AVATAR VALLEY

7 CAPÍTULO 7 - Silêncios de inverno


A tarde já começava a se dissolver na escuridão precoce do inverno quando Noah Klaus atravessou os portões da propriedade da família. Do lado de fora, a neve caía com a tranquilidade enganosa típica de Avatar Valley. Flocos silenciosos acumulavam-se sobre os jardins meticulosamente cuidados, repousavam sobre as esculturas de pedra espalhadas pelo terreno e cobriam os caminhos sinuosos que levavam até a entrada principal da mansão. As luzes natalinas instaladas semanas antes transformavam tudo em uma cena que parecia saída de um catálogo de decoração de inverno, emoldurando as primeiras semanas de aula daquele ano letivo que havia começado em novembro.

Muitas pessoas na cidade enxergavam aquela casa como um símbolo. Uma prova de sucesso. Uma lembrança constante da influência que a família Klaus exercia sobre Avatar Valley. Noah raramente pensava nela dessa forma. Para ele, aqueles portões sempre estiveram ali. Os jardins sempre estiveram ali. Os corredores intermináveis, os funcionários discretos e os jantares formais sempre fizeram parte da paisagem da sua vida. Era difícil enxergar privilégio em algo que nunca conhecera de outra maneira.

Ele estacionou o carro próximo à entrada coberta e atravessou os degraus de pedra já parcialmente cobertos pela neve recém-caída. Assim que entrou, o calor da casa o envolveu imediatamente. O aroma familiar de pinho, canela e madeira queimada pairava no ar. Melissa Klaus insistia naquela combinação todos os anos. Dizia que uma casa precisava ter cheiro de Natal antes mesmo de ter decoração. Noah nunca admitiria em voz alta, mas gostava daquilo. Um funcionário aproximou-se para receber seu casaco — Noah já havia guardado sua jaqueta oficial de hóquei no armário número nove do ginásio antes de ir embora, cumprindo a rigorosa norma de que ela só era permitida no vestiário ou na pista de gelo.

— Obrigado, senhor Klaus — disse o funcionário.

— Valeu, Martin — respondeu Noah.

O homem assentiu discretamente antes de desaparecer pelo corredor lateral. A casa permanecia silenciosa. Não vazia. Apenas silenciosa. Era um tipo específico de silêncio que Noah conhecia bem: o som distante de uma lareira acesa em algum cômodo, o ruído suave de passos em andares superiores, o eco discreto dos sistemas de aquecimento espalhados pela residência. Tudo perfeitamente organizado. Tudo perfeitamente controlado.

Ao atravessar o hall principal, Noah pretendia seguir diretamente para a escadaria. Mas diminuiu o passo ao notar a mãe sentada próxima à lareira da sala principal. Melissa Klaus ocupava uma das poltronas posicionadas diante do fogo. Um livro permanecia aberto sobre seu colo e uma xícara de chá repousava sobre a pequena mesa ao lado. A luz alaranjada das chamas iluminava parcialmente seu rosto enquanto sombras suaves dançavam pelas paredes decoradas para o Natal. Por um instante, Noah apenas observou a cena. Melissa parecia fazer parte daquele ambiente da mesma forma que a própria lareira: elegante, serena, impecavelmente composta. Ainda assim, havia algo cansado em seus olhos nos últimos tempos, algo que ele vinha percecendo cada vez mais.

— Voltou mais cedo do que imaginei — comentou Melissa ao erguer os olhos do livro. Ela sorriu levemente ao vê-lo. — O treinador Hayes resolveu poupar vocês?

— Parece que ele finalmente descobriu que jogadores vivos rendem mais do que jogadores exaustos — justificou Noah.

O sorriso dela aumentou um pouco.

— Uma descoberta revolucionária — apontou ela.

— Eu também achei — ironizou Noah.

Noah aproximou-se e afundou na poltrona livre ao lado da lareira. Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. E não era estranho; o silêncio entre eles raramente era desconfortável. Melissa fechou cuidadosamente o livro, marcando la página com um pequeno marcador dourado.

— Como foi o dia? — perguntou a mãe.

— Normal — resumiu o rapaz.

— Hm — murmurou ela.

Noah arqueou uma sobrancelha.

— O quê? — quis saber o atleta.

— Nada — respondeu Melissa.

— Esse "nada" nunca significa nada — rebateu Noah.

Melissa levou a xícara aos lábios.

— Apenas achei uma resposta muito rápida — avaliou ela.

— Porque foi um dia normal — insistiu Noah.

— Claro — aceitou a mãe.

Ela assentiu como quem aceita a explicação, mas Noah conhecia aquela expressão: a mãe sempre percebia mais do que deixava transparecer. A conversa seguiu para assuntos mais simples: os preparativos para o Festival de Inverno do dia 22 de dezembro, as famílias que começavam a organizar recepções para as semanas seguintes e os compromissos sociais que inevitavelmente surgiam quando se carregava o sobrenome Klaus em Avatar Valley. Melissa comentou sobre um jantar beneficente. Noah fingiu interesse. Ela percebeu. Ele percebeu que ela percebeu. Nenhum dos dois comentou.

Por trás da conversa casual, porém, algo permanecia preso no fundo da mente de Noah. Uma sensação estranha, pequena, incômoda, como uma palavra esquecida na ponta da língua. De tempos em tempos, a lembrança do refeitório surgia sem convite: o som das risadas, Tyler Reed se divertindo com algo que, na época, parecera completamente irrelevante. Um garoto ajudando outro. Nada importante, nada incomum, nada que justificasse continuar voltando à sua cabeça horas depois. Ainda assim, a lembrança permanecia ali. Noah afastou o pensamento antes mesmo de analisá-lo.

Melissa observava as chamas quando falou novamente:

— Seu pai ligou mais cedo — anunciou ela. A mudança de assunto foi tão vaga quanto inevitável.

— Ah — limitou-se a dizer o jovem.

— Vai jantar fora novamente — informou Melissa.

Noah soltou uma respiração curta pelo nariz. Nem surpresa, nem irritação; apenas reconhecimento.

— Entendi — concluiu o filho.

Melissa assentiu. Por um instante, o crepitar da lenha voltou a ocupar o espaço entre eles. James Klaus não estava presente na sala, mas sua ausência estava, como acontecia tantas vezes. Era curioso como algumas pessoas conseguiam ocupar um ambiente mesmo quando não estavam nele. Noah crescera cercado por essa sensação: reuniões, viagens, jantares cancelados, compromissos importantes. Sempre existia alguma razão, alguma justificativa, alguma prioridade. Com o passar dos anos, a ausência deixara de surpreender; tornara-se apenas mais uma parte da rotina. Melissa não comentou mais nada e Noah também não, porque ambos já sabiam exatamente o que o outro pensava.

Depois de mais alguns minutos junto à lareira, Noah apoiou as mãos nos braços da poltrona e levantou-se.

— Acho que vou subir — avisou Noah.

Melissa ergueu os olhos.

— Vai ficar no quarto? — perguntou ela.

— Um pouco — respondeu ele.

— Certo — consentiu a mãe. Ela sorriu um sorriso pequeno, carinhoso, daqueles que raramente apareciam em eventos públicos. — Não fique acordado até tarde.

— Vou tentar — prometeu Noah.

— Essa resposta normalmente significa o contrário — apontou Melissa.

— Talvez — brincou o rapaz.

Melissa balançou a cabeça, divertida.

— Boa noite, Noah — desejou ela.

— Boa noite, mãe — despediu-se o capitão.

Ele atravessou o hall principal em direção à escadaria. Enquanto subia os degraus, as luzes douradas da árvore de Natal refletiam nos corrimãos escuros de madeira polida. A casa permanecia silenciosa atrás dele, envolta pelo calor confortável do inverno. Do lado de fora, a neve continuava caindo sobre Avatar Valley. E, por mais comum que aquela noite parecesse, algo nela carregava uma inquietação difícil de explicar. Uma sensação vaga, pequena, quase insignificante, mas que, por algum motivo, insistia em acompanhá-lo escada acima.

O quarto de Noah ocupava uma das extremidades do segundo andar. Assim como quase tudo naquela casa, o espaço era amplo demais para uma única pessoa. Uma parede inteira era ocupada por janelas voltadas para os jardins dos fundos. Na outra, prateleiras exibiam troféus, medalhas e fotografias acumuladas ao longo dos anos. Campeonatos escolares, torneios estaduais, equipes vencedoras; registros de uma trajetória que parecia seguir um caminho traçado muito antes de ele próprio começar a percorrê-lo. Noah fechou a porta atrás de si e largou a mochila próximo à escrivaninha.

Por alguns segundos, permaneceu imóvel, apenas ouvindo. O silêncio do andar superior era diferente do restante da casa: mais profundo, mais isolado. Lá embaixo, provavelmente Melissa ainda estava junto à lareira, talvez lendo, talvez apenas observando o fogo. James certamente não apareceria antes do fim da noite, se aparecesse.

Noah tirou o celular do bolso e o desbloqueou. As notificações surgiram imediatamente: mensagens do grupo do time, comentários sobre o treino puxado com o treinador Hayes, vídeos enviados por Tyler Reed, memes relacionados ao baile, discussões sobre o campeonato. A rotina de sempre. Ele respondeu algumas mensagens sem pensar muito, participou de uma conversa sobre a escalação do próximo jogo e ignorou outras três. Abriu um vídeo enviado por Tyler Reed e assistiu apenas alguns segundos antes de fechá-lo novamente. Nada parecia prender sua atenção por muito tempo.

Com uma leve exasperação, deixou o celular sobre a escrivaninha e aproximou-se da janela. A neve continuava caindo. Vista dali, Avatar Valley parecia menor. As luzes espalhadas pelas ruas criavam pontos dourados entre o branco quase contínuo que cobria telhados, árvores e calçadas. Algumas casas já exibiam decorações natalinas completas, outras ainda estavam sendo preparadas. Em alguns lugares, era possível ver famílias caminhando pelas ruas apesar do frio. A cidade inteira parecia se mover em direção ao Festival de Inverno. Todos os anos acontecia a mesma coisa: o mesmo entusiasmo, as mesmas expectativas, os mesmos comentários, o mesmo ritual.

Noah observou a paisagem por alguns instantes antes de apoiar uma das mãos no vidro frio. Sem perceber, sua mente voltou ao refeitório. Não à provocação; aquilo não tinha nada de novo. Tyler Reed fazia comentários daquele tipo desde que eram crianças: os alvos mudavam, as piadas mudavam, mas a dinâmica permanecia praticamente a mesma. O que voltava à sua memória era outra coisa, uma imagem simples: um garoto de jaqueta comum do uniforme obrigatório — já que as de hóquei eram proibidas fora do ginásio — ajoelhado no chão ajudando Ethan a recolher uma bandeja. Só isso. Nada extraordinário, nada heroico, nada que justificasse atenção especial. E talvez fosse justamente esse o ponto. A maioria das pessoas simplesmente teria ido embora, ignorado, fingido não ver; era o que normalmente acontecia. Mas ele permanecera ali, mesmo depois das risadas, mesmo depois dos comentários de Tyler Reed.

Noah franziu levemente a testa. Não porque estivesse impressionado, apenas porque não conseguia entender por que aquela lembrança continuava retornando. Tentou recordar o rosto do garoto; conseguiu apenas fragmentos: cabelos claros, olhos baixos, postura reservada. Nada particularmente marcante. Provavelmente era um aluno novo do primeiro ano ou do segundo, nem mesmo tinha certeza. Aquilo deveria encerrar o assunto, e normalmente encerraria, mas a lembrança continuava reaparecendo nos intervalos do pensamento como uma música esquecida que insiste em voltar à cabeça sem motivo aparente.

Irritado consigo mesmo, Noah afastou-se da janela. Abriu uma gaveta da escrivaninha, pegou alguns materiais escolares e tentou concentrar-se em uma atividade qualquer. Funcionou por alguns minutos, depois não funcionou mais. O problema não era o garoto, percebeu isso quase imediatamente; o problema era a sensação estranha que a cena deixava para trás, como se existisse alguma pergunta que ele ainda não tinha formulado corretamente. Como se estivesse esquecendo algo ou ignorando algo. No entanto, toda vez que tentava seguir aquela linha de raciocínio, acabava abandonando-a, porque não fazia sentido. Era apenas uma situação banal ocorrida durante o almoço. Uma entre centenas, uma entre milhares.

Noah fechou o caderno e recostou-se na cadeira. Do lado de fora, a neve continuava caindo sobre Avatar Valley. Lá embaixo, em algum lugar da casa, uma porta se fechou suavemente. O relógio avançava, a noite seguia seu curso e, ainda assim, permanecia aquela pequena sensação de desconforto. Não forte o suficiente para preocupar, não clara o suficiente para compreender; apenas presente, silenciosa, como um eco distante que ele preferia não escutar.

Enquanto a neve continuava cobrindo silenciosamente os bairros centrais de Avatar Valley, um dos ônibus escolares seguia seu trajeto habitual em direção à região norte da cidade. A paisagem mudava pouco a pouco conforme o veículo avançava: as grandes propriedades cercadas por portões ornamentados tornavam-se menos frequentes, as ruas largas davam lugar a avenidas menores e as vitrines sofisticadas desapareciam gradualmente, substituídas por comércios familiares iluminados por decorações natalinas simples e acolhedoras.

Henry Dawson observava tudo através da janela. O vidro estava parcialmente embaçado pelo contraste entre o calor do interior do ônibus e o frio intenso do lado de fora. Com a manga do casaco comum, que usava sobre o uniforme escolar obrigatório, limpou um pequeno espaço e voltou a observar a cidade passar. Normalmente gostava daquele trajeto, da sensação de deixar a escola para trás, da quietude, de observar Avatar Valley desacelerando à medida que a noite se aproximava. Naquela tarde, porém, sua mente permanecia presa em outro lugar.

Sem querer, voltou a lembrar da conversa no ponto de ônibus. Do sorriso zombeteiro de Tyler Reed. Da forma como ele parecia confortável ocupando espaço. Da facilidade com que transformava pessoas em alvos. Henry desviou o olhar para a rua. Tentou pensar em outra coisa — nas aulas, no coral com a professora Olivia Bennett, na apresentação que se aproximava, em qualquer coisa — mas as lembranças retornavam com insistência irritante. Talvez porque não fosse exatamente a provocação que o incomodava; comentários desagradáveis não eram novidade. O problema era outro: era a sensação de ter sido notado. Durante grande parte da vida, aprendera que passar despercebido costumava ser mais seguro para sua saúde mental. Agora já não tinha certeza se isso continuaria sendo possível.

O ônibus fez uma curva suave e entrou em uma rua residencial cercada por casas cobertas de neve. Luzes coloridas piscavam em varandas, guirlandas decoravam portas e algumas famílias ainda terminavam de instalar enfeites natalinos apesar do frio. A cidade inteira parecia respirar o Festival de Inverno. Pouco depois, o veículo diminuiu a velocidade. Henry levantou-se, agradeceu ao motorista e desceu. O frio atingiu seu rosto imediatamente. Por alguns segundos, permaneceu parado na calçada observando a rua.

A região norte de Avatar Valley jamais apareceria nos cartões-postais vendidos aos turistas. As casas eram menores, os terrenos mais modestos, os carros mais antigos. Ainda assim, existia algo ali que Henry sempre apreciara: as pessoas se conheciam, cumprimentavam-se, ajudavam-se durante as tempestades mais fortes. Quando alguém precisava de apoio, os vizinhos normalmente sabiam antes mesmo de serem avisados. Era um tipo diferente de riqueza, uma que dificilmente aparecia nos jornais locais.

Ele ajustou a mochila nos ombros e começou a caminhar. A neve rangia sob as botas. Ao longe, uma criança tentava construir um boneco de neve com a ajuda do pai; uma senhora pendurava uma decoração luminosa na janela da frente; do interior de uma casa próxima escapava o aroma de algo sendo assado. Por alguns instantes, Henry sentiu os ombros relaxarem. Talvez porque estivesse se aproximando de casa, talvez porque aquela parte da cidade sempre parecesse mais simples, mais honesta.

Quando finalmente alcançou a pequena residência dos Dawson, uma luz amarelada brilhava através das cortinas da sala. A visão provocou um conforto imediato. Ele abriu a porta e o calor o envolveu quase instantaneamente. Junto dele vieram outros sons familiares: uma televisão ligada em volume baixo, panelas se movendo na cozinha, o cheiro de comida recém-preparada. E então uma pequena explosão de energia surgiu pelo corredor.

— Henwy!

Henry mal teve tempo de fechar a porta antes que Emily aparecesse correndo. As meias antiderrapantes da menina de dois anos escorregaram levemente pelo piso. Ela levantou os braços na direção dele. Henry sorriu imediatamente.

— Oi, Emily — cumprimentou o irmão.

A menina insistiu até ser colocada no colo. Assim que conseguiu o que queria, apoiou a cabeça em seu ombro como se aquela fosse a posição mais natural do mundo.

— Neve! — anunciou ela, apontando para a janela.

— Tem muita neve lá fora — confirmou Henry.

— Muita! — exclamou a garota.

— Concordo — sorriu o jovem.

Emily assentiu com enorme convicção. Depois segurou o rosto do irmão com as duas mãos pequenas.

— Escola? — quis saber ela.

— Sim — respondeu ele.

— Boa? — perguntou a pequena.

Henry pensou por um segundo, então sorriu.

— Mais ou menos — respondeu ele.

A resposta pareceu satisfazê-la. Pouco depois, ela já apontava para outra direção.

— Desenho! — pediu Emily.

— Você fez um desenho? — indagou o rapaz.

— Ham! — confirmou a irmã.

— Posso ver depois? — propôs Henry.

— Ham! — repetiu ela.

A confirmação veio acompanhada de um sorriso orgulhoso. Henry sentiu algo dentro dele aliviar. Não completamente, mas o suficiente. Talvez fosse impossível continuar preso às próprias preocupações quando Emily estava por perto. Ela possuía aquele talento raro das crianças muito pequenas: a capacidade de transformar o mundo inteiro em algo simples por alguns minutos.

— Henry? — A voz de Sarah, sua mãe, surgiu da cozinha. — Estamos terminando o jantar.

— Já vou — avisou o rapaz.

Emily imediatamente apontou para a própria barriga.

— Comê! — pediu ela.

Henry riu.

— Sim. Você também — divertiu-se o irmão.

A menina pareceu extremamente satisfeita com aquela informação.

O jantar começou poucos minutos depois. A mesa dos Dawson nunca fora particularmente grande, ainda assim, existia algo reconfortante na forma como todos se acomodavam ao redor dela todas as noites, como se aquele pequeno ritual fosse uma regra silenciosa da casa. Do lado de fora, a neve continuava caindo. Do lado de dentro, o calor da cozinha afastava o frio que insistia em se acumular nas janelas.

Emily ocupou imediatamente o centro das atenções. Não porque tentasse, simplesmente porque tinha dois anos e considerava sua missão pessoal narrar absolutamente tudo o que acontecera durante o dia, ou pelo menos as partes que conseguia explicar.

— Desenho! — anunciou pela terceira vez.

Sarah sorriu.

— Sim, querida. Você fez um desenho lindo — elogiou a mãe.

— Lindo! — repetiu a garota.

— Muito lindo — concordou David Dawson.

A menina pareceu satisfeita por aproximadamente cinco segundos, então apontou para Henry.

— Dragão! — exclamou ela.

David arqueou uma sobrancelha.

— Dragão? — estranhou o pai.

— Henry lutou contra um dragão de neve — explicou Sarah com bom humor.

— Ah, claro — entendeu David.

— Muito grande — acrescentou Emily, abrindo os braços.

Henry riu.

— Era enorme — confirmou o jovem.

— Venceu! — comemorou a menina.

— Venci — orgulhou-se Henry.

— Sabia! — concluiu a pequena.

A comemoração foi tão sincera que todos acabaram sorrindo. Por alguns minutos, a conversa permaneceu leve: Sarah comentou sobre alguns clientes que haviam aparecido na cafeteria naquela manhã, David falou sobre um problema elétrico que passara boa parte da tarde tentando resolver e Emily alternava entre comer, conversar e esquecer completamente da comida. Henry participava quando necessário: respondia, sorria, fazia comentários ocasionais. Mas algo continuava diferente. Sarah percebeu primeiro. Não porque Henry estivesse agindo de forma estranha, mas porque era sua mãe; existiam mudanças quase imperceptíveis que ela aprendera a identificar muitos anos antes: o modo como ele segurava os talheres, o ritmo mais lento das respostas, os instantes em que parecia desaparecer para dentro dos próprios pensamentos e dos cuidados com seu bem-estar mental. David também percebeu, trocando um breve olhar com a esposa. Nenhum dos dois comentou nada, ainda não.

O jantar seguiu normalmente. Quando terminaram, Emily precisou ser convencida de que tomar banho era uma atividade obrigatória e não uma violação dos direitos humanos. A negociação demorou vários minutos, envolveu protestos dramáticos, argumentos pouco convincentes e uma tentativa frustrada de fugir para trás do sofá. No fim, como sempre acontecia, Sarah venceu.

Mais tarde, quando a pequena finalmente adormeceu, a casa mergulhou em uma tranquilidade diferente. A televisão foi desligada, as luzes ficaram mais suaves. O vento continuava soprando do lado de fora. Henry estava sentado no sofá da sala com um livro de música aberto sobre o colo. Na prática, porém, não lia havia vários minutos; seus olhos percorriam as páginas, mas sua mente estava em outro lugar, focada nas partituras e no coral. Ouviu passos se aproximando e Sarah sentou-se ao seu lado. Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Ela apenas observou a neve caindo através da janela e Henry fez o mesmo. Aquele silêncio era familiar, seguro, não exigia explicações imediatas.

— Então — disse ela por fim, com suavidade — quer me contar o que aconteceu?

Henry manteve os olhos fixos na janela. Já esperava aquela pergunta, talvez desde o momento em que chegara em casa.

— Nada demais — minimizou ele.

Sarah sorriu de canto.

— Você sempre começa por aí — relembrou a mãe.

— Porque geralmente é verdade — justificou o jovem.

— E geralmente não é — rebateu ela.

Henry soltou uma breve respiração pelo nariz. Não exatamente uma risada, mas perto disso. A mãe esperou sem pressionar, sem insistir, apenas esperando. Foi isso que acabou vencendo sua resistência.

— Um garoto falou comigo depois da aula — revelou Henry.

Sarah permaneceu em silêncio por um instante.

— Mais velho? — perguntou ela.

Henry assentiu.

— Sim — confirmou.

— Da equipe de hóquei? — deduziu a mãe.

Dessa vez ele virou o rosto.

— Como você sabe? — espantou-se o rapaz.

Um sorriso pequeno surgiu nos lábios dela, mas não havia humor nele.

— Porque eu moro nesta cidade há mais tempo que você — respondeu Sarah de forma compreensiva.

A resposta foi suficiente. Avatar Valley possuía padrões e pessoas como Sarah os conheciam bem. Henry desviou novamente o olhar. Demorou alguns segundos antes de continuar. Não contou tudo, não repetiu cada comentário de Tyler Reed, não descreveu exatamente como o atleta o observava, nem o tom de voz, nem a sensação desagradável que tivera ao perceber que o outro garoto sabia exatamente quais palavras usar. Limitou-se aos fatos: falou sobre a abordagem no ponto de ônibus, sobre as provocações, sobre a maneira como a conversa o deixara desconfortável.

Sarah ouviu sem interromper. Quando ele terminou, a sala permaneceu silenciosa por alguns instantes; apenas o vento podia ser ouvido do lado de fora.

— Você fez alguma coisa errada? — questionou Sarah.

Henry respondeu imediatamente.

— Não — garantiu.

— Tem certeza? — insistiu a mãe.

— Tenho — afirmou ele.

— O tratamento da sua saúde mental está em dia, as coisas estão organizadas — pontuou Sarah de forma acolhedora. — Então por que parece estar se culpando?

A pergunta o atingiu de forma inesperada, porque não possuía resposta simples. Talvez porque uma parte dele realmente estivesse tentando encontrar algum erro, algum motivo, alguma justificativa, algo que explicasse por que se sentia tão abalado pelo comportamento dos atletas da escola.

— Eu não sei — confessou Henry.

Sarah passou os dedos por seus cabelos, exatamente como fazia quando ele era uma criança menor.

— Henry — chamou ela. Ele ergueu os olhos. — A crueldade dos outros não é responsabilidade sua.

A frase ficou suspensa entre eles: simples, direta, difícil de aceitar. Porque uma coisa era entender aquilo racionalmente, outra completamente diferente era sentir.

— Eu sei — respondeu Henry, mas sua voz saiu baixa, incerta.

Sarah percebeu.

— Está com medo? — quis saber ela.

Henry demorou alguns segundos para responder. Observou a neve, as luzes coloridas da casa vizinha, o reflexo da sala na janela. Pensou em Tyler Reed, pensou na imponência silenciosa de Noah Klaus, pensou na escola, pensou no dia seguinte e então assentiu.

— Um pouco — admitiu o jovem.

A honestidade trouxe consigo uma estranha sensação de alívio, como se admitir aquilo fosse menos cansativo do que continuar fingindo. Sarah segurou sua mão.

— Isso não faz de você fraco — garantiu a mãe.

Henry não respondeu, mas apertou levemente os dedos de Sarah. E, naquele momento, aquilo pareceu suficiente.

Enquanto a neve continuava caindo sobre os bairros da região norte, uma realidade muito diferente seguia seu curso na extremidade oposta de Avatar Valley. Na mansão dos Klaus, a noite avançava envolta pelo mesmo silêncio elegante que parecia habitar cada corredor da propriedade. Depois de deixar a sala onde conversara com Melissa, Noah passara boa parte da noite em seu quarto. As luzes da cidade brilhavam além das janelas; a neve transformava os jardins em um cenário quase irreal. Lá embaixo, funcionários encerravam discretamente as últimas tarefas do dia. Em algum momento, as luzes externas foram acesas, refletindo sobre os caminhos cobertos de branco que cortavam a propriedade. Tudo parecia exatamente como deveria ser: organizado, previsível, sob controle.

Ainda assim, Noah permanecia sentado diante da escrivaninha sem prestar verdadeira atenção ao celular apoiado entre as mãos. As mensagens continuavam chegando: conversas do time, comentários sobre o próximo treino severo com Hayes, discussões sobre o campeonato, algumas piadas relacionadas ao Baile de Inverno enviadas por Tyler Reed. Nada diferente do habitual. Mesmo assim, sua atenção escapava constantemente. Aquilo o irritava, não porque estivesse preocupado, mas porque sequer entendia o motivo.

Em algum momento, largou o aparelho sobre a mesa e recostou-se na cadeira. O quarto ao seu redor parecia uma extensão perfeita da imagem que Avatar Valley possuía dele: as medalhas alinhadas, os troféus, as fotografias de campeonatos, as manchetes recortadas de jornais locais. Tudo reforçava a mesma narrativa: Noah Klaus, capitão, atleta, filho de James Klaus; o garoto que sempre soubera exatamente onde pertencia. Talvez por isso a lembrança insistente daquela tarde parecesse tão deslocada. Por alguns segundos, voltou a enxergar o refeitório: as mesas lotadas, as risadas, Tyler Reed fazendo o que sempre fazia. Nada incomum, nada novo, nada que justificasse reflexão.

Ainda assim, a memória não parava exatamente ali. Ela avançava, voltava ao garoto loiro de casaco comum ajoelhado ao lado de Ethan, à maneira como ignorara as provocações, à forma como permanecera ali mesmo quando metade do refeitório parecia observá-lo. Noah franziu levemente a testa. Era estranho — não o garoto, a própria lembrança — porque não existia motivo para continuar pensando nela. Conhecia dezenas de pessoas mais interessantes, mais populares, mais relevantes. Garotos como aquele passavam pelos corredores da escola todos os dias com suas mochilas comuns, sem chamar sua atenção. Era assim que as coisas funcionavam, sempre haviam funcionado. No entanto, por alguma razão, aquela imagem permanecia retornando. Talvez porque estivesse acostumado a ver pessoas se afastarem quando Tyler Reed começava a provocar alguém; talvez porque o garoto tivesse feito exatamente o contrário; talvez porque simplesmente não houvesse explicação.

Noah soltou uma breve respiração, levantou-se, atravessou o quarto e parou diante della janela. A cidade estendia-se além das colinas iluminadas: pequena, bonita, coberta de neve. Daquela distância, Avatar Valley parecia exatamente aquilo que gostava de acreditar que era: perfeita. As ruas brilhavam sob as luzes natalinas, a praça central podia ser vista ao longe e algumas decorações do Festival de Inverno já ocupavam partes da avenida principal. A cidade inteira parecia preparar-se para a celebração que se aproximava no dia 22 de dezembro. Todos os anos era assim: as pessoas decoravam fachadas, planejavam eventos, escolhiam roupas, organizavam apresentações. Era quase impossível escapar da sensação de expectativa que tomava conta de Avatar Valley naquela época do ano.

Noah observou as luzes por mais alguns instantes. Em algum lugar daquela cidade, milhares de pessoas encerravam seus próprios dias: famílias jantavam, alunos como Henry Dawson faziam tarefas, comerciantes fechavam lojas, crianças como Emily sonhavam com o Natal. E cada uma delas carregava preocupações que raramente apareciam em público. A cidade gostava de mostrar apenas as partes bonitas, sempre gostara. Talvez fosse por isso que tanta coisa permanecesse escondida atrás de portas fechadas, atrás de sorrisos educados, atrás de tradições cuidadosamente preservadas, atrás da neve.

Noah não saberia explicar por que aquele pensamento surgiu, nem tentou. Depois de alguns instantes, afastou-se da janela. Amanhã haveria treino de hóquei com o técnico Hayes, haveria aulas na escola, haveria preparativos para o festival. A vida seguiria exatamente como sempre seguira. E, ainda assim, enquanto apagava as luzes do quarto, uma vaga imagem voltou a atravessar seus pensamentos pela última vez: cabelos claros, olhos baixos, uma expressão nervosa tentando parecer firme diante das provocações da equipe. Nada importante, nada que devesse ocupar espaço em sua mente. Pelo menos era isso que Noah dizia a si mesmo.

Lá fora, a neve continuava caindo sobre Avatar Valley: silenciosa, paciente, como se a cidade inteira estivesse prendendo a respiração sem perceber. Como se alguma mudança já tivesse começado muito antes de qualquer um notar.