas não sai som algum da sua boca. Katerina assente com a cabeça, dizendo que entende. Guardas logo chegam a sala e arrastam Melanie para fora. Ela empurra todos para longe.
– Eu sei o caminho para fora — ela rosna.
– Katerina — Joffrey vem até ela.
– Está tudo bem — ela diz. — Só precisarei fechar. Está tudo bem.
Ela olha para Vincent.
– Não culpe a garota. Não a quero presa.
– Mas ela a atacou.
Katerina olha para Amber rapidamente e sente que Joshua entendeu o porquê de tudo, assim como a ruiva.
– Não foi culpa dela. Apenas não a prenda, ok? Nem a expulse do programa. Ela é boa demais para voltar para as ruas. Em um guerra ela seria a nossa melhor arma. Quem imagina que em Frömming garotas bonitas recebem treinamento militar assim? Melanie é a nossa melhor chance.
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Melanie foi levada para fora das salas de treinamento subterrâneas e depois para a Diretoria. Atrás da estante de livros da sala de Frederick Whitmore, havia uma pequena sala. Uma espécie de sala de interrogatório. Não havia janelas, apenas uma porta de saída, uma grande e comprida mesa de metal e uma cadeira de cada lado.
– O que está acontecendo? — ela pergunta a um dos guardas, mas ninguém a informa de nada.
Alguns minutos depois, Frederick entra na pequena sala e se senta na cadeira a sua frente.
– O que deu nessa sua cabeça louca? — ele pergunta. — Sempre soube que você era meio doidinha, mas nunca pensei que fosse tentar matar a futura rainha!
– Eu nunca mataria Katerina.
– Mas tentou.
– Eu nunca a mataria — ela repete, com convicção.
– E por que não?
Porque ela é minha irmã, Melanie pensa.
– Porque ela é minha rainha — é o que ela responde. — A esperança de um país melhor.
– E você quase arruinou com essa esperança hoje.
– Eu já disse que não foi intencional!
– E o que você estava tentando fazer?
Ela não podia dizer que estava tentando matar a filha dele. Seria... idiotice demais.
– Eu perdi a cabeça. Sinto muito.
– Você será punida por isso. É completamente inadmissível que...
– Já basta — a voz imponente de Vincent o interrompe, soando lenta, porém irritada. — Me dê licença, Frederick. Tenho que conversar com a garota.
Assim que Frederick sai, Vincent se senta onde ele estava segundos atrás.
– O que foi aquilo?
– Um acidente, já disse.
– Não — ele balança a cabeça, cruzando os dedos e apoiando os cotovelos em cima da mesa. — Não foi. Foi completamente intencional.
Os batimentos de Melanie começam a acelerar e ela não entende porquê. Não deveria ficar nervosa na presença daquele homem.
– Você perdeu a cabeça, sim... mas perdeu porque não acertou. Se você quer ser a melhor, Melanie, você precisa acertar.
– O quê? — ela se surpreende.
Ele se levanta e caminha até a porta, a abre e vê que não há ninguém no escritório de Frederick. Eles estão sozinhos. Vincent volta para a salinha e dessa vez fica de pé, apoiando as mãos na mesa de aço.
– A próxima vez que você tentar matar Amber Whitmore, não fique apenas no tentar.
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