AS TRÊS AVENTUREIRAS
2 Capítulo 2
Foi uma visão chocante.
Os dois homens vestiam a túnica azul típica dos valentins, terríveis salteadores de estrada e que também circulavam na vastidão desértica. Montavam em cavalos comuns. Um terceiro cavalo trazia, além de grandes mochilas dependuradas lateralmente, uma moça sobre a sela, cujos braços estavam amarrados nas costas. Seu rosto era lindo, de uma beleza que Alter jamais sonharia ter; mas seus olhos verdes repuxados revelavam uma angústia mortal. Espantada, observando a distância com uma pequena lente de aumento, Alter resolveu não perder o grupo de vista.
Viu quando os dois homens apearam e deram início a uma estranha ocupação: fixar estacas no chão. Colocaram ao todo quatro, formando como que as pontas de um retângulo, depois tiraram a garota do cavalo e a deitaram no chão, entre aquelas cavilhas.
O que teriam eles em mente? Alter sabia que se tratava de homens cruéis, e seu coração bateu mais forte. Viu quando desataram a moça e em seguida, a desnudaram brutalmente; a essa altura ela gritava em desespero. Eles ataram seus pés, cada um numa estaca. Em seguida esticaram seus braços para trás e ligaram os pulsos às demais estacas. Assim ficou ela deitada de costas, os membros estendidos formando uma espécie de X. E como ela ainda gritasse e implorasse, um deles — o mais magro e que ostentava bigode negro — amordaçou-a com fita adesiva.
Os lascivos propósitos da infame dupla se tornaram cada vez mais evidentes aos olhos horrorizados de Alter.
A noite já caía, mas à luz da Lua Crescente a jovem Alter viu quando eles se desnudaram completamente, deixando os montículos de roupas a pouca distância, o bastante para não atrapalhar. E travaram um diálogo, que Alter na verdade não podia ouvir:
— Viu só, Silkis? Que corpo, que nudez!
— Eu mal posso esperar, Avark — disse aquele Silkis, o mais baixo e de espessa e mal cuidada barba negra. — Todavia, devemos seguir as regras da cortesia. Somos cavalheiros. Qual de nós irá primeiro?
— Ora, meu grande amigo! Abro mão da primazia, com prazer! Assim me prepararei melhor! Afinal, você é mais velho e merece o privilegio de começar! Seja o primeiro a possuir a beldade!
— Sou mais velho que você apenas um ano! Mas você entrou com mais dinheiro do que eu, por isso o privilegio é seu! É um prazer para mim, ceder-lhe a vez!
— Ora, caro Silkis! A questão de dinheiro é mais ínfima ainda! Uns poucos ceitis de diferença, eis tudo! Insisto, o primeiro lugar é seu!
Eles prosseguiram nesses salamaleques ridículos por algum tempo, enquanto sua vítima, olhos arregalados de pavor, lutava inutilmente para se libertar das cordas, conseguindo apenas esfolar os pulsos e os tornozelos. Finalmente, Avark pareceu cansar-se daquele joguinho e principiou a se despir:
— Você venceu, meu amigo Silkis. Aceitarei a sua generosidade e serei o primeiro. Mas dispa-se também, assim você já fica pronto e “entra” logo depois de mim.
Os dois se despiram em poucos minutos e depositaram seus mantos, calçados e acessórios a pouca distância. Voltaram-se então para a prisioneira, que gemia através da mordaça. Silkis deteve-se a um metro dela e Avark achegou-se, pronto a deitar sobre a indefesa garota.
E de repente havia mais alguém entre eles.
Esse alguém era um corpo jovem de mulher, de pele escura, cujos passos rápidos em pés nus tinham sido abafados pela areia espessa; e a sua mão direita moveu-se com uma ligeireza surpreendente, de um para outro, apunhalando em veloz sucessão aqueles dois corpos masculinos desnudos e sem proteção. Apunhalou um, depois o outro, de novo o primeiro e de novo o segundo, sem que nenhum deles conseguisse esboçar reação. Na terceira punhalada eles caíram, e esguichando de seus peitos dilacerados o sangue ensopou o chão.
Mesmo naquele momento fatídico, Alter teve um pensamento prosaico:
“Meu Deus, como essa areia queima o pé da gente!”
Voltou-se para a cativa. Esta, que de sua posição forçada assistira toda a terrível cena, debatia-se com os olhos esgazeados de terror, fixados em Alter. Esta última compreendeu que, apesar de tudo, a prisioneira estava com medo dela. Alter apercebeu-se que ainda empunhava o punhal que gotejava sangue, e jogou a arma a alguma distância. Então, abaixou-se junto da outra e murmurou:
— Não tenha medo, meu bem. Você já não corre mais perigo, eu a salvei.
Gentilmente a moça de Akar retirou a fita-mordaça, procurando não causar muita dor. A outra gemeu um pouco, e Alter atirou longe a fita. A jovem balbuciou:
— Por favor, me solte.
— Vou fazer isso. Usarei uma tesoura de unhas, porque esses bandidos te amarraram com nós muito apertados. Tenha um pouco de paciência.
— Está bem.
Alter trabalhou minuciosamente, primeiro nos laços que prendiam os tornozelos, passando em seguida para os pulsos. Quando terminou, a garota sentou-se na areia e Alter pôs-se a esfregar seus pulsos:
— Você deve estar entorpecida.
— Muito.
— Qual é o seu nome?
— Chamo-me Gésane.
— Gésane, que nome bonito e diferente. Eu sou Alter.
— Seu nome também é bonito e diferente.
Alter massageou os pulsos e, depois, os tornozelos de Gésane.
— Você está bem agora?
— Bem demais. Eu quero te agradecer!
Gésane atirou-se, em lágrimas, nos braços de Alter, e chorou copiosamente durante algum tempo. Alter afagou seus lindos cabelos e observou:
— Agora, Gésane, vista-se. Quando o vento sopra, essa areia do deserto machuca a nossa pele. Ficar nua não é bom.
— É claro, Alter. Eu vou... o que é isso?
Como quem não queria nada, Ariel se aproximara silenciosamente e farejava o braço de Gésane, muito curioso.
— Esse é o Ariel. É um unicórnio branco, como pode ver.
— Que lindo!
Gésane afagou a crina e Ariel, que amavelmente encostou o focinho em seu rosto.
— Que amor de animalzinho.
Alter sorriu, percebendo os bons sentimentos daquela pequena. Esta finalmente se ergueu e buscou as peças de roupa que lhe haviam sido arrancadas. Era uma espécie de túnica curta, semelhante a um quimono, que lhe deixava nus os ombros, além de uma faixa para prender na cintura, como um cinto; e as peças intimas.
Quando Gésane terminou de se vestir e ajeitar os cabelos, Alter observou:
— Você é circassiana, não é?
Gésane sorriu com tristeza:
— Sou, sim. É tão fácil reconhecer?
— Mais do que você imagina! A sua beleza é estonteante.
Alter estava impressionada, sim. Sobretudo o rosto e os olhos, ainda que os seus pés fossem muito graciosos, o corpo todo escultural, as mãos delicadamente desenhadas. Mas aqueles olhos profundamente verdes, que brilhavam na escuridão da noite, eram inesquecíveis. E os cílios, muito separados e curvos. Também as sobrancelhas chamavam muita atenção. Assim como os cabelos e os cílios, elas eram negríssimas e, além disso, encrespadas. Pareciam uma sucessão de cunhas inclinadas, com suas pontas para cima, cada ponta afastada da anterior. Alter nunca vira nada semelhante.
— Que está olhando? — indagou Gésane, embaraçada.
— A sua beleza, é claro. Nunca vi ninguém como você. Eu, com certeza, nem de longe sou bonita assim.
— Você também é bonita, Alter.
— Talvez. Mas perto de você... em suma, vocês circassianas são mesmo assim?
— Nós temos essa fama. É a nossa benção e a nossa maldição — assim dizendo, ela apontou para os cadáveres.
— Eu entendo. Quem são esses homens, como é que você caiu nas mãos deles?
— Da forma mais fácil possível: o meu pai me vendeu a eles. Eu já saí amarrada da casa de meu pai.
— Ele fez essa infâmia com você? — Alter quase não acreditava.
Gésane deu de ombros.
— Em nossa terra, é comum que as famílias vendam as filhas quando as coisas vão mal.
— Nunca mais volte para casa — murmurou Alter, cerrando o punho direito.
Alter pegou um dos turbantes dos mortos e com ele limpou a faca, esfregando-a também na areia.
— E você, de onde veio? — indagou Gésane. — Essa sua cor de café com leite é tão bonita...
Alter agradeceu e narrou, por sua vez, a sua triste história. Tinham estendido um tapete no chão para se protegerem do calor e conversavam sentadas, uma diante da outra. Alter não conseguiu deixar de reparar naqueles cílios, naquelas pupilas verde-garrafa e naquelas estranhas e belas sobrancelhas.
— Como você é valente — disse por fim Gésane.
— Bem. Você quer me acompanhar até o Senhor da Árvore oca?
— Ir com você? Não vou te atrapalhar?
— Você? Muito pelo contrário, Gésane. Vamos ficar juntas para nos proteger mutuamente. Veja, ficamos com o legado dos bandidos. Os cavalos, inclusive. Eles deviam estar bem sortidos, para virem ao deserto.
— Isso é verdade. Eles tinham muita água e comida. Carne seca, tâmaras, bolachas...
— Que coisas você pôde trazer?
— Só algumas roupas, lenços e pentes...
— E calçados?
— Não me deram oportunidade de trazer nenhum. Eu seria uma escrava sexual, para que iam se preocupar? Escravas andam descalças.
— Eu até tenho dois pares de sandálias, mas nem pense em usar agora. As pedras e a areia acabariam com elas em dois tempos. Mas agora temos cavalos, não precisamos ficar pisando esse chão ardente. Só assim ficarei livre das bolhas...
Gésane riu.
— Você é engraçada e singela, Alter. Será bom viajar com você. E eu também estou precisando de conselhos, quero ver o que o Grande Sábio terá para me dizer.
— Escuta, esses homens não te tocaram antes?
— Oh, não, graças a Deus! A fronteira da Circássia é a leste, perto daqui; eles me trouxeram ao deserto porque queriam um lugar isolado para fazer o ritual das estacas...
— Ritual? Para eles isso é um ritual? Que homens nojentos!
— Você disse tudo. Alter, se vamos ficar juntas, vamos fazer o inventário do que nós temos. O que os bandidos nos deixaram.
— Tem razão. É pra já!
E era muito mais do que, antes, Alter tinha. Havia armas: adagas, facas recurvas, espadas, arcabuzes. Havia cordas, mantas, ração para cavalos, muitos cantis. Elas beberam um pouco e deram água aos animais. Ariel bebia nas conchas das mãos de Alter, a água derramada por Gésane. Era uma cena singela, no silêncio da noite, à luz da Lua e com dois cadáveres por perto.
— O que faremos com eles? — indagou afinal Gésane, piscando os seus longos cílios.
— Deixe que apodreçam aqui. E com as roupas... não acho legal despojar defuntos de suas vestes.
— Mas eles estão nus, Alter!
— Pois é! Mas as roupas que usavam são aquelas. Eu teria nojo de ficar com elas.
— Bem, de qualquer forma não são roupas femininas.
— Esses cavalos têm nome, Gésane?
— Nunca ouvi que eles os chamassem por nomes.
Aproximaram-se das cavalgaduras e as afagaram. Os animais pareciam meio nervosos, sem entender o que havia acontecido com seus donos.
— Um baio, um tordilho e um pedrês — comentou Alter, que adorava bichos. — Nenhuma égua. Bem, daremos nomes a eles.
— Isso parece um sonho... — murmurou Gésane. — Minha situação era tão desesperada... aí você surgiu...
— Você teve um pouco de medo de mim, não foi?
Gésane riu discretamente.
— É claro! Foi tão inesperado, e você estava tão assustadora! Parecia um anjo exterminador. Mas quando você falou comigo, entendi que Deus é quem tinha te mandado. Que você era como uma irmã surgindo em minha vida.
Gésane tornou a abraçar Alter, que buscou ser prática:
— Olha, eu não agüento mais ficar perto desses corpos. Vamos nos afastar um pouco e armar a tenda mais adiante, tá bem? Vamos comer qualquer coisa e dormir.
— Está bem, minha irmã. Você tem toda a razão.
Mais tarde, já deitadas em colchonetes, Alter fez suas orações que a circassiana, ignorante nesse assunto, acompanhou docilmente, desejosa de aprender. Antes de dormirem, Gésane observou:
— Alter, eu serei eternamente grata a você. Serei capaz de dar a minha vida por você.
— Obrigada, Gésane, mas eu sei que você faria o mesmo por mim, se tivesse oportunidade.
— Pode ser, mas eu fracassaria. Com certeza. Não teria a sua agilidade.
— Talvez você esteja se subestimando. Seu corpo é bom e, nos três dias de viagem que nos restam, podemos treinar luta livre na areia ou sobre o tapete.
— Certo. Vamos treinar, porque não sabemos o que é que nos aguarda no futuro.
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