Abandono
1 Abandono
Notas iniciais
Eu não quero ficar sozinha...
Está escuro, estou com frio e eu não quero ficar sozinha...
Não quero...
– Ib, vamos por aqui, tudo bem? – uma voz à sua frente anunciou, tentando tirá-la no atual transe.
É verdade, ela não estava sozinha, estava com aquele rapaz... Garry. Ele estava ali, podia tocá-lo se esticasse sua mão. E ele não a deixaria, certo?
– Garry você não vai me deixar, né?
– Uh? Do que está falando, Ib? Eu já disse que vamos sair daqui juntos
– Sim...
Ela sorria levemente e o abraçava. Sentia seu corpo, era feito de carne e osso, era quente como quando abraçava seus pais. A sensação de conforto e segurança também eram iguais. Era incrível que pudesse encontrar algo tão real em um lugar como aquele.
Eu não quero ser abandonada
Mas, por fim, a única que abandonou alguém foi ela. Abandonara Garry, tudo por egoísmo, porque estava com medo. É claro que não admitiria isso para o rapaz, era teimosa o bastante para não apresentar fraqueza.
– Nós vamos recuperar minha rosa, Ib, não se preocupe – ele tentou confortá-la com um sorriso no rosto.
Ela acreditou que estaria tudo bem. Até mesmo quando ele desabou no chão, apresentando dificuldade para manter suas forças
– Continue sem mim, vou correndo te encontrar mais tarde.
Ele não a abandonara, até trocara sua rosa azul pela vermelha de Ib. Tudo para que ela pudesse seguir. E, por fim, ela o abandonou.
Eu o abandonei
Foi o que pensou enquanto observava o corpo adormecido de Garry. Abaixou-se e abraçou seu peito, colocando as mãos flácidas de Garry sobre seus ombros, como se ele a estivesse abraçando novamente. Seu peito não se movia e seu corpo não a esquentava mais, apenas a deixava com uma sensação de frio e solidão. Novamente.
– Garry...
Esperou que ele fosse acordar, dizer seu nome e falar para se apressarem a sair daquele lugar. Mas ela o havia abandonado e agora não havia como voltar atrás.
Está escuro de novo
Garry não está aqui, está escuro e frio.
Ela abandonara Garry e Mary, seus únicos amigos, tudo porque estava com medo. Ela era uma pessoa horrível. Não poderia nem reclamar da solidão quando ela mesma fora responsável por isso.
– Ib, venha comigo, eu encontrei uma saída.
Mesmo que você seja real, não posso mais ficar com alguém que uma vez abandonei.
...
Ib se pegou olhando atentamente para o quadro à sua frente quando sua mãe a chamou. Hesitou um pouco, incerta da sensação que aquela obra lhe cansava. Nunca a vira antes, nem mesmo conhecia o rapaz ali pintado. Mas, quando o observava, um enorme peso tomava conta de seu coração. Sentia-se solitária, com frio e assustada.
Balançando a cabeça, afastou-se do quadro e seguiu sua mãe enquanto aqueles sentimentos desapareciam lentamente.
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